domingo, 12 de setembro de 2010

O Ceguinho - Episódio 1

Acordou antes do despertador. Levantou da cama com cuidado, para que não acordasse sua mulher. Entrou no banheiro com o coração acelerado, agitado e com uma leve alegria. Foi para debaixo do chuveiro, tentando se acalmar e lembrar mais claramente do sonho. Lembrava do motivo principal da sua excitação, Helena. Helena estudou vários anos com ele na escola, a última vez que a viu deveria ter em torno de 15 anos. Era fascinado pela beleza de Helena, que nem todos consideravam tão bonita. À primeira vista diriam que era uma garota sem qualquer qualidade especial, e à segunda vista provavelmente também. Mas, talvez por também ser pessoa sem grandes qualidades, ele sentia grande atração por ela. Na época tentava disfarçar, desviava o olhar se ela por acaso olhasse para ele, tentava não fixar os olhos nas pernas dela durante as aulas, evitava sentar atrás dela para que não fosse pego cheirando seus cabelos, entre outras coisas. Naturalmente, Helena sempre o ignorou. Raramente trocavam palavra. Quando trocavam, era sempre breve e constrangedor, Helena parecia perceber a perturbação dele quando falava com ela, e a troca de olhares era rápida e estranha pelas duas partes. Há muitos anos não pensava nela, até ela aparecer naquele sonho. No sonho ela estava mais velha, naturalmente, agora era uma mulher. Estava ainda mais bonita, mais alta, os seios e a bunda maiores. Sabia que o sonho havia sido grande, mas só conseguia se lembrar de uma pequena parte. Estavam em uma espécie de reunião entre amigos. Era noite, em uma casa em que nunca havia estado, nem em sonhos. Estavam num sofá grande e confortável, do tipo que faz curva, os dois e mais algumas pessoas, talvez outro casal, ou duas mulheres. Helena usava uma roupa confortável, deveria ser algo para dormir, um short bem curto, uma camiseta velha. Estava deitada de bruços, com os cotovelos apoiados no sofá. Ele ao seu lado, sentado de forma relaxada. Conversavam descontraidamente, de um jeito que nunca conversariam na realidade. Foi então que, entre uma risada e outra, ela vagarosamente levou o rosto em direção ao dele, e os dois ficaram com os rostos frente a frente, os lábios quase se tocando. Mas ele sabia, no sonho, que ela não fez isso para beijá-lo, havia algum motivo prático naquele gesto que ele não conseguia se lembrar qual, mas que dentro do sonho parecia fazer sentido. Não conseguia se lembrar de muita coisa além desse ponto. No entanto, mesmo tendo sido só um quase beijo de menos de um minuto de sonho, não se lembrava de ter se sentido tão bem alguma vez quanto naquele momento de sonho. E ficava repetindo aquele momento na mente, o rosto dela parado de frente ao seu, a linda bunda virada para o alto, os peitos quase aparecendo pela gola da camiseta velha. Era uma sensação doce de quase felicidade, que ele só lamentava não ter durado mais tempo, e com mais profundidade.

Saiu de casa rápido, não queria esperar que a esposa acordasse. Tomou um café na padaria, pegou um ônibus, entrou no metrô, tudo de forma automática, estava completamente distraído, repassando o sonho, tentando lembrar momentos novos, ou até inventá-los. Sentou em uma cadeira especial no metrô, daquelas para velhos, grávidas e coisas do tipo, e acabou adormecendo. Só acordou três estações mais tarde, após sentir uma bengalada na canela. Abriu os olhos e viu um cego de óculos escuros parado à sua frente. Levantou-se na mesma hora, cedendo o lugar para o ceguinho.

- Desculpe, senhor, é que eu acabei dormindo, eu...
- Tudo bem. Quando os sonhos são melhores que a vida, dá vontade de dormir o tempo inteiro.

O cego disse isso ao mesmo tempo em que se sentava, e depois se calou, com um leve sorriso no rosto. Sentiu uma perturbação imediata com a frase do cego, e não conseguiu responder. Apenas disfarçou com um sorriso simpático, que infelizmente o cego não viu. Agora, além do sonho, não conseguia parar de pensar na frase do cego. A inquietação em sua cabeça aumentava, assim como a vontade de que o sonho durasse mais tempo. Chegou ao trabalho sem ouvir os bom-dias. Sentou em seu posto e não demorou muito para que caísse no sono. Acordou com um forte esporro do chefe, que improvisou um breve discurso o humilhando para que todos ouvissem. Em qualquer outra ocasião, ele mandaria o chefe tomar no cu e pediria demissão na mesma hora, mas naquele dia ele simplesmente não conseguia se importar. Voltou ao trabalho, e voltou ao sono. Dessa vez, o chefe foi ainda menos calmo e gentil, e o mandou para o olho da rua, usando essas mesmas palavras ridículas, “para o olho da rua”. Surpreendendo a todos, ele apenas respondeu que tudo bem, e saiu. Saiu sem saber para onde. Sentia uma inquietação cada vez mais forte, e não sabia como fazê-la parar. O que o fazia sentir melhor era a lembrança daquele momento de sonho, aquele quase beijo, e a cada lembrança pareciam surgir elementos novos, o cheiro de Helena, a luz da sala, a cor de seus olhos. Já conseguia ver aquele momento de ângulos diferentes, em primeira pessoa, de cima, por trás do sofá. Pegou um ônibus, sem se importar para onde o levaria. Adormeceu no banco, tentando sonhar com aquele momento de novo, com momentos melhores que aquele. Foi acordado com dificuldade no ponto final, sem saber direito onde estava. A vontade de dormir era cada vez mais forte, mal conseguia se manter de pé. Foi andando pela rua cambaleando, como um bêbado, quando viu uma velha gorda andando em sua direção. Era Helena. Nem de longe a Helena dos tempos de escola, muito menos a de seus sonhos, mas era Helena. Seus cabelos estavam secos, despenteados, usava um par de óculos gigantes, estava sem maquiagem, a boca meio torta e emburrada, o corpo gordo e velho, ia levando um poodle preto e encardido por uma coleira. Ele parou no meio da calçada, atônito, e no momento em que ela passava trocaram os mesmos olhares estranhos de quando eram adolescentes. Helena, naturalmente, fingiu que não o reconheceu, e seguiu seu caminho, catando com um saco plástico o cocô que o poodle deixava pela calçada. Ele, mais perturbado que nunca, sem conseguir entender os próprios pensamentos, seguiu andando cambaleante até encontrar uma estação de metrô. Entrou e sentou no mesmo banco para pessoas especiais, mas dessa vez o sono em que caiu era profundo demais para que qualquer bengalada o acordasse, por mais forte que fosse.