quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Seo Ferrara

Estavam perdidos no bairro procurando a rua em que seo Ferrara morava. Há muito Douglas não via o tio-avô. Uma prima pediu para que ele levasse o filho para que o velho o conhecesse, talvez o alegrasse um pouco. Provavelmente pegaram o ônibus errado, foi preciso meia hora de caminhada para que Douglas achasse a rua de sua infância. A casa era fácil de identificar, a única com uma bandeira na porta e um alarme piscando uma luzinha vermelha.

Tocou a campainha, o velho demorou a atender. Quando finalmente abriu a porta, um bafo quente com cheiro de morte invadiu as narinas de Douglas. Era o mesmo cheiro que sentia quando ia visitar a avó na casa de repouso. Seo Ferrara abriu um sorriso surpreso ao ver os dois. Deu um abraço rápido mas carinhoso no sobrinho, e um beijo na criança. Olhou para os sapatos de couro que Douglas usava, pretos, engraxados, brilhando, eram do mesmo tipo que ele sempre usou, até escorregar algumas vezes na rua e cair em uma delas. Desde então foi obrigado pelas filhas a usar tênis esportivos como se fosse um adolescente.

Mandou entrarem, preparou um café, ligou a tv e deixaram o moleque na frente dela assistindo desenhos. Sentaram-se na mesa relembrando os velhos tempos, de como Douglas era levado quando criança, de como apanhava do avô, irmão de seo Ferrara. Como a vez em que botou fogo no rabo do galo, que pulou o muro e saiu num semi-voo em chamas pela rua até ser atropelado por um táxi. E quando junto com os primos esvaziou uma garrafa de uísque na privada e substituiu por mate, só pra ver se o velho percebia a diferença. Seo Ferrara por sua vez contava causos de sua juventude, e como todos os personagens já estavam mortos e não podiam contradizê-lo, mudava a própria memória do jeito que mais lhe agradava. Contou como Henrieta, a avó de Douglas, era apaixonada por ele, mas que acabou se casando com seu irmão pois ele já era comprometido. A verdade era quase o inverso. Seo Ferrara comeu Henrieta num matagal depois de uma quermesse, se apaixonou por ela, mas a velha que na época era nova preferiu ficar com o irmão, muito mais galã e elegante. Além de ser médico-veterinário do exército, enquanto seo Ferrara era apenas um soldado. Foi uma decepção que nunca o abandonou totalmente.

Por algumas horas alugou o sobrinho-neto com suas histórias, o moleque quase esquecido sentado no chão na frente da tela. Até que Douglas olhou para fora e disse que estava anoitecendo, era melhor irem embora, sim, sim, esse bairro é um perigo agora, não vai pegar o ônibus muito tarde. Se despediram com outro abraço, outro beijo na criança. Antes de fechar a porta olhou para os tênis do moleque, depois comparou com os que usava. Eram praticamente iguais, só mudava o tamanho.

A esposa morrera há dois anos, e desde então não tinha mais o mesmo ânimo. Passava a maior parte dos dias naquela casa, o alarme sempre ligado. Saía pouco pois não tinha mais para onde ir. Perdeu a importância junto com os sapatos. As filhas raramente o visitavam, e deviam ter suas razões. Seja por estarem ocupadas ou por ele ter sido meio escroto algumas vezes enquanto cresciam.

Estava sem disposição para preparar qualquer comida, se sentia cansado, e foi se deitar mesmo com fome. A visita inesperada do sobrinho-neto trouxe muitas lembranças ao mesmo tempo, a maior parte delas distorcida por sua memória. Deitou-se, apagou a luz do abajur da mesinha de cabeceira, e com os olhos fechados entrou em um estado de sonho sem que estivesse dormindo. Viu as quatro mulheres que teve na vida. Henrieta estalando de nova, com o mesmo vestido florido que ia até o meio da canela da noite na quermesse. Sua esposa aparecia velha, perto dos últimos anos de vida, com o olhar doce e a pele amarelada. Tinha ainda a Odete, uma mulata alta de coxas grossas com quem ele teve um caso logo após se casar, e Marilza, sua amante por dez anos, moça pequena de cabelos vermelhos e pele muita branca, que o trocou pelo chefe da repartição pois queria casamento. Em seu sonho elas estavam felizes entre elas, sorrindo e se entreolhando com carinho. Se beijavam com amor, todas as quatro, faziam um círculo e se amavam sem pressa ou motivo para pararem. Seo Ferrara não estava no sonho, apenas assistia como a um filme, mas sentia como se estivesse junto delas, no meio do círculo, dividindo o mesmo amor, o mesmo prazer, a mesma alegria de forma plena. Desejou que aquele sonho nunca acabasse, e assim foi feito.