segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Dinheiro

Estava ficando cansado daquela vida. Passava o dia inteiro no escritório, o dia inteiro trabalhando. O dia inteiro fazendo coisas importantes, em reuniões, fechando negócios, escrevendo relatórios, e outras coisas muito importantes que pessoas de escritório fazem, mesmo sem saber muito bem pra que servem. Só sabia que era assim que ganhava dinheiro, por isso trabalhava muito, o dia inteiro. Já não agüentava mais, a pressão era insuportável. O estresse, as discussões, não fazia nada a não ser trabalhar. Queria largar tudo aquilo. Se perguntava se ganhar dinheiro era tão importante assim. Valia a pena tudo aquilo apenas pelo dinheiro? Será que não existem coisas melhores na vida? Tipo sexo, família, amigos, sexo, vinho, sexo? Claro que sim, ele não precisava de dinheiro para ser feliz! Dinheiro não traz felicidade, essa é a verdade! E foi isso o que ele disse para o seu chefe quando se demitiu, enquanto tirava o paletó, a gravata e a camisa. Saiu correndo pelos corredores da empresa cantando músicas do Renato Russo e do Padre Marcelo, até ser expulso pelos seguranças. Foi para casa fazer as malas, ia embora da cidade grande. Queria um lugar mais tranqüilo, mais simples, em que as pessoas soubessem que a vida era mais que apenas ganhar dinheiro. Juntou umas poucas peças de roupa e as colocou em uma pequena mala. Não levou nada além das poucas roupas. Ia passar no banco para pegar o que restava na sua conta, quando lembrou que sua conta estava negativa. A vida na cidade grande era cara, o dinheiro que ele ganhava ia todo embora com coisas inúteis, coisas que eles não precisaria mais, como tv a cabo, eletricidade e plano de saúde, ou pensão e escola particular para os dois filhos que ele nunca via. Tinha 75 reais na carteira, era o suficiente pra pegar um ônibus para Friburgo, ou Teresópolis, ou uma cidade de serra qualquer desse tipo. Desceu do ônibus na rodoviária da cidade de serra qualquer, e na primeira respirada do ar sem poluição teve certeza que fez a escolha certa. Essa sim era a vida, a paz, a tranqüilidade, o verde, pessoas passeando na praça, charretes... Era essa a vida simples que ele procurava. Não tinha dinheiro para gastar com hotel, nem queria dinheiro para gastar com hotel, e decidiu se estabilizar na floresta, viver no verde, sem as frescuras do mundo moderno, era assim que tinha que ser. Entrou uns cem metros dentro da mata e deixou lá sua mala. Começou a ficar com fome, e pensou em comer em algum restaurante de comida caseira típico de cidade pequena, mas não tinha dinheiro. E nem era para ter dinheiro, dinheiro não era mais importante para ele. Então teve a idéia de comer na casa de alguém da cidade, ali sim morava um povo hospitaleiro, simpático, sem o medo e a desconfiança que torna as pessoas de cidade grande tão indiferentes. Passou por uma casinha humilde, mas bonita, com uma senhora sentada na entrada. Ele puxou assunto e perguntou se poderia almoçar em sua casa. Ela entrou, fechou o portão e ameaçou soltar os cachorros se ele não saísse de lá agora. Ele saiu, um pouco surpreso com a reação da senhora, mas concluiu que velha louca existe em todo lugar. Bateu na porta de outra casa, e quando perguntou se podia almoçar ali o morador não lhe respondeu, apenas entrou e voltou com uma espingarda na mão e um celular na outra, já preparado para ligar para a polícia. Já um pouco puto, foi bater na terceira casa. Dessa vez foi bem atendido, e para sua alegria disseram sim para seu pedido de almoço. Já estava entrando na casa, feliz, quando bateram a porta na sua cara. Voltaram três minutos depois, com duas colheres de arroz e uma de feijão geladas em um prato descartável de plástico. Sem talheres, claro. Ele humildemente agradeceu, afinal pelo menos assim não passaria fome. Foi comer seu almoço na pracinha, porque gostava da pracinha. Passavam algumas moças bonitas e ele se lembrou uma das coisas que o fazia feliz sem precisar de dinheiro: Sexo. Mostrava interesse por algumas, mas elas desviavam o olhar e o caminho dele como se ele fosse o tinhoso em pessoa, provavelmente por estar comendo arroz e feijão com as mãos em um prato de plástico em praça pública. Percebeu que daquele jeito ficaria difícil comer alguém. Mas tudo bem, assim como dinheiro sexo não era tudo para a felicidade, além do mais, ele sempre teria sua mão direita, mesmo que no momento ela estivesse suja de feijão. Qual era a outra coisa da lista? Ah, sim, vinho. É... Vinho fica meio difícil sem dinheiro. Quer dizer, ele poderia colher as uvas na floresta, tirar o suco e deixar fermentando em algum barril de madeira qualquer, mas o vinho demoraria alguns anos pra ficar pronto. E uva não deve ser uma fruta muito típica de floresta brasileira. Mas tudo bem, ele não precisa de vinho, ele tem paz de espírito, e é isso que importa. Vinho é para os estressados da cidade grande. Com o dia anoitecendo, e sem ter mais o que fazer, decidiu ir para o seu cantinho na floresta dormir. Demorou duas horas para achar o lugar certo. Deitou-se, mas estava um frio desgraçado, e ele não havia colocado cobertores na mala. O jeito foi se vestir com algumas calças e camisas para esquentar, mesmo que isso o deixasse bastante sufocado. Começou a chover. Já estava de saco cheio de achar soluções para seus problemas, e ficou lá na chuva mesmo, tentando dormir. Conseguiu, por umas poucas horas. Acordou coberto de formigas, daquelas vermelhas bem catiças, e enquanto rolava na grama desesperado percebeu que sua teoria só estava meio certa. Dinheiro realmente não é importante, mas só para quem já tem muito dele. Uns 572 mil reais, pelo menos. Quando terminou de tirar as formigas do corpo, arrumou sua mala e foi correndo para a estrada, tentar uma carona para voltar para a cidade grande. Chegou a tempo de pegar seu chefe ainda no trabalho. Se jogou aos seus pés em prantos pedindo seu emprego de volta. Colocou a mão na braguilha do chefe, dizendo que estava até disposto a lhe pagar um boquete. O chefe, muito bondoso, o liberou do boquete, e lhe deu o emprego de volta, claro que com uma significativa redução salarial. Agora só o que ele precisava era trabalhar, trabalhar muito, sem férias ou descanso, até conseguir juntar dinheiro suficiente para que isso não fosse mais um problema para ele. Com o passar dos anos, e calculando juros e inflação, sua meta ia ficando cada vez mais alta. Começou em 572 mil reais, e quando morreu já estava em quase 2 milhões, apesar de não ter conseguido juntar nem um quarto disso. Morreu aos sessenta e dois anos, de estafa. O encontraram caído sobre sua mesa no escritório, sob uma pilha de relatórios. Relatórios que não eram para ele fazer, os recebeu por um erro do estagiário. O estagiário não se importava muito com dinheiro.

2 comentários:

Wilska disse...

Moral da história: faça sexo regularmente.

kid_limao disse...

Moral: Chupe seu chefe pra pedir aumento.

não não...

Dinheiro não traz felicidade, então dê o seu pra mim e seja feliz!