terça-feira, 20 de maio de 2008

A Felicidade

Foi ótima a idéia de passar a lua de mel no interior do interior, fugindo da obviedade de hotéis cinco estrelas em Paris. Estavam adorando entrar em contato com uma realidade tão diferente da que estavam acostumados. Os lugares, as pessoas, tudo era divertido para eles. Fotografavam tudo. Perdiam-se pela estrada de propósito, só para conhecer lugares que ninguém a não ser os que moravam ali conheciam. Estavam com fome, e pararam o 4X4 em frente a um casebre que parecia ser um restaurante. O lugar era imundo, escuro, todo de madeira, e parecia prestes a desmoronar pela ação dos cupins, mas o casal achou tudo muito pitoresco. Pitoresco foi a palavra mais usada da viagem, depois de mô e momô, apesar das duas últimas não serem palavras, eu acho. Sentaram em uma mesa bem no canto do boteco, rindo de tudo, se beijando e trocando carícias.

- Nossa, que cidadezinha pitoresca, mô! Ainda bem que eu trouxe a máquina, ninguém ia acreditar que a gente veio aqui!

- E esse bar, então? Mais pitoresco impossível!

- E olha aqueles caras sentados na outra mesa... Muito figuras!

- Nossa, é mesmo, momô! Hahaha, olha só! Sérios, bebendo cerveja, muito figuras! Tira uma foto, momô, tira uma foto sem eles perceberem!

Os dois homens sentados na outra mesa notaram a presença do casal, muito estranha em um bar como aquele, o bar que eles freqüentavam todos os dias.

- Ô, Zé? Que merda é aquela ali?

- Sei lá. É um casal, Nildo.

- Eu sei, mas que merda de casal é aquela?

- Não sei... Parecem turistas, eu acho.

- Turistas? Turistas aqui? Desde quando tem turista aqui?

- Não sei, mas são turistas.

- E porque eles tão rindo? Porque eles tão sentados numa mesa, nessa merda de bar, rindo? O que eles tão fazendo aqui, Zé?

- São recém-casados, Nildo.

- E porque não tão em Paris? Olha o carro do cara, ele tem dinheiro, porque não tão em Paris? Porque tão nessa merda de cidade e não em Paris?

- Melhor esquecer eles, Nildo. Finge que eles não tão aqui.

Mas era difícil ignorar as risadas altas e os estalos de beijos mais altos ainda.

- O que você vai comer, mô?

- Ai, não sei, momô... Será que tem petit gateau?

- Hahaha, petit gateau! Muito boa essa, mô!

- Hahaha!

- Porra... Eles não param de rir, Zé. Eles não param de rir!

- Deixa pra lá, Nildo, deixa pra lá...

- Mas o calor das risadas tá esquentando a minha cerveja!

- Eles só tão de passagem, daqui a pouco vão embora, calma...

- Chama o garçom, momô.

- Garçom!

- Pode dizer.

- Você tem o menu, por favor?

- Não tem menu.

- E o que tem, então?

- Mocotó.

- Mocotó?

- É, mocotó.

- Ah...

E depois de um momento de silêncio, o casal caiu em uma crise de riso incontrolável, que parecia não ter fim.

- Caralho, Zé, por que eles tão rindo, Zé, por quê?

- Porque o Geraldo falou mocotó.

- Mocotó? E desde quando mocotó é engraçado? Que tipo de gente acha mocotó engraçado? Eles são malucos, é isso?

- Não, Nildo, eles não são malucos, é que...

- É que o quê, Zé?

- Bem, eles...

- Eles o quê, Zé? Fala!

- Eles são felizes, Nildo.

- Felizes?

- Sim, felizes.

- Filhos da puta!

E levantou-se num impulso, derramando toda a cerveja. Foi andando na direção do casal, que continuava rindo incontrolavelmente. Mas pararam num susto quando Nildo raivosamente puxou uma cadeira e sentou na mesma mesa que os dois.

- Geraldo, traz o mocotó. Traz a panela toda de mocotó.

- E você tem dinheiro pra pagar?

- Não, mas não é pra mim. É pro casal feliz aqui na minha frente.

Mô olhou assustada para momô, que não sabia bem o que fazer.

- Desculpe, senhor, mas nós não queremos o mocotó, estamos apenas de passagem e...

- Ora, mas como não? Mocotó não é engraçado? Pois então!

- Desculpe, senhor, mas minha mulher está assustada, nós não esperávamos esse tipo de interação com os locais, agora se nos dá licença...

- Licença é o caralho!

E os dois já faziam menção de levantar, quando Nildo tirou uma peixeira por baixo da calça, uma peixeira que começava acima da cintura e acabava na altura do joelho, e a colocou sobre a mesa. Momô achou melhor não desafiar o homem pitoresco, sabe-se lá do que aquele tipo de gente era capaz, e permaneceu sentado. Mô começou a chorar de medo. O mocotó chegou, e Nildo obrigou o casal a comer tudo, toda a panela. Devia ter mais de seis quilos ali dentro. E como Nildo ria vendo aquilo, há muito tempo não ria tanto. Nunca ria, na verdade.

Depois de comerem o cozido dos infernos, o casal decidiu que já era hora de terminar a viagem, e voltaram correndo para casa. Mas infelizmente a mistura de gordura e bactérias do pitoresco prato não fez bem ao mal acostumado organismo do casal. A pele sempre tão bonita de mô começou a escamar de forma estranha. Em poucos dias já parecia a Hebe Camargo. E passava cremes, e massagens, e cirurgias plásticas, mas pouco adiantava, o mocotó danificou irreversivelmente sua pele. Com momô as conseqüências não foram muito melhores. Virou um peidorreiro crônico. Simplesmente não conseguia parar de peidar, não importa onde estivesse, eram pelo menos dois por minuto, e todos cheirando a mocotó. Claro que nenhum dos dois agüentou a situação por muito tempo, e se divorciaram. Logo eles, que eram o casal mais feliz e mais invejado da alta sociedade brasileira.

Moral da história: O importante nessa vida é ser feliz. Mas desde que não se incomode os infelizes. Lembre-se que eles são maioria, são rancorosos, e não têm muito que perder.

sábado, 10 de maio de 2008

E Quem Se Importa?

- Tia, dá um trocado?

- Hoje o professor de fisiologia entregou as provas, tirei meio.

- Tá falando comigo?

- Gente, meio! E ainda me entregou a prova com aquela cara de “Pensou que fisiologia é fácil?”. Ai, eu odeio quando o professor acha a matéria dele mais importante que a dos outros. Dá vontade de dar um tiro, né?

- Não sei, eu só fiz escola até a segunda série... Mas e o trocado, você tem?

- Agora vou ter que deixar de ver o top 15 MTV pra estudar... Muito tiste(carinha tiste).

- E daí, porra? Não quer me dar dinheiro fala logo!

Babi andava pela rua tão imersa nos próprios pensamentos que nem percebeu o moleque enfiando a mão na sua bolsa e roubando seu celular. Parou no ponto de ônibus, e começou a contar a qualquer um que estivesse perto dela sobre a divertida viajem com suas amigas a Saquarema. Isso sem deixar escapar qualquer pequeno detalhe desinteressante, e historias engraçadas que não tiveram graça nem quando aconteceram. Desesperadas, as pessoas pegavam o primeiro ônibus que passava, mesmo sabendo que era o ônibus errado, apenas para escapar da narrativa mocoronga. Finalmente chegou o ônibus de Babi, ela entrou e sentou no corredor, ao lado de um senhor de seus setenta anos, que cochilava tranqüilamente após um longo dia de trabalho senil. Mas o velho acordou assustado quando Babi deu um grito histérico sem qualquer explicação aparente.

- BAIXEI O DISCO NOVO DO BON JOVI HOJEEEEEE!!!

-AI, MEU DEUS!!! Que isso, que é que aconteceu?

- Caraleo, muito fodaaaaaaa, woohoo!!!

- Que é que houve, minha filha, pelo amor de Deus!?

- O Bon Jovi novo é um absurdo de bom!

- Hã?

- Sério, desde que saiu o “Horse’s cock” que eles não lançam um disco tão maravilhoso!

- Que merda é essa que você tá falando, menina?

- Ai, a música “Forehead Love” é muito linda… Gente, impossível não chorar ouvindo ela, love you in the forehead..., aí eu começo a pensar no Paulinho, nos nossos três meses juntos... Me acabo!

- Peraí... Eu te conheço por acaso? Que me interessa Paulinho? Que é que eu tenho com a sua vida? Pra que você me acordou? Pelo amor de Deus...

- Mas você não tá entendendo, não tem noção de como o disco é bom! Ouve só no meu Ipod, e depois comenta o que você acha.

E o velho ouviu, por mais ou menos quinze segundos, antes de se levantar e saltar do ônibus sete pontos antes do que deveria. Como não era pessoa muita pacífica, ou boa, preferiu sair antes que enfiasse o ipod no cu da garota e fosse preso por estupro.

Chegou em casa, e seu pai já estava com a mesa servida e jantando. Babi fez seu prato e sentou-se em frente ao pai.

- E aí filha, como foi na facul hoje?

- Eu te espero/De braços e pernas abertas

- Hein?

- Por dias e meses/Agüentando enquanto posso

- Que isso?

- Arranhando as paredes/Excitada e ansiosa

- Ah, um poema? Que bonito!

- E quando você finalmente chega quase desmaio

- Que lindo, minha filha é poeta!

- Você tira aquele canhostro gigante das calças

- Canhostro?

- E eu me abro toda como uma ostra

- Babi, que isso?

- Melada como pipoca doce/Espero sua piroca doce

- Babi, pára. Sério, pára.

- Minha vulva te envolve/Você lambe mas não resolve

- Pelo amor de Deus, por que você tá me falando isso?

- Preciso do seu caralho!

- Não olha nos meus olhos enquanto fala isso, pelo amor de Deus, não olha nos meus olhos!

- Mete!/Mete seu patrusco até eu não agüentar mais!

- Pára! Pára! Eu sou seu pai, pára!

- Só com você eu jorro como cachoeira!

- Aaaaahhhhhhhh...

- Me chama de filhinha e me fode inteira!

- AAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHH!!!

E depois de vomitar em cima do prato, ele saiu em disparada para o banheiro, fechou a porta e, desesperado, engoliu uns vinte lexotans. Logo ele que nunca tinha tomado calmantes na vida. Morreu fácil.

Foi quando Babi acordou. “Foi só um sonho!”, pensou aliviada. “Acho que a partir de agora é melhor dar um tempo no meu blog. Esse sonho deve ter sido um sinal de que estou falando demais da minha vida.” Acordou feliz e foi ao banheiro, mas teve dificuldade para abrir a porta, já que o corpo do seu pai estava atrapalhando a passagem.

“É... Acho melhor dar um tempo nas anfetaminas também.”