quarta-feira, 29 de julho de 2009

Eu Estou Apodrecendo

- Eu estou apodrecendo, eu estou apodrecendo, apodrecendo, eu estou apodrecendo. Eu estou apodrecendo, eu estou apodrecendo, eu, apodrecendo.

Acordou dizendo isso involuntariamente junto com o primeiro bocejo. Confuso, foi ter com sua mulher na cozinha.

- Querida, eu estou apodrecendo! Eu, eu, apodrecendo! Eu estou apodrecendo, eu estou apodrecendo, apodrecendo, eu estou apodrecendo!
- Eu sei. Café?
- Apodrecendo... Apodrecendo, apodrecendo, apodrecendo! A-po-dre-cen-do!
- Eu sei, querido, eu sei... São 8:30, melhor sair agora eu vai chegar atrasado no trabalho. Falou sobre aquele aumento com seu chefe?
- Apodrecendo...
- Pois é... Café?

Não foi trabalhar naquele dia. Se vestiu e foi ao psiquiatra, sem tomar o café. No caminho não conseguia parar de repetir que estava apodrecendo. Apodrecendo. E pela rua alguns ouviam e o olhavam com certa estranheza, algumas com nojo, outras achando graça, mas a maioria com indiferença, concordando com ele.

- O senhor tem hora marcada?
- Eu... Eu estou apodrecendo, apodrecendo!
- Certo... Plano de saúde ou particular?
- Apodrecendo...
- Ok. Aguarde que o doutor já vai atendê-lo.
- Apodrecendo...
- Por nada.

Sentado na sala de espera, ao lado dos outros pacientes, continuava repetindo a mesma coisa. E os bipolares, suicidas, esquizofrênicos, olhavam para ele e concordavam com o que dizia, sem darem maior importância. A revista veja de 2003 tremia em suas mãos, e enquanto a fingia ler tentava dizer seu mantra mais baixo, sussurrando, mas não podia. Saía sempre num tom suficientemente alto e claro para que todos pudessem ouvir, principalmente ele mesmo. Cerca de uma hora depois o doutor o mandou entrar.

- Bom dia, senhor.
- Apodrecendo.
- E qual é o seu problema.
- Apodrecendo, doutor, apodrecendo, eu estou apodrecendo, apodrecendo!
- Entendo...
- Eu, eu, apodrecendo, eu, apodrecendo! Apodrecendo, apodrecendo, apodrecendo, apodrecendo, apodrecendo, apodrecendo, apodrecendo, apodrecendo, apodrecendo!
- Certo. Bem senhor, isso é a verdade. Não tem nada que eu possa fazer. Dizer a verdade não é doença.
- Apodrecendo...
- Pode ir, está liberado. Não precisa pagar a consulta.

O doutor apertou sua mão com certa irritação por ter perdido seu tempo à toa com aquele homem perfeitamente saudável. Ou perturbados da sala de espera também o olharam com reprovação, por aquela espécie de gente normal estar ocupando o lugar deles no psiquiatra. Voltou para casa se sentindo confuso. Sua mulher havia saído, estava sozinho. Foi ao banheiro e se olhou no espelho. Estava ficando careca. Seu corpo parecia mais fraco. Seus olhos já não enxergavam tão bem. Parecia cada vez mais curvado para frente. E apesar disso tudo não ter acontecido de um dia para o outro, mas lentamente através dos anos, teve que concordar consigo mesmo, estava apodrecendo. Deitou na cama e ligou a tv, enquanto apodrecia. Lembrou que faltou ao trabalho, e ligou para o escritório.

- Apodrecendo.
- Bom dia, senhor Pacheco.
- Apodrecendo, apodrecendo. Eu estou apodrecendo.
- Todo bem, eu aviso ao doutor Charles.
- Apodrecendo.
- Até amanhã, senhor Pacheco.

Desligou o telefone e continuou assistindo tv. Estava no programa do Ratinho, e ele riu de algumas piadas do Xaropinho.

Daí para frente sua vida não mudou muito. Continuou bem casado, conseguiu o aumento que merecia no emprego, seus amigos continuaram rindo de suas piadas, mesmo que fossem sempre com ele apodrecendo. Morreu cerca de vinte anos mais tarde, apodrecendo, e no enterro todos concordaram que ele sempre esteve certo, agora mais do que nunca.

domingo, 5 de julho de 2009

O Lagarto de Seringüela

O lagarto de seringüela (Lagartus Seringüelus) recebe esse nome por ser característico do deserto de Seringüela, que por sua vez foi batizado assim por ser o único habitat dos lagartos de seringüela. Por seu tamanho relativamente pequeno (chegam a no máximo 55 cm.), por muito tempo pensou-se que se tratassem de lagartixas (Lagartixius Seringüelus), o que foi provado errado quando estudos mostraram que seus rabos não cresciam de volta quando eram cortados.

Alimentação

O lagarto de seringüela é um animal onívoro, e se alimenta tanto de cactos quanto de cobrinhas de seringüela (Cobrinhus Seringüelus), a única espécie de animal existente no deserto de seringüela fora o próprio lagarto. Seu predador natural é a águia, apesar de não existirem águias no deserto de seringüela. Seus olhos são localizados na parte de cima da cabeça, o que o ajuda a perceber a aproximação de águias, que não existem no local. Isso acaba tornando os filhotes e os ovos dos lagartos de seringüela presas fáceis das cobrinhas de seringüela. Pelo medo que têm do que vem do céu, quando percebem que estão tendo seus ovos e filhotes atacados, os lagartos de seringüela se juntam e formam uma proteção contra ataques aéreos, que não existem na região, tornando a vida das cobrinhas de seringüela muito mais fácil. Ser ao mesmo tempo a presa e o predador da mesma espécie acaba criando um ciclo alimentar de canibalismo por tabela, que pode ser o responsável pelo elevado número de casos de esquizofrenia e elefantíase do lagarto de seringüela.

Hábitos

Tem por hábito passar o maior tempo possível parado, e só costuma se mover para procurar comida ou se reproduzir. A preguiça e o medo exagerado de tudo explicam porque o lagarto de seringüela nunca saiu da região do deserto de seringüela, que tem apenas 7 km2. O vínculo familiar do lagarto de seringüela é muito forte, especialmente a relação mãe-filhote. A mãe é a responsável pela alimentação do filhote até o momento em que ele se reproduz e tem sua própria cria. O lagarto de seringüela só mexe os músculos das patas pela primeira vez quando sente vontade de se reproduzir, o que acontece por volta dos 18 anos. Quando os filhotes se tornam independentes e têm seus próprios filhotes, as mães perdem a vontade de buscar comida e vão para o local conhecido como “cemitério das mamães seringüelas”, onde ficam paradas até morrerem de fome.

Reprodução

Quanto maior o rabo de uma lagarta de seringüela, maior o interesse dos machos por ela. Quando chega a época de acasalamento, os machos se postam de frente à lagarta que lhes interessa, deitam de costas no chão, e com as patas inferiores puxam e esticam seus pênis o máximo que podem. O escolhido pela fêmea será o que tiver o maior pênis. Muitas vezes, os que não são escolhidos, movidos por forte sentimento de fracasso e humilhação, prendem seus pênis embaixo de pedras, tentando esticá-los para deixá-los maiores, e acabam decepados, o que deixa muitas fêmeas sem machos, e ajuda a tornar o lagarto de seringüela um animal em eterno risco de extinção. Tanto as fêmeas solteironas quanto os machos eunucos voltam a ser alimentados pelas mães, que ficam contentes por não terem que ir ao “cemitério das mamães seringüelas” para morrer.
As fêmeas enterram seus ovos para protegê-los das águias, que não existem na região, o que torna a vida das cobrinhas de seringüela, que vivem em tocas debaixo da terra, muito mais fácil.

Culinária

O pênis de lagarto de seringüela esmagado, encontrado debaixo de pedras, é considerado uma iguaria por moradores de vilarejos próximos ao deserto de seringüela. Eles acreditam que o pênis esmagado tenha propriedades capazes de curar erisipela e aids, apesar de estudos recentes comprovarem que, além de não curar, ele dá câncer. O pênis de lagarto de seringüela esmagado é tradicionalmente servido com ovos mexidos e refresco de groselha.