segunda-feira, 19 de outubro de 2009

A Batida

Um era um Corcel 78. Ele era o 2º dono. Comprou o carro em 81, quando se aposentou, com o dinheiro do fundo de garantia. Era um Corcel I, Luxo, na época um grande carro. Foi boa parte do dinheiro do fundo nele. Lembra a primeira vez que chegou em casa com o carro, e como sua mulher quase o matou. A casa caindo aos pedaços, e ele gastando dinheiro em carro? Mas, para ele, comprar aquele carro era indispensável. Muitos anos num trabalho duro que pagava pouco, que para ele parecia totalmente inútil, e para o resto do mundo também. Não era o trabalho que ele queria, sempre sonhou com algo que o deixasse rico, feliz, mas aquele era um emprego estável, apesar do salário medíocre, e com mulher e filhos para bancar não podia arriscar. Quando se aposentou, os filhos já estavam crescidos, todos com vida própria, todos com empregos melhores que o dele, morando longe, alguns já com família. Ele precisava gastar aquele dinheiro com ele mesmo. E gastou no Corcel, na época um grande carro. Tinha bancos de couro. Mas a mulher por muito tempo não o deixou em paz por isso. Na verdade ela nunca o deixava em paz. Desde que ele se aposentou, e começou a passar os dias em casa, a convivência ficou bem mais insuportável. Para a mulher também. Estava acostumada a passar as tardes sozinha, e agora aquele velho ficava o dia inteiro ali, estático, na frente da tv. Então o que ela fazia era falar. Falar de tudo, o tempo todo. Foi quando ele começou a beber. No início comprava cerveja e levava para casa, para beber enquanto assistia tv e ouvia a velha tagarelar. Depois passou a não suportar mais a velha falando o tempo todo, e começou a ir beber fora. Isso só fez aumentar as reclamações, o que só fez com que ele bebesse ainda mais. E é isso que ele passou a fazer desde então, beber. O que mais ele tinha a fazer? Foi ele quem sustentou aquela família por mais de trinta anos, era ele quem sustentava aquela velha, e era com o dinheiro da aposentadoria dele que pagava a bebida, não devia satisfação a ninguém. E todos ficavam contra ele, a velha, os filhos, cunhadas, sobrinhos. Mas qual era a outra opção? Ficar em casa? Sóbrio? Pra quê? Ele sabia que isso só pioraria tudo. Ele só passaria a se irritar mais ainda com ela, e sem o alcoolismo ela perderia o principal motivo para reclamar dele. E sem poder reclamar ela cairia em depressão, ela provavelmente precisava mais disso do que ele da bebida. E agora, só porque ele reclamou, com razão, mesmo que bêbado, de como a macarronada que ela havia feito no dia anterior estava grudenta, seca e sem gosto, ela ameaçava o expulsar de casa? Mesmo que ele tenha dito gritando, avisando que não comeria aquela merda requentada no microondas, ela não tinha o direito de o querer tirar de casa. Foi ele quem construiu aquela casa, com o salário de merda do emprego que ele odiava, que ele sabia que nunca o levaria a lugar nenhum, mas em que permaneceu para sustentar aquela família. Saiu de casa depois da discussão e foi beber mais. Voltou tarde e dormiu no sofá. Quando acordou, no dia da batida, tomou o café que a velha preparou, sem ao menos olhar em seu rosto, e saiu logo em seguida. Pegou o Corcel e estava indo a um bar de um amigo no centro. Precisava beber, desabafar, para não explodir. Nunca sentiu tanta vontade de beber como naquela manhã.

O outro era um carro japonês. Mas não desses pequenos, econômicos e quase baratos. Era um daqueles exageradamente grandes, nada econômicos e ridiculamente caros. Havia comprado há dois meses, depois de muitas discussões em família sobre qual carro substituiria a Mercedes, que ele teve por seis anos, e que gostava muito. Por ele não trocaria tão cedo aquele carro, mas a mulher e os filhos viviam reclamando de como estava velho, ultrapassado, de como ele não trocava nunca o carro, era quase vergonhoso ir para os mesmos lugares há seis anos com o mesmo carro. Mesmo sem concordar, ele aceitou a decisão familiar. Não gostava daquele carro japonês. Sentia ter pagado um preço gigantesco por pedaços de plástico. Além de não se sentir bem naquela espécie de jipe bicha. Não parecia um carro de verdade. Mas não podia dizer não à família. Se eles não se sentiam bem perante os amigos andando em um carro de seis anos, era seu dever de pai trocá-lo, mesmo que não quisesse. Não conseguia dizer não principalmente à mulher. Era trinta e cinco anos mais nova. Ele não disse não quando, após seis meses de casamento, ela quis fazer inseminação artificial. Já estava tentando engravidar a algum tempo, mas não conseguia. Ele aceitou, pagou um preço mais alto que por seu carrinho japonês pelo tratamento, e alguns meses depois nasceram os gêmeos. Agora, pelos filhos, a herança estava garantida, não tinham como tirar isso dela. Herança para dividir com a outra filha que ele tinha, mais velha que a esposa. Raramente a via. Sentia falta dela, mas ela e a sua esposa não se davam bem, então ele evitava contato o máximo que podia, para evitar brigas em casa. Depois que os gêmeos nasceram as despesas aumentaram bastante. Tanto com as crianças quanto com a mulher. Tinham aulas de tudo. Tênis, inglês, balé, futebol, natação, bafo, pique-esconde. O professor de futebol de botão ia a sua casa duas vezes por semana. Lembrava de quando era criança, e só o que precisava era de um pedaço de pau e insetos para se divertir. E uma caixa de fósforos. Mas agora parecia que as crianças não podiam se divertir com nada que não fosse pago, de preferência caro. E a mulher precisava de ainda mais. Um carro trocado anualmente, motorista, roupas novas sempre, o clube, o almoço diário em restaurantes com as amigas, as plásticas. A consciência que ele tinha de que ela estava com ele apenas por seu dinheiro, era a mesma que ela tinha de que ele só estava com ela por sua beleza. Portanto, ele não podia reclamar do dinheiro gasto com plásticas. Apesar da cara dela estar ficando cada vez mais estranha. Quando a via tinha sempre a impressão de que ela tinha acabado de sair de uma cirurgia com anestesia geral, as bochechas meio inchadas, os olhos sem expressão, a pele sem vida. O silicone tornou os peitos dela mais duros que o pau dele. A juventude e a beleza eram as únicas coisas que ela tinha a oferecer a ele, e as duas coisas já estavam quase totalmente destruídas. Por outro lado, só o que ele tinha a oferecer era dinheiro, e seus negócios não estavam nos melhores dias. Ela não fazia a menor questão de esconder o quanto o dinheiro era importante, nem de mostrar o quanto seria trágico se desfazer de qualquer um de seus luxos. Muitas vezes antes de dormir ela rezava alto, e pedia a quem quer que fosse para ajudar seu marido a fechar aquele lucrativo negócio, a fazer com que ele prosperasse cada vez mais, era muito necessário que os maus tempos financeiros acabassem de vez, por favor, amém. E ele sentia vontade de matá-la. Mas não dizia nada, ao invés trabalhava ainda mais, e se estressava ainda mais, e fazia qualquer coisa necessária para conseguir mais dinheiro. Não ousava pedir para a mulher e os filhos que cortassem qualquer gasto que fosse. Nunca dizia não quando o assunto era dinheiro, mesmo que estivesse no vermelho. Cada vez mais tinha a certeza de que nenhum deles se importaria se ele morresse, desde que deixasse a herança e investimentos seguros para que seguissem com seus luxos. E sua mulher não demoraria muito para achar outro marido. Um mais velho e mais rico se o dinheiro estivesse apertado, um novo e não necessariamente rico se estivesse sobrando. E ele se perguntava por que se casou com ela. E se lembrava de como quase não se preocupava com dinheiro depois que se divorciou da primeira mulher e ficou solteiro por um tempo. Pouco tempo. Foi quase feliz naquela época, mas não aguentava viver sozinho. Não se sentia bem sozinho. Mesmo que agora o único sentimento que tivesse pela família fosse de obrigação. E de raiva por quase todo o resto.

Foi numa rua muito movimentada que os dois bateram. Eram 7:45 da manhã, e havia muita gente indo para o trabalho. O carro japonês deu uma freada brusca quando o sinal ficou vermelho, e o freio de 30 anos do Corcel I luxo não foi forte o suficiente para evitar a batida. Foi uma batida leve. Só uma pequena amassada no pára-choque de metal do corcel, e uma pequena rachadura no pára-choque de plástico do carro importado. Os dois saíram furiosos dos carros. O do Corcel perguntou por que o do japonês freou daquele jeito se o sinal ainda estava amarelo, o do japonês respondeu que amarelo era o caralho, estava no vermelho, que a culpa era o do Corcel por andar com aquela merda velha pelas ruas, dando prejuízo para os que andavam em carros decentes, o do Corcel argumentou que não trocaria seu carro velho por aquele jipe de bicha que custava muito mais do que valia, carro de bicha é a puta que o pariu, puta que o pariu é o caralho, você vai pagar essa porra, pagar porra nenhuma, vai se fuder. Os dois se olharam, e, numa decisão simultânea, entraram em seus carros, abriram o porta-luvas e sacaram cada um sua arma. Uma velha e enferrujada, a outra nova e brilhosa. Até aí já havia muitos que pararam na rua para assistir a cena. Todos olhando, das calçadas, das janelas dos prédios, espremidos nas janelas dos ônibus. Alguns escolhiam um lado para torcer, a maioria torcendo pelo Corcel, que era um carro mais simpático, engraçado, até. E um apontava a arma pro outro, e se entreolhavam e ameaçavam atirar, quando de repente ouviram um barulho muito alto, como uma explosão de gás. Imediatamente todos desviaram os olhos deles, e viraram para o lado dos prédios, olhando para baixo. Uma roda se formou na calçada. Todos se esqueceram completamente dos dois. Eles imediatamente perceberam a situação, e, sem se olharem ou trocarem palavra, entraram em seus carros, guardaram as armas e foram embora, cada um pro seu destino. É difícil competir com um suicida.

4 comentários:

REG disse...

Que lindo. Eu to muito sentimental ultimamente...^^

Anônimo disse...

Sempre entro aqui, há muito nao deixava comentário, mas repetirei exatos termos de antigamente:
Definitivamente, tu tem problema!

LP disse...

Valeu, Anônimo!
Grande Anônimo.

kid_limao disse...

Sério. Tu tem problema!