quinta-feira, 22 de abril de 2010

Faísca

Rebeca passeava com os filhos e o marido pelos corredores do shopping lotado, após assistirem no cinema a um desenho animado em 3d que a deixou enjoada. Ela ia de mão dada com o mais novo, Pedro, de cinco anos, e seu marido Otávio com o mais velho, Marcos, de nove. Ia andando distraída, com o pensamento solto, bem mais despreocupada que o normal.

- Olha, mãe, um urso!
- É, é um urso.

Era uma mãe dedicada, muito preocupada com a família, o que exigia dela um alto grau de estresse diário.

- Urso fuma, mãe? Urso fuma?
- Fuma, filho, urso fuma.

Mas naquele dia sua mente vagava enquanto andava no meio da multidão, desviando das outras famílias, mal ouvindo o que seu filho mais novo dizia. O relaxamento e a desatenção em que se encontrava pareciam de outra pessoa.

- Olha, mãe, um chapéu! Compra um chapéu pra mim, mãe, compra!

Ela olhou para o chapéu na vitrine, era um chapéu branco, tipo cowboy, que a fez imediatamente lembrar do Beto Carrero. Lembrou dos anúncios na tv, que sempre terminavam com o nome dele escrito com um chicote. O barulho estranho daquele chicote ficou se repetindo em sua mente.

- Compra, mãe, por favor, mãe, compra!

Ela continuou sem responder, ainda pensando no Beto Carrero, o som irritante ecoando em sua cabeça. Tentou lembrar por onde ele andava, já que há muito não o via na tv. Foi então que se lembrou: Ele havia morrido. Nesse momento, foi como se o sangue tivesse saído inteiramente do seu rosto, apertou fortemente a mão do filho, e ficou se segurando para não chorar.

- Ai, mãe! Minha mão!
- Quê? Ah, desculpa.
- Compra, mãe, compra o chapéu, mãe.
- Não, filho.

Ele já havia morrido há alguns anos, e na época ela nem deu muita atenção, afinal, a afeição dela pelo Beto Carrero era a mesma da maioria das pessoas, nenhuma. Mas foi só ali que Rebeca se deu conta que nunca mais veria Beto na televisão, nunca mais poderia conhecê-lo pessoalmente se um dia fosse ao Beto Carrero World, e o pior, nunca mais ouviria o som estranho daquele chicote. Irritado pela mãe não ter se irritado com ele, Pedro começou a choramingar alto.

- Compra, mãe! O chapéu, mãe! Eu quero, mãe!

Rebeca continuava sem conseguir se importar com o pedido do filho, com o olhar perdido, se segurando para não chorar.

- O que é isso, Rebeca? Porque esse moleque tá chorando?
- Hein? Chorando? Não... Não é nada.

Ela parecia mais triste que o menino, que percebendo o jeito estranho da mãe parou de fazer manha em menos de um segundo. Rebeca não conseguia tirar a falta de Beto Carrero da cabeça, e não entendia por quê. Lembrou-se de quando a mãe morreu, o que aconteceu antes mesmo da morte de Beto, e de como foi ela que cuidou de tudo, consolando os irmãos, permanecendo a mais forte da família. Não se lembrava de ter derramado uma lágrima sequer pela mãe, que ela amava muito, mas agora precisava segurar as lágrimas por um homem que ela sequer conheceu. Aquilo parecia a entristecer e irritar mais ainda.

- Você tá bem, Rebeca?

Ela fez que sim com a cabeça enquanto mordia os lábios.

- Pai, tô com fome.
- Vamos, vamos comer... Vamos, Rebeca.

Otávio deu o braço para que a esposa segurasse, como se ela fosse uma velha, e assim ela foi andando até que eles chegassem a uma mesa no Mc Donalds. Otávio deu dinheiro para que as crianças comprassem o lanche, e sentado com a esposa tentava descobrir o que ela tinha. Mas Rebeca parecia perdida, respondia com monossilábicos, o tempo todo tentando disfarçar a tristeza. As crianças chegaram com os lanches, e Otávio disfarçou a preocupação com a mulher. Pedro abriu a caixa do Mc lanche feliz e tirou o brinde: um cavalinho de plástico, apertava-se o rabo e ele dava um coice. E Rebeca lembrou do cavalo do Beto Carrero. Era um cavalo branco, lindo... Faísca, isso, Faísca, esse era o nome dele. Ele estava sempre com o Beto Carrero, pareciam companheiros inseparáveis. Foi quando o desespero de Rebeca aumentou: O que teria acontecido com Faísca? Onde ele estaria agora? Será que ele suportou a morte de Beto, seu mestre, seu herói? O que fizeram com o pobre animal? Oh, Faísca!

- Faísca!
- Que foi, Rebeca?
- O Faísca, Otávio! O Faísca!
- Mas que Faísca, Rebeca? Tá louca?

Nesse momento, Rebeca já não pôde segurar. Caiu num choro desesperado, incontrolável, não conseguia entender a indiferença do mundo com aquele lindo cavalo branco. Levantou e praticamente se jogou em cima do filho, o sacudindo com as mãos em seus ombros.

- Marcos! Pelo amor de Deus, Marcos, o Faísca! O que fizeram com o Faísca, Marcos, o que fizeram com ele!?
- Eu não sei, mãe, eu juro!
- Me ajuda, Marcos! Pelo amor de Deus, ajuda o Faísca!

Sem ter mais forças, Rebeca caiu no chão, soluçando quase sem conseguir respirar. Otávio a pegou no colo, e foi correndo para o estacionamento, seguido pelas crianças. O shopping todo parou para vê-los passar, Otávio desesperado com a mulher em prantos no colo, Pedro chorando e berrando mamãe tá louca, Marcos branco e tremendo pela agressividade da mãe.

Rebeca passou um ano na cama, em depressão profunda, sem sair de casa. Otávio tentava de tudo, mas nada adiantava. As crianças tentavam falar com a mãe, tristonhas, ela tentava sorrir, mas não conseguia. Não enquanto não soubesse o que havia acontecido com o Faísca. Vários psiquiatras a visitaram, tentando todos os tratamentos possíveis, de Prozac a Effexor ela tomou todos os antidepressivos, nenhum funcionou. Amigos, família, vizinhos vinham conversar com ela, dar palavras de conforto, de carinho, mas só recebiam de volta perguntas sobre o Faísca, pedidos de socorro pelo animal, elogios ao único cowboy genuinamente brasileiro. Não era incomum ela se despedir fazendo o famoso som do chicote com a boca. Otávio então passou a se empenhar em descobrir o paradeiro de Faísca, se ela soubesse que o animal estava bem talvez melhorasse, era um último recurso antes de interná-la num hospício. Depois de várias ligações ao Beto Carrero World, descobriu que Faísca ainda estava no parque, estava bem e não sentia falta do dono, afinal, era só um cavalo. Pediu para falar com o tratador de Faísca, e passou o telefone para Rebeca.

- Rebeca, escuta, é o tratador do Faísca no telefone, Rebeca. O Faísca está bem.
- É mentira.
- Toma, fala com ele.
- Alô.
- Dona Rebeca? Aqui é o tratador do Faísca.
- Hã.
- Ele tá bem, viu? Come bem, bebe água...
- Sei.
- E... Tá bem, faz as coisas que cavalo faz. E inclusive nem sente falta do seu Beto, porque... Porque... Bom, porque é cavalo, né? Bicho burro.
- Quanto meu marido te pagou pra dizer isso?
- Quê?
- Você sabe onde o Faísca está? Você fez alguma coisa com o Faísca?
- Eu? Bom, eu escovo ele, e...
- Mentiroso! Cale a boca, mentiroso! Ele era um cowboy brasileiro, tá ouvindo?! Um cowboy brasileiro! E você, Otávio, o que você está escondendo? Você matou o Faísca, é isso? Matou o Faísca?!
- Rebeca, por favor...
- Sai do meu quarto! Sai do meu quarto!!!
- Mas o quarto também é meu...
- Aaaaaaaahhhhhhh!!!!

Parecia inútil, ela não confiava em mais ninguém. Ele só conseguia pensar em uma última solução antes do manicômio: Trazer o cavalo para que Rebeca o visse. Foram meses de negociações com o parque, gastou todo o dinheiro que tinha, vendeu carro e perdeu o emprego, mas conseguiu fazer com que o cavalo fosse transportado de Santa Catarina para o Rio de Janeiro, onde moravam. As crianças entraram correndo no quarto, e subiram na cama avisando a mãe.

- Mamãe, papai trouxe o Faísca, mamãe, papai trouxe o Faísca!
- Deixa eu dormir.
- É verdade, mamãe, é verdade, o Faísca tá lá embaixo!

Rebeca já estava levantando a mão para dar um tapa nos moleques, quando ouviu seu marido a chamando na rua. Olhou pela janela do sexto andar, e de trás de um caminhão saiu um lindo cavalo branco. Ela não teve dúvida, era mesmo o Faísca. Não teve tempo de sorrir. Percebeu o que havia feito. Por um ano, ficou chorando por um homem que não conheceu, e por seu cavalo. E o tempo todo aquele cavalo estava bem, e agora estava ali. Era apenas um cavalo. Era tão cavalo quanto qualquer cavalo. E por causa de um idiota e seu cavalo, ela fez seu marido, seus filhos, seus irmãos, amigos, sofrerem por um ano. Imediatamente todo o sangue de seu corpo subiu para o rosto. Sentia como se fosse explodir. A extrema vergonha pelo papel ridículo, e a infinita dor da culpa pelo sofrimento que causou eram muito piores que a depressão que sentiu. Precisava de qualquer jeito algo para justificar aquele sofrimento, ou não agüentaria. Pegou o primeiro filho que viu pela frente e atirou pela janela. Teve sorte de ser o Marcos, que só tirava notas baixas na escola. Mas já foi o suficiente para justificar uma depressão maior ainda, dessa vez indiscutível, e Rebeca nunca mais precisou sorrir novamente.

3 comentários:

TSD disse...

Hahahaha, se superou.

Diogenes disse...

"Fuma, filho, urso fuma."
Hahaha, muito bom o texto

kid_limao disse...

UAHuhAUh
Urso fumando é do caralho
!UAHuAH