domingo, 6 de janeiro de 2008

Da Série Profissões Alternativas: O Conselheiro Infalível

- Boa tarde.

- Tarde.

- O senhor é o que dá conselhos?

- É o que tá escrito aí, não?

- É, parece que sim, não consegui entender a letra... E os seus conselhos são bons mesmo?

- Bons não, infalíveis! Por isso que eu cobro. Não dizem que se conselho fosse bom não seria de graça? Pois então, os meus são foda, por isso que eu cobro.

- Eu não sei se acredito muito nisso, mas na minha situação... Quer dizer... Posso contar meu caso pro senhor?

- Estamos aqui pra isso.

- Bem, é o seguinte: eu trabalho em uma empresa aqui perto, sou contador, e apesar do salário não ser grandes coisas é um emprego estável, e do jeito que as coisas andam... Quer dizer, um emprego fixo hoje em dia não é coisa pra se jogar fora, não é verdade?

- Sem dúvida.

- Pois então. Aí eis que me liga um amigo, que eu já não vejo há uns dois anos. Ele está morando em Dublin, na Irlanda, e me convidou pra ir morar lá. Eu pergunto pra fazer o quê, se ele tem algum emprego pra mim, e ele responde que não tem nada, mas que chegando lá eu me arranjo. Perguntei se ele estava ganhando bem, em que estava trabalhando, mas as respostas foram todas muito vagas, além do mais acho que ele estava bêbado. Mas insistiu muito pra que eu fosse pra lá, e aí fiquei com essa dúvida: Fico aqui no meu emprego seguro, mas ganhando pouco e sem grandes perspectivas, ou largo tudo e vou me encontrar com um bêbado pra fazer sei lá o quê na Irlanda? O quê o senhor acha, vou pra lá ou não?

- Não.

- Não?

- Não.

- Tá certo. Mas... Por que não?

- Porque minhoca da terra não sabe viver em areia.

- Ah... O quê?

- Minhoca da terra não sabe viver em areia.

- Minhoca da terra não sabe viver em areia? Eu não posso viajar porque minhoca da terra não sabe viver em areia? Esse que é o seu conselho infalível?

- Sim, infalível.

- Mas essa merda nem faz sentido!

- Pois é o meu conselho. Além do mais, não há lugar como o nosso lar.

- Não há lugar como o nosso lar?! Não há lugar como o nosso lar?! Por acaso o senhor sabe onde eu moro? Pois saiba que eu moro numa quitinete na Presidente Vargas, de cinco metros quadrados (contando com o banheiro!), no primeiro andar, e o senhor vem me dizer que não há lugar como o nosso lar?

- É a verdade e eu não tenho culpa.

- O senhor está vendo essas feridinhas no canto da minha boca? Sabe o que é isso?

- Parece herpes, hein?

- Não, senhor, não são herpes. São as baratas, senhor. São as baratas que ficam mordendo o canto da minha boca enquanto eu durmo. As baratas, senhor! E o senhor vem me dizer que não posso viajar porque não há lugar como o nosso lar?

- Exatamente. Além do mais, minhoca da...

- Enfia a minhoca no cu, velho filho da puta!!! Enfia a minhoca no cu!!! Agora mesmo é que largo essa porra e viajo de qualquer jeito, nem que seja pra te contrariar, velho imbecil!!!

- Faça como quiser, senhor. São dois reais pelo conselho.

Pagou ao velho e foi direto para casa arrumar as malas. Embarcou já no dia seguinte. Em pouco tempo arranjou um bom emprego em Dublin, se mudou para um apartamento bastante confortável, arrumou uma namorada ruiva chamada Maggie qualquer coisa, e no geral sua vida estava muito melhor se comparada com a que ele tinha no Rio de Janeiro. “Além do mais, Guinness é bem melhor que Itaipava, só por isso já teria valido a pena”. E pensava com carinho no conselheiro senil e nos conselhos sem sentido que recebeu dele: “Se não fosse por aquele conselho retardado eu nunca teria vindo pra cá. É... O cara é realmente infalível.”

Moral da história: A maneira mais fácil de se decidir um assunto é ouvindo a opinião de um idiota. Porque os gênios nem sempre estão certos, mas os idiotas, esses sim estão sempre errados.

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