segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

O Ceguinho - Episódio 2

Na ceia de natal na casa dos pais ricos da esposa, César estava pensativo e distraído, mas devido à sua natural habilidade de fingir simpatia quando necessário, poucos perceberam. A casa estava cheia, duas grandes mesas com muitos convidados, não só familiares. Mais da metade ele nem conhecia, de nenhum ele gostava. Como sempre, a maior parte das conversas girava em torno de dinheiro, presentes, presentes que se compram com dinheiro, presentes que poderiam ser comprados com muito mais dinheiro. As crianças bajulavam os avós pensando no que poderiam ganhar, perguntavam o que estava dentro das caixas. Os adultos também puxavam o saco dos velhos, mas não pelos presentes perto da árvore. Ele que tanto fez para chegar e permanecer ali, agora se perguntava se valia a pena. Sentado à mesa, sentiu um par de olhos o encarando. Era um homem que ele não conhecia, do outro lado da mesa, há umas cinco cadeiras de distância. César acenou com a cabeça e deu seu costumeiro sorriso falso, mas o homem seguiu o encarando sem reação, apenas um leve sorriso no rosto. César achou estranho, mas tentou ignorar. Voltou para a conversa da esposa, mas continuou sentindo os olhos em suas costas. Esperou uns instantes e voltou a olhar para o homem, que parecia não ter se movido, e continuava o encarando. Dessa vez César não encenou, fechou o rosto e balançou a cabeça como quem pergunta qual é o problema, mas o homem seguia impassível.

- …e é full hd, mas faz mais de um mês que eu comprei e até hoje não entregaram.
- Valéria... Com licença, dona Sônia. Valéria, quem é aquele cara me encarando?
- Te encarando?
- É, me encarando.
- Tá maluco, César? Não tem ninguém te encarando.
- Como não, porra, aquele ali do lado da Carol.
- Do lado esquerdo?
- É!
- Ai, César, brincadeira de mau gosto...
- Hein?
- Ele é cego, não tá vendo?

César sentiu um frio na espinha quando percebeu que o homem era mesmo cego, ao mesmo tempo em que tinha certeza que ele continuava o encarando. E permaneceu o encarando durante o resto da ceia, César mal tocou no peru. E continuou sentindo aqueles olhos cegos o resto da noite inteira, tentando se acalmar com vinho, tendo pouco resultado. Só no fim da noite, quando o ceguinho estava indo embora, é que foram apresentados.

- Ah, César, deixa eu te apresentar aqui um amigo nosso. Seu José, esse aqui é o César, marido da Valéria.

De perto os olhos dele pareciam maiores, menos cegos, debochados, reprovadores.

- Muito prazer, seu José...

O cego apertou a mão de César, e lhe disse ao pé do ouvido:

- Eu te manjo.

Soltou a mão e abriu um grande sorriso, e saiu com sua bengala de cego e segurando no braço de sua acompanhante. Aquela frase ficou ecoando na cabeça de César, e agora ele já não tinha mais a mesma facilidade para esconder sua perturbação.

- Tudo bem, César?
- Tá.
- Tá estranho.
- Não sei, deve ser o vinho.
- E você vai dirigir assim, né?
- Vou.
- Vem, vamos nos despedir dos meus pais.

Havia uma espécie de fila informal para se despedir dos velhos, todos queriam mostrar gratidão pela ceia, pelos presentes, e pelo fato deles serem ricos.

- Papai, já estamos indo.
- Mas já, filha? Os moleques estão se divertindo, fica mais um pouco com eles... Escuta, você recebeu o envelope, né?
- Recebi sim, papai, muito obrigada.
- E você vai comprar o Toyota, mesmo? Aquele Toyota parece bom.
- Nossa, adorei aquele Toyota, você tá certo, é lindo, vou lá essa semana com o César. Né, César? César!

Estava olhando fixamente para a gravata borboleta do velho, sem nenhum motivo, perdido nos próprios pensamentos. Pareceu assustado quando a mulher o chamou. O velho e a filha também se assustaram, não era um comportamento típico dele,     sempre atento e cheio de si.

- Desculpa, eu... Estava distraído.
- Haha, tô vendo que gostou do vinho, hein, César?
- Sim, Seu Mário, muito bom vinho.
- Português, encomendei vinte garrafas, já deve ter acabado tudo. Mas vem cá, já sabe onde vai investir aquele dinheiro?
- Eu... Não.
- Não?!
- Não.
- Mas como não? E aquele negócio? Você não disse que era certo? Ficou dois meses me convencendo...  Mas tudo bem, hoje é Natal. Vamos falar sobre isso outro dia, não quero me estressar.
- Sim, e... Deve ser o vinho.
- É, é um bom vinho.

Voltou dirigindo de forma automática, mal ouvindo o que Valéria dizia, concordando com tudo, os filhos dormindo no banco de trás. Chegou em casa com a mulher preocupada, ele seguiu culpando o vinho, uma noite bem dormida e no dia seguinte já estaria bem. Foram se deitar. Esperou a mulher dormir, pegou algumas cuecas, poucas camisas, chinelo, uma bermuda, jogou tudo numa maleta e saiu de casa. Já dentro do carro pensou que seria melhor passar no escritório antes. Parou num posto, e pediu para o frentista encher uma garrafa pet com gasolina. Chegou no escritório e pegou os maços de dinheiro no cofre, já era o suficiente para pelo menos começar. Deixou o cofre aberto, deu comida para os peixes, espalhou gasolina por tudo e acendeu um fósforo. De lá foi direto para o aeroporto. Viu os vôos disponíveis, e o mais próximo que conseguiu comprar saía em duas horas para Miami. Sentado em frente ao portão de embarque , lembrou que ainda estava usando aliança. Jogou no lixo junto com seu Rolex, que foi o suficiente para o faxineiro do aeroporto passar a ir trabalhar de Fusca. Chegando em Miami, perguntou se não havia algum vôo disponível pra uma ilha pequena qualquer do Caribe. Estava com sorte, naquele mesmo dia sairia um vôo para uma ilha dessas, que só recebia três vôos por mês, tinha menos de trinta mil habitantes e sobrevivia principalmente de pesca. Era exatamente o que César queria. Chegou na ilha próximo da meia-noite. Olhou dentro da bolsa, ainda tinha dinheiro sobrando. Um único táxi parado em frente ao aeroporto parecia o estar esperando, mas César preferiu andar. Andou, se afastou da cidade, pegou uma pequena estrada, passou por campos, outras cidades menores. Amanheceu e ele estava numa praia, ajudando os pescadores a puxarem uma rede ou algo do tipo. Parecia um bom lugar para ficar.

Comprou um barco e uma cabana. Se casou com uma nativa, bem mais nova. Teve filhos, menos chatos e mais morenos que os que ele deixou no Rio de Janeiro. O pouco que ganhava com a pesca era o suficiente para manter a família, estava vivendo a vida simples que estava procurando. Fingia para si e para os outros que não havia deixado nada nem ninguém no Brasil, com ele próprio a mentira funcionava bem, com os outros nem tanto. Os questionamentos da nova mulher acabavam sempre em brigas e ameaças, ele fugiu justamente para não precisar mais dar satisfações a ninguém, ter que se explicar a uma nativa de uma ilha que nem ao menos ninguém conhecia de nome era inaceitável para ele.

Com o tempo a influência de César entre os pescadores aumentou. Fingia falar línguas que não conhecia para impressionar os locais, e usava isso para negociar com os estrangeiros. Sua escolaridade relativamente alta o tornava respeitável e até temido pelos outros. De forma natural, se tornou um líder local. Todas as vendas agora passavam por ele, que conseguia preços melhores pelos peixes. Parou de pescar, e passou a alugar o barco para outros pescadores. Em pouco tempo metade dos barcos da pequena cidade eram dele.

Foi nessa época que o ceguinho voltou à sua cabeça. No começo apenas em sonhos, ou pesadelos. Via o cego comendo sua mãe, já há anos morta, enquanto ria para ele com os olhos cegos debochados. Em outros sonhos espancava por diversão os filhos que César havia deixado no Brasil, e parecia ficar especialmente satisfeito quando as crianças sangravam, ou se cagavam de dor. Algumas vezes sonhava apenas com ele sentado, o encarando, o mesmo sorriso torto no rosto. Acordava desses sonhos bastante transtornado, raramente voltava a dormir. Começou a beber para conseguir dormir, um rum local de muita qualidade. Então o cego passou a aparecer durante o dia, com ele acordado. Eram visões rápidas, mas que produziam forte efeito em César. Via o cego dançando Michael Jackson na praia, jogando como goleiro na pelada dos pescadores, voando entre os coqueiros, mudando números nos seus papéis. Duravam frações de segundos, mas estavam cada vez mais realistas.

César se livrou da cabana na praia, e comprou uma grande casa afastada dos pescadores. Passou a andar pela cidade com um belo carro americano, que ele podia parar onde quisesse sem ser incomodado. Sua mulher nunca esteve tão feliz, se deliciava com os olhares de inveja das amigas pobres, mesmo que o marido estivesse cada vez mais bêbado e paranóico. A riquesa repentina de César causou uma desconfiança natural nos pescadores, que a esse ponto já era quase uma certeza. Mas não entendiam o que ou como ele fazia, por isso não sabiam como agir.

Após um dia exaustivo de visões, rum, e discussões com pescadores, César teve seu sonho mais realista. Sonhou em detalhes com o ceguinho comendo sua mulher, de formas que ele mesmo nunca havia feito. Acordou a sacudindo.

- Que é isso, César, tá louco?!
- Um cego! Dando pra um cego!
- Que cego?!
- Você pensa que ele enxerga? Só porque ele olha pra você? Ele olha mas ele é cego, sua puta, cego!
- Me larga, seu bêbado!
- Sai os dois daqui!

As crianças entraram no quarto assustadas com o barulho. Assim que César gritou os dois meninos saíram em disparadas, com o pai correndo atrás. No corredor, conseguiu dar uma banda no mais novo, que caiu de cara no chão e começou a chorar. Enquanto César ria da queda, sua mulher escapava de casa. Ele percebeu, e foi atrás dela com uma garrafa de rum. Quando saiu de casa ela já estava correndo a uns vinte metros de distância, ele parou e jogou a garrafa o mais longe que pôde e, como num desenho animado, acertou exatamente na cabeça da mulher. Foi motivo para que ele sentasse na varanda e risse incontrolavelmente. A mulher se levantou atordoada, com a cabeça sangrando, e seguiu para a vila dos pescadores. Esses o encontraram na praça da cidade, tentando fugir de carro. O fato dele ter batido na mulher era uma justificativa boa demais para ser desperdiçada. O tiraram do carro, e começaram o espancamento. Socos, chutes, ele caiu de costas e continuaram batendo. Em meio à surra conseguiu sentir um toque leve de uma bengala na cabeça. Olhou para cima, e mesmo contra a luz alaranjanda do poste reconheceu os olhos debochados.

- Não disse que te manjava?
- É... Manjava.


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