domingo, 20 de janeiro de 2008

Adélia

Eu conheci Adélia quando tentava pegar um táxi para o trabalho.

- Bom dia, eu vou para... Ô, perdão, não sabia que o táxi estava ocupado.

- Ocupado? Não, aqui não tem... Ih, rapaz, não é que tem uma mulher aí? Sabe que eu nem tinha percebido?

- Talvez nós possamos dividir a corrida, se a senhora não se incomodar.

- ...

- Bom, ela não respondeu, então é porque aceita, né?

- Sim, creio que sim. Vamos para a Rio Branco, por favor. E a senhora?

- ...

- Não acredito, também vai pra lá? Meu Deus, que coincidência! Permita-me apresentar, Renatinho Cavalcanti, publicitário. E a senhora? Ah, não precisa responder, vejo aqui no seu cordão. Adélia. Que lindo nome! Sabe que uma das minhas empregadas se chama Adélia? Ou é Amália? Enfim, não importa. Sabe, você é muito bonita, Adélia, realmente muito bonita. E eu gosto de mulheres bonitas. Também gosto muito de sorvete de graviola, já provou? Ah, eu adoro! E de Viena, você gosta de Viena?, eu amo, sempre que posso viajo pra lá, na neve, é muito bonita, a neve... Eu tenho um Audi, também, um Audi e...

Conversa vai, conversa vem, e eu ficava cada vez mais atraído por ela. Acho que nunca tinha conversado com uma mulher tão atenciosa, que ouvisse com tanta paciência tudo o que eu tinha a dizer. Percebi na hora que Adélia combinava muito bem com a minha personalidade. E como era bonita!, a pele clara, os olhos muito abertos, o sorriso sereno...

- Sabe, Adélia, estou gostando muito de você... Eu deveria ir para minha empresa agora, mas o que acha de irmos para algum lugar mais tranqüilo e nos conhecermos melhor?

Seus olhinhos brilharam quando eu disse isso, ela mal piscava, e não conseguia tirar o sorriso do rosto nem por um segundo.

- Ah, Adélia, não precisa dizer mais nada!

Cancelei todas as minhas reuniões daquele dia e indiquei meu motel favorito para o taxista. Como faço questão de ser romântico, levei Adélia no colo até o quarto.

- Adélia, Adélia, foi maravilhoso! Você é a mulher mais aberta sexualmente que eu já conheci! Quer dizer, aquilo que eu fiz com a sua testa... Não sabia nem que era possível! Preciso te dizer uma coisa, Adélia. Eu sei que é muito cedo, acabamos de nos conhecer, mas... Eu te amo, Adélia, eu te amo!

- ...

- Bem, você não tentou tirar meu pau do seu ouvido, então isso quer dizer que... Que você me ama também! Oh, Adélia, que alegria, Adélia, que alegria!

Nos casamos muito pouco tempo depois. Foi um casamento grandioso, com toda a high-society brasileira presente, além do Amaury Junior e da revista Caras, que estampou nosso casamento na capa. Contratamos o Tarcisio Meira para fazer o papel de pai da noiva, já que pela maneira que Adélia se recusava a responder minhas perguntas sobre seus pais concluí que eles já deveriam estar mortos. Adélia estava linda de noiva. Seus olhos arregalados mostravam que estava muito nervosa, mas pelo seu sorriso percebia-se como estava feliz. Os comentários que faziam de Adélia me enchiam de orgulho.

- Como ela é bonita... E discreta, não abriu a boca pra nada!

- Uma verdadeira dama!

- E que pele, meu Deus, que pele! Parece uma cera!

- E como é magra, não?

- Também, não vi ela comendo nada a festa inteira. Até o bolo ela se recusou a provar!

- É a preocupação muito louvável de não querer engordar para o marido.

- O que é isso, Geraldo? Tá insinuando que eu tô gorda, é?!

- Eu... Estou.

Os primeiros dias de casados foram maravilhosos, não saíamos do quarto por nada. Adélia parecia se recusar a sair da cama, o que, claro, me deixava muito satisfeito. Eu ficava maravilhado em ver como Adélia me adorava, aceitava tudo o que eu escolhia para ela, as roupas, as maquiagens, enfim, ela gostava de tudo que eu gostava.

De volta da lua de mel, as coisas começaram a degringolar. Começou a me irritar o modo como Adélia se recusava a sair de casa, eu tinha que arrastá-la se quisesse que ela me acompanhasse em qualquer lugar. Também andava muito relaxada, se não fosse por mim é provável que saísse de pijama na rua. E estava ficando cada vez mais magra, os jornais de fofoca já diziam que era um caso grave de anorexia, e eu cheguei a pensar que talvez fosse verdade.

- Adélia, precisamos conversar. Eu não sei o que está acontecendo com você, só sei que não é mais a Adélia que eu conhecia. Onde está aquela alegria, a espontaneidade, o joie de vivre? Pôxa, você anda desleixada, sem vaidade, parece que não se importa mais em me passar uma boa imagem. E não é por nada, mas... Você está fedendo! Há quanto tempo não toma banho? Eu tenho uma imagem a preservar perante a sociedade! Aliás, um dos objetivos desse casamento foi que você me desse um filho, lembra? Pois é, e então? Até agora nada! As pessoas já estão falando, e os jornais de fofoca, que esse é um casamento de fachada! Estão dizendo que eu sou viado! Por isso esse filho é tão importante, e... Você está me ouvindo, Adélia? Responda!

- ...

- Já chega! Vou pro meu escritório.

No escritório comecei a pensar sobre tudo aquilo, e comecei a desconfiar das verdadeiras intenções de Adélia com aquele casamento. Afinal, como explicar aquela mudança tão repentina de comportamento de antes e depois do casamento?

- Por que antes ela me tratava tão bem, era tão atenciosa, e hoje parece que faz tudo pensando em me irritar? É como se ela estivesse forçando uma situação insuportável, só para me obrigar a pedir o divórcio... Sim, sim, é isso! Foi para isso que ela me seduziu e se casou comigo! Só para depois me obrigar a pedir o divórcio e ficar com uma parte da minha fortuna! Ah, aquela vaca... Se ela pensa que vai tirar de mim o dinheiro pelo qual eu trabalhei tanto pra conquistar, está muito enganada! Não vai me tirar um centavo, nem por cima do meu cadáver!

E, num ato desesperado, peguei minha pistola e fui ao encontro de Adélia. Ela estava exatamente como a deixei, sentada à mesa, com o prato de sopa na sua frente ainda totalmente cheio. Estava com uma aparência asquerosa. Nem teve tempo de falar qualquer coisa, eu dei seis tiros na sua cabeça. Aí você já sabe: polícia, jornais, dois dias de cadeia... Quando o investigador veio falar comigo.

- Renatinho, vou ser bem direto: você não matou a Adélia.

- Não?

- Não.

- Mas... Eu dei seis tiros na cabeça dela!

- Sim, eu sei. Mas não foi você quem matou ela.

- Mas como assim? Não entendo o que o senhor quer dizer com isso... Ah, já sei, o senhor quer dizer que não fui eu que matei, mas Deus, né?

- Hein?

- Que... Foi Deus quem matou... Não é?

- Caralho! “Foi Deus que matou!”... Hahaha, puta que o pariu, é cada merda que a gente ouve, que vou te contar...

- Mas então porque diz que não fui eu que matei?

- Quando você conheceu a Adélia, Renatinho?

- Há quatro meses, por quê?

- Interessante... É que os peritos fizeram a autópsia nela hoje e descobriram que ela está morta exatamente há quatro meses.

- O quê?! Mas como... Como isso é possível?

- Sim, ela morreu há quatro meses, de overdose de calmantes, é o que tudo indica.

- Então isso quer dizer que...

- Que você está livre da acusação de homicídio? Sim, é verdade, não podemos te prender por ter atirado em um defunto, de acordo com a lei isso pode ser considerado como prática de tiro esportivo. Você está livre, Renatinho.

- Mas então quer dizer que quando eu a conheci, ela...

- Sim, já estava morta. Você passou quatro meses fudendo com um presunto, Renatinho. Se eu fosse você lavaria muito bem o pau quando chegasse em casa.


- E foi por isso que me livrei da acusação de ter assassinado a minha esposa, entendeu? Não tem nada a ver com o fato de ser rico, ou famoso, ou...

- Ô... Renatinho?

- Sim?

- Vai tomar no meio do seu cu!!!

2 comentários:

TSD disse...

hahaha, eu já sabia!

Fer disse...

KAKAKAKAKAKAKAKA

Pobre Adélia!
Esse conto nos mostra como alguns homens são egocêntricos ao ponto de não se tocarem que estavam com um defunto...

Ainda bem que existem exceções! ;)

Muito bom!