sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Sem Título #2

Desde o dia anterior estava com o telefone desligado, não queria qualquer distração além das que já tinha. Pouco dormiu, percebeu que tinha as mãos trêmulas quando pegou a xícara de café pela manhã. Seria a maior oportunidade que já tivera, a grande chance de mudar de vida, começar algo completamente novo, esquecer o passado, ser uma pessoa melhor, chegar perto de ser feliz. Respirou fundo e tentou se controlar. Tentava imaginar as coisas certas a se dizer, não sabia exatamente quais eram, mas tentava decorá-las mesmo assim. Ainda tinha algumas horas para se preparar. Separou a melhor roupa, colocou numa pasta tudo o que poderia precisar, checou tudo duas vezes, repetiu milhares de dircursos e possíveis diálogos na própria cabeça. Almoçou a comida do dia anterior, comeu pouco, o nervosismo o deixou enjoado. Tomou banho, se arrumou com calma e cuidado, queria estar perfeitamente alinhado, em frente ao espelho aparou um por um os fios de cabelo desregrados, escovou os dentes pelo menos três vezes, usou perfume, coisa que nunca fazia. O tempo todo pensando na melhor maneira de se portar, de falar, de cumprimentar, de rir. Tentava diminuir a ansiedade imaginando em tudo o que viria se aquilo desse certo, a possibilidade dos sonhos e planos improváveis darem certo. Estava mais de uma hora adiantado, era um bom tempo para sair de casa sem se preocupar em se atrasar. Dentro do ônibus seu corpo tentava tremer, ele tentava controlá-lo  respirando fundo e fechando os olhos. Conhecia a rua, desceu do ônibus para procurar pelo número a pé. Estava suando, mesmo andando devagar, passou a andar mais devagar ainda, ainda tentando parar de tremer e parecer estranho. Andou por uns quinze minutos, e a rua terminou. Nervoso e distraído, deve ter passado direto pelo lugar, tudo bem, ainda tinha tempo. Andou mais um pouco. Parou. Era para ser ali. Ali que o mapa apontava, ali que o endereço dizia, mas não era ali. Talvez fosse a rua de trás. Deu a volta, foi para a rua anterior, não achou. Andou a rua anterior inteira, e voltou para a que estava. Agora já andava rápido, nervoso, manter a calma não era mais algo a ser considerado. Voltou ao mesmo lugar para onde o mapa indicava, mas não era ali. Parou duas pessoas na rua, uma não conhecia o lugar, a outra nunca havia ouvido falar. Estava dez minutos atrasado. Deu uma volta no quarteirão, voltou para o mesmo lugar. Vinte minutos atrasado, era melhor voltar para casa. Voltou com a cabeça explodindo com toda a angústia dos sonhos e oportunidades perdidas, mas ao mesmo tempo aliviado por não precisar passar por aquilo. Chegou em casa sem pressa, cozinhou um miojo, e assistiu televisão até pegar no sono.

Um comentário:

Anônimo disse...

Sei exatamente o que você quer dizer.