terça-feira, 4 de outubro de 2011

O Telefonema


Acordou num susto e olhou para o relógio, eram três e vinte e três da manhã. Levantou a cabeça irritada, pois estava tendo um sonho agradável, algo relacionado a ela e às tartarugas ninja correndo atrás de seu marido para matá-lo. Ou “só para dar um susto”, como ela disse para as tartarugas, que deram um sorriso irônico e pediram o pagamento em pizza. Mas não deu tempo das tartarugas terminarem o serviço, pois ela tinha acabado de ser acordada por um telefone. Num primeiro momento achou que fosse o de casa, mas não era, tanto que seu marido continuava dormindo. Babando e roncando mais alto que o toque do aparelho, porém foi o toque que a fez acordar. Se lembrou de quando os filhos ainda moravam em casa, e de como ficava apavorada quando eles estavam na rua de madrugada, e o telefone tocava, e ela quase enfartava. Nunca aconteceu de ser nada sério, normalmente eram trotes, ou alguém bêbado, uma vez foi o irmão avisando que sua mãe havia morrido, mas nada que tivesse relação com os filhos soltos pela noite. Mas o telefone continuava tocando, e ela não conseguiria voltar a dormir enquanto ele não parasse. Deitou a cabeça no travesseiro, de olhos ainda abertos, esperando ele parar de tocar para poder fechar os olhos novamente. Porém o telefone tocava incessantemente, nem ao menos dava o intervalo comum entre uma tentativa e outra. Passaram-se alguns minutos, e mesmo a contra gosto ela levantou-se da cama para tentar descobrir de onde vinha o barulho. Abriu a janela, e percebeu que vinha da janela de cima. Morava lá uma senhora idosa e o marido, tinham filhos e netos. E se o telefonema fosse para avisar de alguma urgência com um deles, e os velhos por algum motivo não acordassem com o toque do telefone? Talvez tomassem remédios muito fortes, sim, provavelmente, doses de ansiolíticos maiores que o necessário. Era melhor matar um pouco de tempo, talvez ele parasse de tocar. Foi ao banheiro, bebeu água, ligou a tv da sala, assistiu alguns minutos de um programa evangélico, pessoas dando opiniões sobre o estupro, 65% diziam que sim, 35% que não, mas o telefone não parava, e ela pensava nas possibilidades. Poderia ser um acidente de carro, até com alguma criança envolvida, deus que me perdoe. Ou um sequestro, um sequestro relâmpago, o dinheiro em cinco minutos ou a filha dos velhos morria. Estava indecisa, mas nervosa demais para ficar parada, precisava fazer alguma coisa, de qualquer forma não conseguiria dormir até que aquilo se resolvesse. Calçou os chinelos, abriu a porta com cuidado para que o marido não acordasse, e mesmo de camisola subiu pela escada para o apartamento dos velhos. Um toque na campainha, um minuto e ela colou o ouvido na porta, nenhum barulho a não ser o telefone ensurdecedor. Tocou a campainha novamente, dessa vez com mais veemência. Ainda nada. Bateu na porta com força, sem se incomodar com os vizinhos.

- Dona Carmem!? Dona Carmem, abre a porta, o telefone!

Ainda nada.

- Dona Carmem, por favor! Atende, Dona Carmem! Pode ser importante!

Será que eles estavam em casa? Claro, eles estavam sempre em casa a essa hora, o máximo que faziam era ficar fora até às dez, hora em que o mercado fechava. Então porque não atendiam? Voltou para casa, novamente abrindo a porta com cuidado, o marido ainda roncava como um porco, e ela cada vez mais preocupada. Poderia ligar para a polícia, mas até eles chegarem... Fatalmente seria tarde demais, já estariam todos mortos, deus que me perdoe. Precisava agir. Entrou no quarto, o marido em sono profundo. Olhou pela janela, tinha o ar-condicionado na altura da cintura. Poderia subir nele. Dava para ver que a janela dos velhos também estava escancarada. Então primeiro subiria no ar-condicionado, depois poderia se agarrar aos tijolos em cima da janela, para trepar no ar-condicionado dos velhos, e entrar pela janela. O barulho era cada vez mais alto, mais perturbador, não tinha tempo para pensar. Subiu no ar. O marido acordou, com o barulho do aparelho reclamando do peso.

- Janaína, o que você tá fazendo?! Vai se matar, pelo amor de deus!
- É o telefone...

E o aparelho na penúltima prestação não aguentou os oitenta quilos e caiu do oitavo andar com a mulher, que enquanto caía não pensava na morte iminente, apenas lamentava ter de ficar sem saber o que dizia o telefonema. Com o barulho da mulher e do ar-condicionado se espatifando, e do marido gritando em desespero, finalmente os velhos acordaram, e a velha foi confusa atender o telefone.

- A-alô?
- Setembro chove?

sexta-feira, 15 de julho de 2011

O Ceguinho - Episódio 3

Vinha descendo a rua uma mulher razoavelmente nova, mas que parecia quase velha pela gordura, os filhos, os trabalhos. No colo um bebê maltratado, logo atrás um garoto pré-adolescente apagado, e ao lado, de mãos dadas com ela, uma menina, criança de dez anos, a mais feliz de todas, um imenso sorriso sem motivo, achando graça de tudo que via pela rua: os postes, as casas velhas mal conservadas, os cachorros vira-latas. De dentro dos ônibus era impossível os passageiros olharem para ela e não darem um sorriso, que quando ela percebia eram sempre retribuídos. Na rua todos paravam para falar com ela, e como ela era esperta, e engraçadinha, e alegre, e simpática, e bonitinha. Paravam velhas, e velhos, e outras crianças vinham brincar com ela, e todos a elogiavam, e em nenhum momento ela parava de brincar, de sorrir, de pular, de se divertir. Tinha uma beleza infantil graciosa, os dentinhos tortos, os olhos um pouquinho vesgos, os cabelos presos com marias-chiquinhas. Parou de sorrir quando viu um homem que estava na janela de um ônibus parado. Ele usava óculos escuros, e apesar de não conseguir ver seus olhos, ela sabia que ele olhava para ela, e ele sorria, mas ao contrário do que ela sempre fazia, não pôde sorrir de volta. Seguiu andando com a mãe e os irmãos, sentindo um certo mal-estar. O sinal abriu, o ônibus seguiu, parou no ponto mais próximo, e de lá saiu o homem, segurando uma sacola de compras em uma mão e uma bengala na outra. A menina, do outro lado da rua, olhava assustada enquanto o homem atravessava para o seu lado da calçada, sempre segurando o mesmo sorriso estranho no rosto. Ela segurou mais forte a mão da mãe quando percebeu que ele andava em direção a eles. E mesmo com os óculos muito escuros, ela tinha certeza que ele olhava para ela, com um sorriso congelado. Quando ele estava há uns três metros de distância, tropeçou e caiu, derrubando sua sacola plástica, espalhando limões, laranjas, e outras frutas que se espalham facilmente pela calçada.

- Ô meu Deus, o ceguinho caiu... Vai lá, Cristiano, ajuda o moço! Vai você também, Luana, vai!

Mas Luana apenas se agarrou mais ainda à saia da mãe, enquanto olhava com medo seu irmão apagado ajudando aquele homem, que só agora ela sabia ser cego.

- Que isso, Luana, que vergonha é essa? Vai ajudar o moço, vai!
- Não... Não quero...
- E desde quando... Ô moço, tá tudo bem com o senhor?
- Sim, tudo bem, não foi nada.
- Aí, meu filho pegou as compras pro senhor.
- Ah, obrigado filho, deus te abençoe. E essa menininha envergonhada aí atrás, quem é?

Luana tentou se enconder atrás da mãe, se esconder de um cego, que ela não entendia por que sentia dele um medo mortal. Parecia a ponto de chorar.

- Que é isso, Luana?! Sai daí, fala aqui com o moço!

Mesmo segurando o bebê, a mãe a agarrou com o braço direito e a jogou para frente do cego.

- Que bicho te mordeu?, você não é assim! Essa menina não pára, moço, você precisa ver... Ai meu deus, desculpa!
- Que é isso, não se preocupe. Tudo bem, Luana?

E estendeu a mão para que ela o cumprimentasse. Ela estendeu o bracinho trêmulo, e teve que engolir o choro quando sentiu as mãos frias do cego entre a sua.

- Essa menina não pára nunca... Tá sempre rindo, correndo, não pára um segundo... Fala com todo mundo, todo mundo fala como ela é bonita, simpática... Né, Luana?

A menina balançou a cabeça positivamente sem tirar os olhos do cego.

- Que bom. E é bom que ela aproveite, porque isso não vai durar pra sempre. Obrigado pela ajuda, até logo.
- Tchau, moço. Dá tchau, Luana!

Mas ela não conseguia se mover. Ficou paralisada olhando o homem ir embora, com a imagem daquele sorriso congelado e da frase que ela não entendeu bem na cabeça. Foi preciso receber um tapa da mãe para que continuasse andando para casa. Seguiu de mãos dadas com a mãe, que segurava o bebê no colo, e o irmão pré-adolescente apagado logo atrás. Mas agora não conseguia rir, não achava mais graça nos carros velhos, nas barraquinhas de comida, nas pessoas. E o mesmo parecia acontecer com os outros, crianças passavam e não reparavam nela, não a chamavam para brincar. Velhos e velhas pareciam a ignorar, um casal desses parou, conversou com a mãe e brincou com o bebê, mas para Luana apenas um até logo por simpatia obrigatória, o mesmo que faziam com seu irmão. Chegaram em casa, e Luana se trancou no banheiro. Sentou na privada tentando entender o que aquela frase significava, mas o sorriso largo e estranho do cego não a deixava pensar direito. Primeiro chorou, deixou que as lágrimas secassem e se olhou no espelho. Tinha a pele muito oleosa, os dentes tortos que nunca receberam tratamento adequado, era ridiculamente vesga, e a maria-chiquinha a deixava com cara de retardada. Arrancou os elásticos do cabelo, lavou o rosto vigorosamente, mas não adiantava, se olhava no espelho e continuava se sentindo asquerosa. Nunca se sentira assim antes. Saiu do banheiro transtornada, mas com o maior sorriso que conseguia fingir no rosto.

- Que é isso, Luana, que cara é essa?!
- Nada, mãe! Tô feliz, como sempre! Posso ir na rua brincar, posso?
- Não sei... Você tá bem? Tá com uma cara meio estranha...

Ao ouvir isso o sorriso se fechou imediatamente.

- Infelizmente é a única que eu tenho.

E saiu de casa batendo a porta, com sua mãe chamando seu nome. Colocou o sorriso falso de volta, e cruzou com um casal de velhos. Parou no meio da calçada os encarando, o sorriso maior que nunca, esperando carinhos, elogios. Os velhos se assustaram, e passaram tentando desviar dela, pelo cantinho da calçada.

- Espera! Vocês não vão dizer nada, nada?
- Falar o quê, menina?
- Não sei... O que é que tá faltando? A maria-chiquinha, é isso? Ah, é isso, né? Eu vou pra casa colocar, eu vou!
- Ai meu deus, o que é que ela tá falando?
- Não sei... Deve querer dinheiro... Toma aqui, toma, vai embora, chispa!

E o velho jogou umas moedas na direção de Luana, que sem saber o que fazer as catou, segurando o sorriso, mesmo com vontade de chorar. Seguiu andando, parou em frente a um camelô, que entre outras coisas vendia um espelhinho, pendurado na frente da barraca. Ela parou e se olhou no espelho, e parecia ter ficado ainda mais grotesca, os dentes ainda mais tortos, e podres, a pele além de oleosa cheia de cravos e espinhas, os olhos que pareciam não se decidir pra onde olhar, os cabelos despenteados, de aparência suja, ela toda parecia suja. Chorava, mas mantinha o sorriso largo no rosto. Andou até uma pracinha, onde crianças brincavam com uma bola. Com os olhos e o rosto cheio de lágrimas perguntou se poderia brincar também. As crianças se assustaram com ela, com a pergunta, e pararam de brincar, ficaram sem reação.

- Eu... Não sei.
- Não sabe? Por que não sabe? Dá aqui a bola, dá? Me deixa brincar!

Tentou tirar a bola do menino, que se afastou. Andou novamente em direção a ele, pedindo a bola. Ele começou a correr, e ela correu atrás.

- Mãe, mãe, socorro! A menina, mãe, a menina!

E o moleque se escondeu atrás da mãe, que olhou com estranheza e ódio para Luana, que por sua vez se esforçava para manter o sorriso, agora já completamente torto e fora do lugar.

- Que é isso, menina, o que você quer com o meu filho?
- Eu? Nada, eu só quero brincar, por que ele não me deixa brincar?
- Você?

A mulher olhou Luana da cabeça aos pés e dos pés à cabeça, tentando entender aquela criatura.

- Tá louca, menina? Já se olhou no espelho?
- Eu.. Já! Já me olhei no espelho! E por que eu não posso brincar? Eu sou bonitinha, e simpática, e graciosa, e inocente, e as pessoas gostam de mim, e as crianças querem brincar comigo, e os velhos me dão presentinhos... Então por que eu não posso brincar?! Eu quero brincar!
- Calma, menina, mas você não pode...
- Posso! Posso! Eu sou engraçadinha, quer ver, quer ver como eu sou engraçadinha?

E Luana começou a dançar uma dança perturbadora, as pernas e os braços totalmente fora de sincronia, fora de qualquer ritmo conhecido. E quanto mais as pessoas olhavam espantadas, mais ela se esforçava, dançando mais rápido, com mais força, cada vez segurando menos o sorriso, até o perder completamente, as lágrimas correndo livres, a dança cada vez mais frenética, até o ponto em que não teve mais energia, e se deixou cair no chão de terra batida. O rosto cheio de lágrimas e catarro se misturava à terra, estava com a boca encostando no chão, ela nunca esteve tão suja, os cabelos, o vestido. E seguia chorando, sem que ninguém se incomodasse ou a incomodasse. Passaram-se quinze, vinte minutos, e ela permanecia na mesma posição, o choro aos poucos indo embora. Meia hora e viu um par de sapatos pretos parar à sua frente. Já sabia de quem era, apesar de não ter reparado nos sapatos dele no primeiro encontro. Com o mesmo sorriso congelado ele se abaixou, e ofereceu uma laranja, que ela de pronto aceitou.

- Passou rápido, não passou?
- Mais do que eu esperava.

quarta-feira, 30 de março de 2011

No Meio Do Poço

Já estava há três horas ali, imóvel, agarrado com todas as forças a uma corda que parecia razoavelmente resistente. Gritava por ajuda, mas ninguém parecia ouvir, apesar do poço estar em um lugar com certo movimento. Com a sede e o cansaço seus gritos já não eram mais tão altos ou intensos, mas mesmo assim uma cabeça surgiu no topo do poço.

- Ei! Amigo, me ajuda, eu caí aqui no poço!
- Caiu?
- Caí, tô há mais de três horas aqui, gritando, ninguém me ouve!
- Mas você tá no fundo? No fundo do poço?
- Não... Na metade, mais ou menos.
- Tá machucado?
- Não, acho que não.
- Tá com a corda aí, né?
- Tô, tô agarrado nela.
- Então... Por que não sobe?
- Porque não consigo! Não consigo sair!
- Já tentou?
- Claro que já tentei, mas não consigo, não consigo!
- Acho que você deveria tentar mais. Você tem a corda aí, é só subir por ela. Rapaz novo, saudável... Força de vontade, rapaz!
- Mas você não entende, eu não consigo! Simplesmente não consigo! Será que não dá pra me puxar pela corda?

O homem pensou por alguns segundos, enquanto no meio do poço o desgraçado implorava baixinho.

- Não... Não vai dar, não. Esse é o tipo de coisa que você tem que resolver sozinho.
- Mas eu...
- Boa sorte, tudo de bom, desculpa qualquer coisa.

O desespero aumentou e as forças diminuíram quando viu o homem indo embora. Tentava seguir seu conselho, tirar forças de algum lugar escondido, mas não subia sequer dois centímetros. A primeira noite foi muito difícil, mas por sorte choveu, o que o permitiu beber um pouco de água. A fome aumentava, mas não o incomodava muito, só conseguia pensar em porquê não conseguia sair do poço, e em como ele deveria pelo menos se manter no meio dele. Estava distraído, afundado nas próprias preocupações, quando sentiu uma cacetada na cabeça. Olhou para o alto e uma cabeça o olhava de volta.

- O que foi isso?
- Uma bíblia, o livro da verdade, ali está tudo o que você precisa saber pra sair do fundo do poço.
- Mas eu não estou no fundo, estou no meio.
- E apenas aceitando a palavra do Senhor terá força para se reerguer.
- Mas a bíblia caiu no fundo.
- Ah, sim... Quer que eu jogue outra?
- Não! Se eu soltar a corda pra pegar a bíblia eu caio.
- Pois para Jesus nada é impossível, largue esta corda e agarre com ambas as mãos as escrituras, e sairás salvo!

Jogou a segunda bíblia com raiva, e ela bateu com força na cabeça do infeliz, que pouco se mexeu, mesmo com a pancada.

- Por favor, será que não dá pra me ajudar só puxando a corda?
- Eu não tenho esse poder, sou apenas um servo do Senhor, só você pode aceitar Jesus no coração e se reerguer com a força da glória da unção da vitória de Nicodemo do...
- Tudo bem, não precisa, obrigado.

Enquanto tentava controlar a dor das mãos feridas pela corda, e o cansaço físico e mental, pensava no que tinha feito para ficar ali, preso no meio do poço. Não conseguia se lembrar em nada de específico, um tropeção ou qualquer coisa do tipo, apenas numa sequência de erros ao longo da vida, e mesmo que bem intencionados, todos com uma forte dose de culpa. Essas indagações não deixaram muito espaço para ele pensar em como sair dali, e seguia apenas se segurando enquanto podia. Desistiu de pedir ajuda, mas ainda via algumas cabeças fazendo paradas rápidas, curiosas com sua situação. Alguns davam um suspiro de pena, outros de reprovação, outros apenas uma olhada rápida sem expressão por pouco se importarem. Um velhinho jogou umas pipocas, como fazia com os pombos, e crianças se divertiram zombando e balançando a corda. Já havia desistido de qualquer reação, ainda remoendo os próprios erros. Foram três dias até que corpo e mente não suportaram mais, e ele caiu. Se estatelou no fundo, todo quebrado, as dores físicas e mentais nunca foram piores, mas mesmo semiconsciente pôde ver uma multidão se aglomerando, assustados com o barulho, desesperados para ajudar.

“Rápido, os bombeiros, polícia, uma corda, alguém vai descer?, já vamos te tirar daí, vai ficar tudo bem, parece que ele quebrou a coluna, fica tranquilo, etc.”

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

P.S. Inútil

Os comentários dos últimos textos foram apagados por acidente, não sei como nem porque, já que nem mexo nessas coisas. Não eram muitos, mas por favor não fiiquem ofendidos, juro que foi sem querer.
Trágico.

Sem Título #2

Desde o dia anterior estava com o telefone desligado, não queria qualquer distração além das que já tinha. Pouco dormiu, percebeu que tinha as mãos trêmulas quando pegou a xícara de café pela manhã. Seria a maior oportunidade que já tivera, a grande chance de mudar de vida, começar algo completamente novo, esquecer o passado, ser uma pessoa melhor, chegar perto de ser feliz. Respirou fundo e tentou se controlar. Tentava imaginar as coisas certas a se dizer, não sabia exatamente quais eram, mas tentava decorá-las mesmo assim. Ainda tinha algumas horas para se preparar. Separou a melhor roupa, colocou numa pasta tudo o que poderia precisar, checou tudo duas vezes, repetiu milhares de dircursos e possíveis diálogos na própria cabeça. Almoçou a comida do dia anterior, comeu pouco, o nervosismo o deixou enjoado. Tomou banho, se arrumou com calma e cuidado, queria estar perfeitamente alinhado, em frente ao espelho aparou um por um os fios de cabelo desregrados, escovou os dentes pelo menos três vezes, usou perfume, coisa que nunca fazia. O tempo todo pensando na melhor maneira de se portar, de falar, de cumprimentar, de rir. Tentava diminuir a ansiedade imaginando em tudo o que viria se aquilo desse certo, a possibilidade dos sonhos e planos improváveis darem certo. Estava mais de uma hora adiantado, era um bom tempo para sair de casa sem se preocupar em se atrasar. Dentro do ônibus seu corpo tentava tremer, ele tentava controlá-lo  respirando fundo e fechando os olhos. Conhecia a rua, desceu do ônibus para procurar pelo número a pé. Estava suando, mesmo andando devagar, passou a andar mais devagar ainda, ainda tentando parar de tremer e parecer estranho. Andou por uns quinze minutos, e a rua terminou. Nervoso e distraído, deve ter passado direto pelo lugar, tudo bem, ainda tinha tempo. Andou mais um pouco. Parou. Era para ser ali. Ali que o mapa apontava, ali que o endereço dizia, mas não era ali. Talvez fosse a rua de trás. Deu a volta, foi para a rua anterior, não achou. Andou a rua anterior inteira, e voltou para a que estava. Agora já andava rápido, nervoso, manter a calma não era mais algo a ser considerado. Voltou ao mesmo lugar para onde o mapa indicava, mas não era ali. Parou duas pessoas na rua, uma não conhecia o lugar, a outra nunca havia ouvido falar. Estava dez minutos atrasado. Deu uma volta no quarteirão, voltou para o mesmo lugar. Vinte minutos atrasado, era melhor voltar para casa. Voltou com a cabeça explodindo com toda a angústia dos sonhos e oportunidades perdidas, mas ao mesmo tempo aliviado por não precisar passar por aquilo. Chegou em casa sem pressa, cozinhou um miojo, e assistiu televisão até pegar no sono.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

O Ceguinho - Episódio 2

Na ceia de natal na casa dos pais ricos da esposa, César estava pensativo e distraído, mas devido à sua natural habilidade de fingir simpatia quando necessário, poucos perceberam. A casa estava cheia, duas grandes mesas com muitos convidados, não só familiares. Mais da metade ele nem conhecia, de nenhum ele gostava. Como sempre, a maior parte das conversas girava em torno de dinheiro, presentes, presentes que se compram com dinheiro, presentes que poderiam ser comprados com muito mais dinheiro. As crianças bajulavam os avós pensando no que poderiam ganhar, perguntavam o que estava dentro das caixas. Os adultos também puxavam o saco dos velhos, mas não pelos presentes perto da árvore. Ele que tanto fez para chegar e permanecer ali, agora se perguntava se valia a pena. Sentado à mesa, sentiu um par de olhos o encarando. Era um homem que ele não conhecia, do outro lado da mesa, há umas cinco cadeiras de distância. César acenou com a cabeça e deu seu costumeiro sorriso falso, mas o homem seguiu o encarando sem reação, apenas um leve sorriso no rosto. César achou estranho, mas tentou ignorar. Voltou para a conversa da esposa, mas continuou sentindo os olhos em suas costas. Esperou uns instantes e voltou a olhar para o homem, que parecia não ter se movido, e continuava o encarando. Dessa vez César não encenou, fechou o rosto e balançou a cabeça como quem pergunta qual é o problema, mas o homem seguia impassível.

- …e é full hd, mas faz mais de um mês que eu comprei e até hoje não entregaram.
- Valéria... Com licença, dona Sônia. Valéria, quem é aquele cara me encarando?
- Te encarando?
- É, me encarando.
- Tá maluco, César? Não tem ninguém te encarando.
- Como não, porra, aquele ali do lado da Carol.
- Do lado esquerdo?
- É!
- Ai, César, brincadeira de mau gosto...
- Hein?
- Ele é cego, não tá vendo?

César sentiu um frio na espinha quando percebeu que o homem era mesmo cego, ao mesmo tempo em que tinha certeza que ele continuava o encarando. E permaneceu o encarando durante o resto da ceia, César mal tocou no peru. E continuou sentindo aqueles olhos cegos o resto da noite inteira, tentando se acalmar com vinho, tendo pouco resultado. Só no fim da noite, quando o ceguinho estava indo embora, é que foram apresentados.

- Ah, César, deixa eu te apresentar aqui um amigo nosso. Seu José, esse aqui é o César, marido da Valéria.

De perto os olhos dele pareciam maiores, menos cegos, debochados, reprovadores.

- Muito prazer, seu José...

O cego apertou a mão de César, e lhe disse ao pé do ouvido:

- Eu te manjo.

Soltou a mão e abriu um grande sorriso, e saiu com sua bengala de cego e segurando no braço de sua acompanhante. Aquela frase ficou ecoando na cabeça de César, e agora ele já não tinha mais a mesma facilidade para esconder sua perturbação.

- Tudo bem, César?
- Tá.
- Tá estranho.
- Não sei, deve ser o vinho.
- E você vai dirigir assim, né?
- Vou.
- Vem, vamos nos despedir dos meus pais.

Havia uma espécie de fila informal para se despedir dos velhos, todos queriam mostrar gratidão pela ceia, pelos presentes, e pelo fato deles serem ricos.

- Papai, já estamos indo.
- Mas já, filha? Os moleques estão se divertindo, fica mais um pouco com eles... Escuta, você recebeu o envelope, né?
- Recebi sim, papai, muito obrigada.
- E você vai comprar o Toyota, mesmo? Aquele Toyota parece bom.
- Nossa, adorei aquele Toyota, você tá certo, é lindo, vou lá essa semana com o César. Né, César? César!

Estava olhando fixamente para a gravata borboleta do velho, sem nenhum motivo, perdido nos próprios pensamentos. Pareceu assustado quando a mulher o chamou. O velho e a filha também se assustaram, não era um comportamento típico dele,     sempre atento e cheio de si.

- Desculpa, eu... Estava distraído.
- Haha, tô vendo que gostou do vinho, hein, César?
- Sim, Seu Mário, muito bom vinho.
- Português, encomendei vinte garrafas, já deve ter acabado tudo. Mas vem cá, já sabe onde vai investir aquele dinheiro?
- Eu... Não.
- Não?!
- Não.
- Mas como não? E aquele negócio? Você não disse que era certo? Ficou dois meses me convencendo...  Mas tudo bem, hoje é Natal. Vamos falar sobre isso outro dia, não quero me estressar.
- Sim, e... Deve ser o vinho.
- É, é um bom vinho.

Voltou dirigindo de forma automática, mal ouvindo o que Valéria dizia, concordando com tudo, os filhos dormindo no banco de trás. Chegou em casa com a mulher preocupada, ele seguiu culpando o vinho, uma noite bem dormida e no dia seguinte já estaria bem. Foram se deitar. Esperou a mulher dormir, pegou algumas cuecas, poucas camisas, chinelo, uma bermuda, jogou tudo numa maleta e saiu de casa. Já dentro do carro pensou que seria melhor passar no escritório antes. Parou num posto, e pediu para o frentista encher uma garrafa pet com gasolina. Chegou no escritório e pegou os maços de dinheiro no cofre, já era o suficiente para pelo menos começar. Deixou o cofre aberto, deu comida para os peixes, espalhou gasolina por tudo e acendeu um fósforo. De lá foi direto para o aeroporto. Viu os vôos disponíveis, e o mais próximo que conseguiu comprar saía em duas horas para Miami. Sentado em frente ao portão de embarque , lembrou que ainda estava usando aliança. Jogou no lixo junto com seu Rolex, que foi o suficiente para o faxineiro do aeroporto passar a ir trabalhar de Fusca. Chegando em Miami, perguntou se não havia algum vôo disponível pra uma ilha pequena qualquer do Caribe. Estava com sorte, naquele mesmo dia sairia um vôo para uma ilha dessas, que só recebia três vôos por mês, tinha menos de trinta mil habitantes e sobrevivia principalmente de pesca. Era exatamente o que César queria. Chegou na ilha próximo da meia-noite. Olhou dentro da bolsa, ainda tinha dinheiro sobrando. Um único táxi parado em frente ao aeroporto parecia o estar esperando, mas César preferiu andar. Andou, se afastou da cidade, pegou uma pequena estrada, passou por campos, outras cidades menores. Amanheceu e ele estava numa praia, ajudando os pescadores a puxarem uma rede ou algo do tipo. Parecia um bom lugar para ficar.

Comprou um barco e uma cabana. Se casou com uma nativa, bem mais nova. Teve filhos, menos chatos e mais morenos que os que ele deixou no Rio de Janeiro. O pouco que ganhava com a pesca era o suficiente para manter a família, estava vivendo a vida simples que estava procurando. Fingia para si e para os outros que não havia deixado nada nem ninguém no Brasil, com ele próprio a mentira funcionava bem, com os outros nem tanto. Os questionamentos da nova mulher acabavam sempre em brigas e ameaças, ele fugiu justamente para não precisar mais dar satisfações a ninguém, ter que se explicar a uma nativa de uma ilha que nem ao menos ninguém conhecia de nome era inaceitável para ele.

Com o tempo a influência de César entre os pescadores aumentou. Fingia falar línguas que não conhecia para impressionar os locais, e usava isso para negociar com os estrangeiros. Sua escolaridade relativamente alta o tornava respeitável e até temido pelos outros. De forma natural, se tornou um líder local. Todas as vendas agora passavam por ele, que conseguia preços melhores pelos peixes. Parou de pescar, e passou a alugar o barco para outros pescadores. Em pouco tempo metade dos barcos da pequena cidade eram dele.

Foi nessa época que o ceguinho voltou à sua cabeça. No começo apenas em sonhos, ou pesadelos. Via o cego comendo sua mãe, já há anos morta, enquanto ria para ele com os olhos cegos debochados. Em outros sonhos espancava por diversão os filhos que César havia deixado no Brasil, e parecia ficar especialmente satisfeito quando as crianças sangravam, ou se cagavam de dor. Algumas vezes sonhava apenas com ele sentado, o encarando, o mesmo sorriso torto no rosto. Acordava desses sonhos bastante transtornado, raramente voltava a dormir. Começou a beber para conseguir dormir, um rum local de muita qualidade. Então o cego passou a aparecer durante o dia, com ele acordado. Eram visões rápidas, mas que produziam forte efeito em César. Via o cego dançando Michael Jackson na praia, jogando como goleiro na pelada dos pescadores, voando entre os coqueiros, mudando números nos seus papéis. Duravam frações de segundos, mas estavam cada vez mais realistas.

César se livrou da cabana na praia, e comprou uma grande casa afastada dos pescadores. Passou a andar pela cidade com um belo carro americano, que ele podia parar onde quisesse sem ser incomodado. Sua mulher nunca esteve tão feliz, se deliciava com os olhares de inveja das amigas pobres, mesmo que o marido estivesse cada vez mais bêbado e paranóico. A riquesa repentina de César causou uma desconfiança natural nos pescadores, que a esse ponto já era quase uma certeza. Mas não entendiam o que ou como ele fazia, por isso não sabiam como agir.

Após um dia exaustivo de visões, rum, e discussões com pescadores, César teve seu sonho mais realista. Sonhou em detalhes com o ceguinho comendo sua mulher, de formas que ele mesmo nunca havia feito. Acordou a sacudindo.

- Que é isso, César, tá louco?!
- Um cego! Dando pra um cego!
- Que cego?!
- Você pensa que ele enxerga? Só porque ele olha pra você? Ele olha mas ele é cego, sua puta, cego!
- Me larga, seu bêbado!
- Sai os dois daqui!

As crianças entraram no quarto assustadas com o barulho. Assim que César gritou os dois meninos saíram em disparadas, com o pai correndo atrás. No corredor, conseguiu dar uma banda no mais novo, que caiu de cara no chão e começou a chorar. Enquanto César ria da queda, sua mulher escapava de casa. Ele percebeu, e foi atrás dela com uma garrafa de rum. Quando saiu de casa ela já estava correndo a uns vinte metros de distância, ele parou e jogou a garrafa o mais longe que pôde e, como num desenho animado, acertou exatamente na cabeça da mulher. Foi motivo para que ele sentasse na varanda e risse incontrolavelmente. A mulher se levantou atordoada, com a cabeça sangrando, e seguiu para a vila dos pescadores. Esses o encontraram na praça da cidade, tentando fugir de carro. O fato dele ter batido na mulher era uma justificativa boa demais para ser desperdiçada. O tiraram do carro, e começaram o espancamento. Socos, chutes, ele caiu de costas e continuaram batendo. Em meio à surra conseguiu sentir um toque leve de uma bengala na cabeça. Olhou para cima, e mesmo contra a luz alaranjanda do poste reconheceu os olhos debochados.

- Não disse que te manjava?
- É... Manjava.