quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Sem Título

Família e amigos, vieram todos para vê-la e apoiá-la quando souberam da notícia. Dessa vez a tragédia era real, agora ela era verdadeiramente vítima. Estava sentada na ponta do sofá, calada e com a cabeça baixa, ouvindo as palavras de conforto e sentindo os olhares de compaixão. Não pôde segurar mais, e trancou-se no banheiro para que não a vissem chorar, mas chorou bem alto para que todos pudessem ouvir. Ninguém mais podia duvidar do seu desespero, agora os fatos falavam por ela. E chorava perguntando o porquê, alto suficiente para que todos ouvissem e ficassem sem resposta. Agora ninguém tem mais respostas, ou reprovações, apenas simpatia. Após alguns minutos de silêncio, se preocuparam e bateram na porta do banheiro. Ela não respondeu, e tiveram que arrombar. A encontraram caída no chão, com uma lâmina de barbear na mão direita e o pulso esquerdo sangrando. O sangue era bem pouco, o corte foi muito superficial, e bem longe de qualquer veia. Mas foi o bastante para que todos se comovessem e se assustassem com o fato. A pegaram no colo, fizeram um curativo com gaze e esparadrapo, mesmo que um pequeno band-aid já fosse suficiente. As mulheres choravam e os homens estavam todos comovidos. Deram alguns calmantes para que ela se acalmasse e dormisse. A colocaram na cama, a cobriram, e a deixaram sozinha no quarto. E enquanto o calmante fazia efeito ela imaginava como todos deveriam estar sofrendo com ela, por ela, como deveriam estar pensando o que fariam se estivessem em seu lugar. Pensava nisso, e ouvia e sentia o triste burburinho que vinha da sala, e olhava o curativo com uma pequena mancha de sangue em seu pulso esquerdo, enquanto o calmante lentamente fazia efeito e ela aos poucos adormecia.

Foi o momento mais feliz de sua vida.