terça-feira, 30 de junho de 2009

Cego, Surdo ou Mudo

Talvez se eu fosse cego tocasse violão como o Blind Willie Johnson.
Porque os cegos ouvem o que ninguém mais ouve. Para quem enxerga não adianta apenas fechar os olhos quando se está ouvindo alguma coisa, nunca vai ouvi-la da mesma forma que um cego. Sem imagens acompanhando os sons é bem mais fácil ouvir a beleza. É bem mais fácil ver a beleza quando não se pode enxergar. Qualquer mulher pode ser a mais linda do mundo para um cego, é só imaginá-la assim. Tudo pode ser bonito, e a beleza pode durar para sempre, ele não precisa aceitar a feiúra do mundo se não quiser, é só imaginá-lo bonito e bonito ele será, a não ser que ele aceite a descrição do mundo que os que enxergam dão a ele. Esse é o problema, o cego precisa confiar no que dizem a ele sempre como a verdade, porque não pode ver o contrário. Se alguém diz 2 a 0 Santos ele precisa acreditar, pois não pode ver se o Kléber Pereira fez o gol ou atirou a bola para fora da Vila Belmiro. E se alguém diz que existe uma montanha na paisagem ele acredita, ou teria que escalar todas as montanhas que não pode ver para comprovar se elas realmente estão lá, seria um esforço grande demais só para descobrir se as montanhas existem ou não. A verdade de um cego precisa ser a mesma verdade que os que enxergam contam a ele. Por isso todo cego acredita em Deus, como o Blind Willie Johnson. Se dizem a um cego que Deus existe ele acredita, pois ele não vê Deus da mesma forma que não vê todas as outras coisas, e a maior parte delas está lá, a maior parte das que ele pôde sentir ou ouvir realmente estava lá. Por isso não existem cegos ateus, pelo menos não os de nascença.
Acho que prefiro ser ateu que cego, por enquanto.

Poderia ser surdo.
Os surdos não conhecem a beleza dos sons, mas tampouco a feiúra e a raiva que eles podem produzir. Se eu fosse surdo faria questão de não aprender a ler lábios, para que todas as louras do mundo fossem para mim como suecas sem legendas. Desse jeito, assistir o movimento dos seus lábios sempre seria algo bonito, sem importar se estivessem produzindo uma declaração de amor ou um discurso neonazista. É verdade que eu perderia em comunicação, mas poderia conversar com os eventuais amigos surdos que soubessem linguagem de sinais, já bastaria. No mais, sempre teria os livros. E se para os cegos os sons ganham força, com os surdos são as imagens. As cores, os movimentos, as expressões, tudo para eles deve ser mais claro, mais forte e bonito do que para os que ouvem. E deve ser muito mais fácil perceber o que alguém está sentindo apenas olhando o seu rosto. Perdem em sons mas podem ganhar em empatia. Os surdos devem ter grande talento para a fotografia. Claro, eles não podem ouvir música. Isso deve ser ruim.
Se precisasse escolher entre ser cego e surdo, o que escolheria?

Escolheria ser mudo.
E não teria como me arrepender de tudo o que eu disse, e ficaria livre da culpa por tudo que deixei de falar. E mesmo passando a vida toda sem dizer uma palavra, todos me considerariam um gênio. Parece ser isso o que acontece com pessoas como os autistas, ficam calados em seus cantos, com ar indiferente, e muitos os consideram como superdotados, mesmo os que forem completos idiotas, simplesmente porque nunca abrem a boca para provar o contrário, o que qualquer um com o dom da fala inevitavelmente faria. Mas os mudos não parecem ser muitos. Digo os que são apenas mudos, não os surdos-mudos, pessoas com problemas mentais, etc. Os apenas mudos são poucos se compararmos com os cegos e os surdos. A televisão, o rádio e a internet ajudam a comprovar que o número de pessoas mudas é bem menor do que deveria ser. Se existisse um Deus, e uma justiça Divina, talvez houvesse mais mudos no mundo.
E, como prova este texto, não seria de todo injusto se eu fosse um dos muitos escolhidos.

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