segunda-feira, 29 de abril de 2013

Casarão Bege de Esquina


- Êta fandango bão/Bate com pé e bate com a mão!


Era uma grande cena para o grupo de crianças que parou para assistí-la a caminho da escola: uma mulher gorda de meia idade cantando e dançando de camisola, do lado de dentro do portão de um casarão, como se ninguém pudesse vê-la através das grades. Não exatamente cantava, mas gritava os versos, descompassadamente, com as mãos para trás e o pé direito batendo forte no chão. Ia repetindo os mesmos versos, girando em torno de uma fogueira imaginária. As crianças não conseguiam parar de rir, mal acreditando no que estavam vendo. Que sorte presenciar um show desses antes de mais um dia maçante de aulas com professores estressados. Já deveriam ser mais de cinquenta em frente à casa,  não cabiam na calçada e invadiam a rua, carros passavam buzinando, tentando não atropelar nenhuma delas. No andar de cima Graça ouviu a gritaria, de Lúcia e das crianças. Abriu os olhos para o relógio, sete e quinze da manhã. Fingiu não ter acordado e se virou para continuar dormindo. Da mesma forma repentina que começou a apresentação, Lúcia parou, como se nada tivesse feito, e entrou no casarão, aos gritos de “mais um/mais um” das crianças. Fechou a porta, e começou a andar em círculos em volta da mesa de centro da sala. Começou tranquilamente, mas aos poucos foi ficando mais impaciente, batendo os pés com cada vez mais força. Como Graça não acordava, efeito do Rivotril que tomara antes de dormir, Lúcia começou a gritar:


- Tô com fome! Preciso de comida! Preciso de comida! Tô com fome!

Graça não teve outra alternativa a não ser levantar. Tentando se manter calma e sob controle, foi sem pressa ao banheiro, mijou, tomou banho, escovou os dentes, se penteou evitando se olhar no espelho. Lúcia se irritava cada vez mais com a demora:

- Vagabunda! Minha comida! Você quer me matar! Vou morrer de fome! Vai me matar! Vagabunda!

Graça saiu do banheiro, desceu calmamente as escadas e foi em direção à cozinha. As duas não se olharam, Lúcia apenas parou e seguiu Graça até a cozinha. Sentou-se em sua cadeira cativa na mesinha da cozinha, esperou Graça terminar de preparar o café - ovos, torrada, café com leite - e comeu tudo vagarosamente, antes de tomar os três comprimidos que Graça deixou sobre a mesinha ao lado de um copo d’água. Graça se deixou cair no sofá e ligou a tv, com uma xícara de café na mão. A tv a cabo estava fora do ar. Sentiu vontade de chorar e soltou um “Puta que o pariu”, não muito alto, mas o suficiente para que os ouvidos sensíveis de Lúcia ouvissem.

- Puta que o pariu! Puta que o pariu! Vagabunda! Vagabunda! Você não faz nada! Vagabunda!

Gritava de pé, bem em frente à cadeira aonde estava sentada, mas sem olhar para Graça ou qualquer outro ponto fixo. Apenas gritava. Graça levou as mãos ao rosto, e assim ficou por um momento enquanto Lúcia repetia as ofensas, até conseguir energias para se levantar. Quando chegou à cozinha Lúcia parou de gritar. Graça passou por ela e Lúcia a seguiu calmamente, sem gritos. Abriu a porta para os fundos da casa, passaram pelo jardim, que tinha poucas plantas, outrora era bastante florido, agora nenhuma mais nascia. Ficava num pátio espaçoso, com cadeiras, mesas, e uma churrasqueira, que nunca eram usados. Subiram um lance de escadas, passaram por duas portas trancadas de quartos não usados, e chegaram ao de Lúcia. Graça abriu a porta e a ficou segurando enquanto Lúcia entrava. Lúcia entrou e sentou-se na cama. Graça pegou o microsystem, ligou o rádio e colocou no criado-mudo ao lado de Lúcia. Ela ouvia a música sertaneja que tocava balançando-se levemente, para a frente e para trás. Era assim que passava a maior parte de seus dias, ouvindo rádio. Conhecia todas as estações, todas as músicas das paradas, todos os locutores. Não se importava com o calendário, e provavelmente não saberia dizer em que ano estava, se guiava no tempo pelos sucessos que mudavam com as semanas, os meses, os anos.

Graça voltou para a sala, sem energias. Pegou o telefone e ligou para a empresa de tv a cabo. Sentada no sofá com a tv desligada via seu reflexo na tela escura. Magra, cansada, ouvindo imitação de música clássica na espera do atendimento, e Fabio Júnior vindo do quarto de Lúcia. Por isso não gostava de se olhar no espelho. No telefone prometeram que técnicos viriam dentro de algumas horas. Sem ter o que fazer, subiu para dormir mais um pouco até chegar a hora de preparar o almoço.

Eram duas e meia da tarde quando acordou assustada, com Lúcia gritando ao lado da cama.

- Vagabunda! Minha comida! Cadê minha comida! Vagabunda! Não faz minha comida! Eu quero minha comida! Vagabunda!

Levantou-se num pulo, era para ter começado a cozinhar antes do meio-dia. Desceu correndo, com Lúcia repetindo os gritos atrás dela. Colocou uma panela com água para ferver. Tinha miojo sabor bacon, Lúcia gostava de miojo sabor bacon. Se virou, e Lúcia parou de gritar subitamente quando Graça calmamente a pegou pelo braço, e a sentou em sua cadeira na mesinha da cozinha. Antes da água ter tempo de ferver a campainha tocou, eram os técnicos da tv a cabo. Graça pegou Lúcia e a trancou no pátio, do lado de fora da cozinha. Deu uma rápida ajeitada na roupa e nos cabelos, e foi abrir a porta. Lúcia já estava na grade que separava o pátio da entrada da casa, originalmente feita para dois pastores alemães, já mortos. Graça abriu a porta, e antes que pudesse dar boa tarde Lúcia recomeçou a gritaria.

- Vagabunda! Dois homens na minha casa! Vagabunda! Sai da minha casa os dois! Sai da minha casa! Vagabunda!

Parecia mais agressiva pela fome. Muito envergonhada, Graça apontou a sala com a televisão para os homens, que entraram como se não tivessem notado a presença de Lúcia. Um homem começou a mexer nos cabos e no aparelho da tv, enquanto o outro voltou para mexer em cabos na rua. Graça pediu licença e jogou dois pacotes de miojo na panela, torcendo para que eles ficassem prontos em menos de três minutos. Tudo ao som de uma rádio mal sintonizada que vinha do quarto de Lúcia, e de seus gritos, que só cessaram quando Graça a foi buscar no quintal, e a sentou na cadeira da cozinha. Já sentindo o cheiro do macarrão instantâneo, Lúcia se acalmou, e quando teve o prato com aquela quase sopa artificial de bacon à sua frente, comeu sem pressa, como se não tivesse fome, come se fosse uma dama. Graça ficou na cozinha, sem fome, olhando Lúcia comer, sem coragem de ir para a sala encarar os homens trabalhando. Até que um dos homens disse da sala que já haviam terminado. Graça pediu da cozinha um minuto, e para Lúcia que terminasse de comer logo. Mas ela não mudou o ritmo com sua sopa de bacon e miojo mal cozido, e levou mais dois minutos até terminar. Graça entregou-lhe rápido os três comprimidos e o copo d’água, gritou novamente um minuto para os técnicos, para depois conduzir Lúcia para seu quarto com o rádio ainda ligado. Fez isso porque não queria que ela se misturasse com os técnicos. Voltou correndo para a sala, apenas um dos homens ainda estava na sala, ela pôs-se ao seu lado, com a respiração ofegante, enquanto com o controle remoto ele mostrava para ela como agora todos os canais funcionavam. Ela agradeceu, o acompanhou até a porta, e sem saber o que fazer, tirou cinco reais do bolso e deu para o homem, e disse com um sorriso para eles “tomarem um guaraná”. Ele não retribuiu o sorriso, apenas agradeceu, fez um cumprimento com a cabeça, e entrou no carro da empresa de tv a cabo. Ela ficou no portão, olhando o carro ir embora, ouvindo Raça Negra do rádio de Lúcia, se perguntando se tinha se portado de um jeito muito estranho, e por que os homens mal olharam para ela.

Caiu no sofá e ligou a tv, agora sim funcionando. Estava em jejum, mas ainda sem fome. Trocando nervosamente os canais, deu a volta por todos eles até cair nos de tv aberta. Na Sônia Abrão falavam de um assassinato qualquer, e ali ela ficou. Estavam discutindo que medidas precisavam ser tomadas para se proteger as pessoas de bem de crianças assassinas. Matar todas parecia a solução final dos debatedores, mesmo que não dissessem isso. Graça mal prestava atenção, mas ver pessoas conversando em sua sala ajudava a acalmar sua cabeça. Da mesma forma que Lúcia se guiava no tempo pelas músicas das rádios, ela sabia as horas pelo que passava na tv. E se obrigava a ver o que fosse que estivesse passando, por não saber o que mais fazer, esperando a hora de sua prózima obrigação com Lúcia chegar. Estava acabando o casos de família no SBT quando ouviu Lúcia berrando por socorro. Levantou-se assustada, subiu correndo as escadas, e encontrou Lúcia sentada normalmente na beira da cama, olhando para frente, sem gritar mais, ouvindo seu rádio como sempre.

- O que foi Lúcia? O que aconteceu?
- Me ajuda, sua puta! Vagabunda! Não faz nada! Sua puta! Piranha!

Só quando sentiu o cheiro que Graça percebeu. Pegou Lúcia pelo braço e a levou até o banheiro. Encheu a banheira, tirou suas roupas, e a deixou lá boiando em sua própria merda. Catou as roupas, tirou os lençóis da cama, até o colchão estava sujo, levou tudo para o tanque e começou a lavar. Lúcia não costumava cagar nas calças, e Graça pensou que ela fizera aquilo para irritá-la. Enquanto lavava a roupa ouviu Lúcia cantando. Inicialmente achou que vinha do banheiro, mas quando foi estender as roupas no varal percebeu que vinha do portão.

- Êta fandango bão/Bate com pé e bate com a mão!

Lúcia estava nua, encharcada, cantando e dançando em frente ao portão, as mão para trás e o pé direito batendo no chão. Algumas pessoas passavam pela rua aterrorizadas, atravessando a rua para fugir da cena grotesca, outras riam, e até paravam para ver o espetáculo melhor. Graça veio desesperada, agarrou Lúcia, que parou de cantar, agindo com muita naturalidade. Graça a levou de volta para o banheiro e nem terminou de lavá-la, do jeito que estava colocou roupas limpas e a levou para o quarto.

- Cadê meu colchão?
- Você cagou nele, preciso limpar antes de colocar na cama.
- Meu colchão! Devolve meu colchão! Vagabunda! Meu colchão! Vagabunda!

Irritada, Graça correu para o pátio, agarrou o colchão sujo e levou para o quanto de Lúcia. Jogou sobre a cama e não forrou com qualquer lençol, deixou que Lúcia ficasse ouvindo seu rádio sentada no colchão manchado. Desceu e terminou de lavar e pendurar as peças de roupa. Sem energias, decidiu preparar o jantar, se parasse para descansar provavelmente não levantaria mais. Catou os legumes que tinha na geladeira para preparar uma sopa, enquanto ia ouvindo o que tocava no rádio de Lúcia. Daniel, Leonardo, música pop americana, Roberto Carlos, locutores felizes demais para ser verdade, e uma inesperada participação ao vivo do Axé Blond.

Terminou de cozinhar, gritou “janta!” da cozinha, e pôs a mesa enquanto Lúcia calmamente descia as escadas. Encheu o prato de Lúcia, deixou três comprimidos ao lado do copo d’água e sentou-se para tomar um pouco da sopa. Esqueceu do sal, estava sem gosto. Lúcia parecia não se importar e comia com a mesma vontade que comia qualquer prato de comida. Graça tomou cinco colheradas e já perdeu o apetite, aparentemente Lúcia não havia se lavado o suficiente e o cheiro era mais forte que o da sopa. Terminada a janta e engolidos os comprimidos, as duas foram para a sala ver tv. A única coisa na tv que Lúcia assistia era a novela das oito, há anos não perdia um capítulo que fosse. Enquanto Graça assistia ao Jornal Nacional, sentindo medo de pessoas entre 16 e 18 anos - pelas reportagens essa faixa etária era a mais perigosa - Lúcia lia com dificuldade o resumo das novelas na revista da tv, sentada no chão, balançando o corpo para frente e para trás.

- Rosinha morre hoje, tá escrito. Rosinha morre hoje.

Começou a novela, e Lúcia imediatamente parou e vidrou os olhos na tv, atenta a todos os movimentos, todas as falas dos personagens. Graça pensava em como o Rio da tv era diferente do em que ela morava. Tentava se lembrar se alguma vez já tinha ido ao Leblon, com certeza conhecia Ipanema, mas o Leblon... Passavam-se as cenas, músicas, bordões, piadas, e Rosinha continuava bem viva. Ultima cena do capítulo, um beijo de dois personagens quaisquer, e começam a subir os créditos.

- A Rosinha não morreu? A Rosinha não morreu? A Rosinha morre hoje! Tá escrito na revista!
- Talvez amanhã, Lúcia. Fica calma.
- Ela tem que morrer hoje! Tá escrito! Tá escrito na revista! Ela tem que morrer hoje!

Lúcia estava de pé, esbravejando, sacudindo a revista com a mão direita. Graça se levantou, e segurou o braço de Lúcia com cuidado, tentando acalmá-la. Lúcia soltou o braço de Graça, e sua sua raiva se desviou da tv para ela.

- Vagabunda! Vagabunda! A Rosinha tem que morrer hoje! Piranha!

Graça estava perdendo a paciência, e agora agarrou o braço de Lúcia com força, mas um movimento brusco de Lúcia foi o suficiente para que Graça caísse no chão.

- Tá escrito na revista!

Como uma lutadora de MMA, Graça se levantou num pulo, e se atirou com todas forças contra o corpo de lúcia, de cabeça baixa, abraçando sua barriga.

- Piranha! Ela tem que morrer hoje!

Aos poucos, fazendo muito esforço, com Lúcia berrando o tempo todo, foi a empurrando para seu quarto, subindo as escadas com dificuldades, um desequilíbrio com o peso de Lúcia poderia ser fatal para as duas. Finalmente chegaram na porta do quarto, Graça jogou Lúcia para dentro.

- Piranha! Piranha! Ela tem que morrer hoje!
- Pára de gritar, já é tarde, pára de gritar.
- Tá na revista! Vagabunda! Piranha!

Sem energia ou paciência, Graça pôs o volume do microsystem no máximo, e trancou Lúcia lá dentro. Mesmo com o som alto ela continuava berrando, sempre as mesma coisas, xingando Graça e inconformada pela revista estar errada quanto à morte de Rosinha. Atordoada, Graça foi para a cozinha, tomou o dobro de Rivotril a que estava acostumada, e foi direto para cama, ouvindo ao longe o rádio estourado tocando sertanejo universitário e Lúcia esperneando.

A campainha tocava incessantemente. Graça abriu os olhos, eram três e meia da manhã. Levantou tonta pelo calmante, meio anestesiada. A música e os gritos de Lúcia haviam parado. A campainha seguia nervosa, um homem gritava “abre, abre aqui” do portão. Graça desceu com medo. A casa estava esfumaçada. Abriu a porta, um pequeno grupo no portão gritava com ela, algo sobre fogo. Ela abriu o portão, e o grupo adentrou correndo o pátio, um deles carregava um extintor de incêndio. Subiram correndo as escadas, e parada no pátio Graça via o fogo na janela do quarto de Lúcia, uma densa fumaça negra saindo pelos vãos da porta. Os homens chutaram a porta com força até arrombá-la, todos cobrindo os rostos com as camisas, o que tinha o extintor imediatamente o esvaziou no quarto inteiro, enquanto os outros seguravam os braços de Lúcia e a arrastavam pelo chão para fora do quarto. De onde Graça estava não podia vê-la, mas via que um pouco de fumaça saía de onde ela estava, e os homens se lamentavam, viravam o rosto, se apoiando desolados na grade de varanda. Graça vagarosamente subiu as escadas. No terceiro degrau viu a mão de Lúcia, a pele na cor da fumaça. No quarto viu o cabelo e o couro cabeludo queimados. No quinto pôde ver o corpo inteiro, e desmaiou, rolando dramaticamente as escadas. Os homens foram ajudar preocupados com uma segunda tragédia, mas por sorte só teve alguns pequenos hematomas.

O dia seguinte foi cheio. Preparações para o velório e o enterro, em que menos de meia dúzia apareceram, e explicações para a polícia sobre o que aconteceu. Os bombeiros disseram que o que começou o incêndio foi um curto no microsystem. Graça não soube explicar porque a porta do quarto estava trancada, apenas chorava muito. Dizia como Lúcia era a única coisa que tinha na vida, que não sabia o que fazer dali para a frente. O delegado a liberou, prometendo interrogá-la novamente outro dia, quando ela se encontrasse mais calma. Voltou para casa de carona numa viatura. Abriu o portão com as mãos trêmulas, se perguntando para que e para quem viveria agora naquele casarão. Do pátio viu as marcas negras de fumaça ao redor da janela e da porta do quarto, e chorou. Subiu as escadas, entrou no quarto, que tinha um odor constrangedoramente familiar, e viu o microsystem torrado, a cama e o colchão quase em cinzas, e uma marca negra no formato gordo de Lúcia no chão. Deitou-se em choque dentro da marca, para acordar apenas no dia seguinte.

Levantou-se, foi para seu quarto, mijou, tomou um banho, escovou os dentes, e não sabia o que fazer em seguida. Era um domingo, decidiu sair de casa. Evitou encontrar algum vizinho, andou dois quarteirões e parou num bar/padaria. Pediu um café com leite e um pão na chapa. Percebeu perto dela um homem sentado sozinho com um cavaquinho e uma garrafa de cerveja sobre a mesa. Começou a tomar seu café enquanto outros chegavam com outros instrumentos. Quando terminou eles já eram mais de dez, já ensaiando alguns acordes, algumas batidas, ainda sóbrios demais para cantar qualquer coisa. Sentada no balcão decidiu pedir uma cerveja também, há anos não bebia. Aos poucos os homens se animavam, a música ficava mais alta, suas vozes também. Graça se divertia sozinha, ouvindo as conversas e os berros sobre futebol, mulher, causos constrangedores sobre pessoas da mesa que faziam todos rirem. Quando ela estava na quarta garrafa ouviu os homens discutindo sobre onde seria o churrasco, que não daria tempo de ver o jogo, que as carnes já estavam compradas. Sem pensar muito ela foi até a mesa.

- Vocês querem fazer lá em casa? O churrasco?

Um momento de silêncio constrangedor se passou.

- Como assim? Na sua casa? Você quer nosso churrasco na sua casa?
- É, tem uma churrasqueira lá, há muito tempo que ninguém usa, mas tem, e tem televisão também, dá pra ver o jogo.
- Bom, não sei... É aqui perto?
- É, é perto, pertinho.
- É, acho que... Vamo? Bora?

Bora, partiu, partiu, e foram todos os homens, com engradados de cerveja, instrumentos de pagode, caixas de isopor cheias de carne, seguindo Graça pela rua, a única mulher do grupo. Chegaram na casa, alguém apontou para cima e perguntou o que tinha acontecido, Graça respondeu que o quarto estava em reforma. Colou as garrafas no freezer, foi ajudada a tirar as mesas da sala e cozinha e passá-las para o pátio, assim como as cadeiras. Pegou a tv da sala e passou para o lado da churrasqueira, que já estava acesa. Sentou na mesa e foi bebendo muito mais rápido que os outros. Primeiro veio o coração de galinha, depois a linguiça, a picanha. Comemorou os gols do jogo mesmo sem saber quem estava jogando, se abraçava aos homens a cada celebração, teve sua bunda agarrada várias vezes. Depois do jogo se intensificou o pagode, e Graça sambou pela primeira vez na vida, e os homens se divertiam a vendo dançar, perguntando entre eles de onde tinha saído aquela mulher. Sambou por horas, até se cansar e sentar no colo do tocador de cavaquinho, para risada e zoação geral da mesa. Finalmente ficou pronto o prato principal, que chegou com aplausos de todos: um leitão inteiro, por horas torrando na churrasqueira. Serviram um pedaço para Graça. A carne estava seca e a pele queimada, ficou tempo demais no fogo, mas não estava ruim.


Um comentário:

Andrade disse...

Sempre entro em busca de atualizações, adoro seus posts!