domingo, 31 de agosto de 2008

Da Série Profissões Alternativas: O Projetor de Pensamentos

- Você que faz a sessão de telecinese?
- Sim, são cinco reais, a próxima começa em vinte minutos.
- E como é que é isso, você move os objetos com a força do pensamento, é isso?
- Não, não, eu não faço isso. Quer dizer, telecinese é isso, mas não é isso o que eu faço.
- E o que você faz?
- Eu projeto todos os meus pensamentos naquela tela, como se fosse um cinema.
- Ah... Quer dizer que aquilo que está passando na tela não é um filme, são os seus pensamentos?
- Exatamente. E eu sei que o nome disso não é telecinese, mas eu acho que telecinese tem muito mais a ver com o que eu faço do que com mexer objetos por telepatia. Porque, veja, tele de pensamento e cine de cinema, não é verdade?
- É verdade, faz mais sentido.
- Pois é, estou até vendo com o meu advogado se mudo isso aí no dicionário.
- Mas isso é realmente muito interessante, não sabia que isso existia.
- É, eu também não. Desenvolvi isso por força de vontade.
- Força de vontade, é?
- É, força de vontade. Consegui pela minha vontade de trabalhar e ganhar dinheiro fazendo o mínimo de esforço possível. E consegui, só o que eu preciso é ficar nessa poltrona pensando, coisa que mesmo sem esforço eu faço naturalmente.
- Olha, o Romário fazendo gol, é porque você está pensando nele?
- É isso mesmo, tudo o que eu penso vai para a tela, mesmo que sejam pensamentos soltos e sem sentido. Normalmente nas sessões eu tento contar uma história com meus pensamentos, como se realmente fosse um filme. Mas nem sempre dá certo, controlar os pensamentos é coisa muito difícil.
- E por que a placa de proibido para menores de 18 anos na entrada?
- Bem, no começo não tinha restrição de idade, eu até tentava fazer sessões voltadas pras crianças, mas era muito difícil. É muito difícil passar uma hora e meia sem pensar em coisa errada. Aí eu ficava aqui, pensando em desenhos animados, quando de repente BUM!, vinha um cu de loira na minha cabeça. Aí pronto, era criança chorando, outras rindo, outras vomitando, pais querendo me bater, me processar... Por isso eu parei com isso, agora só para maiores, para não correr riscos. Sabe como é, né?, muito difícil ficar sem pensar em mulher.
- Podes crer, podes crer...
- Hehehe...
- Mas isso é realmente fantástico, e... Peraí, aquele ali sou eu?
- Hein? É, é, parece que sim.
- Quer dizer que você está pensando em mim?
- Bem, é que...
- Olha, eu estou sem camisa... Porque eu estou sem camisa?
- Oi? Não, não... Quer dizer...
- E eu não sou forte daquele jeito. Nem tenho o peito depilado.
- É, é que ás vezes isso...
- Olha, você está lá também. Correndo na minha direção.
- Sou eu? Mas e o jogo do Corinthians, hein?
- Agora você parou na minha frente. Colocou a mão no meu braço...
- E... O Corinthians tá mal, né?, e tal...
- No meu peito...
- O Corinthians...
- Meu Deus! Você vai me bei...
- Acabou a sessão!!!

E nunca mais houve outra. Vendeu a sala para a construção de uma farmácia, comprou um capacete antiprojeção de pensamentos e foi trabalhar como funcionário público. Se aposentou por invalidez alguns anos mais tarde, devido ao forte alcoolismo.

Moral da história: A pior coisa que pode acontecer a um homem é ter todos os seus pensamentos revelados.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Dinheiro

Estava ficando cansado daquela vida. Passava o dia inteiro no escritório, o dia inteiro trabalhando. O dia inteiro fazendo coisas importantes, em reuniões, fechando negócios, escrevendo relatórios, e outras coisas muito importantes que pessoas de escritório fazem, mesmo sem saber muito bem pra que servem. Só sabia que era assim que ganhava dinheiro, por isso trabalhava muito, o dia inteiro. Já não agüentava mais, a pressão era insuportável. O estresse, as discussões, não fazia nada a não ser trabalhar. Queria largar tudo aquilo. Se perguntava se ganhar dinheiro era tão importante assim. Valia a pena tudo aquilo apenas pelo dinheiro? Será que não existem coisas melhores na vida? Tipo sexo, família, amigos, sexo, vinho, sexo? Claro que sim, ele não precisava de dinheiro para ser feliz! Dinheiro não traz felicidade, essa é a verdade! E foi isso o que ele disse para o seu chefe quando se demitiu, enquanto tirava o paletó, a gravata e a camisa. Saiu correndo pelos corredores da empresa cantando músicas do Renato Russo e do Padre Marcelo, até ser expulso pelos seguranças. Foi para casa fazer as malas, ia embora da cidade grande. Queria um lugar mais tranqüilo, mais simples, em que as pessoas soubessem que a vida era mais que apenas ganhar dinheiro. Juntou umas poucas peças de roupa e as colocou em uma pequena mala. Não levou nada além das poucas roupas. Ia passar no banco para pegar o que restava na sua conta, quando lembrou que sua conta estava negativa. A vida na cidade grande era cara, o dinheiro que ele ganhava ia todo embora com coisas inúteis, coisas que eles não precisaria mais, como tv a cabo, eletricidade e plano de saúde, ou pensão e escola particular para os dois filhos que ele nunca via. Tinha 75 reais na carteira, era o suficiente pra pegar um ônibus para Friburgo, ou Teresópolis, ou uma cidade de serra qualquer desse tipo. Desceu do ônibus na rodoviária da cidade de serra qualquer, e na primeira respirada do ar sem poluição teve certeza que fez a escolha certa. Essa sim era a vida, a paz, a tranqüilidade, o verde, pessoas passeando na praça, charretes... Era essa a vida simples que ele procurava. Não tinha dinheiro para gastar com hotel, nem queria dinheiro para gastar com hotel, e decidiu se estabilizar na floresta, viver no verde, sem as frescuras do mundo moderno, era assim que tinha que ser. Entrou uns cem metros dentro da mata e deixou lá sua mala. Começou a ficar com fome, e pensou em comer em algum restaurante de comida caseira típico de cidade pequena, mas não tinha dinheiro. E nem era para ter dinheiro, dinheiro não era mais importante para ele. Então teve a idéia de comer na casa de alguém da cidade, ali sim morava um povo hospitaleiro, simpático, sem o medo e a desconfiança que torna as pessoas de cidade grande tão indiferentes. Passou por uma casinha humilde, mas bonita, com uma senhora sentada na entrada. Ele puxou assunto e perguntou se poderia almoçar em sua casa. Ela entrou, fechou o portão e ameaçou soltar os cachorros se ele não saísse de lá agora. Ele saiu, um pouco surpreso com a reação da senhora, mas concluiu que velha louca existe em todo lugar. Bateu na porta de outra casa, e quando perguntou se podia almoçar ali o morador não lhe respondeu, apenas entrou e voltou com uma espingarda na mão e um celular na outra, já preparado para ligar para a polícia. Já um pouco puto, foi bater na terceira casa. Dessa vez foi bem atendido, e para sua alegria disseram sim para seu pedido de almoço. Já estava entrando na casa, feliz, quando bateram a porta na sua cara. Voltaram três minutos depois, com duas colheres de arroz e uma de feijão geladas em um prato descartável de plástico. Sem talheres, claro. Ele humildemente agradeceu, afinal pelo menos assim não passaria fome. Foi comer seu almoço na pracinha, porque gostava da pracinha. Passavam algumas moças bonitas e ele se lembrou uma das coisas que o fazia feliz sem precisar de dinheiro: Sexo. Mostrava interesse por algumas, mas elas desviavam o olhar e o caminho dele como se ele fosse o tinhoso em pessoa, provavelmente por estar comendo arroz e feijão com as mãos em um prato de plástico em praça pública. Percebeu que daquele jeito ficaria difícil comer alguém. Mas tudo bem, assim como dinheiro sexo não era tudo para a felicidade, além do mais, ele sempre teria sua mão direita, mesmo que no momento ela estivesse suja de feijão. Qual era a outra coisa da lista? Ah, sim, vinho. É... Vinho fica meio difícil sem dinheiro. Quer dizer, ele poderia colher as uvas na floresta, tirar o suco e deixar fermentando em algum barril de madeira qualquer, mas o vinho demoraria alguns anos pra ficar pronto. E uva não deve ser uma fruta muito típica de floresta brasileira. Mas tudo bem, ele não precisa de vinho, ele tem paz de espírito, e é isso que importa. Vinho é para os estressados da cidade grande. Com o dia anoitecendo, e sem ter mais o que fazer, decidiu ir para o seu cantinho na floresta dormir. Demorou duas horas para achar o lugar certo. Deitou-se, mas estava um frio desgraçado, e ele não havia colocado cobertores na mala. O jeito foi se vestir com algumas calças e camisas para esquentar, mesmo que isso o deixasse bastante sufocado. Começou a chover. Já estava de saco cheio de achar soluções para seus problemas, e ficou lá na chuva mesmo, tentando dormir. Conseguiu, por umas poucas horas. Acordou coberto de formigas, daquelas vermelhas bem catiças, e enquanto rolava na grama desesperado percebeu que sua teoria só estava meio certa. Dinheiro realmente não é importante, mas só para quem já tem muito dele. Uns 572 mil reais, pelo menos. Quando terminou de tirar as formigas do corpo, arrumou sua mala e foi correndo para a estrada, tentar uma carona para voltar para a cidade grande. Chegou a tempo de pegar seu chefe ainda no trabalho. Se jogou aos seus pés em prantos pedindo seu emprego de volta. Colocou a mão na braguilha do chefe, dizendo que estava até disposto a lhe pagar um boquete. O chefe, muito bondoso, o liberou do boquete, e lhe deu o emprego de volta, claro que com uma significativa redução salarial. Agora só o que ele precisava era trabalhar, trabalhar muito, sem férias ou descanso, até conseguir juntar dinheiro suficiente para que isso não fosse mais um problema para ele. Com o passar dos anos, e calculando juros e inflação, sua meta ia ficando cada vez mais alta. Começou em 572 mil reais, e quando morreu já estava em quase 2 milhões, apesar de não ter conseguido juntar nem um quarto disso. Morreu aos sessenta e dois anos, de estafa. O encontraram caído sobre sua mesa no escritório, sob uma pilha de relatórios. Relatórios que não eram para ele fazer, os recebeu por um erro do estagiário. O estagiário não se importava muito com dinheiro.