segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Síndrome do Paradoxo Catatônico

A síndrome do paradoxo catatônico, ou SPC, é um transtorno caracterizado pelo estado de ausência de respostas a estímulos externos e pela repetição de pensamentos e movimentos de uma pessoa decorrente de uma situação paradoxal. Ao contrário de outros transtornos, não está associada a situações de estresse, depressão, ou demência, podendo se manifestar em qualquer indivíduo, saudável ou não. É considerada uma síndrome nova, já que o primeiro caso reconhecido surgiu em 1976.

Causas

Por ter surgido pela primeira vez, aparentemente, apenas em 1976, debate-se que substâncias ou hábitos modernos sejam os responsáveis pela SPC, apesar de nada ter sido comprovado. Alguns itens sugeridos como possíveis culpados são: Aspirina, alimentos industrializados, refrigerantes, televisão, desenhos animados, forno microondas, luz artificial de shopping-centers, macarrão instantâneo, transistors, bateria de relógios de pulso, empregos inúteis, conforto, entre outros. Em 1988, o cientista italiano Giacomo Panucci divulgou uma pesquisa em que associava os casos de SPC com o crescimento do costume da masturbação com revistas eróticas. Sua hipótese era que a tinta usada nas revistas, quando em contato com os órgãos sexuais masculinos, a longo prazo poderia provocar distúrbios mentais, em especial a síndrome do paradoxo catatônico. A comunidade científica argumentou que isso não explicaria os índices de SPC em mulheres, ao que o Dr. Panucci respondeu, “Por que não?”, o que, por sua vez, estimulou pesquisas sobre o uso de revistas pornográficas para fins masturbatórios por mulheres, deixando a relação disso com a SPC e a improvável hipótese original do Dr. Panucci de lado.

Primeiros Casos e Outros Dignos de Nota

O primeiro caso reconhecido da síndrome ocorreu em 1976, em São Paulo, e ficou conhecido na imprensa como “Caso Luizinho”. Luiz Pacheco das Neves, ou Luizinho, na época com 14 anos, sentou-se em frente à TV para assistir seu desenho favorito, Os Flintstones, ao mesmo tempo em que tomava um café com leite com biscoito maizena. Estava sentado no chão, encostado no sofá, enquanto a caneca e os biscoitos descansavam sobre a mesinha de centro da sala. Em uma das vezes em que foi molhar o biscoito na caneca, distraído com o desenho, o biscoito amoleceu, se partiu, e afundou na caneca, a outra parte ficando em sua mão. Porém, no momento em que o biscoito quebrou, a impressão de Luizinho foi que seu próprio braço havia se soltado, e por algum motivo caído na caneca de café com leite. Desesperado, Luizinho enfiou a cabeça na caneca, e, com dois dedos de cada mão, procurava freneticamente pelo braço perdido. Ao perceber quase imediatamente que não poderia ter perdido o braço se o estava usando, mas ao mesmo tempo com a certeza de que o braço havia caído na caneca, Luizinho entrou em paradoxo catatônico. Ao menos essa é a versão mais aceita, já que na hora não havia testemunhas. Luizinho permanece até hoje no mesmo lugar, se alimentando e fazendo outras necessidades através de tubos, como aliás acontece com todos os portadores da SPC. Por motivos históricos e científicos, é colocado todos os dias no mesmo lugar da sala, tem a mesma caneca à sua frente, sempre reabastecida com café com leite, e continua com a cabeça abaixada e os frenéticos movimentos para salvar seu braço. Na TV, episódios dos Flintstones em dvd passam 24 horas por dia. Para manter os custos de saúde de Luizinho, hoje com 38 anos, a família faz visitas guiadas pela casa, e ganha dinheiro com a venda de ingressos, de fotos dos visitantes ao lado de Luizinho, e de canecas iguais ao do perturbado.

O primeiro caso feminino ocorreu em um subúrbio de Londres, três anos mais tarde. Charlotte Curtis, na época com 21 anos, famosa na região por sua beleza e pelo interesse que provocava nos rapazes, costumava passar horas na frente de sua penteadeira, escovando seus cabelos escuros que quase chegavam à altura da cintura. Numa dessas vezes, ao virar a cabeça para a direita, Charlotte se assustou com o movimento de seu cabelo na esquerda, o que a fez virar a cabeça, e, mesmo percebendo que era apenas seu cabelo, se assustou novamente com o movimento dos cabelos, dessa vez  os da direita, a fazendo virar a cabeça bruscamente novamente, entrando em paradoxo catatônico. Sua mãe, Midge Curtis, argumenta a possível causa da SPC na filha: “Charlotte sempre teve muito medo de besouros, e aqui nós sempre tivemos muito besouros. Ela ficava apavorada quando entravam besouros em casa, principalmente os grandes. Algum tocar o seu cabelo seria o fim pra ela. Acho que isso que ela pensou que seu cabelo fosse, um besourão.” Um documentário da BBC sobre a doença, produzido na década de 90, tornou o caso de Charlotte conhecido mundialmente, especialmente na internet, onde imagens dela virando a cabeça freneticamente de um lado para o outro passaram a ser usadas como uma forma irônica de dizer não, sendo esse considerado por muitos o primeiro meme da internet.

A síndrome do paradoxo catatônico ganhou destaque recente na mídia com o sucesso dos livros de Johnathan Richards. Richards afirma ter entrado em paradoxo catatônico quando, deitado em sua cama assistindo televisão, usou seu sapato para mudar de canal, e o canal mudou. Olhou para o lado e percebeu que o controle estava em cima da cama, viu que havia mudado de canal com o sapato e entrou em paradoxo catatônico, e assim ficou por três meses, apertando um botão imaginário no sapato e olhando para a televisão. Pela sua versão da história, foi despertado da SPC por seu border colie, que, subindo em sua cama, usou a patinha para tirar o sapato de sua mãe, e o despertou latindo e lambendo seu rosto. Pouco depois, Richards descobriu que o cão estava com câncer, falecendo poucas semanas mais tarde. Desde então, Richard ganhou fama e dinheiro escrevendo sobre as reflexões que fez enquanto estava em paradoxo, e sobre as reflexões que fez após sair do paradoxo. Muitos especialistas questionam a veracidade da  SPC de Richards, como nesses trechos de um artigo do Dr. Patrick Larson: “...deitado na cama vendo tv, a posição mais confortável em que alguém já entrou em SPC.” “...dos poucos casos de pacientes que saíram da SPC, todos afirmam que durante a catotonia não pensavam em nada, e do momento que entravam ao momento que saíam da síndrome era como se houvesse passado apenas uma fração de segundo, mesmo que fossem anos, o que causa estranheza as reflexões do senhor Richards durante a doença.” ”….duvido que alguém já tenha visto essa porra de cachorro.” Mesmo com as denúncias de farsa, nunca comprovadas, Richards continua sendo um dos escritores mais vendidos da atualidade, e certamente a maior personalidade quando o assunto é SPC.

Tratamento

Não existe comprovação científica para qualquer tratamento de SPC, porém muitos são feitos em caráter experimental. Um dos primeiros foi o eletrochoque, que falhou em todos os testados, que além de continuarem com suas síndromes habituais, ainda adquiriram espasmos musculares involuntários, tornando os movimentos repetitivos de suas SPCs piores e caóticos. O uso de ansiolíticos é indicado por muitos médicos para a redução dos sintomas da SPC, sem tirar o indivíduo do paradoxo catatônico. Tem causado grande polêmica os métodos do mexicano Carlos Mendes. Ele afirma que a única maneira de tirar alguém da SPC é a viciando em crack. Um dos questionamentos que se faz ao Dr. Mendes é de como ele chegou a essa conclusão, algo que ele nunca respondeu apropriadamente. Mendes afirma já ter tirado mais de 20 pacientes da síndrome, todos hoje altamente viciados em crack. A dúvida se vale a pena trazer alguém de volta a realidade a viciando em crack é uma das questões mais complexas da ciência moderna.


Bibliografia:
PANNUCI, Giacomo: Da toxidade das tintas de revistas pornograficas e da relação delas com a SPC.
SUPLICI, Marta: Como se masturbar usando as revistas eróticas do seu marido.
NOGUEIRA, Esaú: A caneca de café-com-leite sem fundo - A história de Luizinho.
RICHARDS, Johnathan: Eu e meu sapato - Como meus três meses em paradoxo catatônico podem mudar a sua vida e os seus negócios.
RICHARDS, Johnathan: Toby, um anjo encarnado em um Border Collie.
LARSON, Patrick: A involução humana - Johnathan Richards e a burrice generalizada.
MENDES, Carlos: Crack é bom.

domingo, 12 de setembro de 2010

O Ceguinho - Episódio 1

Acordou antes do despertador. Levantou da cama com cuidado, para que não acordasse sua mulher. Entrou no banheiro com o coração acelerado, agitado e com uma leve alegria. Foi para debaixo do chuveiro, tentando se acalmar e lembrar mais claramente do sonho. Lembrava do motivo principal da sua excitação, Helena. Helena estudou vários anos com ele na escola, a última vez que a viu deveria ter em torno de 15 anos. Era fascinado pela beleza de Helena, que nem todos consideravam tão bonita. À primeira vista diriam que era uma garota sem qualquer qualidade especial, e à segunda vista provavelmente também. Mas, talvez por também ser pessoa sem grandes qualidades, ele sentia grande atração por ela. Na época tentava disfarçar, desviava o olhar se ela por acaso olhasse para ele, tentava não fixar os olhos nas pernas dela durante as aulas, evitava sentar atrás dela para que não fosse pego cheirando seus cabelos, entre outras coisas. Naturalmente, Helena sempre o ignorou. Raramente trocavam palavra. Quando trocavam, era sempre breve e constrangedor, Helena parecia perceber a perturbação dele quando falava com ela, e a troca de olhares era rápida e estranha pelas duas partes. Há muitos anos não pensava nela, até ela aparecer naquele sonho. No sonho ela estava mais velha, naturalmente, agora era uma mulher. Estava ainda mais bonita, mais alta, os seios e a bunda maiores. Sabia que o sonho havia sido grande, mas só conseguia se lembrar de uma pequena parte. Estavam em uma espécie de reunião entre amigos. Era noite, em uma casa em que nunca havia estado, nem em sonhos. Estavam num sofá grande e confortável, do tipo que faz curva, os dois e mais algumas pessoas, talvez outro casal, ou duas mulheres. Helena usava uma roupa confortável, deveria ser algo para dormir, um short bem curto, uma camiseta velha. Estava deitada de bruços, com os cotovelos apoiados no sofá. Ele ao seu lado, sentado de forma relaxada. Conversavam descontraidamente, de um jeito que nunca conversariam na realidade. Foi então que, entre uma risada e outra, ela vagarosamente levou o rosto em direção ao dele, e os dois ficaram com os rostos frente a frente, os lábios quase se tocando. Mas ele sabia, no sonho, que ela não fez isso para beijá-lo, havia algum motivo prático naquele gesto que ele não conseguia se lembrar qual, mas que dentro do sonho parecia fazer sentido. Não conseguia se lembrar de muita coisa além desse ponto. No entanto, mesmo tendo sido só um quase beijo de menos de um minuto de sonho, não se lembrava de ter se sentido tão bem alguma vez quanto naquele momento de sonho. E ficava repetindo aquele momento na mente, o rosto dela parado de frente ao seu, a linda bunda virada para o alto, os peitos quase aparecendo pela gola da camiseta velha. Era uma sensação doce de quase felicidade, que ele só lamentava não ter durado mais tempo, e com mais profundidade.

Saiu de casa rápido, não queria esperar que a esposa acordasse. Tomou um café na padaria, pegou um ônibus, entrou no metrô, tudo de forma automática, estava completamente distraído, repassando o sonho, tentando lembrar momentos novos, ou até inventá-los. Sentou em uma cadeira especial no metrô, daquelas para velhos, grávidas e coisas do tipo, e acabou adormecendo. Só acordou três estações mais tarde, após sentir uma bengalada na canela. Abriu os olhos e viu um cego de óculos escuros parado à sua frente. Levantou-se na mesma hora, cedendo o lugar para o ceguinho.

- Desculpe, senhor, é que eu acabei dormindo, eu...
- Tudo bem. Quando os sonhos são melhores que a vida, dá vontade de dormir o tempo inteiro.

O cego disse isso ao mesmo tempo em que se sentava, e depois se calou, com um leve sorriso no rosto. Sentiu uma perturbação imediata com a frase do cego, e não conseguiu responder. Apenas disfarçou com um sorriso simpático, que infelizmente o cego não viu. Agora, além do sonho, não conseguia parar de pensar na frase do cego. A inquietação em sua cabeça aumentava, assim como a vontade de que o sonho durasse mais tempo. Chegou ao trabalho sem ouvir os bom-dias. Sentou em seu posto e não demorou muito para que caísse no sono. Acordou com um forte esporro do chefe, que improvisou um breve discurso o humilhando para que todos ouvissem. Em qualquer outra ocasião, ele mandaria o chefe tomar no cu e pediria demissão na mesma hora, mas naquele dia ele simplesmente não conseguia se importar. Voltou ao trabalho, e voltou ao sono. Dessa vez, o chefe foi ainda menos calmo e gentil, e o mandou para o olho da rua, usando essas mesmas palavras ridículas, “para o olho da rua”. Surpreendendo a todos, ele apenas respondeu que tudo bem, e saiu. Saiu sem saber para onde. Sentia uma inquietação cada vez mais forte, e não sabia como fazê-la parar. O que o fazia sentir melhor era a lembrança daquele momento de sonho, aquele quase beijo, e a cada lembrança pareciam surgir elementos novos, o cheiro de Helena, a luz da sala, a cor de seus olhos. Já conseguia ver aquele momento de ângulos diferentes, em primeira pessoa, de cima, por trás do sofá. Pegou um ônibus, sem se importar para onde o levaria. Adormeceu no banco, tentando sonhar com aquele momento de novo, com momentos melhores que aquele. Foi acordado com dificuldade no ponto final, sem saber direito onde estava. A vontade de dormir era cada vez mais forte, mal conseguia se manter de pé. Foi andando pela rua cambaleando, como um bêbado, quando viu uma velha gorda andando em sua direção. Era Helena. Nem de longe a Helena dos tempos de escola, muito menos a de seus sonhos, mas era Helena. Seus cabelos estavam secos, despenteados, usava um par de óculos gigantes, estava sem maquiagem, a boca meio torta e emburrada, o corpo gordo e velho, ia levando um poodle preto e encardido por uma coleira. Ele parou no meio da calçada, atônito, e no momento em que ela passava trocaram os mesmos olhares estranhos de quando eram adolescentes. Helena, naturalmente, fingiu que não o reconheceu, e seguiu seu caminho, catando com um saco plástico o cocô que o poodle deixava pela calçada. Ele, mais perturbado que nunca, sem conseguir entender os próprios pensamentos, seguiu andando cambaleante até encontrar uma estação de metrô. Entrou e sentou no mesmo banco para pessoas especiais, mas dessa vez o sono em que caiu era profundo demais para que qualquer bengalada o acordasse, por mais forte que fosse.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

O Entrevistado

- ...Problema, amiga? Ah, Pastor... Minha vida, eu não sei o que acontece, parece que*click*

- ...400 reais. Agora. Apenas mais um minuto. Você sabe a resposta. Ache três nomes de posições sexuais no quadro, apenas três. Tá muito fácil. Você precisa ligar. Pára o relógio, pára! Quanto, produção? Quanto? Não, não acredito... 500 Reais, 500, meu Deus, a produção enlouqueceu, aproveita, liga agora, agora, lig*click*

- ...Porque a mão direita está ocupada, ora pois!*Risos da platéia* Ai, ai... Bom, hoje teremos aqui, lançando o livro "O Canal", que conta as aventuras dele como técnico de futebol no Panamá, o ex-zagueiro do América, Machadinho! *Aplausos* Teremos também ele, que está fazendo grande sucesso no programa Zorra Total com seu personagem Pica-Suja, o ator e humorista Beto Peres! *Aplausos e assovios* Além deles, vou conversar também com o corretor de seguros Lúcio Bosco de Melo!*Aplausos, gritos e assovios*

Não, não era possível. Ele devia ter entendido errado. Como ele poderia estar na televisão? Nunca esteve em um estúdio de televisão na vida... Ora, mas era claro que fora apenas impressão, as poucas horas de sono diárias finalmente estavam provocando alucinações... Provavelmente nada que uma noite de sono bem dormida não resolvesse. De qualquer forma, ficou curioso, e esperou o programa voltar dos comercias. Após o entrevistador contar algumas piadas óbvias e sem-graças retiradas da internet, mas que misteriosamente faziam todos rir, anunciou a primeira e mais importante entrevista da noite.

- Ele tem trinta e dois anos, nunca se casou, e há seis meses trabalha como corretor de seguros. Lúcio Bosco de Melo!

Seu corpo congelou, o controle remoto caiu de sua mão. Era ele se levantando, indo cumprimentar o apresentador, dando dois beijos em seu rosto, como se fosse um artista, algum ator de novela que gosta de forçar amizade. Continuou se olhando na Tv, sem acreditar, ainda com esperança de ser apenas alguém com o mesmo nome, e extremamente parecido com ele. O primeiro close, e era mesmo ele. Sentou na poltrona de entrevistado e cruzou as pernas como se fosse uma mulher, ou o Caetano Veloso. Cruza as pernas direito, pra que isso? Meu Deus, quase dá pra ver as bolas espremidas na calça cáqui! Cruza as pernas que nem homem, pelo amor de Deus!

- Lúcio de Melo, que prazer... Como você tá, querido?

- Bem, bem, e você? Ah, que bom... Se importa se eu beber um pouco? Sempre quis saber o que tinha nessa caneca... É água, viu, gente? É água...

Não, ele não podia ter dito aquilo. A coisa mais idiota que alguém pode fazer num programa desses! Exatamente o tipo de coisa que ele evitaria falar o máximo possível, que ele evitaria até sob tortura, que quando ele ouvia alguém falando na tv tinha vontade de espancá-la, agora ele dizia ali, para que milhões de pessoas vissem!

- É, é água, as pessoas pensam que não é água, mas é água... Aliás, você tem uma história muito interessante com água, não tem?

- É, é verdade, essa história é muito boa...

Não! Não é!

- Eu tinha uns dez anos, mais ou menos...

Em toda reunião familiar ouvia essa história, e sempre a odiou.

- ... estava andando na rua com a minha mãe, e comecei a reclamar, porque estava com muita sede.

Seus parentes pareciam fazer questão de contar essa história para qualquer pessoa quando ele estava presente.

- Então ela parou numa lanchonete e comprou um copinho d'água, daqueles bem difíceis de abrir. Bom, então comecei a tentar tirar aquela tampa de alumínio, mas estava difícil, parece que tinha mais cola que o normal. Minha mãe se ofereceu para abrir, mas eu não quis, queria mostrar que era capaz de abrir um copo d'água sozinho. Aí comecei a puxar com força, toda minha força, até que a tampa saiu e, claro, toda a água caiu na minha calça.*risos da platéia* Então eu estava ali, no meio da rua, andando como se estivesse todo mijado! Mas eu não podia deixar as pessoas pensando que eu mijei na calça, já tinha 10 anos, e por isso fui gritando para todos que passavam por mim: "Não é mijo, é água, é água! Parece que eu tô mijado, mas eu juro que é água!"*todos no estúdio riem muito*

Se lembrava muito bem daquele dia, que para ele nunca foi engraçado. Lembrava da dor que sentiu quando percebeu que as pessoas pensariam que ele havia mijado na calça. E de como começou a falar com as pessoas, coisa que ele não fazia com freqüencia, por desespero, desespero pelo que elas poderiam pensar. E aquela frase, que nunca o deixaram esquecer, ainda ecoava na sua cabeça. No entanto, agora estava na tv e contava a história rindo, se divertindo com a própria mocoronguice, mais uma vez se ridicularizando em público, mas dessa vez gostando.

- Ai, que maravilha... "Não é mijo, é água, é água!" Ótima essa história, excelente... Agora, ô Lúcio, você nunca se casou não é verdade?

- É, é verdade.

- E já esteve perto de se casar?

- Ah, sim, muito perto.

Não, essa não... Não para que todos ouçam...

- Foi a Jane, uma namorada que eu tive... Aliás, beijo, Jane!

Não!

- Nós ficamos juntos mais de três anos. E eu gostava muito dela, muito mesmo... A verdade é que ainda gosto, ainda a amo.*platéia faz sons insinuantes* Calma gente, calma, agora ela é casada com meu irmão!

- Com seu irmão?!

- Pois é, veja você... Estávamos noivos, já há mais de três anos juntos, quando ela conheceu meu irmão, que havia voltado ao Brasil depois de ser deportado dos Estados Unidos. Se deram bem logo de cara. Poucas semanas depois, ela disse que queria terminar. Nunca deu motivos muito convincentes, na época disse que o relacionamento não era mais o mesmo, que o problema era ela, não eu, que precisava de um tempo sozinha, acho até que falou alguma coisa sobre nossos signos não combinarem... Moral da história, três meses depois começou a namorar meu irmão, hoje são casados e têm dois filhos, e eu sempre finjo que está tudo bem, e que eles não começaram a fuder enquanto nós ainda éramos noivos! *todos riem*

Já estava de pé, olhando perplexo para aquela cena. Algo que ele nunca sequer insinuou, algo que ele tinha medo até que desconfiassem que ele imaginava, agora exposto para todos, e apenas para fazer rir. Pior, exposto para Jane e seu irmão. Na época pensou em confrontá-los, pensou em agredi-los, em lavar sua honra com sangue, mas, claro, não conseguiu, sequer chegou perto disso. Não tinha coragem de cortar relações com seu irmão. Não tinha coragem de eliminar as chances de, quem sabe, um dia voltar com Jane. E, com o passar dos anos, com o nascimento dos sobrinhos, o arrependimento pela passividade só crescia.

- Você está trabalhando com o que, mesmo?

E quem se importa?!

- No momento, como corretor de seguros.

- No momento? Quer dizer que você já mudou de emprego muitas vezes?

- Ah, sim, muitas... Infelizmente a classe dos idiotas não é muito reconhecida no Brasil...

- Pois você poderia vir trabalhar na tv, temos muitos idiotas bem pagos aqui!*risos*

Preferia a morte!

- Com certeza já trabalhei em lugares bem piores... Como nunca me formei, e não posso dizer que tenho uma profissão, por isso sempre pulei de trabalho ruim em trabalho ruim. Já fui caixa, office-boy, garçom... Na época em que namorei a Jane que consegui me estabilizar como bancário, mas claro que não durou muito depois que nos separamos...

- Que se separaram ou que ela te deu um fora?*muitos risos*

Gordo escroto!

- É, isso, que ela me deu um fora... Numa época de aperto trabalhei até numa carrocinha de cachorro-quente, mas fui demitido...

- Você conseguiu ser demitido de uma carrocinha de cachorro-quente?*todos riem*

Sim, conseguiu.

- Pois é, consegui. Quer saber como?

Por quê? Pra que contar isso? Para que todos sintam mais nojo do que já sentem dele? É o tipo de história em que se suborna as pessoas para que não contem aos outros, que nunca se conta por vontade própria!

- Foi num dia em que já havia errado bastante, o dono da carrocinha tinha passado o dia inteiro me dando esporro. Nessa hora ele havia saído para mijar, ou fumar, sei lá, quando derrubei o pote de ervilha. Aparentemente ninguém tinha visto, e eu, já de saco cheio das broncas, empurrei todas as ervilhas da calçada suja para dentro do pote. Algumas com a mão, outras com o pé, mesmo.*todos riem com nojo* Pois é, mas um cliente havia visto, me caguetou, e eu saí de lá tremendo, quase apanhando.

Ainda evitava passar na região em que ficava a carrocinha, para não correr o risco de encontrar alguém que soubesse do episódio. De tempos em tempos tinha pesadelos com o cliente, o dono da carrocinha, ervilhas, no entanto estava na tv debochando dos próprios medos.

- Que maravilha, Lúcio, maravilha... Bem, Lúcio, muito obrig...

- Por favor, posso pedir uma coisa antes de acabar? Eu sempre tive uma vontade muito grande de cantar no seu programa...

Cantar?! Cantar?! Mas ele não sabia cantar! A entrevista já ia terminar! Não gostava de cantar nem sozinho, não suportava a própria voz... E a entrevista já ia terminar!

- Tim Maia, pode ser? Do Leme ao Pontal?
Meu Deus... Por favor, meu Deus...

- Do Leme ao Pontaaaaaaaaal... ...Tem nada iguaal... ...Mundôôô-ôôô...

Lúcio estava de pé, quase encostado à tv, apavorado com o que via. O Lúcio entrevistado cantava empolgado em sua total desafinação, dançando, animando a platéia. Em casa, Lúcio estava a ponto de chorar. Mas o Lúcio da tv começou a desanimar. Foi cantando mais baixo, a dança foi ficando mais tímida. De repente largou o microfone, olhou para a câmera que o filmava e começou a andar em direção dela. À medida que chegava mais perto, seu rosto mudava. Os cabelos penteados foram se desarrumando sozinhos, o sorriso desaparecendo, a barba parecia ter crescido um pouco, olheiras apareceram. Parou bem de frente à câmera, com espuma na boca. Abaixou a cabeça, cuspiu na pia, guardou a escova, fez a barba, penteou os cabelos e saiu de casa para tentar vender seguros.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Faísca

Rebeca passeava com os filhos e o marido pelos corredores do shopping lotado, após assistirem no cinema a um desenho animado em 3d que a deixou enjoada. Ela ia de mão dada com o mais novo, Pedro, de cinco anos, e seu marido Otávio com o mais velho, Marcos, de nove. Ia andando distraída, com o pensamento solto, bem mais despreocupada que o normal.

- Olha, mãe, um urso!
- É, é um urso.

Era uma mãe dedicada, muito preocupada com a família, o que exigia dela um alto grau de estresse diário.

- Urso fuma, mãe? Urso fuma?
- Fuma, filho, urso fuma.

Mas naquele dia sua mente vagava enquanto andava no meio da multidão, desviando das outras famílias, mal ouvindo o que seu filho mais novo dizia. O relaxamento e a desatenção em que se encontrava pareciam de outra pessoa.

- Olha, mãe, um chapéu! Compra um chapéu pra mim, mãe, compra!

Ela olhou para o chapéu na vitrine, era um chapéu branco, tipo cowboy, que a fez imediatamente lembrar do Beto Carrero. Lembrou dos anúncios na tv, que sempre terminavam com o nome dele escrito com um chicote. O barulho estranho daquele chicote ficou se repetindo em sua mente.

- Compra, mãe, por favor, mãe, compra!

Ela continuou sem responder, ainda pensando no Beto Carrero, o som irritante ecoando em sua cabeça. Tentou lembrar por onde ele andava, já que há muito não o via na tv. Foi então que se lembrou: Ele havia morrido. Nesse momento, foi como se o sangue tivesse saído inteiramente do seu rosto, apertou fortemente a mão do filho, e ficou se segurando para não chorar.

- Ai, mãe! Minha mão!
- Quê? Ah, desculpa.
- Compra, mãe, compra o chapéu, mãe.
- Não, filho.

Ele já havia morrido há alguns anos, e na época ela nem deu muita atenção, afinal, a afeição dela pelo Beto Carrero era a mesma da maioria das pessoas, nenhuma. Mas foi só ali que Rebeca se deu conta que nunca mais veria Beto na televisão, nunca mais poderia conhecê-lo pessoalmente se um dia fosse ao Beto Carrero World, e o pior, nunca mais ouviria o som estranho daquele chicote. Irritado pela mãe não ter se irritado com ele, Pedro começou a choramingar alto.

- Compra, mãe! O chapéu, mãe! Eu quero, mãe!

Rebeca continuava sem conseguir se importar com o pedido do filho, com o olhar perdido, se segurando para não chorar.

- O que é isso, Rebeca? Porque esse moleque tá chorando?
- Hein? Chorando? Não... Não é nada.

Ela parecia mais triste que o menino, que percebendo o jeito estranho da mãe parou de fazer manha em menos de um segundo. Rebeca não conseguia tirar a falta de Beto Carrero da cabeça, e não entendia por quê. Lembrou-se de quando a mãe morreu, o que aconteceu antes mesmo da morte de Beto, e de como foi ela que cuidou de tudo, consolando os irmãos, permanecendo a mais forte da família. Não se lembrava de ter derramado uma lágrima sequer pela mãe, que ela amava muito, mas agora precisava segurar as lágrimas por um homem que ela sequer conheceu. Aquilo parecia a entristecer e irritar mais ainda.

- Você tá bem, Rebeca?

Ela fez que sim com a cabeça enquanto mordia os lábios.

- Pai, tô com fome.
- Vamos, vamos comer... Vamos, Rebeca.

Otávio deu o braço para que a esposa segurasse, como se ela fosse uma velha, e assim ela foi andando até que eles chegassem a uma mesa no Mc Donalds. Otávio deu dinheiro para que as crianças comprassem o lanche, e sentado com a esposa tentava descobrir o que ela tinha. Mas Rebeca parecia perdida, respondia com monossilábicos, o tempo todo tentando disfarçar a tristeza. As crianças chegaram com os lanches, e Otávio disfarçou a preocupação com a mulher. Pedro abriu a caixa do Mc lanche feliz e tirou o brinde: um cavalinho de plástico, apertava-se o rabo e ele dava um coice. E Rebeca lembrou do cavalo do Beto Carrero. Era um cavalo branco, lindo... Faísca, isso, Faísca, esse era o nome dele. Ele estava sempre com o Beto Carrero, pareciam companheiros inseparáveis. Foi quando o desespero de Rebeca aumentou: O que teria acontecido com Faísca? Onde ele estaria agora? Será que ele suportou a morte de Beto, seu mestre, seu herói? O que fizeram com o pobre animal? Oh, Faísca!

- Faísca!
- Que foi, Rebeca?
- O Faísca, Otávio! O Faísca!
- Mas que Faísca, Rebeca? Tá louca?

Nesse momento, Rebeca já não pôde segurar. Caiu num choro desesperado, incontrolável, não conseguia entender a indiferença do mundo com aquele lindo cavalo branco. Levantou e praticamente se jogou em cima do filho, o sacudindo com as mãos em seus ombros.

- Marcos! Pelo amor de Deus, Marcos, o Faísca! O que fizeram com o Faísca, Marcos, o que fizeram com ele!?
- Eu não sei, mãe, eu juro!
- Me ajuda, Marcos! Pelo amor de Deus, ajuda o Faísca!

Sem ter mais forças, Rebeca caiu no chão, soluçando quase sem conseguir respirar. Otávio a pegou no colo, e foi correndo para o estacionamento, seguido pelas crianças. O shopping todo parou para vê-los passar, Otávio desesperado com a mulher em prantos no colo, Pedro chorando e berrando mamãe tá louca, Marcos branco e tremendo pela agressividade da mãe.

Rebeca passou um ano na cama, em depressão profunda, sem sair de casa. Otávio tentava de tudo, mas nada adiantava. As crianças tentavam falar com a mãe, tristonhas, ela tentava sorrir, mas não conseguia. Não enquanto não soubesse o que havia acontecido com o Faísca. Vários psiquiatras a visitaram, tentando todos os tratamentos possíveis, de Prozac a Effexor ela tomou todos os antidepressivos, nenhum funcionou. Amigos, família, vizinhos vinham conversar com ela, dar palavras de conforto, de carinho, mas só recebiam de volta perguntas sobre o Faísca, pedidos de socorro pelo animal, elogios ao único cowboy genuinamente brasileiro. Não era incomum ela se despedir fazendo o famoso som do chicote com a boca. Otávio então passou a se empenhar em descobrir o paradeiro de Faísca, se ela soubesse que o animal estava bem talvez melhorasse, era um último recurso antes de interná-la num hospício. Depois de várias ligações ao Beto Carrero World, descobriu que Faísca ainda estava no parque, estava bem e não sentia falta do dono, afinal, era só um cavalo. Pediu para falar com o tratador de Faísca, e passou o telefone para Rebeca.

- Rebeca, escuta, é o tratador do Faísca no telefone, Rebeca. O Faísca está bem.
- É mentira.
- Toma, fala com ele.
- Alô.
- Dona Rebeca? Aqui é o tratador do Faísca.
- Hã.
- Ele tá bem, viu? Come bem, bebe água...
- Sei.
- E... Tá bem, faz as coisas que cavalo faz. E inclusive nem sente falta do seu Beto, porque... Porque... Bom, porque é cavalo, né? Bicho burro.
- Quanto meu marido te pagou pra dizer isso?
- Quê?
- Você sabe onde o Faísca está? Você fez alguma coisa com o Faísca?
- Eu? Bom, eu escovo ele, e...
- Mentiroso! Cale a boca, mentiroso! Ele era um cowboy brasileiro, tá ouvindo?! Um cowboy brasileiro! E você, Otávio, o que você está escondendo? Você matou o Faísca, é isso? Matou o Faísca?!
- Rebeca, por favor...
- Sai do meu quarto! Sai do meu quarto!!!
- Mas o quarto também é meu...
- Aaaaaaaahhhhhhh!!!!

Parecia inútil, ela não confiava em mais ninguém. Ele só conseguia pensar em uma última solução antes do manicômio: Trazer o cavalo para que Rebeca o visse. Foram meses de negociações com o parque, gastou todo o dinheiro que tinha, vendeu carro e perdeu o emprego, mas conseguiu fazer com que o cavalo fosse transportado de Santa Catarina para o Rio de Janeiro, onde moravam. As crianças entraram correndo no quarto, e subiram na cama avisando a mãe.

- Mamãe, papai trouxe o Faísca, mamãe, papai trouxe o Faísca!
- Deixa eu dormir.
- É verdade, mamãe, é verdade, o Faísca tá lá embaixo!

Rebeca já estava levantando a mão para dar um tapa nos moleques, quando ouviu seu marido a chamando na rua. Olhou pela janela do sexto andar, e de trás de um caminhão saiu um lindo cavalo branco. Ela não teve dúvida, era mesmo o Faísca. Não teve tempo de sorrir. Percebeu o que havia feito. Por um ano, ficou chorando por um homem que não conheceu, e por seu cavalo. E o tempo todo aquele cavalo estava bem, e agora estava ali. Era apenas um cavalo. Era tão cavalo quanto qualquer cavalo. E por causa de um idiota e seu cavalo, ela fez seu marido, seus filhos, seus irmãos, amigos, sofrerem por um ano. Imediatamente todo o sangue de seu corpo subiu para o rosto. Sentia como se fosse explodir. A extrema vergonha pelo papel ridículo, e a infinita dor da culpa pelo sofrimento que causou eram muito piores que a depressão que sentiu. Precisava de qualquer jeito algo para justificar aquele sofrimento, ou não agüentaria. Pegou o primeiro filho que viu pela frente e atirou pela janela. Teve sorte de ser o Marcos, que só tirava notas baixas na escola. Mas já foi o suficiente para justificar uma depressão maior ainda, dessa vez indiscutível, e Rebeca nunca mais precisou sorrir novamente.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Cheiro de Festa

Oito da manhã de sábado, e tocou o telefone. Fazia pelo menos três dias que ele não recebia uma ligação, qualquer ligação, por isso despertou no primeiro toque, e levantou correndo para atender.

 

- Alô?

- Ô, Ricardo!

- Como?

- Ô Ricardo, fala aí!

- Ricardo? Não, amigo...

- Hein? Não é o Ricardo?

- Não, amigo. Desculpa, acho que você ligou errado.

- Ah... Ok.

- Por nada, amigo.

 

Pensou em dormir de novo, mas não conseguiria. Estava ansioso demais pela festa à noite. Desde um mês antes, quando ela foi à sua mesa convidá-lo, não parava de pensar nisso. Foi uma grande surpresa quando ela o convidou. Em todos aqueles anos trabalhando juntos, ela nunca deu atenção a ele, enquanto ele sempre prestou muito mais atenção do que devia nela. Ela o tratava como se ele fosse inferior, apesar do salário dele ser até um pouco maior. Tocou novamente o telefone. Talvez fosse ela, confirmando a festa. Com as mãos um pouco trêmulas, atendeu.

 

- A-alô?

- É... O Ricardo?

- Não, amigo... Engano novamente.

- Ah... Ok.

- Sem problema, amigo, sem problema!

 

E como poderia se irritar? A última vez em que recebera mais de uma ligação no mesmo dia havia sido no seu aniversário. Voltando ao assunto, ele levou um susto quando a viu andando em direção à sua mesa, olhando em seus olhos, e sorrindo, mesmo que de leve e meio forçadamente, perguntando se ele gostaria de ir à sua festa. E ele se perguntava por que ela o convidou... Bem, ela convidou todos da firma, devia estar de olho em alguma promoção... Mas não importava, só o fato dela ter pensado nele já o enchia de alegria, e esperança. Talvez a partir daquela noite a relação deles mudasse, e ela deixasse de ignorá-lo. Talvez ela estivesse disposta a mudar. Mas para isso aquela noite precisava ser perfeita, e ele precisava causar uma boa impressão. E nisso ele considerava muito importante o presente. Passou dias inteiros pensando no que dar. Não poderia ser nada muito caro, pareceria assédio. Tampouco algo muito barato, pareceria desleixo. Ao mesmo tempo, queria algo que a fizesse lembrar dele. Acabou optando por um perfume. Falou com a irmã, que revendia Natura, e comprou um que cheirava a morango. Então todas as vezes que ela usasse o perfume se lembraria dele... Sim, era um grande presente. Olhou para o relógio, ainda eram onze horas. A festa só começaria às oito. Foi se barbear.

 

Agora eram sete e meia. Estava saindo do banho. Se olhou no espelho, e decidiu se barbear novamente. Sua roupa estava esticada na cama, já a havia escolhido há três dias. Queria algo que o deixasse elegante, sociável, mas que ao mesmo tempo não tirasse o brilho da dona da festa. Acabou escolhendo algo muito parecido com o que usava para trabalhar todos os dias, não tinha muitas roupas diferentes. Se vestiu com cuidado, deu uma engraxada rápida nos sapatos, pegou o presente e saiu. Não percebeu que estava chovendo antes de sair de casa, ficou cerca de três minutos na chuva esperando um táxi, se molhou um pouco. Cerca de quinze minutos mais tarde chegou ao salão de festas. A primeira coisa que notou ao entrar foi que as pessoas estavam vestidas bem mais casualmente do que ele. Continuou andando e a procurando com o olhar. A achou conversando em uma roda de amigos. Estava de pé, e um homem sentado tinha o braço ao redor de sua cintura. Ela nunca contou que tinha um namorado. Claro, ela nunca contava nada a ele, mas mesmo assim... Aquilo não estava nos seus planos. Não se deixou abalar, e continuou andando na direção dela. Ela estava bem mais bonita que de costume. Ele, por sua vez, tinha a roupa um pouco molhada pela chuva, as marcas dos pingos nos ombros, e a mistura de gel e água deixou seu cabelo com uma aparência estranha. Tinha algumas gotinhas de sangue no rosto pela última barbeada. Chegou ao grupo de amigos e parou do lado de fora da roda, esperando uma oportunidade para falar. Depois de cerca de um minuto ela percebeu a presença dele. Todos haviam parado de falar.

 

- Oi.

- Oi... Parabéns.

- Ah, obrigada.

- Eu... Trouxe um presente.

- Estou vendo, obrigada.

 

Todos na roda olhavam para os dois, em silêncio. Ele continuou imóvel, olhando para ela.

 

- Você... Quer que eu abra?

- Bem, eu...

- Vamos ver... É um perfume?

- Sim, um perfume. Eu fiquei em dúvida em qual presente te dar, fiquei pensando no que você gostaria, tentando adivinhar... Aí lembrei que você anda sempre muito cheirosa, quer dizer, não que eu conheça... Bem, quando eu passo por você eu sinto um cheiro... Bom. Por isso imaginei que você gostasse de perfumes, e como vi você comendo morangos uma vez, achei que você gostasse de morango, então...

 

Nesse momento o namorado, que até então estava segurando o riso, não agüentou mais e o soltou, virando o rosto para o lado. Outros também riam disfarçadamente, ou nem tanto, com um copo na frente da boca, tapando o rosto com as mãos, ou mesmo abaixando a cabeça na mesa. Ela mesma estava claramente tentando se controlar, quase engasgada.

 

- Tudo bem, obrigada... Pelo perfume de morango.

 

Ele fingiu um riso amistoso, e se virou, e enquanto se afastava da mesa ouvia as risadas cada vez mais altas dos amigos.

 

- Puta que o pariu, perfume de morango!

- Meu Deus, que idiota!

- Chega a ser inacreditável!

 

Se sentou o mais longe possível dela, em um lugar do salão onde não podia vê-la. Pegou tremendo um copo de cerveja, ele que nunca bebia. Decidiu que ficaria ali, sozinho, até que a festa terminasse. De vez em quando passava algum conhecido do trabalho, e o cumprimentava, ou apenas acenava com a cabeça, às vezes uma conversa rápida, às vezes fingiam que não o conheciam. E ali ele ficou, bebendo, até que, na terceira cerveja, pôde vê-la de onde estava. Estava de pé com o namorado, conversando com uma pessoa que ele não conhecia. Decidiu ir até ela. O namorado o viu chegando, e a cutucou, já com um sorriso no rosto.

 

- Oi.

- Oi...

- Se você quiser pode trocar.

- Oi?

- O perfume. Se você não gostou pode trocar, não tem problema. Minha irmã me vendeu, ela vende Natura, eu posso falar com ela, se você quiser, e...

- Tá tranqüilo, Moranguinho!

 

Foi o namorado quem disse, rindo. A terceira pessoa riu também. Dessa vez ela não conseguiu se segurar, e riu tanto quanto os outros. Pelo menos ele não precisou disfarçar e se afastar, eles saíram de perto antes. Voltou para a mesa, e virou o quarto copo. No quinto estava na hora do parabéns. Foi com os outros para perto da mesa do bolo. Ele nunca a vira tão bonita quanto naquele momento, talvez pela ajuda do álcool que ele não estava acostumado a beber.

 

- Parabéns pra você...

 

Ela estava muito feliz, ao lado dos pais e do namorado. Não parecia a moça que pouco ria no escritório.

 

- É big, é big...

 

Foi uma bela cena para ele vê-la fechando os olhos e assoprando as velas.

 

- Com quem será...

 

Percebeu, apesar do estado etílico, que o namorado e alguns amigos próximos pareciam olhar para ele, de um jeito debochado.

 

- ...Vai depender, SE O MORANGUINHO vai querer...

 

Todos que entenderam a piada caíram na risada. Ela também, sem disfarçar. A reação dele foi acompanhar o riso, e riu muito, e alto, uma gargalhada estranha, descontrolada, que fez com que a maioria que estava na festa olhasse para ele, ela inclusive. Depois disso, não esperou que cortassem o bolo, e foi o primeiro a ir embora. Nunca se odiou tanto. Pensava em como era otário, um mês ansioso por aquela noite, por causa dela, um mês se preparando, preocupado para que tudo desse certo, procurando o presente perfeito, a roupa perfeita, as palavras perfeitas, para que ela lhe desse pelo menos um sorriso, talvez um abraço, na melhor hipótese um beijo. Mas ele fracassou, fracassou totalmente, como sempre fracassava, e o que era pra ser um sorriso virou deboche, escárnio, humilhação. Nunca se odiou tanto. Chegou na saída do salão de festas. Era uma espécie de portaria, mas sem porteiro. Apenas um corredor estreito e a porta de saída. Abaixou a braguilha da calça e começou a mijar. Mijou nas paredes, no chão, e depois de cinco cervejas, conseguiu formar uma bela poça. Então, quando aquela vaca passasse por ali, não teria como ignorar o cheiro dele. Passou anos o ignorando no escritório, o ignorou e o humilhou na festa, mas agora seria impossível ignorar o forte cheiro de urina, urina dele. E provavelmente ela pisaria no seu mijo, e, nas solas dos sapatos, o levaria para impregnar também a sua casa. Não importava se ela não soubesse que o mijão era ele, aquele ato já o deixou satisfeito. Deu um tapinha nas próprias costas e voltou para casa a pé, feliz, orgulhoso dele mesmo.

 

Ela não passou pela portaria, é verdade. Saiu de carro pela garagem, como a maioria dos convidados. Acho até que a única pessoa a reparar no mijo foi a faxineira, e só no dia seguinte. Mas não importava, pois naquela noite ele dormiu satisfeito consigo mesmo, como há muito não dormia, e teve uma noite cheia de sonhos bons, como há muito não os tinha.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Metamorfonia

A metamorfonia é um transtorno mental delirante, em que o indivíduo acredita ter se transformado em algo ou alguém de forma espontânea. A doença pode durar de alguns minutos a uma vida inteira. As causas do transtorno são ainda desconhecidas, podendo afetar qualquer pessoa, apesar de estudos recentes indicarem que homens com mocoronguisse aguda são os mais afetados pelo transtorno.

 

Manifestações do Transtorno

 

O transtorno surge quase sempre de forma espontânea e inesperada, tanto pelo indivíduo quanto pelos que estão à sua volta. Geralmente o objeto de transformação é algo no campo de visão da pessoa. É comum o sujeito estar sentado em casa, por exemplo, e acreditar ter se transformado em uma televisão, ou andando pela rua acreditar se transformar num carro, sair da calçada, ir para o meio da rua correndo de quatro e fazendo vrum-vrum com a boca. A metamorfonia automobilística é hoje a terceira maior causa de atropelamentos do mundo.

 

Tipos Mais Comuns de Metamorfonia

 

Solar: Surge quase sempre ao ar livre, em dias quentes e de sol forte. Nessa metamorfonia, a pessoa acredita ser o sol e, com isso, ser a responsável por iluminar o planeta. É comum os que sofrem desse tipo de transtorno colocarem o relógio para despertar às seis da manhã, acreditando que se não acordarem podem ser os responsáveis pelo dia não começar. Ao amanhecer, saem pela rua na ponta dos pés, para ficarem mais perto do céu, e passam o dia inteiro andando e espalhando luz para todos, sempre de modo altivo e orgulhoso, esperando agradecimentos dos que passam por eles. Ao anoitecer, voltam para casa acreditando que foram eles que escolheram ficar no escuro até o dia seguinte. É freqüente o uso compulsivo de filtro solar, pelo medo das possíveis queimaduras de raios ultravioletas emanados do próprio corpo.

 

Aviária: A mais comum das metamorfonias. Aqui, o sujeito acredita ter se transformado em um pássaro. Todos com esse tipo de metamorfonia acreditam voar, com algumas variáveis. Alguns correm batendo os braços ao mesmo tempo, às vezes mantendo eles abertos como se estivessem planando, e acreditam assim estar voando, mesmo que rente ao solo. Outros deitam-se no chão, com o rosto virado para baixo, e batendo os braços também acreditam estar voando, mesmo que num ultra rasante extremamente lento, ou parado. A ingestão de insetos e minhocas é comum, assim como a criação de ninhos para cuidar de pedras, bolas, moedas, ou mesmo ovos de galinha, como se fossem ovos colocados por eles mesmos. Por acreditarem voar, muitos se jogam de prédios ou precipícios, tornando a metamorfonia aviária a segunda maior causa de suicídio involuntário do mundo, perdendo apenas para a prática de esportes.

 

Familiar: Aqui o sujeito acredita ter se transformado em um parente próximo, da própria mãe a avós, filhos, e até esposa ou marido. Esse tipo de metamorfonia costuma durar pouco tempo, pelo paradoxo de existirem, por exemplo, duas mães na mesma família, o indivíduo sendo mãe e filho ao mesmo tempo, esposa e filho do pai, mãe e irmão dos irmãos, etc. A convivência com pessoas com esse transtorno se torna muito desgastante, especialmente em casos de maridos se transformando na própria esposa, em que a imitação muitas vezes é tão perfeita que acaba sendo vista como escárnio pela mulher, o que quase sempre termina em divórcio, ou mesmo assassinato.

 

Personalidades Com Metamorfonia

 

Jack Hardy – Famoso bandido norte-americano do começo do século XX, acreditou ter se transformado em um crocodilo ao ver o animal da janela de sua cela. Por não reconhecer os próprios braços e pernas, os devorou em apenas uma noite, deixando apenas cotocos do tamanho dos membros do crocodilo. Encontrado sangrando muito pelos carcereiros no dia seguinte, foi levado para o hospital, e conseguiu sobreviver. Sua metamorfonia acabou pouco tempo depois, e seu caso se tornou comoção nacional, com todos pedindo pelo perdão de seus crimes e sua liberdade. Após alguns meses, recebeu o perdão oficial do governador, o que se mostrou um erro, pois no mesmo dia em que foi solto Jack Hardy devorou duas vacas e a filha do prefeito, sendo condenado à morte. A história de que o governador usou o couro de Jack Hardy para fazer uma bolsa e dar como presente de aniversário de casamento para a esposa nunca foi confirmada.

 

Silvinha Flores – Atriz brasileira de fotonovelas na década de cinqüenta. Fez muito sucesso com as fotonovelas “A Namoradinha Atrapalhada”, de 1955, e “A Favorita do Patrão”, de 1956. Muito vaidosa, Silvinha era capaz de passar horas na frente do espelho, e sua vaidade só aumentava com o sucesso, até que, em 1957, acreditou ter se transformado em espelho. Foi encontrada pela família parada em frente ao espelho, refletindo a imagem que o mesmo refletia. A partir daí, imitava os movimentos de qualquer um que tentasse interagir com ela, exatamente como um espelho faria. Seu caso tornou-se famoso nas revistas de fofocas, e o número “Silvinha”, em que se copiava movimentos de outras pessoas, tornou-se comum entre os comediantes da época. Saiu do estado metamorfoníaco em 1960, e tentou retomar sua carreira de atriz, mas sem sucesso, há esse ponto ela já era uma piada nacional. Para sobreviver, passou a interpretar o quadro “Silvinha” em teatros e no largo da Carioca. Morreu aos 42 anos, em decorrência do forte alcoolismo, e em estado bastante deplorável, por nunca mais ter se olhado em um espelho.

 

Johnny Jenkings – Guitarrista inglês da banda de rock dos anos 60 The Crashers. Durante um show em Londres, em 1967, Jenkings subitamente parou de tocar, colocou

sua guitarra no chão e se jogou na platéia, sendo carregado por praticamente todo o público. Ao ser colocado do volta ao palco, continuou deitado, de barriga para baixo, batendo os braços. Inicialmente todos continuaram aplaudindo, parecia ser a melhor noite da banda. Mas Jenkings não se levantava nem parava de bater os braços, e aos poucos o público foi parando de aplaudir, e a banda parando de tocar. Os integrantes do The Crashers foram acudir Jenkings, mas esse não respondia a nenhum estímulo. A platéia passou a se irritar, deixando o show e pedindo o dinheiro de volta, pensando que a situação de Jenkings era excesso de ácido, quando na verdade era metamorfonia aviária. A partir daí Jenkings foi substituído no The Crashers, e passou a viver isolado do mundo, até que, aos 27 anos, foi encontrado morto em casa, em cima de seu ninho, por overdose de heroína.

 

Tratamento

 

Por ser um transtorno de diagnóstico relativamente difícil, a metamorfonia pode ser confundida com a esquizofrenia. Pacientes com metamorfonia tratados com remédios para esquizofrênicos costumam ter sua situação piorada, com a metamorfonia durando mais tempo, e até adquirindo dois ou mais tipos da condição de uma vez. Pelas causas desconhecidas da doença, não existem remédios próprios para a metamorfonia. Placebos costumam ser usados com certo sucesso, sendo a metamorfonia a única doença do mundo em que homeopatia realmente funciona, apesar de estudos recentes mostrarem que balinhas Tic-tac dadas como remédio terem efeito maior nos metamorfoníacos que remédios homeopáticos. O álcool também é usado por muitos médicos para a cura da doença. Nesse caso, sentam o paciente em uma mesa de bar e o obrigam a beber, até que, em meio a lágrimas e declarações de amor, o paciente percebe que não é o que pensa ser, e volta ao normal.