sexta-feira, 11 de abril de 2008

Olhos

- Me empresta seus olhos?

- Como?

- Os olhos, seus olhos, me empresta?

- Desculpa, não entendi.

- Os olhos! O-li-ous!

- Olhos?

- É, me empresta?

- Não sei... Pra quê?

- Porra, pra ver com eles, pra quê mais?

- Mas você não tem os seus?

- Tenho, por isso quero os seus.

- Desculpa, mas não entendo.

- É que há vinte anos, há pelo menos vinte anos que eu pego esse ônibus. Sempre do mesmo lugar pro mesmo lugar. Sempre o mesmo caminho, e sempre vendo a paisagem do mesmo jeito. Já conheço tudo dessas ruas, todos os bueiros, os portões, os sinais, sempre vejo as mesmas coisas. Cansei de ver sempre igual. Depois de vinte anos meus olhos já estão viciados, olham sempre pras mesmas coisas. Quero experimentar ver o mundo com olhos frescos, entende? Quero sentir como outra pessoa vê o mundo, quero experimentar isso.

- Entendo, entendo. Bonito isso. Pena que não dá, né?

- O quê não dá?

- Pra eu te emprestar meus olhos.

- Ou!, fala isso não, cara! Fala isso não, brou! Tudo dá-se um jeito!

- Mas como que eu vou te emprestar meus olhos?

- Calma, uma coisa de cada vez. Tira eles primeiro.

- Tirar? Como?

- Ah, é fácil, você enfia o dedo por baixo assim, ó... Posso?

- Esteja à vontade.

- Então, é só enfiar assim, e fazer força pra fora... Pronto, pulou pra fora. Agora é só pegar esse músculo aqui que segura ele, tá vendo, ó?

- Não.

- Ah, é verdade, claro que não. Mas é só pegar ele assim e cortar... Você tem um canivete?

- Tenho um isqueiro.

- Serve, obrigado. Aí o que a gente faz? Queima ele assim, ó, pra soltar o seu olho.

- É normal doer?

- É, dói um pouquinho, mas com o tempo passa.

- É, é que tá doendo bastante.

- É assim mesmo, mas tá queimando, tá queimando... Ó, tá quase soltando... Pronto, soltou. Sua sobrancelha que queimou um pouquinho, mal aí.

- Ah, é? Nem senti, a dor no olho tá tão insuportável que eu não estou sentindo mais nada no meu corpo. Sinceramente não sabia que existia dor tão forte no mundo. Uma vez tive fratura exposta no braço esquerdo, mas a dor foi pelo menos trezentas vezes mais fraca que a que estou sentindo agora. É normal isso?

- É, normal, com o tempo passa. Agora fazemos o mesmo com o outro olho...

- Você tem um lenço, amigo? Pra enxugar um pouco o sangue.

- Não.

- Sem problema, obrigado.

- Pronto, já saiu o outro. Agora... Posso sentar na janela? Pra ver a paisagem com os seus olhos melhor.

- Claro, à vontade.

- Obrigado. Agora é só achar um jeito de enxergar com eles. Vamos ver... Como eu faço isso, hein?

- Não sei... Tenta colocar eles na frente dos seus olhos como se fossem binóculos.

- Não... Não adianta. É, acho que não dá não... Deixa pra lá. Dá não. Uma pena, queria vez o mundo com seus olhos. Uma pena. Bem, mas pelo menos agora tô sentado na janela. Odeio sentar no corredor.

- É... É ruim, mesmo.

Sangrando muito e sem os olhos, ficou se perguntando se aquele homem havia se aproveitado de sua boa fé. Mas quem era ele pra julgar as pessoas assim? Ele não tinha esse direito. Tirou os pensamentos maus da mente, e fez questão de pedir desculpas ao homem da janela antes de saltar do ônibus. O homem não entendeu porque o outro se desculpava, mas desde pequeno aprendeu que não se deve contrariar os cegos, ainda mais os que não tem córneas, e perdoou o pobre homem. Aliviado por ter sido desculpado por seus pensamentos insultuosos, saltou do ônibus, e com muito custo achou o caminho de casa. Antes de dormir tomou uma homeopatia para perda de olhos, certo de que amanhã tudo estaria bem. Acordou morto no dia seguinte. Sua ingenuidade nunca o deixou aprender que homeopatia não funciona.

Essa foi uma mensagem em apoio à campanha Homeopatia Não Funciona: homeopatia não funciona.

4 comentários:

Romoal disse...

hehe... gostei da historia.

abraço.

El hombre maíz disse...

Mas você é o Happy Tree Friends dos blogs.

Anônimo disse...

Hahaaha.. happy tree friends dos blogs é uma boa. :P

Excelente o texto, como quase todos os outros (alguns sobressaem aos excelentes).

Anônimo disse...

saudades ein!
quase 1 mês!

ótimo texto!