sexta-feira, 20 de novembro de 2009

O Velho e o Puma

O velho estava deitado em sua cama, virado para a parede, quando ouviu um barulho alto e próximo no matagal. Sentiu que algo entrou pela janela. Virou-se, e, ainda deitado, percebeu algo grande sentado à sua frente, apesar do escuro.

 

- O que é isso? Uma onça?

- Não. Sou um puma.

- O tênis?

- Não. O animal.

- Ah.

 

Estava quase virando para o outro lado para voltar a tentar pegar no sono, mas tinha um puma sentado em seu quarto, e ele achou melhor continuar a conversa.

 

- E... O que você quer aqui?

- Vim para lhe dizer a verdade.

- Obrigado, mas eu já tenho minha verdade. Não preciso da dos outros.

- Mas não existe verdade dos outros. Só existe uma verdade.

- Se a verdade não é minha, é dos outros.

 

Mesmo um pouco assustado, o velho continuava deitado de lado, olhando para o puma, apesar do escuro. O puma olhava para ele já um pouco irritado.

 

- Eu sou um puma e estou falando com você. Por acaso isso fazia parte da sua verdade?

- Por que não? Minha mulher era uma jamanta e falou sem parar por mais de 60 anos.

- Haha...

 

A piada sem graça e o riso do puma aliviaram um pouco a tensão, e por um momento era quase como se fossem amigos. Mas isso acabou depois de um período de silêncio constrangedor, e voltou a seriedade na voz do puma.

 

- Você sabe que, se eu quisesse, poderia te devorar agora mesmo?

- Não pode, não.

- Como não? Eu sou um puma!

- Puma não mata ninguém. Onça mata, puma não mata ninguém.

- E de onde você tirou isso?

- Em 71 anos, já vi muita onça atacar gente. Puma não. Puma é bichinho bicha que não ataca ninguém.

- E por acaso você já tinha visto um puma antes?

- Não.

- Então como pode dizer que...

- Se puma matasse gente, depois de 71 anos de vida eu já teria visto um puma matando gente.

- Mais isso não é a verdade!

- É a minha verdade.

 

Não era esse tipo de conversa que o puma esperava. Esperava mais veneração, por ser um puma falante que trazia a verdade. Estava perdendo a paciência.

 

- E se eu te atacar? Sua verdade vai mudar?

- Você não vai me atacar, porque é bichinho bicha. Minha verdade não muda.

 

O puma abriu a boca para dizer alguma coisa, ou até para atacar o velho, mas desistiu. Continuou sentado, pensando no que dizer. O velho estava ficando cansado.

 

- Você vai ficar aí sentado?

- Eu.. preciso dizer a verdade.

- Eu já tenho a minha, já disse. Verdade dos outros não me interessa.

- Não é dos outros. É a verdade.

- Já disse que se não é minha é dos outros.

- E se eu te disser mesmo assim?

- Não vai dizer.

 

E o velho puxou a pistola que guardava na gaveta da mesinha de cabeceira. O puma se assustou.

 

- Entendo... eu só achei que o senhor... Quer dizer, é a verdade...

- Eu já sei a verdade.

- Bem, quer dizer... Tudo bem, eu já vou. Sinto muito que o senhor...

- Boa noite.

- Boa noite.

 

E, com um pulo sobre a cama do velho, o puma saiu pela mesma janela em que entrou. Enquanto o velho colocava a arma de volta no lugar, percebeu um cagalhão do tamanho de uma codorna no chão.

 

- Filhos da puta... Entram na sua casa para cagar no chão.

 

Virou para o lado da parede, e dormiu com um lençol sobre o rosto para não sentir o cheiro da bosta, que deixou para limpar no dia seguinte.