sexta-feira, 20 de novembro de 2009

O Velho e o Puma

O velho estava deitado em sua cama, virado para a parede, quando ouviu um barulho alto e próximo no matagal. Sentiu que algo entrou pela janela. Virou-se, e, ainda deitado, percebeu algo grande sentado à sua frente, apesar do escuro.

 

- O que é isso? Uma onça?

- Não. Sou um puma.

- O tênis?

- Não. O animal.

- Ah.

 

Estava quase virando para o outro lado para voltar a tentar pegar no sono, mas tinha um puma sentado em seu quarto, e ele achou melhor continuar a conversa.

 

- E... O que você quer aqui?

- Vim para lhe dizer a verdade.

- Obrigado, mas eu já tenho minha verdade. Não preciso da dos outros.

- Mas não existe verdade dos outros. Só existe uma verdade.

- Se a verdade não é minha, é dos outros.

 

Mesmo um pouco assustado, o velho continuava deitado de lado, olhando para o puma, apesar do escuro. O puma olhava para ele já um pouco irritado.

 

- Eu sou um puma e estou falando com você. Por acaso isso fazia parte da sua verdade?

- Por que não? Minha mulher era uma jamanta e falou sem parar por mais de 60 anos.

- Haha...

 

A piada sem graça e o riso do puma aliviaram um pouco a tensão, e por um momento era quase como se fossem amigos. Mas isso acabou depois de um período de silêncio constrangedor, e voltou a seriedade na voz do puma.

 

- Você sabe que, se eu quisesse, poderia te devorar agora mesmo?

- Não pode, não.

- Como não? Eu sou um puma!

- Puma não mata ninguém. Onça mata, puma não mata ninguém.

- E de onde você tirou isso?

- Em 71 anos, já vi muita onça atacar gente. Puma não. Puma é bichinho bicha que não ataca ninguém.

- E por acaso você já tinha visto um puma antes?

- Não.

- Então como pode dizer que...

- Se puma matasse gente, depois de 71 anos de vida eu já teria visto um puma matando gente.

- Mais isso não é a verdade!

- É a minha verdade.

 

Não era esse tipo de conversa que o puma esperava. Esperava mais veneração, por ser um puma falante que trazia a verdade. Estava perdendo a paciência.

 

- E se eu te atacar? Sua verdade vai mudar?

- Você não vai me atacar, porque é bichinho bicha. Minha verdade não muda.

 

O puma abriu a boca para dizer alguma coisa, ou até para atacar o velho, mas desistiu. Continuou sentado, pensando no que dizer. O velho estava ficando cansado.

 

- Você vai ficar aí sentado?

- Eu.. preciso dizer a verdade.

- Eu já tenho a minha, já disse. Verdade dos outros não me interessa.

- Não é dos outros. É a verdade.

- Já disse que se não é minha é dos outros.

- E se eu te disser mesmo assim?

- Não vai dizer.

 

E o velho puxou a pistola que guardava na gaveta da mesinha de cabeceira. O puma se assustou.

 

- Entendo... eu só achei que o senhor... Quer dizer, é a verdade...

- Eu já sei a verdade.

- Bem, quer dizer... Tudo bem, eu já vou. Sinto muito que o senhor...

- Boa noite.

- Boa noite.

 

E, com um pulo sobre a cama do velho, o puma saiu pela mesma janela em que entrou. Enquanto o velho colocava a arma de volta no lugar, percebeu um cagalhão do tamanho de uma codorna no chão.

 

- Filhos da puta... Entram na sua casa para cagar no chão.

 

Virou para o lado da parede, e dormiu com um lençol sobre o rosto para não sentir o cheiro da bosta, que deixou para limpar no dia seguinte.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

A Batida

Um era um Corcel 78. Ele era o 2º dono. Comprou o carro em 81, quando se aposentou, com o dinheiro do fundo de garantia. Era um Corcel I, Luxo, na época um grande carro. Foi boa parte do dinheiro do fundo nele. Lembra a primeira vez que chegou em casa com o carro, e como sua mulher quase o matou. A casa caindo aos pedaços, e ele gastando dinheiro em carro? Mas, para ele, comprar aquele carro era indispensável. Muitos anos num trabalho duro que pagava pouco, que para ele parecia totalmente inútil, e para o resto do mundo também. Não era o trabalho que ele queria, sempre sonhou com algo que o deixasse rico, feliz, mas aquele era um emprego estável, apesar do salário medíocre, e com mulher e filhos para bancar não podia arriscar. Quando se aposentou, os filhos já estavam crescidos, todos com vida própria, todos com empregos melhores que o dele, morando longe, alguns já com família. Ele precisava gastar aquele dinheiro com ele mesmo. E gastou no Corcel, na época um grande carro. Tinha bancos de couro. Mas a mulher por muito tempo não o deixou em paz por isso. Na verdade ela nunca o deixava em paz. Desde que ele se aposentou, e começou a passar os dias em casa, a convivência ficou bem mais insuportável. Para a mulher também. Estava acostumada a passar as tardes sozinha, e agora aquele velho ficava o dia inteiro ali, estático, na frente da tv. Então o que ela fazia era falar. Falar de tudo, o tempo todo. Foi quando ele começou a beber. No início comprava cerveja e levava para casa, para beber enquanto assistia tv e ouvia a velha tagarelar. Depois passou a não suportar mais a velha falando o tempo todo, e começou a ir beber fora. Isso só fez aumentar as reclamações, o que só fez com que ele bebesse ainda mais. E é isso que ele passou a fazer desde então, beber. O que mais ele tinha a fazer? Foi ele quem sustentou aquela família por mais de trinta anos, era ele quem sustentava aquela velha, e era com o dinheiro da aposentadoria dele que pagava a bebida, não devia satisfação a ninguém. E todos ficavam contra ele, a velha, os filhos, cunhadas, sobrinhos. Mas qual era a outra opção? Ficar em casa? Sóbrio? Pra quê? Ele sabia que isso só pioraria tudo. Ele só passaria a se irritar mais ainda com ela, e sem o alcoolismo ela perderia o principal motivo para reclamar dele. E sem poder reclamar ela cairia em depressão, ela provavelmente precisava mais disso do que ele da bebida. E agora, só porque ele reclamou, com razão, mesmo que bêbado, de como a macarronada que ela havia feito no dia anterior estava grudenta, seca e sem gosto, ela ameaçava o expulsar de casa? Mesmo que ele tenha dito gritando, avisando que não comeria aquela merda requentada no microondas, ela não tinha o direito de o querer tirar de casa. Foi ele quem construiu aquela casa, com o salário de merda do emprego que ele odiava, que ele sabia que nunca o levaria a lugar nenhum, mas em que permaneceu para sustentar aquela família. Saiu de casa depois da discussão e foi beber mais. Voltou tarde e dormiu no sofá. Quando acordou, no dia da batida, tomou o café que a velha preparou, sem ao menos olhar em seu rosto, e saiu logo em seguida. Pegou o Corcel e estava indo a um bar de um amigo no centro. Precisava beber, desabafar, para não explodir. Nunca sentiu tanta vontade de beber como naquela manhã.

O outro era um carro japonês. Mas não desses pequenos, econômicos e quase baratos. Era um daqueles exageradamente grandes, nada econômicos e ridiculamente caros. Havia comprado há dois meses, depois de muitas discussões em família sobre qual carro substituiria a Mercedes, que ele teve por seis anos, e que gostava muito. Por ele não trocaria tão cedo aquele carro, mas a mulher e os filhos viviam reclamando de como estava velho, ultrapassado, de como ele não trocava nunca o carro, era quase vergonhoso ir para os mesmos lugares há seis anos com o mesmo carro. Mesmo sem concordar, ele aceitou a decisão familiar. Não gostava daquele carro japonês. Sentia ter pagado um preço gigantesco por pedaços de plástico. Além de não se sentir bem naquela espécie de jipe bicha. Não parecia um carro de verdade. Mas não podia dizer não à família. Se eles não se sentiam bem perante os amigos andando em um carro de seis anos, era seu dever de pai trocá-lo, mesmo que não quisesse. Não conseguia dizer não principalmente à mulher. Era trinta e cinco anos mais nova. Ele não disse não quando, após seis meses de casamento, ela quis fazer inseminação artificial. Já estava tentando engravidar a algum tempo, mas não conseguia. Ele aceitou, pagou um preço mais alto que por seu carrinho japonês pelo tratamento, e alguns meses depois nasceram os gêmeos. Agora, pelos filhos, a herança estava garantida, não tinham como tirar isso dela. Herança para dividir com a outra filha que ele tinha, mais velha que a esposa. Raramente a via. Sentia falta dela, mas ela e a sua esposa não se davam bem, então ele evitava contato o máximo que podia, para evitar brigas em casa. Depois que os gêmeos nasceram as despesas aumentaram bastante. Tanto com as crianças quanto com a mulher. Tinham aulas de tudo. Tênis, inglês, balé, futebol, natação, bafo, pique-esconde. O professor de futebol de botão ia a sua casa duas vezes por semana. Lembrava de quando era criança, e só o que precisava era de um pedaço de pau e insetos para se divertir. E uma caixa de fósforos. Mas agora parecia que as crianças não podiam se divertir com nada que não fosse pago, de preferência caro. E a mulher precisava de ainda mais. Um carro trocado anualmente, motorista, roupas novas sempre, o clube, o almoço diário em restaurantes com as amigas, as plásticas. A consciência que ele tinha de que ela estava com ele apenas por seu dinheiro, era a mesma que ela tinha de que ele só estava com ela por sua beleza. Portanto, ele não podia reclamar do dinheiro gasto com plásticas. Apesar da cara dela estar ficando cada vez mais estranha. Quando a via tinha sempre a impressão de que ela tinha acabado de sair de uma cirurgia com anestesia geral, as bochechas meio inchadas, os olhos sem expressão, a pele sem vida. O silicone tornou os peitos dela mais duros que o pau dele. A juventude e a beleza eram as únicas coisas que ela tinha a oferecer a ele, e as duas coisas já estavam quase totalmente destruídas. Por outro lado, só o que ele tinha a oferecer era dinheiro, e seus negócios não estavam nos melhores dias. Ela não fazia a menor questão de esconder o quanto o dinheiro era importante, nem de mostrar o quanto seria trágico se desfazer de qualquer um de seus luxos. Muitas vezes antes de dormir ela rezava alto, e pedia a quem quer que fosse para ajudar seu marido a fechar aquele lucrativo negócio, a fazer com que ele prosperasse cada vez mais, era muito necessário que os maus tempos financeiros acabassem de vez, por favor, amém. E ele sentia vontade de matá-la. Mas não dizia nada, ao invés trabalhava ainda mais, e se estressava ainda mais, e fazia qualquer coisa necessária para conseguir mais dinheiro. Não ousava pedir para a mulher e os filhos que cortassem qualquer gasto que fosse. Nunca dizia não quando o assunto era dinheiro, mesmo que estivesse no vermelho. Cada vez mais tinha a certeza de que nenhum deles se importaria se ele morresse, desde que deixasse a herança e investimentos seguros para que seguissem com seus luxos. E sua mulher não demoraria muito para achar outro marido. Um mais velho e mais rico se o dinheiro estivesse apertado, um novo e não necessariamente rico se estivesse sobrando. E ele se perguntava por que se casou com ela. E se lembrava de como quase não se preocupava com dinheiro depois que se divorciou da primeira mulher e ficou solteiro por um tempo. Pouco tempo. Foi quase feliz naquela época, mas não aguentava viver sozinho. Não se sentia bem sozinho. Mesmo que agora o único sentimento que tivesse pela família fosse de obrigação. E de raiva por quase todo o resto.

Foi numa rua muito movimentada que os dois bateram. Eram 7:45 da manhã, e havia muita gente indo para o trabalho. O carro japonês deu uma freada brusca quando o sinal ficou vermelho, e o freio de 30 anos do Corcel I luxo não foi forte o suficiente para evitar a batida. Foi uma batida leve. Só uma pequena amassada no pára-choque de metal do corcel, e uma pequena rachadura no pára-choque de plástico do carro importado. Os dois saíram furiosos dos carros. O do Corcel perguntou por que o do japonês freou daquele jeito se o sinal ainda estava amarelo, o do japonês respondeu que amarelo era o caralho, estava no vermelho, que a culpa era o do Corcel por andar com aquela merda velha pelas ruas, dando prejuízo para os que andavam em carros decentes, o do Corcel argumentou que não trocaria seu carro velho por aquele jipe de bicha que custava muito mais do que valia, carro de bicha é a puta que o pariu, puta que o pariu é o caralho, você vai pagar essa porra, pagar porra nenhuma, vai se fuder. Os dois se olharam, e, numa decisão simultânea, entraram em seus carros, abriram o porta-luvas e sacaram cada um sua arma. Uma velha e enferrujada, a outra nova e brilhosa. Até aí já havia muitos que pararam na rua para assistir a cena. Todos olhando, das calçadas, das janelas dos prédios, espremidos nas janelas dos ônibus. Alguns escolhiam um lado para torcer, a maioria torcendo pelo Corcel, que era um carro mais simpático, engraçado, até. E um apontava a arma pro outro, e se entreolhavam e ameaçavam atirar, quando de repente ouviram um barulho muito alto, como uma explosão de gás. Imediatamente todos desviaram os olhos deles, e viraram para o lado dos prédios, olhando para baixo. Uma roda se formou na calçada. Todos se esqueceram completamente dos dois. Eles imediatamente perceberam a situação, e, sem se olharem ou trocarem palavra, entraram em seus carros, guardaram as armas e foram embora, cada um pro seu destino. É difícil competir com um suicida.

sábado, 12 de setembro de 2009

Angústia^^

Ah, aquele sentimento mágico, lugar nenhum pra ir...

O quase-grito que não sai, a falsa dor de barriga , o cérebro querendo sair pelos olhos... É a angústia, amigos, essa sensação que todos conhecemos tão bem. Quer dizer, nem todos. Por isso trago com exclusividade essa bonita seleção de embrulhar o intestino delgado(e ele já não é embrulhado?). Do (então) destruído John Frusciante ao bipolar Frank Sinatra, 13 músicas para estragar seu fim de semana, ou o resto de sua vida. Um bom placebo para os perturbados, um curioso passatempo para os normais e os felizes, e certamente algo educativo para as crianças, que poderão aprender como os derrotados se sentem. Professores, sintam-se livres para tocar esse arquivo em sala de aula.

Sem mais, não divirtam-se.

  • John Frusciante - Enter a Uh
  • The Beatles - Yer Blues
  • Bukka White- Fixin' To Die Blues
  • Neil Young - Mellow My Mind
  • Mad Season - Wake Up
  • Son House - Death Letter
  • Jimi Hendrix - Machine Gun
  • Charley Patton - Poor Me
  • Iggy Pop - Mass Production
  • Syd Barrett - Dark Globe
  • Charlie Parker - Lover Man
  • Slint - Good Morning, Captain
  • Frank Sinatra - Where or When


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quarta-feira, 29 de julho de 2009

Eu Estou Apodrecendo

- Eu estou apodrecendo, eu estou apodrecendo, apodrecendo, eu estou apodrecendo. Eu estou apodrecendo, eu estou apodrecendo, eu, apodrecendo.

Acordou dizendo isso involuntariamente junto com o primeiro bocejo. Confuso, foi ter com sua mulher na cozinha.

- Querida, eu estou apodrecendo! Eu, eu, apodrecendo! Eu estou apodrecendo, eu estou apodrecendo, apodrecendo, eu estou apodrecendo!
- Eu sei. Café?
- Apodrecendo... Apodrecendo, apodrecendo, apodrecendo! A-po-dre-cen-do!
- Eu sei, querido, eu sei... São 8:30, melhor sair agora eu vai chegar atrasado no trabalho. Falou sobre aquele aumento com seu chefe?
- Apodrecendo...
- Pois é... Café?

Não foi trabalhar naquele dia. Se vestiu e foi ao psiquiatra, sem tomar o café. No caminho não conseguia parar de repetir que estava apodrecendo. Apodrecendo. E pela rua alguns ouviam e o olhavam com certa estranheza, algumas com nojo, outras achando graça, mas a maioria com indiferença, concordando com ele.

- O senhor tem hora marcada?
- Eu... Eu estou apodrecendo, apodrecendo!
- Certo... Plano de saúde ou particular?
- Apodrecendo...
- Ok. Aguarde que o doutor já vai atendê-lo.
- Apodrecendo...
- Por nada.

Sentado na sala de espera, ao lado dos outros pacientes, continuava repetindo a mesma coisa. E os bipolares, suicidas, esquizofrênicos, olhavam para ele e concordavam com o que dizia, sem darem maior importância. A revista veja de 2003 tremia em suas mãos, e enquanto a fingia ler tentava dizer seu mantra mais baixo, sussurrando, mas não podia. Saía sempre num tom suficientemente alto e claro para que todos pudessem ouvir, principalmente ele mesmo. Cerca de uma hora depois o doutor o mandou entrar.

- Bom dia, senhor.
- Apodrecendo.
- E qual é o seu problema.
- Apodrecendo, doutor, apodrecendo, eu estou apodrecendo, apodrecendo!
- Entendo...
- Eu, eu, apodrecendo, eu, apodrecendo! Apodrecendo, apodrecendo, apodrecendo, apodrecendo, apodrecendo, apodrecendo, apodrecendo, apodrecendo, apodrecendo!
- Certo. Bem senhor, isso é a verdade. Não tem nada que eu possa fazer. Dizer a verdade não é doença.
- Apodrecendo...
- Pode ir, está liberado. Não precisa pagar a consulta.

O doutor apertou sua mão com certa irritação por ter perdido seu tempo à toa com aquele homem perfeitamente saudável. Ou perturbados da sala de espera também o olharam com reprovação, por aquela espécie de gente normal estar ocupando o lugar deles no psiquiatra. Voltou para casa se sentindo confuso. Sua mulher havia saído, estava sozinho. Foi ao banheiro e se olhou no espelho. Estava ficando careca. Seu corpo parecia mais fraco. Seus olhos já não enxergavam tão bem. Parecia cada vez mais curvado para frente. E apesar disso tudo não ter acontecido de um dia para o outro, mas lentamente através dos anos, teve que concordar consigo mesmo, estava apodrecendo. Deitou na cama e ligou a tv, enquanto apodrecia. Lembrou que faltou ao trabalho, e ligou para o escritório.

- Apodrecendo.
- Bom dia, senhor Pacheco.
- Apodrecendo, apodrecendo. Eu estou apodrecendo.
- Todo bem, eu aviso ao doutor Charles.
- Apodrecendo.
- Até amanhã, senhor Pacheco.

Desligou o telefone e continuou assistindo tv. Estava no programa do Ratinho, e ele riu de algumas piadas do Xaropinho.

Daí para frente sua vida não mudou muito. Continuou bem casado, conseguiu o aumento que merecia no emprego, seus amigos continuaram rindo de suas piadas, mesmo que fossem sempre com ele apodrecendo. Morreu cerca de vinte anos mais tarde, apodrecendo, e no enterro todos concordaram que ele sempre esteve certo, agora mais do que nunca.

domingo, 5 de julho de 2009

O Lagarto de Seringüela

O lagarto de seringüela (Lagartus Seringüelus) recebe esse nome por ser característico do deserto de Seringüela, que por sua vez foi batizado assim por ser o único habitat dos lagartos de seringüela. Por seu tamanho relativamente pequeno (chegam a no máximo 55 cm.), por muito tempo pensou-se que se tratassem de lagartixas (Lagartixius Seringüelus), o que foi provado errado quando estudos mostraram que seus rabos não cresciam de volta quando eram cortados.

Alimentação

O lagarto de seringüela é um animal onívoro, e se alimenta tanto de cactos quanto de cobrinhas de seringüela (Cobrinhus Seringüelus), a única espécie de animal existente no deserto de seringüela fora o próprio lagarto. Seu predador natural é a águia, apesar de não existirem águias no deserto de seringüela. Seus olhos são localizados na parte de cima da cabeça, o que o ajuda a perceber a aproximação de águias, que não existem no local. Isso acaba tornando os filhotes e os ovos dos lagartos de seringüela presas fáceis das cobrinhas de seringüela. Pelo medo que têm do que vem do céu, quando percebem que estão tendo seus ovos e filhotes atacados, os lagartos de seringüela se juntam e formam uma proteção contra ataques aéreos, que não existem na região, tornando a vida das cobrinhas de seringüela muito mais fácil. Ser ao mesmo tempo a presa e o predador da mesma espécie acaba criando um ciclo alimentar de canibalismo por tabela, que pode ser o responsável pelo elevado número de casos de esquizofrenia e elefantíase do lagarto de seringüela.

Hábitos

Tem por hábito passar o maior tempo possível parado, e só costuma se mover para procurar comida ou se reproduzir. A preguiça e o medo exagerado de tudo explicam porque o lagarto de seringüela nunca saiu da região do deserto de seringüela, que tem apenas 7 km2. O vínculo familiar do lagarto de seringüela é muito forte, especialmente a relação mãe-filhote. A mãe é a responsável pela alimentação do filhote até o momento em que ele se reproduz e tem sua própria cria. O lagarto de seringüela só mexe os músculos das patas pela primeira vez quando sente vontade de se reproduzir, o que acontece por volta dos 18 anos. Quando os filhotes se tornam independentes e têm seus próprios filhotes, as mães perdem a vontade de buscar comida e vão para o local conhecido como “cemitério das mamães seringüelas”, onde ficam paradas até morrerem de fome.

Reprodução

Quanto maior o rabo de uma lagarta de seringüela, maior o interesse dos machos por ela. Quando chega a época de acasalamento, os machos se postam de frente à lagarta que lhes interessa, deitam de costas no chão, e com as patas inferiores puxam e esticam seus pênis o máximo que podem. O escolhido pela fêmea será o que tiver o maior pênis. Muitas vezes, os que não são escolhidos, movidos por forte sentimento de fracasso e humilhação, prendem seus pênis embaixo de pedras, tentando esticá-los para deixá-los maiores, e acabam decepados, o que deixa muitas fêmeas sem machos, e ajuda a tornar o lagarto de seringüela um animal em eterno risco de extinção. Tanto as fêmeas solteironas quanto os machos eunucos voltam a ser alimentados pelas mães, que ficam contentes por não terem que ir ao “cemitério das mamães seringüelas” para morrer.
As fêmeas enterram seus ovos para protegê-los das águias, que não existem na região, o que torna a vida das cobrinhas de seringüela, que vivem em tocas debaixo da terra, muito mais fácil.

Culinária

O pênis de lagarto de seringüela esmagado, encontrado debaixo de pedras, é considerado uma iguaria por moradores de vilarejos próximos ao deserto de seringüela. Eles acreditam que o pênis esmagado tenha propriedades capazes de curar erisipela e aids, apesar de estudos recentes comprovarem que, além de não curar, ele dá câncer. O pênis de lagarto de seringüela esmagado é tradicionalmente servido com ovos mexidos e refresco de groselha.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Cego, Surdo ou Mudo

Talvez se eu fosse cego tocasse violão como o Blind Willie Johnson.
Porque os cegos ouvem o que ninguém mais ouve. Para quem enxerga não adianta apenas fechar os olhos quando se está ouvindo alguma coisa, nunca vai ouvi-la da mesma forma que um cego. Sem imagens acompanhando os sons é bem mais fácil ouvir a beleza. É bem mais fácil ver a beleza quando não se pode enxergar. Qualquer mulher pode ser a mais linda do mundo para um cego, é só imaginá-la assim. Tudo pode ser bonito, e a beleza pode durar para sempre, ele não precisa aceitar a feiúra do mundo se não quiser, é só imaginá-lo bonito e bonito ele será, a não ser que ele aceite a descrição do mundo que os que enxergam dão a ele. Esse é o problema, o cego precisa confiar no que dizem a ele sempre como a verdade, porque não pode ver o contrário. Se alguém diz 2 a 0 Santos ele precisa acreditar, pois não pode ver se o Kléber Pereira fez o gol ou atirou a bola para fora da Vila Belmiro. E se alguém diz que existe uma montanha na paisagem ele acredita, ou teria que escalar todas as montanhas que não pode ver para comprovar se elas realmente estão lá, seria um esforço grande demais só para descobrir se as montanhas existem ou não. A verdade de um cego precisa ser a mesma verdade que os que enxergam contam a ele. Por isso todo cego acredita em Deus, como o Blind Willie Johnson. Se dizem a um cego que Deus existe ele acredita, pois ele não vê Deus da mesma forma que não vê todas as outras coisas, e a maior parte delas está lá, a maior parte das que ele pôde sentir ou ouvir realmente estava lá. Por isso não existem cegos ateus, pelo menos não os de nascença.
Acho que prefiro ser ateu que cego, por enquanto.

Poderia ser surdo.
Os surdos não conhecem a beleza dos sons, mas tampouco a feiúra e a raiva que eles podem produzir. Se eu fosse surdo faria questão de não aprender a ler lábios, para que todas as louras do mundo fossem para mim como suecas sem legendas. Desse jeito, assistir o movimento dos seus lábios sempre seria algo bonito, sem importar se estivessem produzindo uma declaração de amor ou um discurso neonazista. É verdade que eu perderia em comunicação, mas poderia conversar com os eventuais amigos surdos que soubessem linguagem de sinais, já bastaria. No mais, sempre teria os livros. E se para os cegos os sons ganham força, com os surdos são as imagens. As cores, os movimentos, as expressões, tudo para eles deve ser mais claro, mais forte e bonito do que para os que ouvem. E deve ser muito mais fácil perceber o que alguém está sentindo apenas olhando o seu rosto. Perdem em sons mas podem ganhar em empatia. Os surdos devem ter grande talento para a fotografia. Claro, eles não podem ouvir música. Isso deve ser ruim.
Se precisasse escolher entre ser cego e surdo, o que escolheria?

Escolheria ser mudo.
E não teria como me arrepender de tudo o que eu disse, e ficaria livre da culpa por tudo que deixei de falar. E mesmo passando a vida toda sem dizer uma palavra, todos me considerariam um gênio. Parece ser isso o que acontece com pessoas como os autistas, ficam calados em seus cantos, com ar indiferente, e muitos os consideram como superdotados, mesmo os que forem completos idiotas, simplesmente porque nunca abrem a boca para provar o contrário, o que qualquer um com o dom da fala inevitavelmente faria. Mas os mudos não parecem ser muitos. Digo os que são apenas mudos, não os surdos-mudos, pessoas com problemas mentais, etc. Os apenas mudos são poucos se compararmos com os cegos e os surdos. A televisão, o rádio e a internet ajudam a comprovar que o número de pessoas mudas é bem menor do que deveria ser. Se existisse um Deus, e uma justiça Divina, talvez houvesse mais mudos no mundo.
E, como prova este texto, não seria de todo injusto se eu fosse um dos muitos escolhidos.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Repelente de Gente

Adriano era uma criança que não gostava de gente. Isso desde muito pequeno, quando ainda usava fraldas. Odiava quando alguma velha chegava perto, quase encostando o rosto ao dele, com um sorriso assustador, dizendo que bonitinho, que gracinha, qual o sexo?, apertando suas bochechas com mãos cheirando a igreja e Monange, e chamando outras velhas iguais para que fizessem a mesma coisa. Odiava também os velhos bêbados, falando muito mais alto que o necessário, cuspindo em cima dele, e perguntando pra que time ele torce?, e se a resposta fosse um time que não o deles eles vaiavam, gritando que não, ele tinha que ser flamenguista, e se o time fosse o mesmo era pior ainda, o pegavam no colo, gritando esse é campeão ou qualquer coisa parecida. E o deixavam fedendo a Brahma, ele que mal sabia o que era cerveja, ou futebol. Com as outras crianças não era muito diferente. O irritava como elas estavam sempre falando, balbuciando, correndo, pareciam não conseguir ficar sentadas um minuto sequer, matando insetos e comendo minhocas, como ele gostava de fazer. E choravam à toa, tudo era motivo, se ele puxava o cabelo de alguma, se socava outra por ter olhado para ele de jeito estranho, tudo terminava num berreiro insuportável. E ele evitava todas elas o máximo que podia, mas com a pouca idade que tinha era difícil evitar pessoas. Pai, mãe, família, desconhecidos, sempre tinha alguém por perto, vigiando para que ele não colocasse nada na boca e morresse sufocado, parece que isso acontece muito, crianças colocando controles-remotos na boca e morrendo sufocadas, porque sempre que ele enfiava o controle-remoto na boca vinha alguém desesperado para tirar. Por que ele não podia botar o controle na boca? Porra, ele gostava de colocar o controle-remoto na boca, que mal tinha nisso? Por que não o deixavam em paz? Era essa falta de liberdade que matava.

Quando dormia Adriano sonhava sempre os mesmos sonhos, ele sozinho, num gramado cheio de minhocas, sem ninguém por perto, principalmente velhas, ele odiava especialmente as velhas, e ele lá ficava, desenterrando minhocas e comendo, e a vontade que tinha era de ficar ali para sempre, sem nunca mais ver outra pessoa na vida. Até que batia a fome, ele acordava e chorava, e vinha sua mãe, o pegava no colo, colocava um seio pra fora e na boca de Adriano. Aquele era o único momento em que ele se sentia feliz e confortável com outra pessoa, quando mamava em sua mãe. Até que ficava satisfeito, largava o seio materno, e a presença dela já começava a incomodar, só o que queria era ser deixado sozinho novamente. Talvez a única pessoa que ele gostasse fosse mesmo a sua mãe, mas gostava dela principalmente em dois momentos: quando o estava amamentando, e quando o colocava de volta no berço e o deixava sozinho.

Adriano começou a buscar formas de afastar as pessoas dele. Uma era o choro. Qualquer um que vinha para falar, brincar, tocar nele, ele instantaneamente começava a berrar, e parava como se nada tivesse acontecido quando a pessoa se afastava. Uma técnica falha, já que seu choro não parecia afastar a maioria das pessoas, apenas fazia com que elas o tocassem ainda mais, o pegando no colo, assoprando seu rosto, fazendo sons estranhos com a boca, pedindo para que ele parasse de chorar. Além do que odiava crianças chorosas, e não queria se tornar o que odiava. Outra técnica era o xingamento. Mal sabia falar, mas fez questão de aprender apenas palavras que pareciam ofender os outros. A principal era babaca, foi a que ele aprendeu mais rápido. Funcionava com algumas crianças, ele olhava sério para o rosto delas, e dizia vagarosamente para que fosse bem compreendido: ba-ba-ca. Então elas diziam babaca é você, vai tomar banho, feio, e saíam de perto, algumas até chorando. Mas a maioria das crianças não entendia o que babaca queria dizer, portanto o efeito era nulo. Com os adultos também não funcionava bem, ele queria ofender mas todos achavam que ele só estava sendo engraçadinho. Ele se esforçava, fazia a cara mais séria e cheia de ódio que podia, olhava no fundo dos olhos do adulto e dizia: ba-ba-ca. Mas todos caíam na gargalhada, como se quem tivesse dito fosse o Ronald Golias, o que só o deixava mais irritado ainda, e assim desistiu dos xingamentos. Parecia cada vez mais difícil ser deixado sozinho.

Certa vez estava sentado em casa, tranqüilamente brincando com a poeira do carpete, quando chegou uma tia para visitá-lo. Ou era sua avó, ou tia-avó, não sabia, para ele todas as velhas eram iguais, com suas bolsas gigantes e vestidos de viscose. Ela foi correndo falar com ele, com um sorriso gigante e uma voz muito mais fina que o necessário, o pegou no colo e o cobriu de beijos, e Adriano desesperançoso suportava aquilo resignadamente, sem esboçar qualquer reação, apenas torcendo para que a velha fosse embora o mais rápido possível. E estava ele no sofá, no colo da velha, ela brincando o tempo todo com ele, mexendo com seus braços, esfregando sua barriga, quando sentiu uma vontade incontrolável de cagar. Nessa idade toda vontade de cagar é incontrolável, portanto ele apenas relaxou e deixou que saísse, sem pensar muito no assunto. Qual não foi sua surpresa quando a velha se levantou num susto, segurando Adriano afastado de seu corpo, e disse:

- Ai, fez cocô no meu vestido...

Aquele foi um momento revelador para Adriano. Nunca mais esqueceu aquelas palavras. Imediatamente sua mãe o pegou no colo, pedindo desculpas para a velha, dizendo que não sabia porquê a fralda tinha vazado, e a velha respondia que tudo bem, acontece, mal conseguindo esconder a irritação por ter que voltar para casa fedendo a cocô de neném. Enquanto a velha foi ao banheiro amenizar a sujeira, sua mãe o levou para o quarto, trocar sua fralda. E era justamente isso o que ele queria, se livrar da velha, e conseguiu fazendo o que para ele era a coisa mais natural do mundo, uma das poucas coisas que ele sabia fazer. Sua mãe voltou com ele para a sala, a velha estava sentada no sofá ainda passando um papel toalha úmido no vestido, e a mãe disse para ela que agora sim ele estava limpinho, e a velha o pegou de novo no colo, um pouco preocupada, dizendo nossa, que menino cheiroso. Então ele se concentrou, juntou suas forças, e com muito esforço conseguiu dar outra cagada. Dessa vez não escorreu para o vestido, mas era impossível não sentir o cheiro. E como mágica o que ele queria aconteceu de novo: foi tirado do colo da visita e levado de novo para o quarto para ser trocado, aos sons de esse menino tá impossível, o que ele comeu?, nada de mais, eu acho. Nunca imaginou que algo tão simples pudesse ser a chave para sua liberdade. Por que aquilo afastou tanto a velha, se tudo o que ele fazia era adorável para ela e para todos? Se bocejava era bonitinho, se choramingava era uma gracinha, se xingava todos riam, então porque quando cagava, algo que era produzido inteiramente por ele, que era só ele, mais ninguém, a sua obra mais individual, por que aquilo não era bonitinho também? Para ele não fazia sentido, por isso nunca pensou nessa possibilidade, mas agora isso não tinha importância, o importante é que finalmente havia achado um jeito de se livrar das pessoas, de afastar todos dele, e estava disposto a usar isso sempre que possível. Isso foi antes de completar dois anos.

Rapidamente aprendeu a controlar a vontade de cagar, era capaz de acumular bosta por dias, apenas para soltar no tempo certo. No seu aniversário de três anos, por exemplo. Nas semanas antes do aniversário seus pais comentavam com ele como fariam uma grande festa, e todos viriam, muita gente, tudo o que ele menos queria. E ele dizia para eles que não queria, queria ficar sozinho, não gostava de muita gente, mas os pais ignoravam, tinham certeza que na hora ele adoraria, e passaria o dia brincando e correndo com seus primos e amiguinhos. Foi o que fizeram. Alugaram um grande salão, decoração de power rangers, convidaram mais de duzentas pessoas, familiares, amigos, vizinhos, gastaram um dinheiro que não tinham, tudo pela alegria do filho, um filho estranho que raramente parecia alegre. Decidiram que seria uma festa surpresa. O levaram para o salão quando a maioria dos convidados já estava presente. Lá dentro tudo escuro, todos em silêncio, seus pais abrem as portas do salão, acendem a luz e todos gritam surpresa! Ele pára assustado, olha para aqueles rostos, todos conhecidos, todos de quem ele queria ficar afastado o máximo possível, e agora estão todos juntos, e todos iriam falar com ele, um a um, era o seu pior pesadelo. Não teve dúvidas, antes que o primeiro familiar chegasse até ele para entregar um presente e dar um beijo carinhoso, ele se livrou da mão da mãe, subiu na mesa, arriou a bermuda e descarregou sua bosta acumulada de vários dias, guardada exatamente para aquele tipo de emergência. Caiu tudo sobre o bolo, bem em cima do power ranger vermelho e da vela de três anos. O bolo era de chocolate, o que só deixou tudo mais confuso e grotesco. Na festa muitos gritavam, algumas crianças vomitavam, bêbados riam descontroladamente, as avós de Adriano estavam desesperadas, e choravam com o fato que comprovava que o neto delas realmente era doente, ou doentinho, por se tratar de uma criança. O pai correu para a mesa para bater em Adriano, mas a mãe não deixou, era a única que parecia calma, pegou o garoto no colo, e o levou para o banheiro para lavá-lo. De dentro do banheiro dava para ouvir a confusão na festa do lado de fora, as avós inconsoláveis, chorando, qual é o problema desse garoto, meu Deus?, e dentro do banheiro sua mãe o lavava, tentando manter a calma.

- Por que você fez isso, meu filho?
- Eu não gosto de gente.

Ela abriu a boca para uma resposta, mas nada saiu, abaixou os olhos lacrimosos e o continuou lavando. Quando ela levantou o rosto para limpar o rosto dele, não sabia como aquilo tinha ido parar até no rosto, ele olhou nos olhos dela e disse:

- Eu gosto mais assim.

Ela entendeu de certa forma o que ele queria dizer, e pareceu reconfortada, dando nele um forte abraço.

- Eu não vou voltar lá.
- Eu sei, meu filho.

E o levou dali direto para casa, sem falar como ninguém. Foi a última festa de aniversário que fizeram para ele, como ele queria.

Depois disso o levaram para um psicólogo, para muitos psicólogos, mas de nada adiantava, ele não respondia a nada que os psicólogos perguntavam, apenas um eventual porque eu não gosto de gente, e boa parte dos psicólogos simplesmente desistia, e durante a consulta o deixavam lá sentado no divã, desenhando, brincando sozinho, até que a hora da consulta acabasse e eles recebessem o pagamento. Em pouco tempo seus pais se separaram, o pai os abandou, não suportou a situação do filho, e ficaram só ele e sua mãe em casa. Aos cinco anos o colocaram na primeira escola, e a idéia de ter que passar o dia inteiro convivendo com crianças grudentas o apavorava. Mas não criou caso com a mãe quando ela o arrumou para o primeiro dia de aula, o uniforme limpinho, o cabelo penteado. Ele entrou na escola, subiu para a sala acompanhado da diretora, ela o apresentou à turma, e todos o olhavam, ele odiava quando todos o olhavam, a professora o cumprimentou carinhosamente, e o levou para sentar no fundo da sala. Se sentou, e quando a criança que estava à sua frente se virou e perguntou amistosamente qual o seu nome?, ele simplesmente se pôs de cócoras sobre a cadeira, e uma menina deu um grito, alto o suficiente para toda a escola ouvir:

- Tia, ele tá fazendo cocô!

A tia veio, viu a cena, soltou um ai meu Deus, pegou Adriano pela mão e o levou para o banheiro.

- Que é que houve, Adrianinho? Dor de barriga?
- Não, eu só não gosto de gente.
- Mas por que não? Poxa, a gente não te tratou bem? Não foi legal com você, e...

E, sobre o chão do banheiro, Adriano cagou ainda mais quando ela disse aquilo. A professora olhou para o seu rosto e ele estava com a expressão mais séria que conseguia fazer, uma expressão que não se costuma ver em crianças. Ela também fechou o rosto, se calou e continuou limpando.

- Moleque escroto filho da puta...

Foi expulso de muitas escolas, estudava em mais ou menos três por ano, mas ainda assim passava de ano, não entendiam bem como. Parecia indiferente, distante a tudo, mas sabia de muito, sabia mais que todas as crianças de sua idade. À medida que foi ficando um pouco mais velho parou de cagar no chão, ou nas calças, aquilo já parecia nojento e grotesco demais para ele. Com oito anos criou um método novo. Pegava um pedaço de pau, ou um cabo de vassoura, e esfregava em um cocô de cachorro. Colocava aquilo dentro de um saco plástico e dentro da mochila. Então, quando alguém na escola, ou na rua, o importunava de qualquer forma, o tirando de sua solidão, ele simplesmente puxava o pau cagado e o agitava na direção da pessoa, como se agita uma tocha acesa na direção de um animal selvagem. Sempre funcionava. Claro, tinham as gozações, os gritos de cagão, comedor de bosta, mas poucos se atreviam a chegar perto dele, e manter as pessoas distantes era só o que ele precisava, não se importava com as conseqüências.

Assim foram se passando os anos, e as escolas. Nessa época tinha em torno de doze anos, e Adriano sempre voltava para casa de ônibus, sentado em um banco sozinho, porque fazia questão de ficar sempre segurando na mão o cabo de vassoura cagado quando estava no ônibus, para que ninguém sentasse ao seu lado, mesmo que isso significasse muitas vezes a sua expulsão do ônibus, às vezes de forma violenta, e ainda que muitos motoristas já nem o pegassem mais no ponto, mesmo com outras pessoas fazendo sinal ou querendo parar ali. Mas certo dia, entrou um homem estranho no ônibus em que ele estava. Um homem sujo, barbudo e cabeludo, que pareceu não dar importância ao pedaço de pau cagado de Adriano, e se sentou bem ao seu lado, com o ombro direito tocando o esquerdo de Adriano. Adriano, que como sempre estava distraído, se assustou quando percebeu a presença do mendigo. Olhou para o homem, que sorria para ele.

- O que você está fazendo?
- Nada. Só estou sentado.
- Mas não está vendo o pedaço de pau cagado na minha mão?
- Sim.
- E?
- Não me incomoda, também estou sujo.

Aquela resposta preocupou Adriano, nunca a havia recebido de ninguém. Então virou novamente para o homem, e soltou sua frase:

- Eu não gosto de gente.
- Gosta. Gosta sim. – disse o mendigo com um sorriso.
- Não... Não gosto!
- Gosta. E eu gosto de você.

E colocou a mão direita na perna de Adriano, com um olhar e sorriso carinhosos, piedosos, que encheram o espírito de Adriano com uma alegria, um amor e uma esperança que ele nunca havia sentido antes.

Esse homem era Jesus.









Tudo bem, é mentira, não era Jesus, era um mendigo sujo e bêbado, que como todo mendigo bêbado estava meio bicha, e tinha o pênis meio ereto quando colocou a mão sobre a coxa de Adriano, que não percebeu isso, e para ele não importava, pois aquele homem o fez perceber que ele nunca deixou de gostar de ninguém, pelo contrário, ele amava a todos, ninguém amava mais as pessoas do que ele, se as espantava era por medo, por medo do próprio sentimento, que era tão forte que para ele parecia antinatural, e que por isso ele sempre o reprimiu o máximo que pôde, e por isso ele sempre quis as pessoas o mais distantes dele possível. Mas agora não tinha mais volta, o mendigo despertou nele algo incontrolável, um amor acumulado de doze anos, que agora jorrava dele como nenhuma merda acumulada dele já jorrou. E ele abraçou o mendigo, e o beijou, mesmo com o gosto podre que aquilo deixou em sua boca. Saltou do ônibus e foi correndo abraçar a primeira velha que viu. Ah, como gostava das velhas! Do cheiro de naftalina que tinham, das balinha de menta, e dos vestidos de viscose que usavam, poderia passar um dia inteiro abraçando uma velha num vestido de viscose. Todos na rua olhavam para ele assustados, a velha não entendeu e começou a gritar por socorro, que era um tarado, e homens começaram a correr em sua direção, e Adriano fugia deles rindo, rindo como nunca riu antes, gritando para os mesmos que o perseguiam eu amo vocês, que, confusos, pararam de perseguí-lo. Chegou em casa e deu o abraço mais demorado de sua vida em sua mãe, dizendo eu te amo, e chorando, os dois chorando. Pegou o caderno de telefones da mãe e ligou para todos da família, de Ana a Zelda, e para todos pedia desculpas, e dizia como os amava, e os elogiava sempre de forma certeira, dizia qualidades de pessoas que mal conhecia que nem as que conviviam com elas há trinta anos percebiam. Passou a organizar festas, para compensar todas as que não foi e todas as que não teve, e nas festas falava com todos, e passava horas com a mesma pessoa, e o tempo da festa para ele não era suficiente, pois ele queria dar mais atenção a cada um, passar mais tempo com eles. Muitas vezes aparecia de surpresa na casa das pessoas, primos distantes, vizinhos, conhecidos, e era capaz de ficar até ser expulso, e se não fosse expulso era capaz de dormir na casa da pessoa, tamanho o amor que sentia. Agora ele era para todos muito mais louco do que antes, muitos diziam mesmo que preferiam quando ele era o garoto-bosta, mas ele não se importava, não era isso que diminuiria o amor que sentia por todos. Parecia mesmo o homem mais feliz do mundo, e apesar dos outros começarem a evitá-lo, para Adriano o importante é que, não importava quem fosse, nunca mais afastou ninguém dele.

Quer dizer, isso até os vinte e poucos anos, quando começou a fumar cachimbo.

quinta-feira, 12 de março de 2009

A Tia-Avó

Sentada quieta em sua cadeira, Dona Marlene via sua jovem parenta dançando com o noivo. Devia ser sua sobrinha-neta, não tinha certeza. Neta de Dulce? Achava que sim, neta de Dulce, filha de Ronaldo. Ronaldo era filho de Dulce? Devia ser, não lembrava direito. Mas lembrava que esteve no casamento de Ronaldo. E de Dulce, provável mãe de Ronaldo. Foram muitos casamentos nos seus noventa anos. Começou criança, indo aos casamentos das tias e tios, primos distantes. Depois foram as irmãs, as oito, uma a uma. Ela, a mais velha, era sempre a que mais ajudava, com conselhos, mesmo sem nunca ter casado, e penteados, e a comida era sempre ela quem fazia, ninguém fazia quitutes melhor que ela, sempre arrumava a mesa com muito capricho, todos elogiavam. Sempre chorava na igreja, no final recebia um abraço apertado e um agradecimento sincero da irmã, e a via ir embora com o noivo, para uma casa nova, uma vida nova, para ter filhos, ser quase feliz. Assim foram com as oito, uma a uma. Depois em casa restaram apenas ela e a mãe, a mãe doente, de quem Dona Marlene cuidou com muito carinho até a morte, quase sempre com paciência. Em alguns dos ataques causados pela doença ela chegou a usar certa violência com a mãe, sacudidas, empurrões, muitas vezes a trancava no quarto, até que ela parasse. Mas quando a mãe parava e Dona Marlene já se achava mais calma, ela entrava no quarto, a pegava do chão com todo o carinho e a colocava delicadamente na cama, passando uma toalha pelo rosto da mãe para enxugar o suor, acariciando seu cabelo olhando ela dormir. Depois viu nascerem os sobrinhos, foram muitos, e muitos ela ajudou a criar, principalmente os das irmãs que trabalhavam fora, algo que ela em seu catolicismo não podia aceitar, mas procurava não reclamar muito, pois gostava de ficar com as crianças. Era ela quem cuidava da educação religiosa dos sobrinhos, e foi ela mesma quem decidiu que seria ela a responsável pela educação religiosa das crianças, e as levava a missa todos os dias, sempre que elas estavam em sua casa, e ensinava como era o pensamento de Deus. O Deus vingativo, que olhava a todos todo o tempo, que puniria qualquer criança que respondesse aos mais velhos, que tivesse pensamentos pecaminosos, sujos, que tocassem partes do corpo que não deviam, que tocassem partes do corpo que não deviam em outras crianças, o que era muito pior, o que deixava Deus muito zangado. E a deixava triste ver como a maioria dos sobrinhos não pareciam ter medo da raiva de Deus, e agiam como se ele não existisse, e faziam tudo que era errado, não respeitavam nada, eram todos mimados, não recebiam educação dos pais, ela não podia ensinar tudo sozinha. E se revoltou no dia em que pegou um casal de sobrinhos, primos, fazendo coisa errada, brincando de um jeito pecaminoso, se tocando, e quando Dona Marlene contou para as irmãs elas apenas acharam graça, como se fosse apenas coisa de criança, como se elas quando criança tivessem feito a mesma coisa. A partir daquele dia Deus passou a ser mais importante ainda para ela, e a igreja também, não faltava a uma missa, não importava o que acontecesse, e rezava muito por eles, todos eles, todos os que ela amava, todos tão cheios de pecados. E assim os sobrinhos foram crescendo, e se afastando de sua casa. Muitos se casando, muitos não. Muitos se casando mais de uma vez, o que ela não compreendia como era permitido. Mas ela ia sempre às cerimônias, e ajudava sempre que possível, não fazia mais toda a comida, mas fazia questão de preparar alguns de seus quitutes, que eram servidos juntos à comida do buffet, e eram sempre muito melhores que a comida contratada. E assim acabaram os sobrinhos para criar, os sobrinhos já começavam a ter filhos, esses filhos tinhas as próprias tias e avós, ela não era mais necessária para tomar conta deles. E Dona Marlene ficou sozinha, ela e Deus, indo à missa sempre,todos os dias, sua principal atividade, importantíssima aos seus olhos. Muitos sobrinhos iam visitá-la, alguns por pena, outros por gratidão, a maioria por obrigação, alguns quase toda semana, a maioria uma vez por ano. Não conseguia se lembrar a quanto tempo estava sozinha em casa, sem as irmãs, sem a mãe, sem sobrinhos para criar. Foram muitos anos passados sem muitas atividades, a não ser as missas de sempre, dias sempre iguais são difíceis de contar, anos mais ainda. E durante esses anos continuou vendo casamentos, dos sobrinhos mais novos, dos sobrinhos netos, ou de pessoas que ela nem reconhecia, mas que deviam ser seus parentes, e para os quais ela era levada pelas irmãs, ou por algum sobrinho, e era sempre tratada com muito carinho, sendo ela a mais velha da família, a velha beata sozinha que nunca se casou. E ela pensava na vida que teve enquanto via a neta de Dulce dançando, como era linda, toda pessoa jovem para ela parecia linda, o noivo também. E como eles pareciam felizes, o casal, e como os que dançavam em volta também pareciam felizes, todos, dos mais velhos aos mais novos, para ela todos novos. E de repente, pela primeira vez na vida, sentiu uma vontade incontrolável de ser feliz. Levantou-se, e foi andando para a pista de dança. Parou entre os dançarinos, sem saber o que fazer, e os que perceberam a sua presença acharam graça, e diziam dança tia, dança vovó. Ela não sabia como e começou a girar. Deixou os braços soltos e começou a rodar. Todos riam, muitos gravavam a cena com suas câmeras de celular, e ela continuava a girar, cada vez mais rápido, e estava feliz, pela primeira vez sentia uma genuína alegria, e se perguntava porque nunca girou antes, devia ter passado a vida toda rodando, noventa anos desperdiçados. Começou a gritar. O gritou passou para uma gargalhada incontrolável, e as pessoas já pareciam assustadas, algumas não riam mais, e diziam pára tia, pára Marlene, mas ela não quis parar, perdeu o equilíbrio e caiu, o corpo frágil não agüentou e ali mesmo ela morreu, com a expressão fixa, o rosto ainda gargalhando, um riso agora sem utilidade, mas dessa vez para sempre, sem culpa ou pecado para atrapalhar.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Sonhos Sonhados: Sonho de 25/02/2009

Essa noite sonhei que o mundo ia acabar. E que eu fui o escolhido por Deus para ser o único homem a ser salvo. Esquema meio Noé, mas sem precisar salvar os animais, ou construir uma arca, ou qualquer obrigação. Aparentemente o mundo ia acabar só pelo meu prazer, quer dizer, não que eu sentiria prazer se o mundo acabasse, mas enfim, era sonho, porra. Então Deus, que na verdade não era Deus, era só meu pensamento falando comigo, me ordenou que eu escolhesse alguma coisa para ser salva comigo. De tudo que existe no mundo, apenas uma coisa poderia ser salva. A música, a literatura, a Guinness, a aurora boreal... Mas eu não precisei de dois segundos para pensar, respondi na lata: A Ellen Rocche. A Ellen Rocche?, minha consciência-Deus perguntou. Sim, a Ellen Rocche, eu respondi, com tanta certeza que meu pensamento se assustou.
- Mas, meu amigo...
- Eu não sou seu amigo! – Respondi bruscamente, e minha consciência teve que concordar que era uma verdade.
- Ok, desculpe... Mas, colega, – Decidi não retrucar essa – pense bem... Vai acabar tudo, tudo... Tem certeza que só o que você quer que sobre é a Ellen Rocche? De tudo no mundo, na vida?
- É. – Para mim era uma escolha tão óbvia que era até difícil criar argumentos. Era como tentar explicar porque beber água é legal.
- Tudo bem! Mas aviso, eu lavo as minhas mãos, o que acontecer no novo mundo será de responsabilidade sua, apenas sua!
- Ellen Rocche.
- Ellen Rocche!
E tudo ficou branco, o vazio total, um minuto depois aparece bem na minha frente a Ellen Rocche, a própria, com dois éles e dois cês, em toda sua glória, vestida na fantasia de madrinha de bateria. Ela olhou para os lados, viu o nada, o branco infinito, voltou para mim e perguntou:
- O que é isso?
- Acabou o mundo, Ellen.
- Acabou?
- Acabou.
Ela pareceu bastante decepcionada, abaixou o rosto e se calou. Depois de alguns minutos resolvi quebrar o gelo:
- Sabe... De tudo que existia no mundo, tudo, a música, a televisão, a literatura, tudo, o que eu escolhi para salvar foi você.
Ela levantou o rosto, me olhou meio confusa, e enojada, virou-se, andou alguns metros, deitou com o rosto virado para o chão, os braços sob os olhos, e disse:
- Quero ir embora.
Assim se passaram vinte anos. E depois de vinte anos eu estava começando a ficar ligeiramente cansado de olhar para a Ellen Rocche deitada com a bunda para cima numa fantasia de madrinha de bateria. Decidi ir falar com ela.
- Sabe?, Ellen, eu...
- Eu quero o divórcio. – Respondeu, sem levantar o rosto.
- Mas Ellen, nós não somos casados...
- Não?
- Não...
Ela levantou o rosto, me olhou surpresa e gritou:
- Então vai se fuder!
Eu ia responder que era exatamente isso o que eu fiquei fazendo pelos últimos vinte anos enquanto olhava a sua majestosa bunda, mas aparentemente o sonho acabou. Pelo menos é só até aí que me lembro.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

O Maquinista

Aparecia sempre à mesma hora, próximo do fim do expediente. Ciro começava a se sentir feliz, mais um pouco e seria menos um dia de trabalho, daria boa noite para a secretária, ligaria o ar condicionado do carro novo, o som bem alto para que o barulho dos outros não o incomodasse. Depois do estresse do engarrafamento chegaria em casa, para sua tv gigante e seu home-theather cheio de siglas, mesmo que não conhecesse filmes interessantes para assistir, mesmo sem conhecer música boa para ouvir. Lá também estaria sua mulher, cara mas valiosa, linda como nenhuma outra, mesmo depois de todas as plásticas e plásticos implantados. E ele sabia que ela seria para sempre sua, para sempre enquanto durasse o seu dinheiro, ou a beleza dela. Sua filha pediria dinheiro assim que o visse, mais dinheiro para mais roupas, a moda muda toda dia, e ela precisa estar na moda, porque na moda é só onde ela está, e suas roupas são só o que ela tem para mostrar. Sabia que sua importância para ela era apenas dar dinheiro, se ela fingia algo além era para não perder os mimos, precisava do pai enquanto não arrumava um marido rico, e por isso eventualmente fingia que o amava, mesmo que com esforço, um beijo e uma gravata no dia dos pais e estavam quites. Era para tudo isso que ele trabalhava, e era isso que o fazia voltar para casa.

Era há essa hora que ele aparecia. Tocava o apito com antecedência, e várias vezes. Ciro inevitavelmente olhava pela janela do sexto andar, e via o trem aparecer fazendo a curva suavemente com todas as suas toneladas, e sem pressa, provando que é possível fazer o tempo passar mais devagar. Ciro voltava para sua mesa e suas coisas, guardando papéis e assuntos importantes, apenas para voltar para a janela e ver o trem vindo vagarosamente, como que esperando ele terminar. Já com tudo arrumado, pasta na mão e paletó vestido, voltava mais uma vez para a janela, com a desculpa de fechar as persianas, e o trem já estava bem próximo, e lá estava o maquinista. Olhava fixamente para Ciro, sorrindo, mas sorrindo com deboche, com escárnio. Ciro fingia não perceber, fechava as persianas, a porta do escritório, boa noite para a secretária e carro. Mas nesse dia, mais que em qualquer outro, o deboche do maquinista o afetou. De que ele debochava? Tinha a aparência de homem sujo, a barba por fazer, roupas velhas, e Ciro sempre impecável, barbeador elétrico, terno italiano, ou chinês de marca italiana, não importa, era caro. E certamente aquele homem ganhava pouco, um maquinista? O que ele precisou estudar para ser maquinista? E Ciro não, anos afundado em livros, estudando teorias inventadas, desinteressantes mas importantes, bolsa no exterior, muito esforço para chegar aonde chegou, conhecia poucos que tivessem um salário maior que o dele, com um carro maior que o dele. No entanto, aquele homem o zombava. O que o dava direito a zombar? A liberdade das viagens de trem? Mas como, se ele estava limitado ao caminho dos trilhos? Mesmo que extenso, mesmo que atravessasse o país, continentes, estava sempre preso aos trilhos. Ciro tinha seu carro, seu ar condicionado e som alto, com ele poderia ir para onde quisesse, apesar de fazer sempre os mesmos caminhos, casa trabalho casa de campo nos finais de semana, o carro sempre parado nos engarrafamentos, milhares de homens sozinhos em seus carros parados no engarrafamento, ele mais um, com seu carro e sua liberdade, cumprindo a função de ter um carro e usá-lo, sempre que desnecessário. E poluir, quanto mais alto o cargo maior o carro para poluir, a fumaça como indicador social. Tinha também uma família, que pelo menos se não o amava fingia, fingia relativamente bem, e ainda era bonita, de alguma forma bonita, por enquanto. E o maquinista não poderia ter mulher mais bonita que a dele, mesmo que mais bonita certamente não teria a mesma classe, modos, confortos, privilégios, esnobismo... Com que direito ele zombava?

Começou o dia seguinte como todos os outros, o café da manhã servido pela empregada, esposa e filha ainda dormindo, carro com ar condicionado contra o calor irrealista do lado de fora, engarrafamento, bons dias, reuniões, decisões importantes, pessoas importantes, todas facilmente substituíveis aos olhos dos mesmos que os nomeavam importantes. Estresse, e mais um dia vinha chegando ao fim. Ouviu o apito. Dessa vez parou de frente à janela, e ficou olhando. Viu o trem fazendo a curva, suavemente com todas as suas toneladas, sem pressa, provando que é possível fazer o tempo passar mais devagar. Se aproximava, e Ciro sem desviar o olhar, e lá estava o maquinista, o mesmo olhar zombeteiro. Foi quando o trem passava por bem debaixo de sua janela que Ciro pulou, da janela para o trem, abriu os olhos e já era ele o maquinista, com a barba por fazer, maltrapilho, o suor escorrendo pelo rosto. E foi passando por um cruzamento, tocando o apito do trem, os carros parados, impossibilitados de passar, obrigados a esperar. E eles olhavam para Ciro, e Ciro de dentro da cabine olhava para eles, todos sozinhos em carros para cinco pessoas, ar condicionado e o som alto, e Ciro ria, ria debochadamente, mesmo que nenhum deles entendesse, com uma satisfação que nenhum salário seu poderia jamais ter comprado.