quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Especial Semi-Anual de Natal: O Verdadeiro Espírito Natalino

Sempre viu o natal como a melhor oportunidade para desfrutar de sua vida de homem bem-sucedido. Era a ocasião perfeita para dar os presentes mais caros para todos que amava, e deixá-los contentes, ao mesmo tempo em que mostrava como tinha dinheiro. Inveja e satisfação juntas, que época mágica. Os presentes que dava nem sempre eram úteis, isso é verdade, mas o importante não era a intenção, era o valor.
No natal de 2001 deu para a avó um sistema de home-theater completo, televisão gigante e o caralho a quatro, uns trezentos mil watts de potência. Treze mil reais, esqueceu de tirar a etiqueta. Quando abriu a caixa a velha não se mostrou muito contente, porque não tinha a menor idéia do que era aquilo, não sabemos se por desconhecimento tecnológico ou pelo Alzheimer, mas foi só ver a etiqueta com o preço que quase enfartou. Abriu um sorriso de orelha a orelha, e foi chorando abraçá-lo, como as pessoas choram na televisão quando ganham coisas, dizendo que não precisava, Ricardinho, não precisava, mesmo sem saber que merda era aquela. Dias depois ele instalou o home-theater na casa da avó, colocou para tocar o único dvd que ela tinha, Padre Marcelo live in Maracanã, e ela quase ficou surda. Vendeu o home-theater, comprou uma cce 14 polegadas, muito mais do seu agrado, e usou o que sobrou do dinheiro para pagar o próprio funeral. Foi um enterro lindíssimo, todos concordaram.
Também gostava de dar carros importados para os sobrinhos, mas só para os que ainda eram crianças. Natal passado deu um Audi zero quilômetro para o sobrinho de cinco anos. O sobrinho ficou muito contente, claro, mas o pai quase desmaiou. Foram para a ceia de ônibus, e iam voltar de Audi! Que alegria. Mas Ricardinho deixou bem claro que o caro era para o sobrinho, e o levou para o estacionamento para ensiná-lo a dirigir. E como se divertiram, Ricardinho com o moleque em seu colo, este controlando o carro como se fosse um carrinho de bate-bate, raspando a lataria contra a parede, batendo de frente nas pilastras, e de lado, e de ré, e rindo o tempo todo. E Ricardinho rindo ainda mais da reação do cunhado, desesperado a cada batida, a cada arranhão, vendo peças de milhares de reais de um carro que inevitavelmente seria seu indo embora numa brincadeira de criança. Como era bom, como era bom.
Era com essas felizes lembranças que ia andando na direção do shopping de rico em que fazia suas compras, quando foi interceptado por um moleque de rua.
- Tio, dá um dinheiro, por favor?
- Não tenho. – Mentira, era a única coisa que tinha.
- Por favor, tio, também quero comprar um presente de natal pra mim e pra minha família.
Aquelas palavras atingiram em cheio o coração de Ricardinho, logo ele que nunca ouvia o que os pedintes diziam. Não deu dinheiro pro moleque, lógico, não sabia quem era, vai que ele gastasse tudo em drogas? Mas ficou reflexivo. Não foi ao Shopping, estava confuso, e como bom cristão que era foi a uma igreja. A igreja estava completamente vazia, como geralmente fica em antevésperas de natal, ele se ajoelhou de frente ao altar, e começou a rezar.
“Ó, pai, estou confuso. Me considero um bom homem, batalhador, sempre lutei muito pra conseguir tudo o que tenho. Sempre usei o natal para fazer o bem para as pessoas que eu gosto, dando presentes caros, como um ato de caridade, e sempre me orgulhei disso. Mas e quanto às pessoas que não tem nada? Que não têm dinheiro para comprar os próprios presentes, às vezes nem a própria comida? Será que eu não deveria ajudá-los também? Não seria esse o verdadeiro espírito de natal? Ó, pai, estou confuso.”
E, em meio à luz que atravessa os vitrais da igreja, surgiu na frente de Ricardinho algo como um anjo.
- Q-quem é você?
- Eu sou o espírito de natal.
- O espírito de natal?
- Sim, Ricardinho, o espírito de natal.
- Ah... Não sabia que o espírito de natal era realmente um espírito. Achei que fosse só uma expressão para representar os sentimentos das pessoas em relação a essa época do ano.
- Não, nada disso. Sou um espírito, mesmo, e me chamo Emmanuel.
- Emmanuel?
- Sim, Emmanuel. Vim para lhe mostrar o verdadeiro espírito de natal.
- Que é você?
- Não, dessa vez estava me referindo ao sentido que tem essa época do ano, e tal.
- Ah, tá.
- Sabe, Ricardinho, o natal não é uma época para repartir riquezas, distribuir presentes vagabundos para os pobres, ou servir sopas para mendigos alcoólatras.
- Não? Porque era isso que eu tava pensando em fazer esse ano.
- Não, Ricardinho, não. Não é isso que vai te fazer uma pessoa melhor.
- E o que vai, então?
- A culpa, Ricardinho. É isso que separa as pessoas boas das ruins, as que vão das que não vão para o céu. Não é a caridade, a solidariedade, o amor, nada disso, isso é tudo coisinha de hippie, com seus incensos e deuses elefantes. A verdade é que o mundo se divide entre os que sentem e os que não sentem culpa.
- E culpa por quê?
- Por tudo. Por todos os que não têm o que você tem, pelos famintos, pelos desgraçados, por todos os que você passou por cima para chegar aonde chegou, por todos que só com uma fraçãozinha da sua riqueza já teriam um natal muito melhor. Mas você não vai ajudá-los, não...
- Não?
- Não... Você vai sentir culpa. Veja a igreja onde estamos, por exemplo. Veja todo o ouro à sua volta. Você não acha que se todo esse ouro fosse vendido seria o suficiente para fazer o natal de milhares de pessoas mais feliz?
- Sim, certamente.
- Mas a igreja não vai fazer isso. Ela usa o ouro para construir um abrigo seguro, para que seus padres e fiéis possam se isolar do resto do mundo e sentir culpa, muita culpa, e rezarem pelos que não têm o que eles têm. Isso é ser bondoso, isso é ser santo.
- Sim, sim, agora eu percebo, agora eu percebo... Oh, espírito Emmanuel, muito obrigado, você salvou o meu natal!
- Ora, por nada. Para mais informações é só comprar uns livros do Chico Xavier, ele tem vários livros psicografados meus.
- Oh, eu vou! Vou comprar todos os livros do mundo, trancá-los em casa e não deixar ninguém ler, e rezar cheio de culpa no coração!
- Esse é o espírito, garoto!
E fez a maior ceia que já havia feito, e comprou os presentes mais caros que já havia comprado. Dessa vez não foi um Audi que ele comprou para o sobrinho, mas uma Ferrari. E com um taco de baseball de brinde, para a destruição ficar mais eficiente. Mas enquanto o sobrinho destruía o carro e seu cunhado ficava a um passo da loucura, ele não ria. Chorava. Chorava pela culpa de fazer seu cunhado tentar suicídio, pela culpa de dar para seu sobrinho destruir um carro de valor suficiente para pagar a ceia de milhares de famílias. E logo após terminar com um peru inteiro e beber algumas garrafas de vinho francês, foi se deitar mais cheio de culpa que de comida, com a certeza definitiva de que era a melhor pessoa do mundo.



Um natal cheio de culpa, e um ano novo repleto de arrependimentos é o que nós desejamos a você, seja quem for.