quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

A Namoradinha Atrapalhada

Enquanto Michele se aprontava para sair, Artur apreciava sua beleza. Ficava procurando no seu rosto os traços que a faziam tão bonita. Não percebeu nenhum, na verdade. Não achava ela tão bonita assim. Mas ele não entendia muito desses negócios de beleza. Todos a achavam lindíssima, e para ele isso bastava. Se sentia o homem mais sortudo do mundo por ter Michele como namorada.

- Que filme vamos ver, amor?

- Não sei, Michele, eu não entendo muito desse negócio de filme... Qual que tá fazendo sucesso agora?

- Tem o “A namoradinha atrapalhada”, com a Maggie Brown. É uma comédia romântica, deve ser muito legal. Você gosta de comédia romântica, não gosta?

- Eu... Sei lá, eu acho que gosto... Quer dizer, é comédia, né? Quer dizer... Homem gosta de comédia romântica? Eu não sei, eu não entendo dessas coisas, você que sabe, você que sabe.

- Ah, você vai gostar, a Maggie Brown faz o maior sucesso, foi eleita a pessoa mais bonita do mundo pela revista People’s.

- Ah, se as pessoas gostam deve ser bom, então. Então vamos nesse aí mesmo, então.

Iam andando pela rua e não tinha um homem que não virasse o pescoço para ver Michele passando. Para Artur essa era a melhor parte do namoro com Michele, a inveja que os outros homens sentiam dele por ter aquele rosto, aqueles peitos, aquela bunda todo dia a seu lado, à sua disposição. Ele, honestamente, não conseguia ver nada demais naquela beleza, mas enfim, do que ele entendia disso? O que ele entendia era de carne. Cortar Alcatra, contra-filé, nisso sim ele era mestre. Entraram no cinema, e a sala estava lotada. Conseguiram dois lugares bem no meio do cinema, entre os vários casais que também lá estavam para assistir aquela comédia romântica que, como todas as outras, não tinha graça nem romance de verdade.

- Qual é a Maggie Brown que você falou, essa aí?

- Não! Essa é a que faz a mãe gorda dela no filme. A Maggie Brown é essa aí, ó, apareceu agora.

- Essa?

- É.

- Mas ela é magra, né?

- É, é muito magra, sim. Deve estar com uns trinta e cinco quilos.

- E... Ela que foi eleita a mulher mais bonita do mundo?

- Ela mesma.

- Ah...

E Artur começou a perceber como todos admiravam aquela mulher, eleita pela revista People’s a mais bonita do mundo. Não entendia porquê: ela era estranha, baixinha, extremamente magra, a pele amarelada... Mas o que ele entendia disso? O negócio é que todos no cinema olhavam para ela sem piscar, sem desviar os olhos da tela, contemplando sua beleza, invejando o galã do filme. De repente namorar Michele não parecia ser tão bom negócio assim. Artur ficou pensando nisso, quando alguém no cinema deu um grito. Parecia vir de uma mulher sentada ao seu lado. Logo em seguida mais gritos, agora seguidos de ameaças. O lanterninha entrou na sala, procurando o problema, até apontar a lanterna exatamente para onde Artur estava sentado. E lá estava ele, com os olhos vidrados na tela, tocando uma punheta para a Maggie Brown como se fosse o último dia de sua vida.

Moral da história: É burrice perder tempo sonhando com a atriz principal quando as figurantes são muito mais gostosas.

Um comentário:

TSD disse...

Hahahahah, sábia conclusão.