domingo, 2 de março de 2014

Aflito

Desde que podia se lembrar, passou a vida com um incômodo constante. Uma aflição permanente que não sabia de onde vinha e nem conseguia explicar. Tudo o que tentava para ter algum alívio só funcionava como paliativo, e na maior parte das vezes o desconforto voltava ainda com mais força após esses breves períodos de descanso. Não raramente alguns desses dias beiravam o insuportável. Faltava ao trabalho, cancelava compromissos, não conseguia se concentrar. Até que certo dia, sentado no metrô, sentiu o dedo mindinho do pé direito apertado dentro do sapato. Sem pensar muito, tirou o sapato e a meia. Mexia o dedinho, e ele subia em cima do outro dedo, descia quando os outros dedos levantavam, parecia perdido, sem direção. Foi então que ele percebeu que o dedinho do pé direito era o que o incomodou durante toda a vida. Saltou do metrô, deixando o sapato direito no vagão, e entrou em uma loja de facas e canivetes no centro da cidade. Olhou rapidamente a vitrine, pediu uma parecida com a que o Rambo usava, e ali mesmo no balcão apoiou o pé e decepou o dedinho. Foi levado para o hospital, chamado de louco, os parentes choravam, e ele pedia sorrindo para que parassem, pois nunca se sentira tão bem. Foi internado em um hospício, mas recebeu alta em pouco tempo, os médicos não conseguiam achar nada de errado no homem. A partir daí passou a viver a vida como qualquer um que se considera feliz. Apesar da dor que foi arrancar um dedo a sangue frio, apesar de ter sido obrigado a se desfazer de uma parte sua, apesar de nunca mais ter conseguido andar da mesma maneira, estava livre, e, enfim, aliviado.

3 comentários:

Raphaela Bayma disse...

Cara,seus textos são demais!! Virei fã,não pare de escrever nunca porque você é muito bom nisso!

Anônimo disse...

Caralho! Fazia muito tempo que não entrava nesse blog e o fiz novamente como havia feito anteriormente, procurando um alívio para um refluxo idiota que relembrei que tenho. De qualquer forma, caralho!, que texto foda :)

alexandre guardiola disse...

Muito bom.