sexta-feira, 15 de julho de 2011

O Ceguinho - Episódio 3

Vinha descendo a rua uma mulher razoavelmente nova, mas que parecia quase velha pela gordura, os filhos, os trabalhos. No colo um bebê maltratado, logo atrás um garoto pré-adolescente apagado, e ao lado, de mãos dadas com ela, uma menina, criança de dez anos, a mais feliz de todas, um imenso sorriso sem motivo, achando graça de tudo que via pela rua: os postes, as casas velhas mal conservadas, os cachorros vira-latas. De dentro dos ônibus era impossível os passageiros olharem para ela e não darem um sorriso, que quando ela percebia eram sempre retribuídos. Na rua todos paravam para falar com ela, e como ela era esperta, e engraçadinha, e alegre, e simpática, e bonitinha. Paravam velhas, e velhos, e outras crianças vinham brincar com ela, e todos a elogiavam, e em nenhum momento ela parava de brincar, de sorrir, de pular, de se divertir. Tinha uma beleza infantil graciosa, os dentinhos tortos, os olhos um pouquinho vesgos, os cabelos presos com marias-chiquinhas. Parou de sorrir quando viu um homem que estava na janela de um ônibus parado. Ele usava óculos escuros, e apesar de não conseguir ver seus olhos, ela sabia que ele olhava para ela, e ele sorria, mas ao contrário do que ela sempre fazia, não pôde sorrir de volta. Seguiu andando com a mãe e os irmãos, sentindo um certo mal-estar. O sinal abriu, o ônibus seguiu, parou no ponto mais próximo, e de lá saiu o homem, segurando uma sacola de compras em uma mão e uma bengala na outra. A menina, do outro lado da rua, olhava assustada enquanto o homem atravessava para o seu lado da calçada, sempre segurando o mesmo sorriso estranho no rosto. Ela segurou mais forte a mão da mãe quando percebeu que ele andava em direção a eles. E mesmo com os óculos muito escuros, ela tinha certeza que ele olhava para ela, com um sorriso congelado. Quando ele estava há uns três metros de distância, tropeçou e caiu, derrubando sua sacola plástica, espalhando limões, laranjas, e outras frutas que se espalham facilmente pela calçada.

- Ô meu Deus, o ceguinho caiu... Vai lá, Cristiano, ajuda o moço! Vai você também, Luana, vai!

Mas Luana apenas se agarrou mais ainda à saia da mãe, enquanto olhava com medo seu irmão apagado ajudando aquele homem, que só agora ela sabia ser cego.

- Que isso, Luana, que vergonha é essa? Vai ajudar o moço, vai!
- Não... Não quero...
- E desde quando... Ô moço, tá tudo bem com o senhor?
- Sim, tudo bem, não foi nada.
- Aí, meu filho pegou as compras pro senhor.
- Ah, obrigado filho, deus te abençoe. E essa menininha envergonhada aí atrás, quem é?

Luana tentou se enconder atrás da mãe, se esconder de um cego, que ela não entendia por que sentia dele um medo mortal. Parecia a ponto de chorar.

- Que é isso, Luana?! Sai daí, fala aqui com o moço!

Mesmo segurando o bebê, a mãe a agarrou com o braço direito e a jogou para frente do cego.

- Que bicho te mordeu?, você não é assim! Essa menina não pára, moço, você precisa ver... Ai meu deus, desculpa!
- Que é isso, não se preocupe. Tudo bem, Luana?

E estendeu a mão para que ela o cumprimentasse. Ela estendeu o bracinho trêmulo, e teve que engolir o choro quando sentiu as mãos frias do cego entre a sua.

- Essa menina não pára nunca... Tá sempre rindo, correndo, não pára um segundo... Fala com todo mundo, todo mundo fala como ela é bonita, simpática... Né, Luana?

A menina balançou a cabeça positivamente sem tirar os olhos do cego.

- Que bom. E é bom que ela aproveite, porque isso não vai durar pra sempre. Obrigado pela ajuda, até logo.
- Tchau, moço. Dá tchau, Luana!

Mas ela não conseguia se mover. Ficou paralisada olhando o homem ir embora, com a imagem daquele sorriso congelado e da frase que ela não entendeu bem na cabeça. Foi preciso receber um tapa da mãe para que continuasse andando para casa. Seguiu de mãos dadas com a mãe, que segurava o bebê no colo, e o irmão pré-adolescente apagado logo atrás. Mas agora não conseguia rir, não achava mais graça nos carros velhos, nas barraquinhas de comida, nas pessoas. E o mesmo parecia acontecer com os outros, crianças passavam e não reparavam nela, não a chamavam para brincar. Velhos e velhas pareciam a ignorar, um casal desses parou, conversou com a mãe e brincou com o bebê, mas para Luana apenas um até logo por simpatia obrigatória, o mesmo que faziam com seu irmão. Chegaram em casa, e Luana se trancou no banheiro. Sentou na privada tentando entender o que aquela frase significava, mas o sorriso largo e estranho do cego não a deixava pensar direito. Primeiro chorou, deixou que as lágrimas secassem e se olhou no espelho. Tinha a pele muito oleosa, os dentes tortos que nunca receberam tratamento adequado, era ridiculamente vesga, e a maria-chiquinha a deixava com cara de retardada. Arrancou os elásticos do cabelo, lavou o rosto vigorosamente, mas não adiantava, se olhava no espelho e continuava se sentindo asquerosa. Nunca se sentira assim antes. Saiu do banheiro transtornada, mas com o maior sorriso que conseguia fingir no rosto.

- Que é isso, Luana, que cara é essa?!
- Nada, mãe! Tô feliz, como sempre! Posso ir na rua brincar, posso?
- Não sei... Você tá bem? Tá com uma cara meio estranha...

Ao ouvir isso o sorriso se fechou imediatamente.

- Infelizmente é a única que eu tenho.

E saiu de casa batendo a porta, com sua mãe chamando seu nome. Colocou o sorriso falso de volta, e cruzou com um casal de velhos. Parou no meio da calçada os encarando, o sorriso maior que nunca, esperando carinhos, elogios. Os velhos se assustaram, e passaram tentando desviar dela, pelo cantinho da calçada.

- Espera! Vocês não vão dizer nada, nada?
- Falar o quê, menina?
- Não sei... O que é que tá faltando? A maria-chiquinha, é isso? Ah, é isso, né? Eu vou pra casa colocar, eu vou!
- Ai meu deus, o que é que ela tá falando?
- Não sei... Deve querer dinheiro... Toma aqui, toma, vai embora, chispa!

E o velho jogou umas moedas na direção de Luana, que sem saber o que fazer as catou, segurando o sorriso, mesmo com vontade de chorar. Seguiu andando, parou em frente a um camelô, que entre outras coisas vendia um espelhinho, pendurado na frente da barraca. Ela parou e se olhou no espelho, e parecia ter ficado ainda mais grotesca, os dentes ainda mais tortos, e podres, a pele além de oleosa cheia de cravos e espinhas, os olhos que pareciam não se decidir pra onde olhar, os cabelos despenteados, de aparência suja, ela toda parecia suja. Chorava, mas mantinha o sorriso largo no rosto. Andou até uma pracinha, onde crianças brincavam com uma bola. Com os olhos e o rosto cheio de lágrimas perguntou se poderia brincar também. As crianças se assustaram com ela, com a pergunta, e pararam de brincar, ficaram sem reação.

- Eu... Não sei.
- Não sabe? Por que não sabe? Dá aqui a bola, dá? Me deixa brincar!

Tentou tirar a bola do menino, que se afastou. Andou novamente em direção a ele, pedindo a bola. Ele começou a correr, e ela correu atrás.

- Mãe, mãe, socorro! A menina, mãe, a menina!

E o moleque se escondeu atrás da mãe, que olhou com estranheza e ódio para Luana, que por sua vez se esforçava para manter o sorriso, agora já completamente torto e fora do lugar.

- Que é isso, menina, o que você quer com o meu filho?
- Eu? Nada, eu só quero brincar, por que ele não me deixa brincar?
- Você?

A mulher olhou Luana da cabeça aos pés e dos pés à cabeça, tentando entender aquela criatura.

- Tá louca, menina? Já se olhou no espelho?
- Eu.. Já! Já me olhei no espelho! E por que eu não posso brincar? Eu sou bonitinha, e simpática, e graciosa, e inocente, e as pessoas gostam de mim, e as crianças querem brincar comigo, e os velhos me dão presentinhos... Então por que eu não posso brincar?! Eu quero brincar!
- Calma, menina, mas você não pode...
- Posso! Posso! Eu sou engraçadinha, quer ver, quer ver como eu sou engraçadinha?

E Luana começou a dançar uma dança perturbadora, as pernas e os braços totalmente fora de sincronia, fora de qualquer ritmo conhecido. E quanto mais as pessoas olhavam espantadas, mais ela se esforçava, dançando mais rápido, com mais força, cada vez segurando menos o sorriso, até o perder completamente, as lágrimas correndo livres, a dança cada vez mais frenética, até o ponto em que não teve mais energia, e se deixou cair no chão de terra batida. O rosto cheio de lágrimas e catarro se misturava à terra, estava com a boca encostando no chão, ela nunca esteve tão suja, os cabelos, o vestido. E seguia chorando, sem que ninguém se incomodasse ou a incomodasse. Passaram-se quinze, vinte minutos, e ela permanecia na mesma posição, o choro aos poucos indo embora. Meia hora e viu um par de sapatos pretos parar à sua frente. Já sabia de quem era, apesar de não ter reparado nos sapatos dele no primeiro encontro. Com o mesmo sorriso congelado ele se abaixou, e ofereceu uma laranja, que ela de pronto aceitou.

- Passou rápido, não passou?
- Mais do que eu esperava.

Um comentário:

Cácian.Castro disse...

Adoravel!
Estou seguindo :)