quinta-feira, 16 de julho de 2015

Boxe

Despertou sentindo como se numa realidade paralela um outro ele estivesse entrando em um pesadelo. Então é isso que aconteceria se tudo tivesse dado errado? Parecia a imaginação criando espontaneamente histórias absurdas para justificar o argumento, mas na verdade era apenas a memória voltando à ativa em potência alta depois do breve descanso.

Estava fantasiando outra vida, em que era menos fudido, em que ela gostava dele, em que tinha planos. Quando num estalo voltou à realidade e percebeu sua situação, sua vida, foi como um soco no estômago recebido do campeão perante um Maracanã lotado. A lona, a dor, o choque, a humilhação, a tristeza, o fim do sonho, perceber que não teria mais chances de disputar o cinturão. A vontade de pendurar as luvas e a nostalgia daquele período de treinos, de sonhos, onde as possibilidades eram infinitas e para seu ego nada era impossível. Não foi o primeiro soco no estômago, foram centenas ao longo dos anos, mas para quem não tem mais o que ganhar fica difícil se pôr novamente de pé.

Mas, e para quem não tem o que perder? Como fica?

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Sonhei Com Você, Foi Estranho

Sonhei com você. Foi estranho. Eu aparecia com minha idade atual mas você aparecia criança, ou adolescente. Estávamos andando rápido, fugindo de alguma coisa, conversando com nervosismo, o assunto provavelmente relacionado com o que fugíamos. A atmosfera, as ruas, os prédios, as roupas das pessoas, era tudo cinza, marrom, sóbrio demais, tipo aquele filme do 1984 ou coisa parecida. Estávamos em cima de um viaduto, você foi se debruçar na lateral para ver alguma coisa que acontecia na rua, mas foi rápido demais e caiu. Uma queda de uns 15 metros, mais ou menos. Eu corri apavorado, a ainda pude te ver batendo nos galhos de uma árvore antes de se estatelar de cara com o chão. Não sei como, mas desci para onde você estava quase que instantaneamente. Você ainda estava de bruços no chão, e tinha um buraco nas costas. Sem sangue, sem sujeira, sem outros machucados, apenas um grande pedaço de pele faltado na região da sua lombar, e eu podia ver seus rins, sua coluna, alguns músculos. Talvez o certo seria você estar com outros órgãos à mostra, mas eu só via isso.

- O que foi? Me machuquei muito? - Você perguntou com a voz chorosa ao ver meu semblante assustado.
- Não, não foi nada, só não olha pra trás, não olha pra trás.
- Por que não?
- Só não olha pra trás, por favor, não olha pra trás.

Eu segurava seu rosto enquanto você forçava para olhar para as costas, e repetia não olha pra trás, até que você entendeu que seria melhor assim e parou de tentar.
O sonho acabou por aí, mas acordei com o final da história. Te levei para um hospital, não te deixei olhar para trás e se desesperar com a exposição das suas entranhas. Porque salvando você criança talvez você ficasse grata e me recompensasse de alguma forma agora adulta.

Foda-se, que sonho de merda.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Seo Ferrara

Estavam perdidos no bairro procurando a rua em que seo Ferrara morava. Há muito Douglas não via o tio-avô. Uma prima pediu para que ele levasse o filho para que o velho o conhecesse, talvez o alegrasse um pouco. Provavelmente pegaram o ônibus errado, foi preciso meia hora de caminhada para que Douglas achasse a rua de sua infância. A casa era fácil de identificar, a única com uma bandeira na porta e um alarme piscando uma luzinha vermelha.

Tocou a campainha, o velho demorou a atender. Quando finalmente abriu a porta, um bafo quente com cheiro de morte invadiu as narinas de Douglas. Era o mesmo cheiro que sentia quando ia visitar a avó na casa de repouso. Seo Ferrara abriu um sorriso surpreso ao ver os dois. Deu um abraço rápido mas carinhoso no sobrinho, e um beijo na criança. Olhou para os sapatos de couro que Douglas usava, pretos, engraxados, brilhando, eram do mesmo tipo que ele sempre usou, até escorregar algumas vezes na rua e cair em uma delas. Desde então foi obrigado pelas filhas a usar tênis esportivos como se fosse um adolescente.

Mandou entrarem, preparou um café, ligou a tv e deixaram o moleque na frente dela assistindo desenhos. Sentaram-se na mesa relembrando os velhos tempos, de como Douglas era levado quando criança, de como apanhava do avô, irmão de seo Ferrara. Como a vez em que botou fogo no rabo do galo, que pulou o muro e saiu num semi-voo em chamas pela rua até ser atropelado por um táxi. E quando junto com os primos esvaziou uma garrafa de uísque na privada e substituiu por mate, só pra ver se o velho percebia a diferença. Seo Ferrara por sua vez contava causos de sua juventude, e como todos os personagens já estavam mortos e não podiam contradizê-lo, mudava a própria memória do jeito que mais lhe agradava. Contou como Henrieta, a avó de Douglas, era apaixonada por ele, mas que acabou se casando com seu irmão pois ele já era comprometido. A verdade era quase o inverso. Seo Ferrara comeu Henrieta num matagal depois de uma quermesse, se apaixonou por ela, mas a velha que na época era nova preferiu ficar com o irmão, muito mais galã e elegante. Além de ser médico-veterinário do exército, enquanto seo Ferrara era apenas um soldado. Foi uma decepção que nunca o abandonou totalmente.

Por algumas horas alugou o sobrinho-neto com suas histórias, o moleque quase esquecido sentado no chão na frente da tela. Até que Douglas olhou para fora e disse que estava anoitecendo, era melhor irem embora, sim, sim, esse bairro é um perigo agora, não vai pegar o ônibus muito tarde. Se despediram com outro abraço, outro beijo na criança. Antes de fechar a porta olhou para os tênis do moleque, depois comparou com os que usava. Eram praticamente iguais, só mudava o tamanho.

A esposa morrera há dois anos, e desde então não tinha mais o mesmo ânimo. Passava a maior parte dos dias naquela casa, o alarme sempre ligado. Saía pouco pois não tinha mais para onde ir. Perdeu a importância junto com os sapatos. As filhas raramente o visitavam, e deviam ter suas razões. Seja por estarem ocupadas ou por ele ter sido meio escroto algumas vezes enquanto cresciam.

Estava sem disposição para preparar qualquer comida, se sentia cansado, e foi se deitar mesmo com fome. A visita inesperada do sobrinho-neto trouxe muitas lembranças ao mesmo tempo, a maior parte delas distorcida por sua memória. Deitou-se, apagou a luz do abajur da mesinha de cabeceira, e com os olhos fechados entrou em um estado de sonho sem que estivesse dormindo. Viu as quatro mulheres que teve na vida. Henrieta estalando de nova, com o mesmo vestido florido que ia até o meio da canela da noite na quermesse. Sua esposa aparecia velha, perto dos últimos anos de vida, com o olhar doce e a pele amarelada. Tinha ainda a Odete, uma mulata alta de coxas grossas com quem ele teve um caso logo após se casar, e Marilza, sua amante por dez anos, moça pequena de cabelos vermelhos e pele muita branca, que o trocou pelo chefe da repartição pois queria casamento. Em seu sonho elas estavam felizes entre elas, sorrindo e se entreolhando com carinho. Se beijavam com amor, todas as quatro, faziam um círculo e se amavam sem pressa ou motivo para pararem. Seo Ferrara não estava no sonho, apenas assistia como a um filme, mas sentia como se estivesse junto delas, no meio do círculo, dividindo o mesmo amor, o mesmo prazer, a mesma alegria de forma plena. Desejou que aquele sonho nunca acabasse, e assim foi feito.