quinta-feira, 12 de março de 2009

A Tia-Avó

Sentada quieta em sua cadeira, Dona Marlene via sua jovem parenta dançando com o noivo. Devia ser sua sobrinha-neta, não tinha certeza. Neta de Dulce? Achava que sim, neta de Dulce, filha de Ronaldo. Ronaldo era filho de Dulce? Devia ser, não lembrava direito. Mas lembrava que esteve no casamento de Ronaldo. E de Dulce, provável mãe de Ronaldo. Foram muitos casamentos nos seus noventa anos. Começou criança, indo aos casamentos das tias e tios, primos distantes. Depois foram as irmãs, as oito, uma a uma. Ela, a mais velha, era sempre a que mais ajudava, com conselhos, mesmo sem nunca ter casado, e penteados, e a comida era sempre ela quem fazia, ninguém fazia quitutes melhor que ela, sempre arrumava a mesa com muito capricho, todos elogiavam. Sempre chorava na igreja, no final recebia um abraço apertado e um agradecimento sincero da irmã, e a via ir embora com o noivo, para uma casa nova, uma vida nova, para ter filhos, ser quase feliz. Assim foram com as oito, uma a uma. Depois em casa restaram apenas ela e a mãe, a mãe doente, de quem Dona Marlene cuidou com muito carinho até a morte, quase sempre com paciência. Em alguns dos ataques causados pela doença ela chegou a usar certa violência com a mãe, sacudidas, empurrões, muitas vezes a trancava no quarto, até que ela parasse. Mas quando a mãe parava e Dona Marlene já se achava mais calma, ela entrava no quarto, a pegava do chão com todo o carinho e a colocava delicadamente na cama, passando uma toalha pelo rosto da mãe para enxugar o suor, acariciando seu cabelo olhando ela dormir. Depois viu nascerem os sobrinhos, foram muitos, e muitos ela ajudou a criar, principalmente os das irmãs que trabalhavam fora, algo que ela em seu catolicismo não podia aceitar, mas procurava não reclamar muito, pois gostava de ficar com as crianças. Era ela quem cuidava da educação religiosa dos sobrinhos, e foi ela mesma quem decidiu que seria ela a responsável pela educação religiosa das crianças, e as levava a missa todos os dias, sempre que elas estavam em sua casa, e ensinava como era o pensamento de Deus. O Deus vingativo, que olhava a todos todo o tempo, que puniria qualquer criança que respondesse aos mais velhos, que tivesse pensamentos pecaminosos, sujos, que tocassem partes do corpo que não deviam, que tocassem partes do corpo que não deviam em outras crianças, o que era muito pior, o que deixava Deus muito zangado. E a deixava triste ver como a maioria dos sobrinhos não pareciam ter medo da raiva de Deus, e agiam como se ele não existisse, e faziam tudo que era errado, não respeitavam nada, eram todos mimados, não recebiam educação dos pais, ela não podia ensinar tudo sozinha. E se revoltou no dia em que pegou um casal de sobrinhos, primos, fazendo coisa errada, brincando de um jeito pecaminoso, se tocando, e quando Dona Marlene contou para as irmãs elas apenas acharam graça, como se fosse apenas coisa de criança, como se elas quando criança tivessem feito a mesma coisa. A partir daquele dia Deus passou a ser mais importante ainda para ela, e a igreja também, não faltava a uma missa, não importava o que acontecesse, e rezava muito por eles, todos eles, todos os que ela amava, todos tão cheios de pecados. E assim os sobrinhos foram crescendo, e se afastando de sua casa. Muitos se casando, muitos não. Muitos se casando mais de uma vez, o que ela não compreendia como era permitido. Mas ela ia sempre às cerimônias, e ajudava sempre que possível, não fazia mais toda a comida, mas fazia questão de preparar alguns de seus quitutes, que eram servidos juntos à comida do buffet, e eram sempre muito melhores que a comida contratada. E assim acabaram os sobrinhos para criar, os sobrinhos já começavam a ter filhos, esses filhos tinhas as próprias tias e avós, ela não era mais necessária para tomar conta deles. E Dona Marlene ficou sozinha, ela e Deus, indo à missa sempre,todos os dias, sua principal atividade, importantíssima aos seus olhos. Muitos sobrinhos iam visitá-la, alguns por pena, outros por gratidão, a maioria por obrigação, alguns quase toda semana, a maioria uma vez por ano. Não conseguia se lembrar a quanto tempo estava sozinha em casa, sem as irmãs, sem a mãe, sem sobrinhos para criar. Foram muitos anos passados sem muitas atividades, a não ser as missas de sempre, dias sempre iguais são difíceis de contar, anos mais ainda. E durante esses anos continuou vendo casamentos, dos sobrinhos mais novos, dos sobrinhos netos, ou de pessoas que ela nem reconhecia, mas que deviam ser seus parentes, e para os quais ela era levada pelas irmãs, ou por algum sobrinho, e era sempre tratada com muito carinho, sendo ela a mais velha da família, a velha beata sozinha que nunca se casou. E ela pensava na vida que teve enquanto via a neta de Dulce dançando, como era linda, toda pessoa jovem para ela parecia linda, o noivo também. E como eles pareciam felizes, o casal, e como os que dançavam em volta também pareciam felizes, todos, dos mais velhos aos mais novos, para ela todos novos. E de repente, pela primeira vez na vida, sentiu uma vontade incontrolável de ser feliz. Levantou-se, e foi andando para a pista de dança. Parou entre os dançarinos, sem saber o que fazer, e os que perceberam a sua presença acharam graça, e diziam dança tia, dança vovó. Ela não sabia como e começou a girar. Deixou os braços soltos e começou a rodar. Todos riam, muitos gravavam a cena com suas câmeras de celular, e ela continuava a girar, cada vez mais rápido, e estava feliz, pela primeira vez sentia uma genuína alegria, e se perguntava porque nunca girou antes, devia ter passado a vida toda rodando, noventa anos desperdiçados. Começou a gritar. O gritou passou para uma gargalhada incontrolável, e as pessoas já pareciam assustadas, algumas não riam mais, e diziam pára tia, pára Marlene, mas ela não quis parar, perdeu o equilíbrio e caiu, o corpo frágil não agüentou e ali mesmo ela morreu, com a expressão fixa, o rosto ainda gargalhando, um riso agora sem utilidade, mas dessa vez para sempre, sem culpa ou pecado para atrapalhar.

5 comentários:

Claudio disse...

Com exceção do final trágico (ou não, dependendo do ponto de vista), acho que toda família tem alguém assim. Eu conheço alguém que se ancaixa no texto e fiquei imaginando essa pessoa.

TSD disse...

Esses velhos são fodas, escolhem morrer nas piores horas...

felipe disse...

Tá amadurecendo esse texto, hein!

Wilska disse...

Seus textos me dão muita vontade de continuar lendo, pena que eles acabam.
Poderia lançar um livro.

El hombre maíz disse...

Eu tenho vontade de criar um programa de mesa redonda só com pessoas da net. Já tem uns 3 que eu vi que se juntassemos na mesma mesa dariam o que falar, e você é um deles.