quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Abstinência

Rolando na cama sem lençóis, sobre um colchão de idade desconhecida e um travesseiro sem fronha, tentava dormir há mais de 3 horas. Há uma semana não dormia bem. Não bastassem os tremores, a ansiedade, o nervosismo, a boca seca, agora passava os dias exausto, com fortes olheiras, apesar de menos inchado. Quando dormia tinha sonhos horríveis, e muito realistas. Neles via amigos há muito esquecidos, parentes mortos, ou que há muitos anos não via, e se via trabalhando em empregos de 20, 30 anos atrás. Mas os reencontros e as experiências nunca eram agradáveis, especialmente quando ele acordava e lembrava o que havia acabado de sonhar. Então sentia arrependimento, remorso, tudo o que ele jogou fora na vida estavam naqueles sonhos, o que ele poderia ser e onde poderia estar não fosse a vida que levou. Nessas horas era impossível voltar a dormir, e aquelas poucas horas de sono e suas consequências era o que ele carregava para o resto do dia. Saía para procurar emprego e as pessoas o olhavam com estranheza. Sentava atrás de uma mesa para uma entrevista mas não podia controlar o próprio rosto, tinha espasmos que o faziam parecer culpado, e mesmo que não estivesse se sentindo nervoso, era como se estivesse sendo interrogado por assassinato. Era rapidamente dispensado pelo entrevistador, pelos lojistas, pelos gerentes de sapatarias, donos de restaurante, que prometiam ligar se surgisse uma vaga, e ficavam com seu bom currículo, que há essa altura já não parecia valer mais nada. No estado em que estava, até um moleque com segundo grau incompleto teria mais chances. Entrou num ônibus para voltar para casa, enfiou a mão no bolso e não achou o dinheiro. Estava furado, as moedas contadas perdidas. Perguntou pro motorista se não dava pra quebrar o galho, ele ficaria em pé antes da roleta, mas o motorista educadamente o enxotou no próximo ponto. O jeito era voltar a pé, mais de uma hora de caminhada, as pernas nunca pareceram tão pesadas, apesar de ter emagrecido. O problema de andar é que te obriga a pensar, e ele não queria pensar. Mas pensou, no presente, no que seria do futuro, se aquele esforço valeria a pena, já que não parecia levar a lugar algum. Sentia os olhos nas ruas, pois andava de forma estranha, irregular, tinha as mãos trêmulas, suava e não estava calor, o rosto com leves contrações involuntárias. O calmante que o médico receitou de nada adiantava, além de continuar ansioso e com vontade de beber, só o deixava ainda mais cansado e desmotivado, sem conseguir dormir. Parou de tomar no segundo dia. Na esquina da rua onde morava estava o boteco habitual. Há um mês não entrava ali. Olhou para dentro e viu os rostos familiares.

- Ih, alá, o Fernando! Senta aí, porra, pra falar do seu vasquinho!
- Deixa o cara, ele parou de beber...
- Parei porra nenhuma! Cadê o Manel? Aí, Manel, uma cana aqui pra mim!

E voltou às discussões sobre futebol de sempre, e às opiniões políticas bêbadas de sempre, e à euforia seguida de melancolia depois de muitas doses como sempre. Mas pelo menos momentaneamente a dor parecia ter ido embora. O bar fechou e ele pediu para pendurar a conta, prometeu que pagaria tudo o que devia no próximo mês. Chegou em casa cambaleante e mal conseguia abrir a porta, sentir aquela velha tontura novamente o deixou satisfeito. Procurou um isqueiro verde que havia deixado em cima da mesa e não encontrou, até que se lembrou que havia ganho aquele isqueiro em um sonho recente, de um tio já morto. Acendeu o cigarro no fogão, e se deitou para dormir. E finalmente conseguiu dormir, o sono profundo que o seu cansaço tanto pedia. Acordou com o sol nascendo, com uma fumaça densa pela casa, e o grito dos vizinhos do lado de fora. O fogo já havia tomado conta de tudo, se levantou, foi correndo para a porta e queimou os dedos virando a maçaneta. Tinha outras partes do corpo com algumas queimaduras também, mas leves. Saiu tossindo, os vizinhos o ajudando a caminhar, os bombeiros já haviam sido chamados. Sentou no meio da rua, olhando o fogo consumindo tudo o que tinha. Todos seus documentos, as fotos de infância, da juventude, de tempos melhores, as cartas, todas as lembranças destruídas. Começou a rir. Os vizinhos falavam com ele, e o sacudiam, mas ele não ouvia nem percebia a presença deles, apenas ria. Chegaram os bombeiros, para começar a controlar o fogo, mas já estava tudo perdido. Um policial apareceu e colocou a mão em seu ombro, perguntando alguma coisa, mas ele se desvencilhou, levantou, e, ainda rindo, começou a correr, apenas com a roupa que vestia no dia anterior no corpo e um isqueiro verde na mão. Nunca mais foi visto na cidade.