segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Síndrome do Paradoxo Catatônico

A síndrome do paradoxo catatônico, ou SPC, é um transtorno caracterizado pelo estado de ausência de respostas a estímulos externos e pela repetição de pensamentos e movimentos de uma pessoa decorrente de uma situação paradoxal. Ao contrário de outros transtornos, não está associada a situações de estresse, depressão, ou demência, podendo se manifestar em qualquer indivíduo, saudável ou não. É considerada uma síndrome nova, já que o primeiro caso reconhecido surgiu em 1976.

Causas

Por ter surgido pela primeira vez, aparentemente, apenas em 1976, debate-se que substâncias ou hábitos modernos sejam os responsáveis pela SPC, apesar de nada ter sido comprovado. Alguns itens sugeridos como possíveis culpados são: Aspirina, alimentos industrializados, refrigerantes, televisão, desenhos animados, forno microondas, luz artificial de shopping-centers, macarrão instantâneo, transistors, bateria de relógios de pulso, empregos inúteis, conforto, entre outros. Em 1988, o cientista italiano Giacomo Panucci divulgou uma pesquisa em que associava os casos de SPC com o crescimento do costume da masturbação com revistas eróticas. Sua hipótese era que a tinta usada nas revistas, quando em contato com os órgãos sexuais masculinos, a longo prazo poderia provocar distúrbios mentais, em especial a síndrome do paradoxo catatônico. A comunidade científica argumentou que isso não explicaria os índices de SPC em mulheres, ao que o Dr. Panucci respondeu, “Por que não?”, o que, por sua vez, estimulou pesquisas sobre o uso de revistas pornográficas para fins masturbatórios por mulheres, deixando a relação disso com a SPC e a improvável hipótese original do Dr. Panucci de lado.

Primeiros Casos e Outros Dignos de Nota

O primeiro caso reconhecido da síndrome ocorreu em 1976, em São Paulo, e ficou conhecido na imprensa como “Caso Luizinho”. Luiz Pacheco das Neves, ou Luizinho, na época com 14 anos, sentou-se em frente à TV para assistir seu desenho favorito, Os Flintstones, ao mesmo tempo em que tomava um café com leite com biscoito maizena. Estava sentado no chão, encostado no sofá, enquanto a caneca e os biscoitos descansavam sobre a mesinha de centro da sala. Em uma das vezes em que foi molhar o biscoito na caneca, distraído com o desenho, o biscoito amoleceu, se partiu, e afundou na caneca, a outra parte ficando em sua mão. Porém, no momento em que o biscoito quebrou, a impressão de Luizinho foi que seu próprio braço havia se soltado, e por algum motivo caído na caneca de café com leite. Desesperado, Luizinho enfiou a cabeça na caneca, e, com dois dedos de cada mão, procurava freneticamente pelo braço perdido. Ao perceber quase imediatamente que não poderia ter perdido o braço se o estava usando, mas ao mesmo tempo com a certeza de que o braço havia caído na caneca, Luizinho entrou em paradoxo catatônico. Ao menos essa é a versão mais aceita, já que na hora não havia testemunhas. Luizinho permanece até hoje no mesmo lugar, se alimentando e fazendo outras necessidades através de tubos, como aliás acontece com todos os portadores da SPC. Por motivos históricos e científicos, é colocado todos os dias no mesmo lugar da sala, tem a mesma caneca à sua frente, sempre reabastecida com café com leite, e continua com a cabeça abaixada e os frenéticos movimentos para salvar seu braço. Na TV, episódios dos Flintstones em dvd passam 24 horas por dia. Para manter os custos de saúde de Luizinho, hoje com 38 anos, a família faz visitas guiadas pela casa, e ganha dinheiro com a venda de ingressos, de fotos dos visitantes ao lado de Luizinho, e de canecas iguais ao do perturbado.

O primeiro caso feminino ocorreu em um subúrbio de Londres, três anos mais tarde. Charlotte Curtis, na época com 21 anos, famosa na região por sua beleza e pelo interesse que provocava nos rapazes, costumava passar horas na frente de sua penteadeira, escovando seus cabelos escuros que quase chegavam à altura da cintura. Numa dessas vezes, ao virar a cabeça para a direita, Charlotte se assustou com o movimento de seu cabelo na esquerda, o que a fez virar a cabeça, e, mesmo percebendo que era apenas seu cabelo, se assustou novamente com o movimento dos cabelos, dessa vez  os da direita, a fazendo virar a cabeça bruscamente novamente, entrando em paradoxo catatônico. Sua mãe, Midge Curtis, argumenta a possível causa da SPC na filha: “Charlotte sempre teve muito medo de besouros, e aqui nós sempre tivemos muito besouros. Ela ficava apavorada quando entravam besouros em casa, principalmente os grandes. Algum tocar o seu cabelo seria o fim pra ela. Acho que isso que ela pensou que seu cabelo fosse, um besourão.” Um documentário da BBC sobre a doença, produzido na década de 90, tornou o caso de Charlotte conhecido mundialmente, especialmente na internet, onde imagens dela virando a cabeça freneticamente de um lado para o outro passaram a ser usadas como uma forma irônica de dizer não, sendo esse considerado por muitos o primeiro meme da internet.

A síndrome do paradoxo catatônico ganhou destaque recente na mídia com o sucesso dos livros de Johnathan Richards. Richards afirma ter entrado em paradoxo catatônico quando, deitado em sua cama assistindo televisão, usou seu sapato para mudar de canal, e o canal mudou. Olhou para o lado e percebeu que o controle estava em cima da cama, viu que havia mudado de canal com o sapato e entrou em paradoxo catatônico, e assim ficou por três meses, apertando um botão imaginário no sapato e olhando para a televisão. Pela sua versão da história, foi despertado da SPC por seu border colie, que, subindo em sua cama, usou a patinha para tirar o sapato de sua mãe, e o despertou latindo e lambendo seu rosto. Pouco depois, Richards descobriu que o cão estava com câncer, falecendo poucas semanas mais tarde. Desde então, Richard ganhou fama e dinheiro escrevendo sobre as reflexões que fez enquanto estava em paradoxo, e sobre as reflexões que fez após sair do paradoxo. Muitos especialistas questionam a veracidade da  SPC de Richards, como nesses trechos de um artigo do Dr. Patrick Larson: “...deitado na cama vendo tv, a posição mais confortável em que alguém já entrou em SPC.” “...dos poucos casos de pacientes que saíram da SPC, todos afirmam que durante a catotonia não pensavam em nada, e do momento que entravam ao momento que saíam da síndrome era como se houvesse passado apenas uma fração de segundo, mesmo que fossem anos, o que causa estranheza as reflexões do senhor Richards durante a doença.” ”….duvido que alguém já tenha visto essa porra de cachorro.” Mesmo com as denúncias de farsa, nunca comprovadas, Richards continua sendo um dos escritores mais vendidos da atualidade, e certamente a maior personalidade quando o assunto é SPC.

Tratamento

Não existe comprovação científica para qualquer tratamento de SPC, porém muitos são feitos em caráter experimental. Um dos primeiros foi o eletrochoque, que falhou em todos os testados, que além de continuarem com suas síndromes habituais, ainda adquiriram espasmos musculares involuntários, tornando os movimentos repetitivos de suas SPCs piores e caóticos. O uso de ansiolíticos é indicado por muitos médicos para a redução dos sintomas da SPC, sem tirar o indivíduo do paradoxo catatônico. Tem causado grande polêmica os métodos do mexicano Carlos Mendes. Ele afirma que a única maneira de tirar alguém da SPC é a viciando em crack. Um dos questionamentos que se faz ao Dr. Mendes é de como ele chegou a essa conclusão, algo que ele nunca respondeu apropriadamente. Mendes afirma já ter tirado mais de 20 pacientes da síndrome, todos hoje altamente viciados em crack. A dúvida se vale a pena trazer alguém de volta a realidade a viciando em crack é uma das questões mais complexas da ciência moderna.


Bibliografia:
PANNUCI, Giacomo: Da toxidade das tintas de revistas pornograficas e da relação delas com a SPC.
SUPLICI, Marta: Como se masturbar usando as revistas eróticas do seu marido.
NOGUEIRA, Esaú: A caneca de café-com-leite sem fundo - A história de Luizinho.
RICHARDS, Johnathan: Eu e meu sapato - Como meus três meses em paradoxo catatônico podem mudar a sua vida e os seus negócios.
RICHARDS, Johnathan: Toby, um anjo encarnado em um Border Collie.
LARSON, Patrick: A involução humana - Johnathan Richards e a burrice generalizada.
MENDES, Carlos: Crack é bom.

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