domingo, 3 de junho de 2012

O Ceguinho - Episódio 4

- A situação no Brasil tá melhor que na Europa! - disse Sérgio, acelerando o passo enquanto passava por um grupo de moleques cheirando cola. Olhou para trás depois de alguns metros para ter certeza que eles não o estavam perseguindo, e voltou à velocidade normal.
- Você vê, tá todo mundo querendo vir pra cá!
- É? Não sei, acho que não é bem assim...
- É claro que é! A situação se inverteu, nós ficamos ricos e eles pobres. Até a violência tá diminuindo.
- Mas ainda tá bem alta...
- Mas tá diminuindo!

Chegaram ao prédio do escritório. Sérgio deu um boa tarde bem alto para o porteiro, fingindo intimidade, para que todos ouvissem. Continuou falando enquanto esperavam o elevador chegar.

- Você vê, a empregada lá de casa. Tá ganhando 800 reais por mês! Porra, 800 reais pra cozinhar e limpar a casa? Até eu queria um emprego desses! Eu me lembro que, não faz muito tempo, eu pagava 500, fora a condução. Melhorou muito pra elas.
- É, mas mesmo assim... 800 reais não é grandes coisas.
- Como não? Outro dia mesmo ouvi ela falando que comprou um microondas. Um microondas! Agora pobre pode comprar microondas! Você é pessimista, Rogério, tá tudo bem, só não trabalha quem não quer.

Rogério preferiu ficar calado e não continuar a conversa. Chegou o elevador, foram os últimos a entrar. Mesmo com o elevador lotado, Sérgio parou ao lado do ascensorista, para falar com ele quase gritando.

- Teu Botafogo vai tomar uma coça hoje, hein?! Tem que mudar de time, irmão!

O ascensorista, curvado em seu banquinho, deu um sorriso sem graça para não parecer antipático, e respondeu num tom três vezes mais baixo.

- Vamos ver, hoje à noite vamos ver...
- Vamos ver seu Botafogo se fuder!

E com uma gargalhada deu três tapas fortes nas costas do homem, que dessa vez não sorriu, não respondeu ou se mexeu. Não se importava muito com futebol, mas ficou com uma vontade forte que o Flamengo perdesse. Sérgio já chegou no escritório fazendo piada com todos, como de costume. Alguns fingiam achar graça e riam, outros não se davam ao trabalho. Entrou em sua sala, as paredes com alguns certificados e a mesa ocupada por porta-retratos com fotos de sua mulher, filhos, casa de praia, do seu carro novo. O telefone tocou, a secretária anunciando um candidato a emprego.

- Com licença, boa tarde.
- Boa tarde, irmão, pode sentar! Qual seu nome?
- É Márcio.
- Diz aí, Márcio, o que você pretende fazer aqui na empresa?
- Bom, é que... Eu soube que a empresa tá contratando, e... Se vocês tiverem alguma vaga, eu realmente tô precisando... Pode ser qualquer coisa, o que tiver pra fazer eu faço, assistente de... Qualquer coisa, tô aqui à disposição.

Sérgio levantou, segurando o riso, para que o pobre homem não se ofendesse, mas sem conseguir escondê-lo totalmente.

- Você tá nervoso, hein, rapaz?
- Desculpa, é que já tô sem trabalho há mais de um ano...
- Ah, é? E o que você fazia antes de ficar desempregado?
- Era trocador numa van.
- Trocador numa van?
- É, trocador numa van.
- Olha, Márcio... Te confesso que nem sabia que existia essa profissão.
- Não? Acho um emprego até comum.
- É que eu acho que nunca peguei uma van, então... Mas por que você saiu desse emprego? De... Trocador de van.

E riu um pouco, enquanto Márcio não.

- Desculpa, mas é que eu não sabia que isso existia, realmente, e eu gosto muito de brincar...
- Tá certo.
- Mas por que você saiu do emprego?
- A van era ilegal, foi apreendida, fiquei sem emprego.
- Ilegal? Mas aí tá errado, realmente. Por que você trabalhava nisso, se era ilegal?

Márcio se surpeendeu com a pergunta sem sentido.

- Por quê? Porque era um emprego.
- Sim, mas ilegal.

Dessa vez Márcio apenas olhou para Sérgio, tentando entender.

- Márcio, claro que todos queremos vencer na vida, mas de forma correta, não é?
- É.
- Mas diga, por que você ficou esse tempo todo sem emprego?
- Porque não achei nada... Só fiz uns bicos nesse tempo.
- Ah, Márcio, mas tem que correr atrás, nada vai cair no seu colo.
- Eu sei.
- Sim, Márcio, mas sabe, mais de um ano desempregado... Você não acha que com um pouco mais de força de vontade conseguiria um emprego? Um bom emprego? Que sustentasse você e sua família?
- Não.
- Ora, Márcio, o que é isso! Com esse pessimismo não vai chegar a lugar nenhum, rapaz! O desemprego no Brasil está perto de zero! Veja, eu comecei como você, e...
- Não, não começou, não. Seu pai não era dono disso aqui?
- Sim, mas não pense que foi fácil, foi preciso muito esforço e dedicação para mostrar meu valor. Sempre mantive a cabeça erguida e acreditei nos meus sonhos, até que...
- Escuta, tem um emprego pra mim ou não?
- Márcio, não é esse tipo de atitude que vai fazer você vencer. É preciso que você mostre confiança, e com...
- Vai se fuder.

Sérgio sentiu o coração acelerar, surpreso e com medo, enquanto via Márcio sair batendo a porta de sua sala. Sentou-se e sentiu pena de Márcio. Aquela falta de força de vontade nas pessoas era o grande problema de suas vidas, se soubessem levantar e lutar ao invés de ficarem reclamando, certamente poderiam vencer, como ele venceu. As oportunidades estão todas aí, só não as agarra quem não quer. Voltou para o trabalho, que era o que mais gostava de fazer. Trabalhava dez horas por dia, era sempre o primeiro a chegar e o último a sair. Crescer sempre era seu lema, fazer a empresa cada vez maior, ver os negócios se expandindo, os lucros cada vez maiores. Por conta disso passava pouco tempo em casa, teria tempo quando se aposentasse, era o que dizia. Lembrou da final do campeonato, precisaria sair um pouco mais cedo, não costumava fazer isso, mas pelo Flamengo abriria uma exceção.

Saiu do escritório gritando para os empregados que iria ver o Flamengo ser campeão, o Botafogo tomar no rabo, e outros insultos futebolísticos para os que o provocavam. Sentiu-se um alívio geral na empresa quando ele saiu. Pegou seu carro zero japonês, e foi para casa trocar de roupa e buscar seus filhos gêmeos, Roberto e Lucas, frutos de uma enseminação artificial em sua mulher, Luciana. Quando chegou em casa viu a mulher sentada à beira da piscina conversando com algumas amigas, algumas dessas ele nem conhecia, ela não esperava que ele chegasse em casa há essa hora.

- Ué, o que você tá fazendo aqui?
- Hoje é a final do campeonato, esqueceu?
- Ah, é, esqueci.

Ele ficou esperando que Luciana o apresentasse às amigas, mas ela não o fez.

- Bom... E os meninos, onde estão?
- Lá dentro.

Encontrou os gêmeos de oito anos jogando videogame, deu um grito de cheguei e eles apenas responderam oi sem tirar os olhos da tv.

- Vocês esqueceram que dia é hoje? Dia de ver o mengão!

Agora sim conseguiu a atenção dos moleques, que pularam comemorando, não antes de terem salvado o jogo. Vestiu a camisa do Flamengo, assim como os filhos, que vestiram o uniforme completo, com direito a meião e tudo. Pegou uma cerveja na geladeira, bebeu com certa rapidez para não se atrasar, enfiou os filhos no carro e seguiu em direção ao Maracanã. Foi bom ter saído cedo, sabia que pegaria trânsito.

- O Ronaldinho joga hoje, pai?
- Ronaldinho tá jogando nada, Betinho.
- Mas ele joga hoje?
- Joga, mas não devia.
- Devia jogar quem, então?
- Ronaldinho tá jogando nada, Betinho. Nada!

Estavam perto do estádio, com o trânsito parado. Torcedores do Flamengo passavam entre os carros, com gritos de guerra que envolviam empalar o adversário e matar todos os membros de torcidas organizadas rivais. Os gêmeos acompanhavam todas as músicas em uníssono, o que deixou Sérgio orgulhoso. Um grupo da torcida do Botafogo apareceu vinda de lugar nenhum, com seus cânticos igualmente ameaçadores, apesar de saberem que estavam em menor número. Os grupos rivais se ameaçavam à uma distância que parecia segura, cada um de um lado da avenida, o carro de Sérgio bem no meio. Porém pedras começaram a voar dos dois lados, as crianças se abaixaram apavoradas no banco de trás, Sérgio impotente no meio dos carros parados. Ouviu-se um tiro, um torcedor botafoguense caiu. Os torcedores botafoguenses se inflamaram e foram para cima dos carros. Um grupo cercou o japônes de Sérgio, e começaram a balançá-lo com violência.

- É flamenguista, é flamenguista, filha da puta!

Batiam nos vidros e tentaram abrir a porta do motorista sem sucesso. As crianças choravam apavoradas no banco de trás. Deixaram o carro em paz e foram com o resto da torcida enfrentar os adversários. Do carro era possível ver os socos e pontapés que davam uns nos outros, o sangue escorrendo pela cabeça de alguns, até que chegou a tropa de choque da polícia e dispersou civilizadamente com cacetetes e balas de borracha os arruaceiros. Ainda trêmulo de medo, Sérgio tentava acalmar os gêmeos, que continuavam chorando.

- Filhos, isso é normal, acontece em qualquer lugar do mundo! É legal? Não, não é legal, mas acontece, infelizmente. É futebol! Agora parem de chorar e vamos ver o jogo, tá bom?
- Mas e o moço que levou um tiro?
- Ele vai de ambulância pro hospital... Tá cheio de ambulância, tá vendo? Ali, a ambulância. Tá tudo bem com ele.
- Pai, quero voltar, pai.
- Que isso Lucas!? Que voltar! É final! Já disse, isso de briga é normal, acontece, já acabou, vamos pro jogo, é mengão, porra! Por que vocês não continuam a cantar?

E os moleques continuaram, chorosos e sem entusiasmo:

- Chupar meu pau... Urubu comeu teu cu... Limpei com Vagisil... O cheiro de bacalhau...

Estacionou o carro em cima de um canteiro, instruído por um flanelinha, que cobrou apenas 20 reais para que deixasse o carro em lugar proibido. Os gêmeos saíram do carro com medo, agarrados no pai. Sérgio lembrou que era proibido beber dentro do estádio, e virou algumas latinhas antes de entrarem. Pagou dois cachorros-quentes para as crianças, para que se entretessem com algo enquanto o pai ficava bêbado. Ficou bêbado bem rápido, não era muito resistente. Segurando os filhos pelos braços entrou no meio da multidão, tentando passar pelos portões e chegar às cadeiras especiais. Só quando se sentaram, e viram o estádio lotado, com as torcidas cantando, que os gêmeos finalmente relaxaram. E Sérgio ria ouvindo-os cantar:

- Pode espalhar pelas am/fm... Hoje vou tomar banho com o sangue dos pm...

O jogo começou, as ameaças das torcidas continuaram, e Sérgio xingava todos os jogadores em quase todos os lances, além do juiz, claro, e os gêmeos, imitando o pai, faziam o mesmo. Chegou o intervalo.

- Puta que o pariu, essa porra de Ronaldinho tá jogando nada, nada!
- Quem você acha que tem que entrar, pai?
- Ronaldinho tá jogando nada, Lucas, nada!

Começou o segundo tempo, e seguiram os cantos, insultos, etc. Aos 40 minutos, o jogo ainda 0x0, e um jogador qualquer do flamengo sofre falta na entrada da área botafoguense. Ronaldinho pega a bola e Sérgio se desespera:

- Ah, não, Ronaldinho não, esse crioulo não tá jogando porra nenhuma!

Um homem que estava sentado à sua frente, e que por um acaso era negro, olhou para trás ameaçadoramente, e Sérgio, percebendo o que disse, pediu desculpas de forma humilde, aceitas pelo homem, que estava mais preocupado com o jogo do que em bater em um racista.

- Quem tem que bater a falta, pai?
- Sei lá, porra, tem dez jogadores nessa merda. Mas o Ronaldinho tá jogando nada, Betinho, nada!

Enquanto Sérgio falava, Ronaldinho bateu a falta por cima da barreira e acertou o ângulo.

- Ah, eu sabia, porra, eu sabia! Sabia que o Ronaldinho ia fazer gol nessa merda, caralho!

E pulava em êxtase, abraçado aos filhos, que pulavam junto, e gritavam, e abraçaram o homem negro do banco da frente.

- Eu disse, eu disse! Eu não disse que o Ronaldinho ia fazer gol, não disse?
- Disse, disse!
- Eu disse!

Acabou o jogo, Flamengo campeão, nova comemoração, novos pulos e abraços. Betinho deu um pequeno grito, Sérgio apertou o garoto forte demais e machucou sua costela. Ficou dois minutos pedindo desculpas, sentindo uma culpa de bêbado, mesmo Betinho dizendo que não tinha sido nada demais. Saíram do estádio no meio da torcida, Sérgio segurando firme os garotos com medo que se perdessem no meio da multidão. Os três estavam empolgados com a vitória, os garotos felizes de cantarem as músicas violentas e homoeróticas no meio da torcida, apesar do aperto, do calor e do ar abafado entre os milhares de torcedores que desciam as rampas. Chegando na rua, Sérgio comprou outra cerveja, que virou em menos de dois minutos enquanto andavam em direção aonde estacionaram o carro. Sérgio percebeu que os filhos perceberam o quanto ele estava bêbado.

- Eu sei, bebi bastante hoje, exagerei mesmo, desculpa... Mas é mengão, porra! Eu disse que o Ronaldinho ia fazer gol, não disse?

E os moleques riam e concordavam, disse, disse.

- Não foi aqui que eu deixei o carro?
- Foi, foi aqui, eu lembro desse carro verde do lado.
- Não, não pode. Acho que foi mais na frente.

E foram mais na frente, e voltaram, e não acharam o carro, muito menos o flanelinha.

- Tava aqui sim, pai, tenho certeza, do lado desse carro verde!
- Não, não é possível, não pode...
- Tava, tava sim!
- Quer saber, foda-se, não vou me estressar hoje, vamos procurar um táxi.

E foram andando sem destino certo pela avenida maracanã. Sérgio sentiu os garotos assustados com o roubo do carro:

- Porra, é campeão, caralho! Cantem mais, vai!
- Ronaldinho é punheteiro, mas é nosso artilheiro, oi!

Já bastante bêbado, Sérgio ria compulsivamente enquanto andavae os filhos cantavam, não tinha mais a menor lembrança do carro. Enquanto ria, percebeu um cego vindo em sua direção, já quase na sua frente. Agarrou o homem pelos obros e começou a gritar alegremente:

- É mengão, ceguinho! Mengão campeão, ceguinho! Mengão campeão!

Mas sacudiu o cego com força demais, e acabou o derrubando no chão. Os meninos levaram um susto, e Sérgio também, parou de rir imediatamente. A culpa de bêbado veio mais forte dessa vez, e rapidamente foi ajudar o cego a se levantar.

- Senhor, perdão, por favor, eu não queria... Era pra ser só uma brincadeira... O Flamengo foi campeão, eu tô feliz pra caralho, o senhor sabe...
- Sei, é fácil ser feliz mentindo para si mesmo.

E seguiu seu caminho. Sérgio ficou parado, olhando o ceguinho ir embora, digerindo aquela frase que ele não entendeu bem o que queria dizer. As crianças estavam assustadas, já era tarde da noite, e nunca haviam visto o pai tão bêbado, ainda mais derrubando um cego no chão.

- Pai, pai, vamos embora?
- Vamos, vamos embora.

Agora iam andando pela rua em silêncio, esperando passar um táxi livre, como se o prazo para comemorar estivesse se esgotado. Depois de cinco minutos Sérgio conseguiu um carro, deu o endereço na Barra, e foram todos sem dizer palavra, os gêmeos de oito anos dormindo no banco de trás, o pai bêbado e pensativo no banco da frente. As puxadas de assunto do taxista sobre o Flamengo eram respondidas com monossilábicas por Sérgio. Chegaram em casa, abriram a porta e Luciana veio correndo abraçar os filhos:

- Meu Deus, vocês tão bem?
- Tamo, Flamengo foi campeão.
- Ai meu Deus, que susto vocês me dão... Por que você não atendeu o celular, Sérgio?
- Deixei no carro...
- Eu tava preocupada... Mataram um homem lá, da torcida do Botafogo, deram um tiro antes do jogo começar, e eu não sabia onde vocês estavam...
- Era... Era aquele que a gente viu, pai?

Sérgio fez com a cabeça que sim, e Lucas começou a chorar. Betinho não chorou, mas parecia três vezes mais branco que o normal.

- Ah, Sérgio, puta que o pariu, Sérgio!

Enquanto Luciana levava as crianças para dentro Sérgio pegava outra cerveja na geladeira. A imagem do homem baleado veio em sua mente. Ele viu o torcedor sendo atingido na cabeça, e mesmo assim deu pouca importância ao fato. Mentiu aos filhos, disse que não havia sido nada, e pelo resto da noite esqueceu completamente que aquilo havia acontecido. Só quando Luciana deu a notícia que ele percebeu, viu um homem morrer e passou a noite comemorando. Terminou a cerveja e foi para a cama fingir que dormia, enquanto Luciana ainda estava com os garotos, antes que ela viesse encher seu saco. Deitado com os olhos fechados só conseguia ver as brigas, os torcedores balançando seu carro, o homem baleado, o ceguinho e sua frase. A alegria por seu time parecia ter perdido espaço para algo que ele não sabia o que era.

Acordou mais cedo que o normal e viu que Luciana não estava mais na cama. A encontrou na sala, a tv ligada no jornal matinal, imagens da briga entre as torcidas passando repetidamente. Em alguns momentos era possível ver seu carro japônes sendo sacudido no meio da multidão. Mas a cena mais repetida era a do torcedor baleado, sendo carregado pelos amigos, o sangue escorrendo da cabeça para o rosto. Luciana percebeu a presença de Sérgio na sala:

- Tá vendo? Olha onde você levou nossos filhos. Meu Deus, é seu carro ali, não é seu carro? Hein, Sérgio?

Foi só quando olhou para trás do sofá que viu Sérgio chorando copiosamente. Nunca vira o marido chorando antes. Ele estava em pé estático, os braços caídos, e chorando. Ela levantou correndo e foi o abraçar.

- Que isso, amor, pelo amor de Deus... Eu disse alguma coisa? Eu não queria... Pelo amor de Deus, pára, fica calmo!

Os braços continuavam para baixo, ele não devolvia o abraço, e chorava de uma forma que parecia nem estar respirando.

- Calma, Sérgio, calma, senta aqui, eu vou buscar um copo de água com açúcar.

A tv havia parado de repetir os lances de violência, passou a mostrar os lances da partida, o gol do Ronaldinho, as comemorações, praças lotadas e coisas do tipo. Sérgio já havia feito um esforço para se controlar e parar de chorar.

- Aqui, amor, bebe, bebe. Tá melhor agora? Por que você chorou tanto? Você conhecia o homem que morreu? Não aconteceu nada com vocês ontem não, né? Bom. Você vai trabalhar hoje? Porque tá quase na hora de você sair.

Ele não sentia forças para responder, apenas fazia sinais com a cabeça. Luciana deu um beijo em sua cabeça e ele foi se arrumar. Tomou um café e saiu, dizendo um tchau meio tímido para a mulher na saída, a primeira palavra do dia. Saiu com a chave do carro na mão, mas se lembrou que o carro havia sido roubado, ou talvez rebocado, não sabia e não conseguia se importar. Andou vinte minutos até chegar a um ponto de ônibus. Lembrou do Márcio, o trocador de van desempregado, e decidiu que pegaria uma van para o trabalho. Entrou na primeira que levava para o centro, estava lotada, teve que ir em pé, com a cabeça curvada encostando no teto. Chegou ao centro e saiu da van com uma forte dor nas costas e no pescoço. Andando devagar via coisas que não costumava reparar. Um grupo de mendigos e crianças fumando por um cachimbo de latinha de coca-cola, outro grupo se banhando em um chafariz da Praça Tiradentes, um moleque arrancando a bolsa de uma mulher e saindo em disparada no meio da multidão no Largo da Carioca. As mulheres bonitas que ele costumava encarar agora passavam desapercebidas por ele, não virava o rosto para ver as bundas em saias apertadas, só percebia os rostos tristes, os feios, os cansados. Parecia ter acordado em uma cidade diferente, em uma vida diferente. Tudo parecia mais sujo e malcheiroso. Chegou ao prédio onde trabalhava após uma viagem total de duas horas e meia, que com seu carro japonês costumava fazer em uma hora e pouco.

- É a ressaca, né?
- Hã?
- A ressaca da comemoração de ontem, não é isso?
- Desculpa, Seu Geraldo, não vi o senhor. - apesar do porteiro estar sentado no mesmo lugar em que sempre ficava. O porteiro ficou esperando uma resposta, mas não recebeu. Sérgio apenas esperava o elevador em silêncio. As portas se abriram, o ascensorista viu Sérgio entrando e se preparou para a sessão de provocações desnecessárias.

- Desculpa.
- Como?
- Desculpa, por ontem, as piadinhas.
- Que isso, Seu Sérgio, eu não me incomodo, não foi nada demais.

E Sérgio não disse mais nada, nem ao menos um até logo quando saiu do elevador. Entrou no escritório e flamenguistas e puxa-sacos começaram a gritar comemorando. “É campeão, Seu Sérgio!”, “Mengão, porra!”, e ele deu um sorriso forçado, mal levantando a cabeça para olhar para os empregados, que se calaram surpresos assim que ele se trancou em sua sala. Se afundou na cadeira, e só o que vinha em sua cabeça era o botafoguense baleado, banhado em sangue, a memória do que aconteceu se confundia com as imagens que ele viu pela televisão. E lembrava com profunda vergonha de como derrubou o ceguinho, e da frase que ele lhe disse, aquele frase que ele não conseguia esquecer. Olhou para as fotos em sua mesa, a casa na praia, o carro japonês, e tudo parecia ter perdido seu valor. Viu a foto com sua família, e chorou. Usou o telefone para avisar à secretária que cancelasse seus compromissos para o dia, pois iria voltar para casa. Saiu da sala e a secretária veio ao seu encontro junto com mais dois funcionários:

- Mas como o senhor vai embora se acabou de chegar?
- O senhor tá bem, Seu Sérgio?
- Posso fazer alguma coisa?
- Não, não é nada.

Respondeu com o mesmo sorriso forçado, dessa vez com os olhos vermelhos, e saiu do escritório enquanto todos o olhavam em silêncio. Saiu do prédio sem dizer mais nada ao ascensorista ou ao porteiro. Entrou em um ônibus para a Barra e pegou no sono, foi acordado pelo trocador no ponto final. Agora teria que andar quase uma hora para chegar em casa. Poderia pegar um táxi, mas decidiu que andar o faria pensar melhor, talvez conseguisse entender o que estava acontecendo. Mas seu raciocínio dava voltas apenas para chegar no mesmo lugar. Luciana estava abrindo a porta da garagem para sair com o carro quando viu o marido andando vagarosamente pela rua, suado, com uma aparência exausta, triste. Foi correndo até ele:

- O que aconteceu, Sérgio, o que houve, por que não está no trabalho?

Ele olhou no fundo dos seus olhos negros, a abraçou jogando o peso de seu corpo, sem forças, quase derrubando Luciana, e tornou a chorar, sem saber o porquê:

- Desculpa, Luciana. Desculpa.
- Mas desculpa por que, Sérgio? Aconteceu alguma coisa?
- Nada, Luciana. Só me desculpa.

Ela chorava também, um choro nervoso por não entender o que havia acontecido com seu marido. Foram andando para casa, ela o ajudando a andar como se faz com um bêbado. Entrando em casa ele se jogou no sofá, ligou a tv e ali ficou. Apenas levantava para ir ao banheiro e fazer as refeições. Luciana perguntava o que ele tinha, o que poderia fazer para ajudar, e ele seguia respondendo que nada, que iria passar. Ela o abraçava e o beijava, e ele tentava retribuir, sem muito ânimo. As crianças viam o pai deitado no sofá e tentavam falar com ele, mas suas respostas eram vagas. Luciana disfarçava, dizia para os garotos que o pai deles estava apenas cansado, estava trabalhando muito, que fossem jogar video-game e o deixassem descansar. Chamou o médico da família, que diagnosticou estafa, prescreveu um calmante, em alguns dias ele deveria voltar à ativa. Luciana se tranquilizou um pouco com a notícia do médico, apesar de ainda desconfiar que o que Sérgio tinha não passaria em alguns dias. Alguns dias se passaram, sem que Sérgio melhorasse, faltando ao emprego, mal saindo do sofá. Apesar do amor e preocupação que recebia da família, quanto mais tempo passava sem se manter ocupado, mais se sentia vazio. Luciana não estava em casa, e ele sentiu a necessidade de sair. Com um par de chinelos velhos, uma bermuda surrada e uma camiseta suja, foi andando para o ponto de ônibus. Pegou o primeiro ônibus a passar, e após um bom tempo de viagem percebeu que estava na Tijuca. Saltou, e foi andando em direção ao Maracanã. Não se surpreendeu quando, já perto do estádio, viu o ceguinho andando em sua direção. Parou, e esperou que ele chegasse. O cego se aproximou, com seu sorriso debochado de sempre, e já estava abrindo a boca para falar alguma coisa, mas Sérgio foi mais rápido:

- O que o senhor fez? Por que me disse aquela frase? Apenas porque o derrubei no chão? Eu estava bêbado, meu time tinha acabado de ser campeão... E eu pedi desculpas, não pedi? Então por quê? Eu era um homem feliz, com meu emprego, minha família... Mas agora parece que tudo está acabado e destruído. E por quê? Será que é pecado ser feliz? Hein, ceguinho? É pecado ser feliz? Responde, filho da puta. Responde!

O ceguinho ficou boquiaberto, sem saber o que dizer. Não esperava aquela reação de Sérgio, não esperava aquelas palavras. Era como se aquilo não estivesse programado. Nervosamente tentou manter o sorriso sarcástico, que claramente não era mais o mesmo, e começou a andar mais rápido que o normal, enquanto Sérgio o olhava ir embora, gritando se era pecado ser feliz, uma pergunta que o ceguinho não sabia que precisaria responder.




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