domingo, 30 de novembro de 2008

O Figurante

Vinha andando pela rua, sem saber porquê. Não conhecia aquela rua, nunca esteve ali antes, não tinha o que fazer ali. E estava de terno, por que estava de terno se nem ao menos trabalhava? Não via sentido naquilo, ou em qualquer coisa, nada fez sentido para ele nunca, toda a vida só o que fez foi viver e esperar, esperar que alguma coisa acontecesse, algo que ele não sabia o que era, ou se existia. A rua parecia muito limpa, muito mais limpa que qualquer outra rua da cidade. Os carros estacionados pela rua eram todos antigos, mas muito conservados, e coloridos, como há muito tempo não via. As pessoas ali eram mais bonitas e normais que de costume, e até menos pobres. O asfalto brilhava, como se tivesse acabado de chover, apesar do céu completamente azul. E por que estava usando relógio? Nem se lembrava de ter um relógio, e não tinha, comprou um naquele mesmo dia, logo depois de sair de casa, mas por quê? Que utilidade tinha aquele relógio, se ele não tinha hora para chegar em lugar nenhum? Talvez estivesse ficando louco finalmente, apesar de se sentir totalmente lúcido, mais lúcido do que nunca. Foi quando viu virando a esquina em sua direção uma mulher. Era uma bela mulher, apesar de muito magra. Tinha um jeito muito simpático, talvez um pouco afetado, e vinha apressada, quase correndo, mas de uma maneira engraçada, apesar dele não ter sentido vontade de rir. Parecia falar sozinha, murmurava como se ninguém a pudesse ouvir, mas falava claramente, como que para alguém a ouvisse. Uma música a acompanhava, algo como uma música clássica, mas meio idiota, que variava de acordo com seus movimentos e suas falas. Ela se aproximava e a musica ficava mais alta e mais clara, a luz era mais forte por onde ela passava que em qualquer outro lugar da rua. Ela chegou à sua frente, e ele pôde ver seu rosto melhor. Tinha belos olhos azuis, um cabelo que parecia impossível, cada fio calculado, e um rosto todo perfeito, perfeito por uma grossa camada de maquiagem. E ele imaginou a maquiagem derretendo, como uma máscara, e aquele rosto já seria outro, e ela seria outra mulher, certamente menos bonita, mais velha, talvez menos simpática. Ela parou, olhou para os lados de um jeito que não deixasse dúvidas de que estava atrasada para algo muito importante.
- Com licença, senhor, que horas são?
Disse com uma dicção perfeita, e forçadamente agitada.
- Cinco e meia.
- Oh, droga, só tenho quinze minutos! Táxi!
E, vindo de lugar nenhum, no mesmo instante apareceu o táxi, ela entrou e disse para a estação!, e o táxi foi embora, levando a música imbecil, a luz artificial e a forte camada de maquiagem. E no mesmo instante ele se sentiu diferente. Havia feito a sua parte, apesar de não saber bem qual era. Mas sabia que havia sido algo importante. Talvez não muito importante, mas útil, e isso já era importante. Estava aliviado. O momento chegou, e mesmo que ele não entendesse bem, tudo fez sentido. Seu papel estava cumprido.

Viveu por muito mais tempo, como as pessoas normalmente vivem, e nada mais de interessante aconteceu, porque nada mais de interessante precisou acontecer.

2 comentários:

felipe disse...

Se superou agora, rapaz, sensacional.

E Vigilante é o jogo da minha infância!!

kid_limao disse...

Forcei a mente para que ela não se perdese na história. E isso é bom!