terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

A Paz é Amor e Alegria

Há doze anos Aluísio esperava por aquele momento. Aluísio se lembrava do dia em que sua filha chegou em casa há doze anos atrás, suja, ensangüentada, mal conseguindo andar, ignorando todas as perguntas de Aluísio sobre o que havia acontecido. A mãe, que havia saído de casa acompanhando a filha, não voltou. A filha não foi morta, mas apesar do corpo ainda estar vivo, a alma passou a ser dos anjos naquele dia. Pelo menos era isso o que Aluísio respondia a qualquer um que perguntasse. Catatônica, nunca mais saiu da cama ou disse palavra. Aluísio passou doze anos se preparando para aquele momento. Doze anos de cadeia não eram suficientes para o que aquele monstro havia feito. Se a pena do estado não era suficiente, Aluísio faria o que considera como justiça com as próprias mãos. João do Dente destruiu a vida de Aluísio, e agora Aluísio precisava destruir a dele. E lá estava ele, naquele bar imundo, pronto para matar o homem responsável por todas as suas desgraças. João do Dente jogava sinuca enquanto Aluísio lentamente se aproximava dele, segurando firme a pistola que estava em seu bolso, com os olhos fixos no rosto do assassino e o imaginando destruído pelos tiros de sua arma. Estava sedento por sangue, pelo sangue daquele homem, como se aquilo fosse curar toda a dor de sua vida desgraçada, como se fosse trazer sua mulher e sua filha de volta. Estava agora a dois passou de João do Dente, puxou a pistola, e estava pronto para atirar, quando aconteceu: João do Dente riu. Aluísio congelou. Nunca ouvira nada como aquilo. Foi a risada mais doce e prazerosa que Aluísio ouviu na vida. Seus olhos encheram de lágrimas, sua alma se encheu de ternura. Todo o ódio que consumia a alma de Aluísio se dissipou instantaneamente. De repente o mundo não pareceu um lugar tão cruel para se viver. Foi quando João do dente se virou, e viu aquele homem com expressão de idiota apontando uma arma pra ele:

- Caralho, o cara tá armado! Calma aí irmão, que isso, abaixa essa arma aí!

- Hã? Arma?

- Pô irmão, pelo amor de Deus, não me mata não irmão,o que você vai fazer com essa arma, irmão?!

- Hein? Com essa arma?

Aluísio poderia ter atirado e acabado com tudo naquele mesmo momento, mas não podia. Ele precisava ouvir aquela risada de novo.

- Eu... vou enfiar na minha bunda.

- O quê?!

- Vou enfiar a arma na minha bunda! Duvida? Vou enfiar na minha bunda, ó! Ó, ó, tá vendo?, tô enfiando na minha bunda, não é engraçado, não é engraçado? Hein? Tá na minha bunda, ó!, não é engraçado?

- Que isso, o cara tá enfiando uma pistola na bunda... Hahahahahaha, puta merda, o cara tá enfiando uma pistola na bunda, hahahahahahahahahaha!

O fato de ter sido Aluísio o responsável pela risada de João do Dente deu ainda mais satisfação a ele. Seu riso era como um raio de doçura e alegria atravessando o corpo de Aluísio, e ele já ignorava totalmente o fato de que a risada vinha do assassino de sua mulher e estuprador de sua filha. Foi como se um novo mundo de beleza se abrisse para ele. Simplesmente não pensava em mais nada além de ouvir aquele homem rindo, e fazer João do Dente rir foi o que ele fez desesperadamente o resto da noite inteira, enfiando coisas na bunda, fazendo imitações de bicha, contando todas as piadas dos cinco volumes de discos do Costinha, além de se humilhar de todas as formas possíveis que um homem pode se humilhar.

- Caralho Aluísio, tu é muito engraçado, maluco, engraçado pra caralho, nunca ri tanto na minha vida...

- Obrigaduuuuuuuu...

- Hahahahaha! - João do Dente ria fácil, isso é verdade – Mas agora eu preciso ir, já são cinco e meia da manhã e...

- Não, não, espera, você não pode ir, não pode!

- Não posso por que, porra?

- Porque eu preciso, eu preciso... Olha, eu enfio esse saleiro na minha bunda, quer ver? Quer ver eu enfiar o saleiro na bunda, quer?

- Não, Aluísio, acho que por hoje já chega de ver você enfiando coisas na bunda, tô partindo e...

- Não, espera, por favor, eu... Porque você não vai lá pra casa?

- Ah, sabia! Tu é viado, filho da puta!

- Não, não, não é isso, não é isso, é que... É que eu tenho muita comida lá em casa, muita comida, eu quero que você coma lá comigo, café da manhã, eu não sou viado, eu juro, eu...

- Tá certo, Aluísio, fica calmo, tava só de sacanagem contigo, vamos comer na tua casa.

- Ai, graças a Deus... Bem, então, sigam-me os bons!

- Sigam-me os bons!... Hahahahahahaha! – Realmente João do Dente ria de qualquer merda.

E Aluísio levou João do Dente para casa, apenas para ouvir de novo aquele riso. Enquanto comiam o farto café da manhã Aluísio olhava para João e pensava na tragédia que teria sido se ele tivesse seguido seus extintos e o matado. Privar o mundo daquele riso...

- Com licença João, preciso ir ao banheiro... Dar uma ca-ga-da!

- Dar uma cagada, hahahahahahahaha!

Precisava refletir um pouco sozinho sobre tudo aquilo. Ele nunca experimentou heroína na vida, mas pensava consigo mesmo que era impossível ser melhor que aquele riso. Aquele riso era a vida, a inocência, a pureza, a ternura... Nunca pensou que pudesse achar beleza no homem que ele mais odiou em sua vida, se sentia no meio de anjos quando ouvia aquele riso e... Anjos? Puta merda, a Carlinha! Se lembrou de repente que havia levado o estuprador de sua filha para a mesma casa em que ela morava. Fechou a calça correndo, que ficou toda mijada, e saiu do banheiro em disparada. João do Dente não estava lá. Tremendo, Aluísio entrou no corredor. A porta do quarto de sua filha estava aberta. Entrou no quarto, e lá estavam os dois, o estuprador e a vítima, se entreolhando, abismados, chocados, apavorados.

- Meu Deus, eu levei o estuprador da minha filha para a mesma casa que ela mora, eu... Eu levei o estuprador da minha filha para a mesma casa que ela mora... Puta que o pariu, eu levei o estuprador da minha filha para a mesma casa que ela mora!

Depois de alguns segundo de silêncio, Aluísio explodiu na gargalhada mais forte de sua vida. Simplesmente não pôde agüentar o absurdo cômico da situação. João do Dente, que ria de qualquer merda, não agüentou ver Aluísio rindo com a calça toda mijada, e começou a rir também. Seu riso só fez Aluísio sentir mais vontade de rir ainda. Os dois já riam descontroladamente quando Carlinha, só para não ficar de fora, começou a rir também, acordando de seu estado vegetativo de doze anos, mesmo que sem entender a piada.

Os três passaram a ser inseparáveis. Depois de alguns meses, Carlinha e João do Dente se casaram, apesar das repreensões da sociedade. “Eles não entendem a felicidade”, era o que Aluísio respondia. Com sua prática para fazer João do Dente rir constantemente, Aluísio foi ficando cada vez mais engraçado, as imitações de bicha ficavam cada vez melhores e as piadas do Costinha cada vez mais bem contadas, o que o levou a ser contratado como humorista do programa do Tom Cavalcanti na Record. E os três viveram felizes para sempre... Até alguns meses mais tarde quando, num surto psicótico, João do Dente assassinou Aluísio e Carlinha a golpes de um tijolo de goiabada cascão congelada. Enfim, acontece.

Moral da História: Quando você não puder mudar alguma coisa, ria dela. A vida sempre tem seu lado cômico, e absurdo, e é possível achar beleza em tudo... Menos no cara que assassinou a sua mulher e estuprou a sua filha. Porque, vai se fuder, tudo tem limite.

6 comentários:

Anônimo disse...

EXCELENTE

Anônimo disse...

genial cara, genial.

kid_limao disse...

A indecência é múltipla e constante. Múltipla e constante, cara!

Fernanda disse...

Muito bom! Já reli Adélia 5 vezes visitando o blog atras de atualizações... rsrsrs

TSD disse...

Já te falaram que você tem problema?
Ah já...pois é.

LP disse...

5 vezes, é? Meu Deus...