domingo, 27 de julho de 2008

Todos os Livros do Mundo

Era o filho do zelador da biblioteca do homem mais rico do mundo. As paredes do seu quarto eram estantes da altura de prédios e da largura de campos de futebol, totalmente ocupadas por livros. Tinha todo o conhecimento do mundo a sua disposição, mas nunca leu um livro sequer. A única coisa que usava da biblioteca era o acervo de revistas pornográficas, que contava com quase todas as publicações pornográficas da história. Quando não estava tocando punheta, e estava quase sempre tocando punheta, passava o tempo jogando master system e vendo televisão.

Certa vez, veio hospedar-se na casa do homem mais rico do mundo um famoso cientista e grande intelectual, ganhador por duas vezes do prêmio Nobel de inteligência. Ficou abismado quando conheceu a biblioteca. Aquele infinito de livros para ele era como o paraíso. Foi se perdendo por entre as milhares estantes, maravilhado e indeciso, sem saber por qual livro começar, quando sem querer entrou no quarto do garoto. Esse estava distraído, folheando uma das centenas de revistas pornográficas espalhadas pelo chão, e com a tv ligada em um programa vespertino qualquer voltado para donas de casa.

- Perdão, não sabia que... Você mora aqui?
- Moro. Sou filho do zelador.
- Quer dizer que esse é o seu quarto?
- É, é o meu quarto.
- Meu Deus... Mas isso é lindo! Que vida poética! Você dorme no meio de um mundo inteiro de obras fantásticas, tem um universo inteiro de conhecimento ao alcance das mãos! É maravilhoso!
- Maravilhosa é essa bunda, olha!
- É, também é maravilhosa... Mas que vida de sonho você vive! Todos os livros, simplesmente todos, tudo que você quiser ler, qualquer coisa, tudo a alguns passos de distância! Ah, o que eu não daria para ter nascido em um lugar como esse...
- Tem muita poeira.
- Sim, isso é verdade... Mas o que é a poeira perto de todas essas obras, de todos os gênios da história da humanidade! Confesso que nem sei por onde começo.
- Eu também não sei.
- Não tem nenhuma sugestão para mim?
- Pra você? Se não tenho nem pra mim!
- Como? O que quer dizer com isso?
- Que nunca li um livro desses.
- O quê?! Não, o senhor está brincando, não é isso? Deve ter um senso de humor próprio dos grandes jovens pensadores, não é mesmo?
- Hein?
- Eu disse que... Espere, você estava falando sério?
- De quê?
- Que nunca leu um livro sequer da maior biblioteca do mundo.
- Ah, é. Nunca li.
- Mas... Como... Pode...
- Olha os peitos dessa... Naturais, eu conheço quando tem silicone.
- Não, isso não pode ser... O que é isso, alguma piada divina? Fazer nascer na maior biblioteca do mundo alguém que é incapaz de ler um livro sequer?
- Mas eu sou capaz, sei ler.
- ENTÃO POR QUE NÃO LÊ?!
- Bem, eu já pensei em começar a ler, já mesmo. Mas veja só à sua volta. Veja a quantidade de estantes, de prateleiras nas estantes, de livros nas prateleiras. E a quantidade de idéias presente em cada livro desses. Mesmo que eu lesse todo o tempo, por toda a minha vida, toda a minha vida dedicada a entender as idéias desses grandes homens, mesmo que eu vivesse mil anos, ainda assim não conheceria nada, nada se comparado ao mundo de sabedoria que me cerca. E se eu sei que não posso terminar, pra que começar? Faz sentido começar algo sabendo que não vai terminar?
- Bem...
- Olha a testa dessa, que coisa linda... Chega a brilhar!
- É... É uma bela testa...

E depois de conversar por uma meia hora com o garoto sobre preferências pessoais de atributos femininos, saiu da biblioteca com duas dúzias de Playboys dos anos sessenta e nunca mais foi visto.

Um comentário:

josue mendonca disse...

"tortura de um cd da Xuxa no engarrafamento", foi ótimo...
legal teu blog
gostei de como as estórias fluem aqui