quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Cheiro de Festa

Oito da manhã de sábado, e tocou o telefone. Fazia pelo menos três dias que ele não recebia uma ligação, qualquer ligação, por isso despertou no primeiro toque, e levantou correndo para atender.

 

- Alô?

- Ô, Ricardo!

- Como?

- Ô Ricardo, fala aí!

- Ricardo? Não, amigo...

- Hein? Não é o Ricardo?

- Não, amigo. Desculpa, acho que você ligou errado.

- Ah... Ok.

- Por nada, amigo.

 

Pensou em dormir de novo, mas não conseguiria. Estava ansioso demais pela festa à noite. Desde um mês antes, quando ela foi à sua mesa convidá-lo, não parava de pensar nisso. Foi uma grande surpresa quando ela o convidou. Em todos aqueles anos trabalhando juntos, ela nunca deu atenção a ele, enquanto ele sempre prestou muito mais atenção do que devia nela. Ela o tratava como se ele fosse inferior, apesar do salário dele ser até um pouco maior. Tocou novamente o telefone. Talvez fosse ela, confirmando a festa. Com as mãos um pouco trêmulas, atendeu.

 

- A-alô?

- É... O Ricardo?

- Não, amigo... Engano novamente.

- Ah... Ok.

- Sem problema, amigo, sem problema!

 

E como poderia se irritar? A última vez em que recebera mais de uma ligação no mesmo dia havia sido no seu aniversário. Voltando ao assunto, ele levou um susto quando a viu andando em direção à sua mesa, olhando em seus olhos, e sorrindo, mesmo que de leve e meio forçadamente, perguntando se ele gostaria de ir à sua festa. E ele se perguntava por que ela o convidou... Bem, ela convidou todos da firma, devia estar de olho em alguma promoção... Mas não importava, só o fato dela ter pensado nele já o enchia de alegria, e esperança. Talvez a partir daquela noite a relação deles mudasse, e ela deixasse de ignorá-lo. Talvez ela estivesse disposta a mudar. Mas para isso aquela noite precisava ser perfeita, e ele precisava causar uma boa impressão. E nisso ele considerava muito importante o presente. Passou dias inteiros pensando no que dar. Não poderia ser nada muito caro, pareceria assédio. Tampouco algo muito barato, pareceria desleixo. Ao mesmo tempo, queria algo que a fizesse lembrar dele. Acabou optando por um perfume. Falou com a irmã, que revendia Natura, e comprou um que cheirava a morango. Então todas as vezes que ela usasse o perfume se lembraria dele... Sim, era um grande presente. Olhou para o relógio, ainda eram onze horas. A festa só começaria às oito. Foi se barbear.

 

Agora eram sete e meia. Estava saindo do banho. Se olhou no espelho, e decidiu se barbear novamente. Sua roupa estava esticada na cama, já a havia escolhido há três dias. Queria algo que o deixasse elegante, sociável, mas que ao mesmo tempo não tirasse o brilho da dona da festa. Acabou escolhendo algo muito parecido com o que usava para trabalhar todos os dias, não tinha muitas roupas diferentes. Se vestiu com cuidado, deu uma engraxada rápida nos sapatos, pegou o presente e saiu. Não percebeu que estava chovendo antes de sair de casa, ficou cerca de três minutos na chuva esperando um táxi, se molhou um pouco. Cerca de quinze minutos mais tarde chegou ao salão de festas. A primeira coisa que notou ao entrar foi que as pessoas estavam vestidas bem mais casualmente do que ele. Continuou andando e a procurando com o olhar. A achou conversando em uma roda de amigos. Estava de pé, e um homem sentado tinha o braço ao redor de sua cintura. Ela nunca contou que tinha um namorado. Claro, ela nunca contava nada a ele, mas mesmo assim... Aquilo não estava nos seus planos. Não se deixou abalar, e continuou andando na direção dela. Ela estava bem mais bonita que de costume. Ele, por sua vez, tinha a roupa um pouco molhada pela chuva, as marcas dos pingos nos ombros, e a mistura de gel e água deixou seu cabelo com uma aparência estranha. Tinha algumas gotinhas de sangue no rosto pela última barbeada. Chegou ao grupo de amigos e parou do lado de fora da roda, esperando uma oportunidade para falar. Depois de cerca de um minuto ela percebeu a presença dele. Todos haviam parado de falar.

 

- Oi.

- Oi... Parabéns.

- Ah, obrigada.

- Eu... Trouxe um presente.

- Estou vendo, obrigada.

 

Todos na roda olhavam para os dois, em silêncio. Ele continuou imóvel, olhando para ela.

 

- Você... Quer que eu abra?

- Bem, eu...

- Vamos ver... É um perfume?

- Sim, um perfume. Eu fiquei em dúvida em qual presente te dar, fiquei pensando no que você gostaria, tentando adivinhar... Aí lembrei que você anda sempre muito cheirosa, quer dizer, não que eu conheça... Bem, quando eu passo por você eu sinto um cheiro... Bom. Por isso imaginei que você gostasse de perfumes, e como vi você comendo morangos uma vez, achei que você gostasse de morango, então...

 

Nesse momento o namorado, que até então estava segurando o riso, não agüentou mais e o soltou, virando o rosto para o lado. Outros também riam disfarçadamente, ou nem tanto, com um copo na frente da boca, tapando o rosto com as mãos, ou mesmo abaixando a cabeça na mesa. Ela mesma estava claramente tentando se controlar, quase engasgada.

 

- Tudo bem, obrigada... Pelo perfume de morango.

 

Ele fingiu um riso amistoso, e se virou, e enquanto se afastava da mesa ouvia as risadas cada vez mais altas dos amigos.

 

- Puta que o pariu, perfume de morango!

- Meu Deus, que idiota!

- Chega a ser inacreditável!

 

Se sentou o mais longe possível dela, em um lugar do salão onde não podia vê-la. Pegou tremendo um copo de cerveja, ele que nunca bebia. Decidiu que ficaria ali, sozinho, até que a festa terminasse. De vez em quando passava algum conhecido do trabalho, e o cumprimentava, ou apenas acenava com a cabeça, às vezes uma conversa rápida, às vezes fingiam que não o conheciam. E ali ele ficou, bebendo, até que, na terceira cerveja, pôde vê-la de onde estava. Estava de pé com o namorado, conversando com uma pessoa que ele não conhecia. Decidiu ir até ela. O namorado o viu chegando, e a cutucou, já com um sorriso no rosto.

 

- Oi.

- Oi...

- Se você quiser pode trocar.

- Oi?

- O perfume. Se você não gostou pode trocar, não tem problema. Minha irmã me vendeu, ela vende Natura, eu posso falar com ela, se você quiser, e...

- Tá tranqüilo, Moranguinho!

 

Foi o namorado quem disse, rindo. A terceira pessoa riu também. Dessa vez ela não conseguiu se segurar, e riu tanto quanto os outros. Pelo menos ele não precisou disfarçar e se afastar, eles saíram de perto antes. Voltou para a mesa, e virou o quarto copo. No quinto estava na hora do parabéns. Foi com os outros para perto da mesa do bolo. Ele nunca a vira tão bonita quanto naquele momento, talvez pela ajuda do álcool que ele não estava acostumado a beber.

 

- Parabéns pra você...

 

Ela estava muito feliz, ao lado dos pais e do namorado. Não parecia a moça que pouco ria no escritório.

 

- É big, é big...

 

Foi uma bela cena para ele vê-la fechando os olhos e assoprando as velas.

 

- Com quem será...

 

Percebeu, apesar do estado etílico, que o namorado e alguns amigos próximos pareciam olhar para ele, de um jeito debochado.

 

- ...Vai depender, SE O MORANGUINHO vai querer...

 

Todos que entenderam a piada caíram na risada. Ela também, sem disfarçar. A reação dele foi acompanhar o riso, e riu muito, e alto, uma gargalhada estranha, descontrolada, que fez com que a maioria que estava na festa olhasse para ele, ela inclusive. Depois disso, não esperou que cortassem o bolo, e foi o primeiro a ir embora. Nunca se odiou tanto. Pensava em como era otário, um mês ansioso por aquela noite, por causa dela, um mês se preparando, preocupado para que tudo desse certo, procurando o presente perfeito, a roupa perfeita, as palavras perfeitas, para que ela lhe desse pelo menos um sorriso, talvez um abraço, na melhor hipótese um beijo. Mas ele fracassou, fracassou totalmente, como sempre fracassava, e o que era pra ser um sorriso virou deboche, escárnio, humilhação. Nunca se odiou tanto. Chegou na saída do salão de festas. Era uma espécie de portaria, mas sem porteiro. Apenas um corredor estreito e a porta de saída. Abaixou a braguilha da calça e começou a mijar. Mijou nas paredes, no chão, e depois de cinco cervejas, conseguiu formar uma bela poça. Então, quando aquela vaca passasse por ali, não teria como ignorar o cheiro dele. Passou anos o ignorando no escritório, o ignorou e o humilhou na festa, mas agora seria impossível ignorar o forte cheiro de urina, urina dele. E provavelmente ela pisaria no seu mijo, e, nas solas dos sapatos, o levaria para impregnar também a sua casa. Não importava se ela não soubesse que o mijão era ele, aquele ato já o deixou satisfeito. Deu um tapinha nas próprias costas e voltou para casa a pé, feliz, orgulhoso dele mesmo.

 

Ela não passou pela portaria, é verdade. Saiu de carro pela garagem, como a maioria dos convidados. Acho até que a única pessoa a reparar no mijo foi a faxineira, e só no dia seguinte. Mas não importava, pois naquela noite ele dormiu satisfeito consigo mesmo, como há muito não dormia, e teve uma noite cheia de sonhos bons, como há muito não os tinha.

3 comentários:

Ewerton disse...

Cara, parabéns!
Muito bom o seu Blog! em uma semana eu li tudo e entro todo pra ver se tem...
Parabéns mesmo!!!

Benett disse...

Isso mesmo, Norm McDonald. Thanx!

Lorpapacas disse...

Assim.. não quero fazer pressão, nem nada.. mas, por favor, manda um post novo logo!!!!
Abração e Parabéns!!!