quarta-feira, 23 de abril de 2008

O Boa-praça

Era o tipo de cara que todos gostavam, e ele também parecia gostar de todo mundo. Sempre tinha um comentário simpático ou uma piada para qualquer pessoa com quem encontrasse, seja quem fosse. De galanteios a velhas de oitenta anos a caretas para bebês de seis meses, sempre conseguia arrancar um sorriso de quem conversava. Já aposentado, não gostava de sair da rotina, e costumava ir sempre aos mesmos lugares e nos mesmos horários. Pelo menos três vezes por semana ia ao mercado, quase sempre para comprar as mesmas coisas. Parava ao lado das pessoas nas prateleiras, apenas para fazer comentários engraçadinhos e vê-las sorrir.

- É... Com a Caracu a esse preço parece que querem mesmo botar no nosso... Né não, hein?

E dava uma piscadela pro homem com cara de bebedor de cerveja que colocava garrafas de Bohemia Weiss ao seu lado, e que irresistivelmente dava um franco sorriso em troca da piada extremamente sem graça.

- É... Com a cebola a esse preço não precisa nem descascar para começar a chorar! Né não, hein?

Essa foi para uma senhora de idade um pouco avançada com cara de dona de casa, que soltou uma gargalhada quando ouviu o comentário infame. Como toda dona de casa de idade um pouco avançada, ela parecia ter uma certa preferência por piadas bobas e sem graça. Às vezes essas piadinhas davam início a conversas longas, quase sempre sobre o preço das coisas, e Seu Gilson ficava contente com isso, ficava contente conversando sobre qualquer coisa, tudo era pretexto para fazer os outros sorrirem.

Depois ia para a fila, sempre sorridente. Gostava de estar com outras pessoas, mesmo que em uma fila de mercado. Era uma pessoa feliz. Chegava no caixa, e era quase sempre a mesma atendente que o atendia.

- E vocês aceitam cheque?

- Sim, Seu Gilson, aceitamos.

- Que pena...

- Por quê?

- Porque eu não tenho cheque.

- Ai, Seu Gilson, o senhor não tem jeito mesmo...

Mas de quem mais gostava era da empacotadora. Era uma moça jovem, de seus dezenove anos, simpática e sempre disposta a conversar com Seu Gilson.

- Ô, Seu Gilson! Quase que não reconheço o senhor hoje, tá cada vez mais jovem!

- Ah, Dorinha, é mesmo? Por que será? Deve ser porque estou usando casaco.

- Casaco? E por que um casaco ia te deixar mais novo?

- Porque esconde minha corcunda gigante de velho! Né não?

- Hahaha, é, pode ser... Que isso, alpiste? Pra que o senhor tá comprando alpiste?

- Ah, isso é pro papagaio.

- Ué, não sabia que o senhor tinha papagaio.

- E não tenho. Mas não quero correr o risco de não ter comida se aparecer um lá em casa. Por que não tem coisa pior que papagaio com fome, né não?

- Hahaha, é verdade. Mas falando sério, pra que o senhor comprou o alpiste?

- Ora, pra isso!

- Não me diga que foi só pra fazer essa piadinha comigo?!

- Bem...

- Ah, Seu Gilson, o senhor é uma gracinha!

E saía de lá nas nuvens. Não sabia explicar porquê, mas o sorriso de Dorinha tinha um significado especial para ele. Fazê-la rir dava a Seu Gilson uma satisfação maior do que fazer qualquer outra pessoa rir. Talvez porque ela representasse para ele a inocência, a pureza, a beleza de espírito. Ou talvez simplesmente porque gostava do jeito sincero com que ela ria de suas piadas. O fato é que pensava cada vez mais nela, e esperava cada vez com mais impaciência seus encontros com Dorinha. Criava pretextos para ir ao mercado, só para se encontrar com ela e vê-la rir e ensacar suas compras.

Um dia não se conteve, e quando Dorinha acabou de empacotar e lhe entregou suas sacolas com um sorriso, Seu Gilson deu um beijo em sua bochecha esquerda. Um beijo inocente, mas cheio de ternura, pelo amor que Seu Gilson sentia por todos, por todas as pessoas, por todos que gostava, por todos que eram bondosos com ele, todos esses representados por Dorinha, a favorita do aposentado. Virou-se já para sair do mercado, transbordando de alegria, quando percebeu as pessoas o olhando de forma estranha, como se tivesse feito algo de errado. Voltou para Dorinha, e ela estava branca, paralisada, espantada, como que a ponto de chorar, olhando para Seu Gilson com olhos confusos e arregalados. Todos que estavam no mercado pararam o que estavam fazendo para olhar para Seu Gilson, as mulheres balançando a cabeça negativamente, e os homens com olhares de revolta, ou até raiva contra ele. Apavorado e surpreso, e sem saber muito bem o que fazer, Seu Gilson enfiou a mão no bolso, tirou de lá uma nota de dez e, tremendo, a estendeu para Dorinha, como se estivesse estendendo um pedaço de carne a uma hiena faminta. Essa pegou a nota de dez, e instantaneamente o sangue voltou ao seu rosto, assim como sua expressão de sempre, e foi com o sorriso de sempre que se despediu de Seu Gilson.

- Ô, Seu Gilson, obrigada! Volte sempre, viu? – Disse na maior naturalidade.

Assim como ela todos do mercado desviaram a atenção dele no mesmo instante, a maioria esquecendo do episódio quase na mesma hora. Apenas uma ou outra velha rancorosa continuou balançando a cabeça negativamente.

Depois desse dia as piadas de Seu Gilson passaram a ser cada vez menos freqüentes, assim como suas demonstrações de afeto. Agora quando via uma criança que o agradava, ou quando algum funcionário era simpático com ele, simplesmente metia a mão no bolso, tirava de lá uns trocados e os dava no máximo com um sorriso. Aprendeu que, na sua idade, é muito mais direito dar dinheiro do que beijos e carinhos às pessoas, além de mais elegante socialmente.

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