quarta-feira, 21 de julho de 2010

O Entrevistado

- ...Problema, amiga? Ah, Pastor... Minha vida, eu não sei o que acontece, parece que*click*

- ...400 reais. Agora. Apenas mais um minuto. Você sabe a resposta. Ache três nomes de posições sexuais no quadro, apenas três. Tá muito fácil. Você precisa ligar. Pára o relógio, pára! Quanto, produção? Quanto? Não, não acredito... 500 Reais, 500, meu Deus, a produção enlouqueceu, aproveita, liga agora, agora, lig*click*

- ...Porque a mão direita está ocupada, ora pois!*Risos da platéia* Ai, ai... Bom, hoje teremos aqui, lançando o livro "O Canal", que conta as aventuras dele como técnico de futebol no Panamá, o ex-zagueiro do América, Machadinho! *Aplausos* Teremos também ele, que está fazendo grande sucesso no programa Zorra Total com seu personagem Pica-Suja, o ator e humorista Beto Peres! *Aplausos e assovios* Além deles, vou conversar também com o corretor de seguros Lúcio Bosco de Melo!*Aplausos, gritos e assovios*

Não, não era possível. Ele devia ter entendido errado. Como ele poderia estar na televisão? Nunca esteve em um estúdio de televisão na vida... Ora, mas era claro que fora apenas impressão, as poucas horas de sono diárias finalmente estavam provocando alucinações... Provavelmente nada que uma noite de sono bem dormida não resolvesse. De qualquer forma, ficou curioso, e esperou o programa voltar dos comercias. Após o entrevistador contar algumas piadas óbvias e sem-graças retiradas da internet, mas que misteriosamente faziam todos rir, anunciou a primeira e mais importante entrevista da noite.

- Ele tem trinta e dois anos, nunca se casou, e há seis meses trabalha como corretor de seguros. Lúcio Bosco de Melo!

Seu corpo congelou, o controle remoto caiu de sua mão. Era ele se levantando, indo cumprimentar o apresentador, dando dois beijos em seu rosto, como se fosse um artista, algum ator de novela que gosta de forçar amizade. Continuou se olhando na Tv, sem acreditar, ainda com esperança de ser apenas alguém com o mesmo nome, e extremamente parecido com ele. O primeiro close, e era mesmo ele. Sentou na poltrona de entrevistado e cruzou as pernas como se fosse uma mulher, ou o Caetano Veloso. Cruza as pernas direito, pra que isso? Meu Deus, quase dá pra ver as bolas espremidas na calça cáqui! Cruza as pernas que nem homem, pelo amor de Deus!

- Lúcio de Melo, que prazer... Como você tá, querido?

- Bem, bem, e você? Ah, que bom... Se importa se eu beber um pouco? Sempre quis saber o que tinha nessa caneca... É água, viu, gente? É água...

Não, ele não podia ter dito aquilo. A coisa mais idiota que alguém pode fazer num programa desses! Exatamente o tipo de coisa que ele evitaria falar o máximo possível, que ele evitaria até sob tortura, que quando ele ouvia alguém falando na tv tinha vontade de espancá-la, agora ele dizia ali, para que milhões de pessoas vissem!

- É, é água, as pessoas pensam que não é água, mas é água... Aliás, você tem uma história muito interessante com água, não tem?

- É, é verdade, essa história é muito boa...

Não! Não é!

- Eu tinha uns dez anos, mais ou menos...

Em toda reunião familiar ouvia essa história, e sempre a odiou.

- ... estava andando na rua com a minha mãe, e comecei a reclamar, porque estava com muita sede.

Seus parentes pareciam fazer questão de contar essa história para qualquer pessoa quando ele estava presente.

- Então ela parou numa lanchonete e comprou um copinho d'água, daqueles bem difíceis de abrir. Bom, então comecei a tentar tirar aquela tampa de alumínio, mas estava difícil, parece que tinha mais cola que o normal. Minha mãe se ofereceu para abrir, mas eu não quis, queria mostrar que era capaz de abrir um copo d'água sozinho. Aí comecei a puxar com força, toda minha força, até que a tampa saiu e, claro, toda a água caiu na minha calça.*risos da platéia* Então eu estava ali, no meio da rua, andando como se estivesse todo mijado! Mas eu não podia deixar as pessoas pensando que eu mijei na calça, já tinha 10 anos, e por isso fui gritando para todos que passavam por mim: "Não é mijo, é água, é água! Parece que eu tô mijado, mas eu juro que é água!"*todos no estúdio riem muito*

Se lembrava muito bem daquele dia, que para ele nunca foi engraçado. Lembrava da dor que sentiu quando percebeu que as pessoas pensariam que ele havia mijado na calça. E de como começou a falar com as pessoas, coisa que ele não fazia com freqüencia, por desespero, desespero pelo que elas poderiam pensar. E aquela frase, que nunca o deixaram esquecer, ainda ecoava na sua cabeça. No entanto, agora estava na tv e contava a história rindo, se divertindo com a própria mocoronguice, mais uma vez se ridicularizando em público, mas dessa vez gostando.

- Ai, que maravilha... "Não é mijo, é água, é água!" Ótima essa história, excelente... Agora, ô Lúcio, você nunca se casou não é verdade?

- É, é verdade.

- E já esteve perto de se casar?

- Ah, sim, muito perto.

Não, essa não... Não para que todos ouçam...

- Foi a Jane, uma namorada que eu tive... Aliás, beijo, Jane!

Não!

- Nós ficamos juntos mais de três anos. E eu gostava muito dela, muito mesmo... A verdade é que ainda gosto, ainda a amo.*platéia faz sons insinuantes* Calma gente, calma, agora ela é casada com meu irmão!

- Com seu irmão?!

- Pois é, veja você... Estávamos noivos, já há mais de três anos juntos, quando ela conheceu meu irmão, que havia voltado ao Brasil depois de ser deportado dos Estados Unidos. Se deram bem logo de cara. Poucas semanas depois, ela disse que queria terminar. Nunca deu motivos muito convincentes, na época disse que o relacionamento não era mais o mesmo, que o problema era ela, não eu, que precisava de um tempo sozinha, acho até que falou alguma coisa sobre nossos signos não combinarem... Moral da história, três meses depois começou a namorar meu irmão, hoje são casados e têm dois filhos, e eu sempre finjo que está tudo bem, e que eles não começaram a fuder enquanto nós ainda éramos noivos! *todos riem*

Já estava de pé, olhando perplexo para aquela cena. Algo que ele nunca sequer insinuou, algo que ele tinha medo até que desconfiassem que ele imaginava, agora exposto para todos, e apenas para fazer rir. Pior, exposto para Jane e seu irmão. Na época pensou em confrontá-los, pensou em agredi-los, em lavar sua honra com sangue, mas, claro, não conseguiu, sequer chegou perto disso. Não tinha coragem de cortar relações com seu irmão. Não tinha coragem de eliminar as chances de, quem sabe, um dia voltar com Jane. E, com o passar dos anos, com o nascimento dos sobrinhos, o arrependimento pela passividade só crescia.

- Você está trabalhando com o que, mesmo?

E quem se importa?!

- No momento, como corretor de seguros.

- No momento? Quer dizer que você já mudou de emprego muitas vezes?

- Ah, sim, muitas... Infelizmente a classe dos idiotas não é muito reconhecida no Brasil...

- Pois você poderia vir trabalhar na tv, temos muitos idiotas bem pagos aqui!*risos*

Preferia a morte!

- Com certeza já trabalhei em lugares bem piores... Como nunca me formei, e não posso dizer que tenho uma profissão, por isso sempre pulei de trabalho ruim em trabalho ruim. Já fui caixa, office-boy, garçom... Na época em que namorei a Jane que consegui me estabilizar como bancário, mas claro que não durou muito depois que nos separamos...

- Que se separaram ou que ela te deu um fora?*muitos risos*

Gordo escroto!

- É, isso, que ela me deu um fora... Numa época de aperto trabalhei até numa carrocinha de cachorro-quente, mas fui demitido...

- Você conseguiu ser demitido de uma carrocinha de cachorro-quente?*todos riem*

Sim, conseguiu.

- Pois é, consegui. Quer saber como?

Por quê? Pra que contar isso? Para que todos sintam mais nojo do que já sentem dele? É o tipo de história em que se suborna as pessoas para que não contem aos outros, que nunca se conta por vontade própria!

- Foi num dia em que já havia errado bastante, o dono da carrocinha tinha passado o dia inteiro me dando esporro. Nessa hora ele havia saído para mijar, ou fumar, sei lá, quando derrubei o pote de ervilha. Aparentemente ninguém tinha visto, e eu, já de saco cheio das broncas, empurrei todas as ervilhas da calçada suja para dentro do pote. Algumas com a mão, outras com o pé, mesmo.*todos riem com nojo* Pois é, mas um cliente havia visto, me caguetou, e eu saí de lá tremendo, quase apanhando.

Ainda evitava passar na região em que ficava a carrocinha, para não correr o risco de encontrar alguém que soubesse do episódio. De tempos em tempos tinha pesadelos com o cliente, o dono da carrocinha, ervilhas, no entanto estava na tv debochando dos próprios medos.

- Que maravilha, Lúcio, maravilha... Bem, Lúcio, muito obrig...

- Por favor, posso pedir uma coisa antes de acabar? Eu sempre tive uma vontade muito grande de cantar no seu programa...

Cantar?! Cantar?! Mas ele não sabia cantar! A entrevista já ia terminar! Não gostava de cantar nem sozinho, não suportava a própria voz... E a entrevista já ia terminar!

- Tim Maia, pode ser? Do Leme ao Pontal?
Meu Deus... Por favor, meu Deus...

- Do Leme ao Pontaaaaaaaaal... ...Tem nada iguaal... ...Mundôôô-ôôô...

Lúcio estava de pé, quase encostado à tv, apavorado com o que via. O Lúcio entrevistado cantava empolgado em sua total desafinação, dançando, animando a platéia. Em casa, Lúcio estava a ponto de chorar. Mas o Lúcio da tv começou a desanimar. Foi cantando mais baixo, a dança foi ficando mais tímida. De repente largou o microfone, olhou para a câmera que o filmava e começou a andar em direção dela. À medida que chegava mais perto, seu rosto mudava. Os cabelos penteados foram se desarrumando sozinhos, o sorriso desaparecendo, a barba parecia ter crescido um pouco, olheiras apareceram. Parou bem de frente à câmera, com espuma na boca. Abaixou a cabeça, cuspiu na pia, guardou a escova, fez a barba, penteou os cabelos e saiu de casa para tentar vender seguros.

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