domingo, 16 de março de 2008

A Cama

- Querido!, já chegou? Tudo bem? Como foi o seu dia?

- Nada, como sempre.

- Não tem problema, um dia você consegue. Olha o que eu fiz hoje, olha o que eu fiz hoje... Feijão, do jeitinho que você gosta! Ficou feliz, ficou?

Fazia feijão pelo menos cinco vezes por semana, mas sempre falava com o marido como se só fizesse uma vez por ano. Ele já estava há mais de cinco anos desempregado, há pelos menos três eles não trepavam, e só se beijavam em aniversários e feriados, mas Deise se recusava a desanimar. Conservava sempre a mesma empolgação e a mesma esperança no futuro, e por nada tirava o sorriso do rosto, apesar da vida tentar forçá-la a fazer o contrário. Isso tudo dava a ela uma cara de cu contente, pelo menos era assim que Valdir a classificava.

- Tava bom o feijão, tava? Ficou gostoso?

- Tava como sempre.

- Ah, que bom, que bom que você gostou.

- Vou dormir.

- Mas já?, são só nove horas! Mas é que você deve tá cansado, né? Procurando emprego o dia todo... Dorme com Deus, viu?, que amanhã tudo melhora, com certeza.

- É, tá bom.

Aquela era a hora favorita de Valdir, a de dormir. Não se importava que a casa estava caindo aos pedaços, que todas as contas estavam atrasadas, que metade dos móveis já tinham sido vendidos para poderem comprar comida, o importante é que ele ainda tinha sua cama, e para ele já era o suficiente. Na verdade não era uma cama, era só um colchão, um colchão sobre o chão duro, mas ele não trocaria aquilo por nada no mundo. Ali ele era rei, vestia ternos caros, dirigia carros importados, comia as mulheres da televisão, resolvia assuntos importantes e era chamado de doutor, apesar de não terminado o segundo grau. Poderiam tirar a casa dele, a comida e suas roupas que ele não se importaria, levaria seu colchão para debaixo de uma ponte e para ele isso já seria o suficiente.

- Bom dia, amor! Dormiu bem? Fiz seu café, tá aqui, o café. Já vai? Boa sorte, viu? Vai com Deus!

Todo dia era igual. Saía de casa, comprava o jornal, e respondia a algum anúncio de emprego sem a menor esperança de ser contratado. E nunca era, realmente, talvez mesmo pelo desânimo e pela falta de esperança de ser contratado. No resto do dia só ficava vagando pelas ruas, fingindo procurar trabalho, matando o tempo e torcendo para que a hora de deitar em sua cama e dormir chegasse rápido.

- Oi, amor! Já chegou?

Estranhou o rosto de Deise. Não estava com cara de cu contente, mas de cu feliz.

- Que foi, Deise? Aconteceu alguma coisa?

- O quê? Não, claro que não, nada, por quê?

- Não sei, parece que você tá diferente.

- Eu? Eu não! Eu, hein... Fiz feijão, olha! Do jeito que você gosta!

Que se dane que ela estivesse com cara de cu feliz, comeu o feijão e foi dormir. Ali se deitava e ali seus problemas imediatamente sumiam. Se levantou depois das costumeiras onze horas de sono e sonhos felizes, e a cara de cu feliz de Deise parecia esconder alguma coisa dele. Não deu importância àquilo e foi embora, procurar empregos que sabia que não acharia.

Voltou mais cansado que o normal e, estranho, Deise não veio recebê-lo na porta como sempre fazia. Entrou em casa, e demorou uns segundos pra perceber. A sala estava totalmente diferente, cheia de móveis novos. Tv de plasma, sofás de couro, tapetes persas, mesas até onde não cabiam mesas.

- Surpresa!

- Que isso, Deise? Assaltou as casas Bahia?

- Não, meu amor, ganhei na loteria!

- Ganhou?

- Ganhei, ganhei! Fiquei sabendo ontem, mas não quis dizer nada pra te fazer uma surpresa!

Valdir não respondeu nem deu os parabéns, e foi correndo para o quarto. Abriu a porta e seu medo se confirmou, sua cama não estava lá. No lugar tinha uma muito bonita, com lençóis vermelhos e uma cabeceira cheia de detalhes dourados, poderia até estar num museu como tendo sido usada por Dom Pedro.

- E onde tá a cama velha, Deise?

- O quê, aquele colchão imundo? Claro que joguei fora, né? Por quê?

- Não, não, por nada. Quer dizer, era só um colchão velho...

- Ah, Valdir, não precisa chorar, eu também estou muito feliz, meu amor, muito feliz! Agora tudo vai mudar, você não vai mais precisar procurar emprego, agora tá tudo resolvido!

Dessa vez não comeram feijão, foram a um restaurante francês vestindo as roupas novas que Deise havia comprado. Terminaram e Deise pagou a conta em dinheiro vivo. Valdir saiu do restaurante com fome, os pratos eram minúsculos apesar da conta gigantesca, quando chegou em casa teve que comer um resto de feijão que estava na geladeira. Foi dormir na cama nova, mas antes, por questão de educação, foi obrigado a comer a esposa, como mostra de satisfação por ela ter ganhado na loteria. Demorou muito para pegar no sono, e quando pegou foi por pouco tempo. Acordou cedo, depois de uma noite de poucos sonhos, todos curtos e sem sentido. Era ele em uma fila de banco sendo assaltado, caindo de bicicleta, sofrendo um acidente qualquer, enfim, sonhos comuns que todos sonhamos e esquecemos logo que acordamos. Seus sonhos tinham ido embora, junto com sua cama, o único consolo de sua vida. Agora já nem tinha pretexto para sair de casa, não precisava mais procurar emprego, estava obrigado a passar os dias com sua esposa recém-rica. Estava aprisionado na própria vida.

- Valdir, vem aqui fora, tenho uma surpresa!

- O que foi?

- Tá vendo esse Jaguar aí?

- Tô.

- Pois é seu, querido, é seu!

- Meu?

- Sim, seu! Não era o carro dos seus sonhos, um Jaguar?

- É, era sim.

- Pois então, é seu! Seu, todo seu! Ficou feliz, ficou?

- Fiquei, fiquei sim. Obrigado, Deise.

- Agora vamos dar uma volta, né?

- Sim, vamos.

E foram andando sem destino, ela com um sorriso de orelha a orelha, ele dirigindo o Jaguar como se fosse um Fusca. Passavam ao lado de um rio, um desses rios urbanos de esgoto, quando Valdir, aparentemente sem motivos, virou o volante bruscamente e atirou o Jaguar pra dentro d’água. Saiu do carro correndo, nem perguntou se Deise estava bem, nadou alguns metros e subiu em um colchão. No seu colchão. De nada adiantaram os gritos de Deise para que ele voltasse, que não sabia dirigir e que o carro estava sem seguro. Ele já estava longe, boiando em cima de sua cama, sendo levado pela correnteza. E sonhando feliz, mesmo com a vida passando sobre um rio de merda.

segunda-feira, 10 de março de 2008

Camisa Manchada

Merda, minha camisa ficou toda manchada. Logo hoje que eu tinha reunião. Merda, merda, estragou meu dia. Mas pelo menos eu estou bem, isso é o que importa. O vagabundo tinha que tentar me assaltar logo hoje? Porra, é muito azar. E pensar que fizeram campanha pra tirar arma da gente de bem. “Ai, eu sou da paz, sou da paz!”, da paz é a puta que te pariu! Vai pedir paz pra traficante! Bando de canalhas... E se eu não estivesse armado? Ia simplesmente deixar que ele levasse meu relógio? Ah, claro, deixa a vagabundagem fazer o que quiser, hoje levam meu relógio, amanhã pulam o muro da minha casa e estupram minha filha. Tá certo, eu não tenho filha, mas e se tivesse? Ia deixar ela na mão dos marginais, minha filha hipotética? Mas a culpa disso é dos políticos, os políticos de Brasília, eles que deixam a bandidagem livre e ainda querem tirar o direito de defesa das pessoas de bem. Tentou roubar meu rolex?, agora vai roubar o rolex do capeta! Aquilo é um bando de animais, deviam matar todos, todos eles, mas não, não pode, porque vêm direitos humanos e condena, não pode... Agora, meter a mão dentro do carro de pessoas de bem pra roubar rolex, isso pode, né?, isso pode! E ai de você que se defenda! Bando de canalhas... Não sei porque o rosto daquele vagabundo não sai da minha cabeça... Será que foi ele que me assaltou daquela outra vez? Não, aquele era preto, esse era branco... Estranho esse ser branco... Não sei, parecia que a cara dele não me era estranha. Barbudo, não conheço ninguém barbudo. Talvez tirando a barba... Meu deus, o Wilson! Era ele mesmo, o Wilson, nem reconheci... Também, já fazia uns três anos que eu não via ele... Emagreceu, deixou a barba crescer, não reconheci. Mas por que o Wilson enfiou o braço no meu carro daquele jeito? Será que ele queria me cumprimentar? Ah, é, devia ser isso, fazia tempo que a gente não se falava... Meu Deus, o Wilson morreu... Mas essa violência tá de mais mesmo, né?, a gente sai de casa e não sabe se volta! Você vê, o Wilson, homem de bem, casado, dois filhos, gente boa... Morto pela violência! E ainda querem tirar a arma do cidadão de bem! Isso é culpa dos políticos, os políticos de Brasília que defendem marginal, a culpa é deles! Coitado do Wilson... Bem, fazer o quê, né? Agora é ligar pra viúva e perguntar quando enterram o presunto.

sábado, 1 de março de 2008

O Dia da Descoberta Trágica

Saiu do médico chorando muito. Entrou no carro, e tremia tanto que não conseguia dirigir. Teve que passar uma hora ali dentro tentando se acalmar. Enquanto isso pensava em como daria a notícia ao seu marido. Talvez essa fosse a pior parte, não sabia como ele reagiria. Sabia que era tudo na vida daquele homem. Precisava mostrar segurança, não poderia mostrar seu sofrimento para que ele não sofresse também. Chegou em casa, e Jaime estava tranqüilamente lendo seu jornal, como sempre fazia a essa hora do dia. Ela não podia esperar mais, precisava dar sua trágica notícia.

- Jaime, eu preciso falar com você.

- Diga, querida.

- Bem, eu vou ser direta. Hoje eu fui ao médico e...

- Tsc, tsc, esse Thiago Neves é uma besta, mesmo...

- Será que dá pra fechar a porra do jornal? Eu quero dar uma notícia importante, merda!

- Tudo bem, tudo bem, já fechei... Fala.

- Bem, querido, pra mim é muito difícil te contar isso, e saiba que aconteça o que acontecer eu sempre vou te amar.

- Que isso, Marta, tá me assustando!

- Bem, querido, vamos lá. Eu fui ao médico hoje, para que ele examinasse minhas hemorróidas.

- Sim, as hemorróidas. E o que é que tem, vai ter que operar?

- Não, querido, o problema é que não eram hemorróidas.

- Não?

- Não.

- Porra, mas era o quê então?

- Um tumor.

- U... Um tumor?

- Sim querido, um tumor. Eu estou com câncer.

- Com câncer?

- Sim, querido, sim. Eu estou com câncer.

- Quer dizer que você está com câncer... No cu?

- Bem... Sim, é isso.

- Ah...

- Eu sei que deve estar sendo muito difícil para você ouvir isso, querido, mas devemos ser fortes e...

- Pfffffhahahahahahahaha! Desculpa, desculpa, mas não deu pra segurar!

- Vo...você está rindo?

- Hahahahahaha, desculpa, Marta, desculpa, mas é que é muito engraçado... Você tá com câncer? Tô. Aonde? No cu. No cu! Hahahahahahahahaha, muito boa essa, muito boa...

- Mas seu idiota, será que você não entendeu? Eu estou com câncer! Eu posso morrer!

- Pode, é?

- Posso.

- Quer dizer que você pode morrer... Pela bunda?

- Sim, eu...

- Hahahahahahahaha, pára, pára, eu vou me mijar, hahahahahahahahahaha!

E Marta nunca mais se esqueceu do trágico dia em que descobriu que havia se casado com um débil-mental.