domingo, 2 de março de 2014

Aflito

Desde que podia se lembrar, passou a vida com um incômodo constante. Uma aflição permanente que não sabia de onde vinha e nem conseguia explicar. Tudo o que tentava para ter algum alívio só funcionava como paliativo, e na maior parte das vezes o desconforto voltava ainda com mais força após esses breves períodos de descanso. Não raramente alguns desses dias beiravam o insuportável. Faltava ao trabalho, cancelava compromissos, não conseguia se concentrar. Até que certo dia, sentado no metrô, sentiu o dedo mindinho do pé direito apertado dentro do sapato. Sem pensar muito, tirou o sapato e a meia. Mexia o dedinho, e ele subia em cima do outro dedo, descia quando os outros dedos levantavam, parecia perdido, sem direção. Foi então que ele percebeu que o dedinho do pé direito era o que o incomodou durante toda a vida. Saltou do metrô, deixando o sapato direito no vagão, e entrou em uma loja de facas e canivetes no centro da cidade. Olhou rapidamente a vitrine, pediu uma parecida com a que o Rambo usava, e ali mesmo no balcão apoiou o pé e decepou o dedinho. Foi levado para o hospital, chamado de louco, os parentes choravam, e ele pedia sorrindo para que parassem, pois nunca se sentira tão bem. Foi internado em um hospício, mas recebeu alta em pouco tempo, os médicos não conseguiam achar nada de errado no homem. A partir daí passou a viver a vida como qualquer um que se considera feliz. Apesar da dor que foi arrancar um dedo a sangue frio, apesar de ter sido obrigado a se desfazer de uma parte sua, apesar de nunca mais ter conseguido andar da mesma maneira, estava livre, e, enfim, aliviado.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Antena de Celular

Ontem por cima da antena passava um arco-íris. Um arco-íris completo, cruzando o céu por inteiro. Hoje o sol nasceu do inferno, o calor parece castigo, a ansiedade voltou, assim como as incertezas. Agora apenas o que a antena tem são dois urubus a sobrevoando, um atacando o outro a bicadas, brigando para ver qual cai primeiro. Parece que a constante é mesmo a tristeza, a felicidade e a euforia são picos esporádicos de um gráfico linear. Ondas aleatórias em um mar de águas calmas. Tentar se agarrar à essas ondas é loucura, elas não podem durar. Melhor mesmo é aproveitá-las, a subida, o pico, a descida. Até porque o mais provável é que depois delas volte a calmaria. Outras ondas virão. Pode demorar, é verdade. Então que se aproveite ao máximo as ondas. E a calmaria também. Tentando se manter na superficie. Afundar não, nunca mais, deve existir algum limite de afogamentos que o cérebro pode aguentar. Boiar, de qualquer forma possível, com boias de braço do Bob Esponja se preciso. E se os pés estiverem amarrados a âncoras, me agarro em cordas, garrafas pet, me debato como criança, foda-se o papel de ridículo, o importante é manter a cabeça sobre a superfície. Do fundo as ondas passam ser tomar conhecimento da sua existência, e nada pior que vê-las passando sem sentí-las, sabendo que poderia estar por cima delas. Então boiar, boiar nas águas tranquilas, e criar formas de viver nelas. Se entreter com o lixo que vier flutuando em volta, criar coisas do nada, aproveitar tudo que inevitavelmente vai acabar. Buscar conforto no que seja, pílulas, páginas, telas, sons, garrafas, uma voz feminina, observando os outros à deriva, interagindo com os outros à deriva, ignorando os que passam em iates. Mas quando for para escolher entre conforto e liberdade escolher sempre a liberdade, o conforto oprime. Nunca fugir de qualquer onda, não importa o quão grande seja. Mas se eu sei que as ondas virão, se eu consigo vê-las no horizonte, por que eu me preocupo? Por que caralho minha cabeça não relaxa e me deixa boiar?