quarta-feira, 30 de março de 2011

No Meio Do Poço

Já estava há três horas ali, imóvel, agarrado com todas as forças a uma corda que parecia razoavelmente resistente. Gritava por ajuda, mas ninguém parecia ouvir, apesar do poço estar em um lugar com certo movimento. Com a sede e o cansaço seus gritos já não eram mais tão altos ou intensos, mas mesmo assim uma cabeça surgiu no topo do poço.

- Ei! Amigo, me ajuda, eu caí aqui no poço!
- Caiu?
- Caí, tô há mais de três horas aqui, gritando, ninguém me ouve!
- Mas você tá no fundo? No fundo do poço?
- Não... Na metade, mais ou menos.
- Tá machucado?
- Não, acho que não.
- Tá com a corda aí, né?
- Tô, tô agarrado nela.
- Então... Por que não sobe?
- Porque não consigo! Não consigo sair!
- Já tentou?
- Claro que já tentei, mas não consigo, não consigo!
- Acho que você deveria tentar mais. Você tem a corda aí, é só subir por ela. Rapaz novo, saudável... Força de vontade, rapaz!
- Mas você não entende, eu não consigo! Simplesmente não consigo! Será que não dá pra me puxar pela corda?

O homem pensou por alguns segundos, enquanto no meio do poço o desgraçado implorava baixinho.

- Não... Não vai dar, não. Esse é o tipo de coisa que você tem que resolver sozinho.
- Mas eu...
- Boa sorte, tudo de bom, desculpa qualquer coisa.

O desespero aumentou e as forças diminuíram quando viu o homem indo embora. Tentava seguir seu conselho, tirar forças de algum lugar escondido, mas não subia sequer dois centímetros. A primeira noite foi muito difícil, mas por sorte choveu, o que o permitiu beber um pouco de água. A fome aumentava, mas não o incomodava muito, só conseguia pensar em porquê não conseguia sair do poço, e em como ele deveria pelo menos se manter no meio dele. Estava distraído, afundado nas próprias preocupações, quando sentiu uma cacetada na cabeça. Olhou para o alto e uma cabeça o olhava de volta.

- O que foi isso?
- Uma bíblia, o livro da verdade, ali está tudo o que você precisa saber pra sair do fundo do poço.
- Mas eu não estou no fundo, estou no meio.
- E apenas aceitando a palavra do Senhor terá força para se reerguer.
- Mas a bíblia caiu no fundo.
- Ah, sim... Quer que eu jogue outra?
- Não! Se eu soltar a corda pra pegar a bíblia eu caio.
- Pois para Jesus nada é impossível, largue esta corda e agarre com ambas as mãos as escrituras, e sairás salvo!

Jogou a segunda bíblia com raiva, e ela bateu com força na cabeça do infeliz, que pouco se mexeu, mesmo com a pancada.

- Por favor, será que não dá pra me ajudar só puxando a corda?
- Eu não tenho esse poder, sou apenas um servo do Senhor, só você pode aceitar Jesus no coração e se reerguer com a força da glória da unção da vitória de Nicodemo do...
- Tudo bem, não precisa, obrigado.

Enquanto tentava controlar a dor das mãos feridas pela corda, e o cansaço físico e mental, pensava no que tinha feito para ficar ali, preso no meio do poço. Não conseguia se lembrar em nada de específico, um tropeção ou qualquer coisa do tipo, apenas numa sequência de erros ao longo da vida, e mesmo que bem intencionados, todos com uma forte dose de culpa. Essas indagações não deixaram muito espaço para ele pensar em como sair dali, e seguia apenas se segurando enquanto podia. Desistiu de pedir ajuda, mas ainda via algumas cabeças fazendo paradas rápidas, curiosas com sua situação. Alguns davam um suspiro de pena, outros de reprovação, outros apenas uma olhada rápida sem expressão por pouco se importarem. Um velhinho jogou umas pipocas, como fazia com os pombos, e crianças se divertiram zombando e balançando a corda. Já havia desistido de qualquer reação, ainda remoendo os próprios erros. Foram três dias até que corpo e mente não suportaram mais, e ele caiu. Se estatelou no fundo, todo quebrado, as dores físicas e mentais nunca foram piores, mas mesmo semiconsciente pôde ver uma multidão se aglomerando, assustados com o barulho, desesperados para ajudar.

“Rápido, os bombeiros, polícia, uma corda, alguém vai descer?, já vamos te tirar daí, vai ficar tudo bem, parece que ele quebrou a coluna, fica tranquilo, etc.”