quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Especial Semi-Anual de Natal: O Verdadeiro Espírito Natalino

Sempre viu o natal como a melhor oportunidade para desfrutar de sua vida de homem bem-sucedido. Era a ocasião perfeita para dar os presentes mais caros para todos que amava, e deixá-los contentes, ao mesmo tempo em que mostrava como tinha dinheiro. Inveja e satisfação juntas, que época mágica. Os presentes que dava nem sempre eram úteis, isso é verdade, mas o importante não era a intenção, era o valor.
No natal de 2001 deu para a avó um sistema de home-theater completo, televisão gigante e o caralho a quatro, uns trezentos mil watts de potência. Treze mil reais, esqueceu de tirar a etiqueta. Quando abriu a caixa a velha não se mostrou muito contente, porque não tinha a menor idéia do que era aquilo, não sabemos se por desconhecimento tecnológico ou pelo Alzheimer, mas foi só ver a etiqueta com o preço que quase enfartou. Abriu um sorriso de orelha a orelha, e foi chorando abraçá-lo, como as pessoas choram na televisão quando ganham coisas, dizendo que não precisava, Ricardinho, não precisava, mesmo sem saber que merda era aquela. Dias depois ele instalou o home-theater na casa da avó, colocou para tocar o único dvd que ela tinha, Padre Marcelo live in Maracanã, e ela quase ficou surda. Vendeu o home-theater, comprou uma cce 14 polegadas, muito mais do seu agrado, e usou o que sobrou do dinheiro para pagar o próprio funeral. Foi um enterro lindíssimo, todos concordaram.
Também gostava de dar carros importados para os sobrinhos, mas só para os que ainda eram crianças. Natal passado deu um Audi zero quilômetro para o sobrinho de cinco anos. O sobrinho ficou muito contente, claro, mas o pai quase desmaiou. Foram para a ceia de ônibus, e iam voltar de Audi! Que alegria. Mas Ricardinho deixou bem claro que o caro era para o sobrinho, e o levou para o estacionamento para ensiná-lo a dirigir. E como se divertiram, Ricardinho com o moleque em seu colo, este controlando o carro como se fosse um carrinho de bate-bate, raspando a lataria contra a parede, batendo de frente nas pilastras, e de lado, e de ré, e rindo o tempo todo. E Ricardinho rindo ainda mais da reação do cunhado, desesperado a cada batida, a cada arranhão, vendo peças de milhares de reais de um carro que inevitavelmente seria seu indo embora numa brincadeira de criança. Como era bom, como era bom.
Era com essas felizes lembranças que ia andando na direção do shopping de rico em que fazia suas compras, quando foi interceptado por um moleque de rua.
- Tio, dá um dinheiro, por favor?
- Não tenho. – Mentira, era a única coisa que tinha.
- Por favor, tio, também quero comprar um presente de natal pra mim e pra minha família.
Aquelas palavras atingiram em cheio o coração de Ricardinho, logo ele que nunca ouvia o que os pedintes diziam. Não deu dinheiro pro moleque, lógico, não sabia quem era, vai que ele gastasse tudo em drogas? Mas ficou reflexivo. Não foi ao Shopping, estava confuso, e como bom cristão que era foi a uma igreja. A igreja estava completamente vazia, como geralmente fica em antevésperas de natal, ele se ajoelhou de frente ao altar, e começou a rezar.
“Ó, pai, estou confuso. Me considero um bom homem, batalhador, sempre lutei muito pra conseguir tudo o que tenho. Sempre usei o natal para fazer o bem para as pessoas que eu gosto, dando presentes caros, como um ato de caridade, e sempre me orgulhei disso. Mas e quanto às pessoas que não tem nada? Que não têm dinheiro para comprar os próprios presentes, às vezes nem a própria comida? Será que eu não deveria ajudá-los também? Não seria esse o verdadeiro espírito de natal? Ó, pai, estou confuso.”
E, em meio à luz que atravessa os vitrais da igreja, surgiu na frente de Ricardinho algo como um anjo.
- Q-quem é você?
- Eu sou o espírito de natal.
- O espírito de natal?
- Sim, Ricardinho, o espírito de natal.
- Ah... Não sabia que o espírito de natal era realmente um espírito. Achei que fosse só uma expressão para representar os sentimentos das pessoas em relação a essa época do ano.
- Não, nada disso. Sou um espírito, mesmo, e me chamo Emmanuel.
- Emmanuel?
- Sim, Emmanuel. Vim para lhe mostrar o verdadeiro espírito de natal.
- Que é você?
- Não, dessa vez estava me referindo ao sentido que tem essa época do ano, e tal.
- Ah, tá.
- Sabe, Ricardinho, o natal não é uma época para repartir riquezas, distribuir presentes vagabundos para os pobres, ou servir sopas para mendigos alcoólatras.
- Não? Porque era isso que eu tava pensando em fazer esse ano.
- Não, Ricardinho, não. Não é isso que vai te fazer uma pessoa melhor.
- E o que vai, então?
- A culpa, Ricardinho. É isso que separa as pessoas boas das ruins, as que vão das que não vão para o céu. Não é a caridade, a solidariedade, o amor, nada disso, isso é tudo coisinha de hippie, com seus incensos e deuses elefantes. A verdade é que o mundo se divide entre os que sentem e os que não sentem culpa.
- E culpa por quê?
- Por tudo. Por todos os que não têm o que você tem, pelos famintos, pelos desgraçados, por todos os que você passou por cima para chegar aonde chegou, por todos que só com uma fraçãozinha da sua riqueza já teriam um natal muito melhor. Mas você não vai ajudá-los, não...
- Não?
- Não... Você vai sentir culpa. Veja a igreja onde estamos, por exemplo. Veja todo o ouro à sua volta. Você não acha que se todo esse ouro fosse vendido seria o suficiente para fazer o natal de milhares de pessoas mais feliz?
- Sim, certamente.
- Mas a igreja não vai fazer isso. Ela usa o ouro para construir um abrigo seguro, para que seus padres e fiéis possam se isolar do resto do mundo e sentir culpa, muita culpa, e rezarem pelos que não têm o que eles têm. Isso é ser bondoso, isso é ser santo.
- Sim, sim, agora eu percebo, agora eu percebo... Oh, espírito Emmanuel, muito obrigado, você salvou o meu natal!
- Ora, por nada. Para mais informações é só comprar uns livros do Chico Xavier, ele tem vários livros psicografados meus.
- Oh, eu vou! Vou comprar todos os livros do mundo, trancá-los em casa e não deixar ninguém ler, e rezar cheio de culpa no coração!
- Esse é o espírito, garoto!
E fez a maior ceia que já havia feito, e comprou os presentes mais caros que já havia comprado. Dessa vez não foi um Audi que ele comprou para o sobrinho, mas uma Ferrari. E com um taco de baseball de brinde, para a destruição ficar mais eficiente. Mas enquanto o sobrinho destruía o carro e seu cunhado ficava a um passo da loucura, ele não ria. Chorava. Chorava pela culpa de fazer seu cunhado tentar suicídio, pela culpa de dar para seu sobrinho destruir um carro de valor suficiente para pagar a ceia de milhares de famílias. E logo após terminar com um peru inteiro e beber algumas garrafas de vinho francês, foi se deitar mais cheio de culpa que de comida, com a certeza definitiva de que era a melhor pessoa do mundo.



Um natal cheio de culpa, e um ano novo repleto de arrependimentos é o que nós desejamos a você, seja quem for.

domingo, 30 de novembro de 2008

O Figurante

Vinha andando pela rua, sem saber porquê. Não conhecia aquela rua, nunca esteve ali antes, não tinha o que fazer ali. E estava de terno, por que estava de terno se nem ao menos trabalhava? Não via sentido naquilo, ou em qualquer coisa, nada fez sentido para ele nunca, toda a vida só o que fez foi viver e esperar, esperar que alguma coisa acontecesse, algo que ele não sabia o que era, ou se existia. A rua parecia muito limpa, muito mais limpa que qualquer outra rua da cidade. Os carros estacionados pela rua eram todos antigos, mas muito conservados, e coloridos, como há muito tempo não via. As pessoas ali eram mais bonitas e normais que de costume, e até menos pobres. O asfalto brilhava, como se tivesse acabado de chover, apesar do céu completamente azul. E por que estava usando relógio? Nem se lembrava de ter um relógio, e não tinha, comprou um naquele mesmo dia, logo depois de sair de casa, mas por quê? Que utilidade tinha aquele relógio, se ele não tinha hora para chegar em lugar nenhum? Talvez estivesse ficando louco finalmente, apesar de se sentir totalmente lúcido, mais lúcido do que nunca. Foi quando viu virando a esquina em sua direção uma mulher. Era uma bela mulher, apesar de muito magra. Tinha um jeito muito simpático, talvez um pouco afetado, e vinha apressada, quase correndo, mas de uma maneira engraçada, apesar dele não ter sentido vontade de rir. Parecia falar sozinha, murmurava como se ninguém a pudesse ouvir, mas falava claramente, como que para alguém a ouvisse. Uma música a acompanhava, algo como uma música clássica, mas meio idiota, que variava de acordo com seus movimentos e suas falas. Ela se aproximava e a musica ficava mais alta e mais clara, a luz era mais forte por onde ela passava que em qualquer outro lugar da rua. Ela chegou à sua frente, e ele pôde ver seu rosto melhor. Tinha belos olhos azuis, um cabelo que parecia impossível, cada fio calculado, e um rosto todo perfeito, perfeito por uma grossa camada de maquiagem. E ele imaginou a maquiagem derretendo, como uma máscara, e aquele rosto já seria outro, e ela seria outra mulher, certamente menos bonita, mais velha, talvez menos simpática. Ela parou, olhou para os lados de um jeito que não deixasse dúvidas de que estava atrasada para algo muito importante.
- Com licença, senhor, que horas são?
Disse com uma dicção perfeita, e forçadamente agitada.
- Cinco e meia.
- Oh, droga, só tenho quinze minutos! Táxi!
E, vindo de lugar nenhum, no mesmo instante apareceu o táxi, ela entrou e disse para a estação!, e o táxi foi embora, levando a música imbecil, a luz artificial e a forte camada de maquiagem. E no mesmo instante ele se sentiu diferente. Havia feito a sua parte, apesar de não saber bem qual era. Mas sabia que havia sido algo importante. Talvez não muito importante, mas útil, e isso já era importante. Estava aliviado. O momento chegou, e mesmo que ele não entendesse bem, tudo fez sentido. Seu papel estava cumprido.

Viveu por muito mais tempo, como as pessoas normalmente vivem, e nada mais de interessante aconteceu, porque nada mais de interessante precisou acontecer.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Confusão

Só lembra de ter visto uma longa fila, com todos os seus amigos e parentes. Era o dia do seu casamento. Se confundiu, pensou que era seu velório, e passou o resto da vida morto.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

A Última Dança

Todos param para olhar sua limusine Lincoln banhada a ouro chegando em frente ao palácio de cristal. Os fotógrafos correm para em volta do tapete vermelho, esperando que ele saia do carro para que espoquem seus flashes. O chofer abre a porta, e primeiro sai sua loira particular em um muito justo vestido vermelho, mas os fotógrafos continuam esperando. Só depois de alguns momentos de suspense ele sai, com seu manto e seu cedro de marfim, seus sapatos de couro de leopardo e sua roupa de pele de tigre albino. O homem mais elegante de que já se teve notícia. Agora sim, todos os flashes disparam ao mesmo tempo, a luz é tão forte que só se vê branco, os fotógrafos se esfaqueando por um ângulo melhor. Ele sobe as escadas pelo tapete vermelho de braços dados com sua loira, e quando entra no salão todos param o que estão fazendo para aplaudi-lo. Os homens mais importantes do mundo fazem fila para cumprimentá-lo, com sua coroas e faixas de presidentes, e beijam sua mão, algumas vezes as duas mãos, como sinal de respeito e bajulação. Vem o fotógrafo oficial do baile de gala e pergunta se pode tirar uma foto do lindo casal, e ele responde que sim, mas que tire rápido, antes que seu dinheiro acabe e sua loira vá embora. Novamente todos param o que estão fazendo para rir de sua piada sem graça, mesmo os que estão nos cantos mais distantes do grande salão, mesmo os que não entenderam. E sua loira bate amistosamente em seu braço, com um doce sorriso no rosto, e ele retribui com um generoso tapa e um agarrão em sua linda e grande bunda, e todos o elogiam por sua presença de espírito e descontração. As pessoas que estão a sua frente começam a abrir caminho, como o mar se abriu para Moisés, e por esse caminho vem andando em sua direção a anfitriã e maior estrela da festa depois dele mesmo: a Rainha da Europa. Tem longos cabelos ruivos, que quase chegam a seus pés, olhos azuis transparentes, uma boca cuidadosamente pequena, e um corpo tão perfeito que pode aumentar em quinhentas vezes a fertilidade de qualquer homem que a veja em trajes de ginástica. Estende a mão para que ele a beije, para depois beijar a mão dele também. Ele olha para sua loira particular, e essa entende que é hora de se afastar e deixar os dois sozinhos. Ela pergunta se ele quer algo para beber, ele responde que sempre. Vão de braços dados até o bar, e só o que ela faz é acenar para o serviçal, que na hora entende e rapidamente traz uma garrafa de ouro maciço, com um rótulo de prata, que anuncia aquele como a champagne mais cara do mundo. Os dois erguem as taças, e ele faz um brinde com muita elegância, para logo depois beber o conteúdo da taça em um gole só. Novamente todos param para aplaudir sua atitude jovial, e a Rainha da Europa parece mesmo muito impressionada. Ela o convida para dançar, ele enche uma taça até a boca e aceita. Todos abrem passagem para ver os dois dançando valsa sozinhos no salão, ele ainda segurando a taça cheia de champagne, mas sem deixar cair uma gota no chão. Ela elogia seu equilíbrio, ele elogia seus peitos, e mais uma vez todos riem e aplaudem, apesar dele ter falado bem baixo em seu ouvido. Ela cheira a leite de rosas, assim como sua mãe cheirava, e isso o faz sentir bem. Ela diz que nunca esteve com um homem que dançasse tão bem, e pergunta se ele não quer ser o Rei da Europa. Ele pensa um pouco, bebe um gole da champagne, e ainda dançando responde que sim, aceita se casar com ela e se tornar Rei da Europa. Todo o salão explode de alegria, o grito de celebração das pessoas soa como um estrondo, os olhos da Rainha brilham como dois faróis, quando ele cai, e a imagem da Rainha vira um borrão, o perfume de leite de rosas passa a feder a mijo, o mármore frio vira asfalto, a taça de champagne uma garrafa de cachaça, suas roupas se resumem a uma calça de moletom suja e rasgada, tudo escurece e o palácio de cristal vira a parte de baixo de um carro, sua espinha está virada ao contrário. Põe a mão na poça onde está deitado e comprova que estava errado, seu sangue não é azul.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Sem Título

Família e amigos, vieram todos para vê-la e apoiá-la quando souberam da notícia. Dessa vez a tragédia era real, agora ela era verdadeiramente vítima. Estava sentada na ponta do sofá, calada e com a cabeça baixa, ouvindo as palavras de conforto e sentindo os olhares de compaixão. Não pôde segurar mais, e trancou-se no banheiro para que não a vissem chorar, mas chorou bem alto para que todos pudessem ouvir. Ninguém mais podia duvidar do seu desespero, agora os fatos falavam por ela. E chorava perguntando o porquê, alto suficiente para que todos ouvissem e ficassem sem resposta. Agora ninguém tem mais respostas, ou reprovações, apenas simpatia. Após alguns minutos de silêncio, se preocuparam e bateram na porta do banheiro. Ela não respondeu, e tiveram que arrombar. A encontraram caída no chão, com uma lâmina de barbear na mão direita e o pulso esquerdo sangrando. O sangue era bem pouco, o corte foi muito superficial, e bem longe de qualquer veia. Mas foi o bastante para que todos se comovessem e se assustassem com o fato. A pegaram no colo, fizeram um curativo com gaze e esparadrapo, mesmo que um pequeno band-aid já fosse suficiente. As mulheres choravam e os homens estavam todos comovidos. Deram alguns calmantes para que ela se acalmasse e dormisse. A colocaram na cama, a cobriram, e a deixaram sozinha no quarto. E enquanto o calmante fazia efeito ela imaginava como todos deveriam estar sofrendo com ela, por ela, como deveriam estar pensando o que fariam se estivessem em seu lugar. Pensava nisso, e ouvia e sentia o triste burburinho que vinha da sala, e olhava o curativo com uma pequena mancha de sangue em seu pulso esquerdo, enquanto o calmante lentamente fazia efeito e ela aos poucos adormecia.

Foi o momento mais feliz de sua vida.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Crítica: The Killer Eye



Como todo bom filme de terror, “The Killer Eye” abre com a imagem de uma terrível tempestade, que poderia ser assustadora se não fosse em um prédio qualquer de Nova York. O laboratório do cientista louco fica em um assustador prédio de Nova York, e essa é só uma das muitas coisas que nos obrigamos a ignorar para que o filme faça o mínimo de sentido. Essa é também a única tomada externa, repetida sistematicamente, todas as outras cenas são filmadas em uns cinco ambientes diferentes, em estúdio, e não passa disso.
Famoso por seus filmes de terror e erotismo, o diretor que eu desconheço quem seja mostra em “The Killer Eye” cenas que dificilmente assustariam ou excitariam alguém com uma mente razoavelmente saudável. “Mas como assim, cara? A Jacqueline Lovell não está no filme?”, você pergunta. Sim, está, e eu imagino a decepção dos que passaram horas nas filas dos cinemas dos shoppings, esperando ansiosamente para ver a nudez da nossa ex-estrela de softcore favorita, aos se depararem com apenas uma não muita longa aparição de seus pouco volumosos, porém muito bonitos seios, e nada mais. A nudez frontal e bundal fica por conta da outra atriz do filme, visivelmente fora de forma e da idade padrão para cenas de nudez total. Provavelmente aceitou aparecer nua esperando que isso alavancasse sua carreira, o que infelizmente não aconteceu, já que ela nunca mais fez outro filme na vida.
Fora as duas atrizes já citadas, o filme conta com seis atores. E só. O tom homo-erótico já fica evidente logo na primeira cena, quando para convencer um morador de rua a ir ao seu laboratório, o cientista louco insinua que quer pagar por sexo. E quando já dentro do laboratório o mendigo pergunta se o cientista quer seus serviços sexuais, esse responde que não com um intrigante sorriso, como se dissesse: Fica pra mais tarde. Além disso, todos os personagens masculinos passam o filme todo evitando qualquer contato sexual com os personagens femininos, contatos sexuais que não acontecem há um bom tempo, como a personagem de Lovell não tem vergonha de dizer. Fora o cientista e o mendigo cobaia, o filme conta com o ajudante do cientista, que é o marido da acima do peso, além de um louco, que não explica bem o que caralho está fazendo na estória, e dois amigos chapados, que fazem o papel dos dois amigos chapados, algo essencial para qualquer bom filme de terror. Esses dão o tom homo-erótico mais pesado da estória, já que passam o tempo todo deitados na mesma cama de cueca, frustrando as intenções sexuais de Lovell quando ela os procura para satisfazer seus desejos. Abro aqui um parêntese para o risco de homens que se consideram heterossexuais assistirem a esse filme bêbados. As longas cenas de atores gays e musculosos de cueca, além da baixa qualidade das cenas de nudez feminina, combinadas com altas doses de cachaça barata, podem fazê-lo questionar sua sexualidade, nem que seja por apenas um momento. Esteja avisado.
Fora esses, nos resta o personagem principal: O olho assassino, o único que come as duas mulheres do filme. Uma bola gigante, com seus músculos oculares(?) fazendo o papel de seu tronco e pernas. Incrivelmente bem produzido, ficamos nos perguntando como conseguiram os mestres dos efeitos especiais fazerem algo tão impressionante. Se com um bola de isopor, ou com uma daquelas bolas usadas pelo Quico do Chaves. Certamente algo para a ocupar a mente por horas, ou segundos.
Mas não pense que “The Killer Eye” é apenas entretenimento barato para as massas, considerando que as massas são fracassados solitários procurando filmes softcore em canais de tv a cabo de quinta categoria no meio da madrugada. Não, o diretor faz questão de incluir forte crítica social. Quando o cientista louco sugere explodir uma bomba para matar o olho monstruoso, avisando que a bomba não acabaria somente com o monstro, mas com todo o quarteirão, os outros personagens parecem aceitar a morte de milhares de pessoas na boa, além de ignorarem o fato da bomba se parecer muito com um cronômetro de professor de educação física. Uma forte crítica a indiferença do homem contemporâneo em relação ao homem contemporâneo, e tal. Também deve haver alguma crítica ao fato do olho assassino ser dificilmente notado pelos personagens do filme. Demoram alguns minutos para perceberem que tem um olho de dois metros os espiando na janela, ou simplesmente parado atrás deles. Provavelmente alguma referência a Saramago, ou com certeza não.
O diretor certamente filmou as cenas seguindo a seqüência do roteiro, já que fica bem claro que nas cenas finais o dinheiro já tinha acabado, obrigando-o a usar na parte mais emocionante efeitos especiais que deixariam o Changeman preto vermelho de vergonha.
Resumindo, “The Killer Eye” é um ótimo filme. Quer dizer, não, não é. Mas pode ser interessante depois de uma garrafa de vodka de quatro reais, ou de um dia inteiro de uso intenso de sálvia potencializada. Essencial para estudantes de cinema interessados em fazer filmes muito ruins com muito pouco dinheiro. Também muito útil para aqueles finais de semana românticos em que você quer ocupar o tempo com qualquer coisa que não seja sexo, porque sua(seu) parceira(o) está com uma doença de pele nojenta, tipo erisipela, ou aids, e você não quer magoá-la(o) dizendo-a(o) que ela(ele) está muito asquerosa(o) para ser comida(o).

Nota: 0.3 de 100

Link para eMule:
The.Killer.Eye.(1999).FS.DVDRip.XviD-URIMOVIES.avi

Não esqueça que pirataria é crime, portanto só baixe o filme se você já tiver uma cópia original do vhs e/ou dvd de “The Killer Eye”em sua casa.

domingo, 31 de agosto de 2008

Da Série Profissões Alternativas: O Projetor de Pensamentos

- Você que faz a sessão de telecinese?
- Sim, são cinco reais, a próxima começa em vinte minutos.
- E como é que é isso, você move os objetos com a força do pensamento, é isso?
- Não, não, eu não faço isso. Quer dizer, telecinese é isso, mas não é isso o que eu faço.
- E o que você faz?
- Eu projeto todos os meus pensamentos naquela tela, como se fosse um cinema.
- Ah... Quer dizer que aquilo que está passando na tela não é um filme, são os seus pensamentos?
- Exatamente. E eu sei que o nome disso não é telecinese, mas eu acho que telecinese tem muito mais a ver com o que eu faço do que com mexer objetos por telepatia. Porque, veja, tele de pensamento e cine de cinema, não é verdade?
- É verdade, faz mais sentido.
- Pois é, estou até vendo com o meu advogado se mudo isso aí no dicionário.
- Mas isso é realmente muito interessante, não sabia que isso existia.
- É, eu também não. Desenvolvi isso por força de vontade.
- Força de vontade, é?
- É, força de vontade. Consegui pela minha vontade de trabalhar e ganhar dinheiro fazendo o mínimo de esforço possível. E consegui, só o que eu preciso é ficar nessa poltrona pensando, coisa que mesmo sem esforço eu faço naturalmente.
- Olha, o Romário fazendo gol, é porque você está pensando nele?
- É isso mesmo, tudo o que eu penso vai para a tela, mesmo que sejam pensamentos soltos e sem sentido. Normalmente nas sessões eu tento contar uma história com meus pensamentos, como se realmente fosse um filme. Mas nem sempre dá certo, controlar os pensamentos é coisa muito difícil.
- E por que a placa de proibido para menores de 18 anos na entrada?
- Bem, no começo não tinha restrição de idade, eu até tentava fazer sessões voltadas pras crianças, mas era muito difícil. É muito difícil passar uma hora e meia sem pensar em coisa errada. Aí eu ficava aqui, pensando em desenhos animados, quando de repente BUM!, vinha um cu de loira na minha cabeça. Aí pronto, era criança chorando, outras rindo, outras vomitando, pais querendo me bater, me processar... Por isso eu parei com isso, agora só para maiores, para não correr riscos. Sabe como é, né?, muito difícil ficar sem pensar em mulher.
- Podes crer, podes crer...
- Hehehe...
- Mas isso é realmente fantástico, e... Peraí, aquele ali sou eu?
- Hein? É, é, parece que sim.
- Quer dizer que você está pensando em mim?
- Bem, é que...
- Olha, eu estou sem camisa... Porque eu estou sem camisa?
- Oi? Não, não... Quer dizer...
- E eu não sou forte daquele jeito. Nem tenho o peito depilado.
- É, é que ás vezes isso...
- Olha, você está lá também. Correndo na minha direção.
- Sou eu? Mas e o jogo do Corinthians, hein?
- Agora você parou na minha frente. Colocou a mão no meu braço...
- E... O Corinthians tá mal, né?, e tal...
- No meu peito...
- O Corinthians...
- Meu Deus! Você vai me bei...
- Acabou a sessão!!!

E nunca mais houve outra. Vendeu a sala para a construção de uma farmácia, comprou um capacete antiprojeção de pensamentos e foi trabalhar como funcionário público. Se aposentou por invalidez alguns anos mais tarde, devido ao forte alcoolismo.

Moral da história: A pior coisa que pode acontecer a um homem é ter todos os seus pensamentos revelados.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Dinheiro

Estava ficando cansado daquela vida. Passava o dia inteiro no escritório, o dia inteiro trabalhando. O dia inteiro fazendo coisas importantes, em reuniões, fechando negócios, escrevendo relatórios, e outras coisas muito importantes que pessoas de escritório fazem, mesmo sem saber muito bem pra que servem. Só sabia que era assim que ganhava dinheiro, por isso trabalhava muito, o dia inteiro. Já não agüentava mais, a pressão era insuportável. O estresse, as discussões, não fazia nada a não ser trabalhar. Queria largar tudo aquilo. Se perguntava se ganhar dinheiro era tão importante assim. Valia a pena tudo aquilo apenas pelo dinheiro? Será que não existem coisas melhores na vida? Tipo sexo, família, amigos, sexo, vinho, sexo? Claro que sim, ele não precisava de dinheiro para ser feliz! Dinheiro não traz felicidade, essa é a verdade! E foi isso o que ele disse para o seu chefe quando se demitiu, enquanto tirava o paletó, a gravata e a camisa. Saiu correndo pelos corredores da empresa cantando músicas do Renato Russo e do Padre Marcelo, até ser expulso pelos seguranças. Foi para casa fazer as malas, ia embora da cidade grande. Queria um lugar mais tranqüilo, mais simples, em que as pessoas soubessem que a vida era mais que apenas ganhar dinheiro. Juntou umas poucas peças de roupa e as colocou em uma pequena mala. Não levou nada além das poucas roupas. Ia passar no banco para pegar o que restava na sua conta, quando lembrou que sua conta estava negativa. A vida na cidade grande era cara, o dinheiro que ele ganhava ia todo embora com coisas inúteis, coisas que eles não precisaria mais, como tv a cabo, eletricidade e plano de saúde, ou pensão e escola particular para os dois filhos que ele nunca via. Tinha 75 reais na carteira, era o suficiente pra pegar um ônibus para Friburgo, ou Teresópolis, ou uma cidade de serra qualquer desse tipo. Desceu do ônibus na rodoviária da cidade de serra qualquer, e na primeira respirada do ar sem poluição teve certeza que fez a escolha certa. Essa sim era a vida, a paz, a tranqüilidade, o verde, pessoas passeando na praça, charretes... Era essa a vida simples que ele procurava. Não tinha dinheiro para gastar com hotel, nem queria dinheiro para gastar com hotel, e decidiu se estabilizar na floresta, viver no verde, sem as frescuras do mundo moderno, era assim que tinha que ser. Entrou uns cem metros dentro da mata e deixou lá sua mala. Começou a ficar com fome, e pensou em comer em algum restaurante de comida caseira típico de cidade pequena, mas não tinha dinheiro. E nem era para ter dinheiro, dinheiro não era mais importante para ele. Então teve a idéia de comer na casa de alguém da cidade, ali sim morava um povo hospitaleiro, simpático, sem o medo e a desconfiança que torna as pessoas de cidade grande tão indiferentes. Passou por uma casinha humilde, mas bonita, com uma senhora sentada na entrada. Ele puxou assunto e perguntou se poderia almoçar em sua casa. Ela entrou, fechou o portão e ameaçou soltar os cachorros se ele não saísse de lá agora. Ele saiu, um pouco surpreso com a reação da senhora, mas concluiu que velha louca existe em todo lugar. Bateu na porta de outra casa, e quando perguntou se podia almoçar ali o morador não lhe respondeu, apenas entrou e voltou com uma espingarda na mão e um celular na outra, já preparado para ligar para a polícia. Já um pouco puto, foi bater na terceira casa. Dessa vez foi bem atendido, e para sua alegria disseram sim para seu pedido de almoço. Já estava entrando na casa, feliz, quando bateram a porta na sua cara. Voltaram três minutos depois, com duas colheres de arroz e uma de feijão geladas em um prato descartável de plástico. Sem talheres, claro. Ele humildemente agradeceu, afinal pelo menos assim não passaria fome. Foi comer seu almoço na pracinha, porque gostava da pracinha. Passavam algumas moças bonitas e ele se lembrou uma das coisas que o fazia feliz sem precisar de dinheiro: Sexo. Mostrava interesse por algumas, mas elas desviavam o olhar e o caminho dele como se ele fosse o tinhoso em pessoa, provavelmente por estar comendo arroz e feijão com as mãos em um prato de plástico em praça pública. Percebeu que daquele jeito ficaria difícil comer alguém. Mas tudo bem, assim como dinheiro sexo não era tudo para a felicidade, além do mais, ele sempre teria sua mão direita, mesmo que no momento ela estivesse suja de feijão. Qual era a outra coisa da lista? Ah, sim, vinho. É... Vinho fica meio difícil sem dinheiro. Quer dizer, ele poderia colher as uvas na floresta, tirar o suco e deixar fermentando em algum barril de madeira qualquer, mas o vinho demoraria alguns anos pra ficar pronto. E uva não deve ser uma fruta muito típica de floresta brasileira. Mas tudo bem, ele não precisa de vinho, ele tem paz de espírito, e é isso que importa. Vinho é para os estressados da cidade grande. Com o dia anoitecendo, e sem ter mais o que fazer, decidiu ir para o seu cantinho na floresta dormir. Demorou duas horas para achar o lugar certo. Deitou-se, mas estava um frio desgraçado, e ele não havia colocado cobertores na mala. O jeito foi se vestir com algumas calças e camisas para esquentar, mesmo que isso o deixasse bastante sufocado. Começou a chover. Já estava de saco cheio de achar soluções para seus problemas, e ficou lá na chuva mesmo, tentando dormir. Conseguiu, por umas poucas horas. Acordou coberto de formigas, daquelas vermelhas bem catiças, e enquanto rolava na grama desesperado percebeu que sua teoria só estava meio certa. Dinheiro realmente não é importante, mas só para quem já tem muito dele. Uns 572 mil reais, pelo menos. Quando terminou de tirar as formigas do corpo, arrumou sua mala e foi correndo para a estrada, tentar uma carona para voltar para a cidade grande. Chegou a tempo de pegar seu chefe ainda no trabalho. Se jogou aos seus pés em prantos pedindo seu emprego de volta. Colocou a mão na braguilha do chefe, dizendo que estava até disposto a lhe pagar um boquete. O chefe, muito bondoso, o liberou do boquete, e lhe deu o emprego de volta, claro que com uma significativa redução salarial. Agora só o que ele precisava era trabalhar, trabalhar muito, sem férias ou descanso, até conseguir juntar dinheiro suficiente para que isso não fosse mais um problema para ele. Com o passar dos anos, e calculando juros e inflação, sua meta ia ficando cada vez mais alta. Começou em 572 mil reais, e quando morreu já estava em quase 2 milhões, apesar de não ter conseguido juntar nem um quarto disso. Morreu aos sessenta e dois anos, de estafa. O encontraram caído sobre sua mesa no escritório, sob uma pilha de relatórios. Relatórios que não eram para ele fazer, os recebeu por um erro do estagiário. O estagiário não se importava muito com dinheiro.

domingo, 27 de julho de 2008

Todos os Livros do Mundo

Era o filho do zelador da biblioteca do homem mais rico do mundo. As paredes do seu quarto eram estantes da altura de prédios e da largura de campos de futebol, totalmente ocupadas por livros. Tinha todo o conhecimento do mundo a sua disposição, mas nunca leu um livro sequer. A única coisa que usava da biblioteca era o acervo de revistas pornográficas, que contava com quase todas as publicações pornográficas da história. Quando não estava tocando punheta, e estava quase sempre tocando punheta, passava o tempo jogando master system e vendo televisão.

Certa vez, veio hospedar-se na casa do homem mais rico do mundo um famoso cientista e grande intelectual, ganhador por duas vezes do prêmio Nobel de inteligência. Ficou abismado quando conheceu a biblioteca. Aquele infinito de livros para ele era como o paraíso. Foi se perdendo por entre as milhares estantes, maravilhado e indeciso, sem saber por qual livro começar, quando sem querer entrou no quarto do garoto. Esse estava distraído, folheando uma das centenas de revistas pornográficas espalhadas pelo chão, e com a tv ligada em um programa vespertino qualquer voltado para donas de casa.

- Perdão, não sabia que... Você mora aqui?
- Moro. Sou filho do zelador.
- Quer dizer que esse é o seu quarto?
- É, é o meu quarto.
- Meu Deus... Mas isso é lindo! Que vida poética! Você dorme no meio de um mundo inteiro de obras fantásticas, tem um universo inteiro de conhecimento ao alcance das mãos! É maravilhoso!
- Maravilhosa é essa bunda, olha!
- É, também é maravilhosa... Mas que vida de sonho você vive! Todos os livros, simplesmente todos, tudo que você quiser ler, qualquer coisa, tudo a alguns passos de distância! Ah, o que eu não daria para ter nascido em um lugar como esse...
- Tem muita poeira.
- Sim, isso é verdade... Mas o que é a poeira perto de todas essas obras, de todos os gênios da história da humanidade! Confesso que nem sei por onde começo.
- Eu também não sei.
- Não tem nenhuma sugestão para mim?
- Pra você? Se não tenho nem pra mim!
- Como? O que quer dizer com isso?
- Que nunca li um livro desses.
- O quê?! Não, o senhor está brincando, não é isso? Deve ter um senso de humor próprio dos grandes jovens pensadores, não é mesmo?
- Hein?
- Eu disse que... Espere, você estava falando sério?
- De quê?
- Que nunca leu um livro sequer da maior biblioteca do mundo.
- Ah, é. Nunca li.
- Mas... Como... Pode...
- Olha os peitos dessa... Naturais, eu conheço quando tem silicone.
- Não, isso não pode ser... O que é isso, alguma piada divina? Fazer nascer na maior biblioteca do mundo alguém que é incapaz de ler um livro sequer?
- Mas eu sou capaz, sei ler.
- ENTÃO POR QUE NÃO LÊ?!
- Bem, eu já pensei em começar a ler, já mesmo. Mas veja só à sua volta. Veja a quantidade de estantes, de prateleiras nas estantes, de livros nas prateleiras. E a quantidade de idéias presente em cada livro desses. Mesmo que eu lesse todo o tempo, por toda a minha vida, toda a minha vida dedicada a entender as idéias desses grandes homens, mesmo que eu vivesse mil anos, ainda assim não conheceria nada, nada se comparado ao mundo de sabedoria que me cerca. E se eu sei que não posso terminar, pra que começar? Faz sentido começar algo sabendo que não vai terminar?
- Bem...
- Olha a testa dessa, que coisa linda... Chega a brilhar!
- É... É uma bela testa...

E depois de conversar por uma meia hora com o garoto sobre preferências pessoais de atributos femininos, saiu da biblioteca com duas dúzias de Playboys dos anos sessenta e nunca mais foi visto.

domingo, 13 de julho de 2008

Domingo Feliz

O sol bate no meu lado da cama. Me levanto e vou fazer o café da manhã. Ovos, café quente, suco de laranja gelado. As crianças ainda estão dormindo, e levo o café para você na cama. Te acordo com um beijo, você me dá bom dia com um sorriso, acha graça do meu café servido na bandeja. As crianças acordam, e eu vou servir o café delas enquanto você toma o seu na cama. A menina não quer sucrilhos, nem ovos, nem suco ou pão de ontem, e dou um pacote de trakinas sabor chocolate só para ela não sair de casa com o estômago vazio. Pergunto pro menino o que ele quer, e ele responde azeitona. Digo que não vou dar azeitonas para ele no café da manhã, mas ele começa a chorar, diz que só quer comer azeitona. Dou um pote de azeitonas para ele, ele quase se engasga com um caroço e eu quase o acerto com um tapa, mas não quero começar o domingo mal. Você se levanta e me dá um esporro por dar um pote de azeitonas pro moleque às nove da manhã, mas logo depois me desculpa. Vou trocar de roupa enquanto você dá um banho nas crianças, termino e vou assistir desenhos. Escuto o moleque chorando porque não quer tomar banho, e aumento o volume da tv. A menina já terminou e assiste tv comigo. Vocês dois saem do banheiro, e pergunto se podemos ir. Você me chama de idiota e diz que não, que agora quem tem que tomar um banho é você, se eu não vejo o jeito que você ficou depois de forçar o moleque a tomar banho. Continuo vendo os desenhos, as crianças começam a brigar, eu finjo que não vejo e aumento um pouco mais o volume. Já está no máximo, precisamos comprar uma tv com volume mais alto. Você sai do banho, dá um tapa em cada criança por estarem brigando, e me pergunta gritando se essa é uma casa de surdos loucos por estar com a tv tão alta. Eu desligo a tv e digo para sairmos logo. Entramos no meu Corsa 94 com as crianças ainda chorando, eu dou a partida e o carro não pega. Tento de novo e o carro não pega. Saio, abro o capô fingindo entender alguma coisa de carro, volto, e por coincidência divina o motor finalmente dá a partida. Pegamos forte engarrafamento, o carro não tem ar-condicionado e deve estar uns 40 graus dentro dessa lata preta. Você e as crianças reclamam, eu ligo o som para distrair, e as crianças querem ouvir o cd da Xuxa. Eu digo que odeio a Xuxa, a menina se ofende e diz que me odeia. Você me dá um soco no braço e diz para eu colocar o cd da Xuxa. Coloco, e invejo os surdos. Fico em dúvida se a beleza da habilidade de ouvir compensa a tortura de um cd da Xuxa num engarrafamento de um quente domingo de manhã. Chegamos, finalmente. O estacionamento do Tivoli Park está cheio, e fico mais de dez minutos para achar uma vaga. As crianças pedem dinheiro para comprar fichas pros brinquedos e eu dou cinco reais para cada uma. Elas reclamam dizendo que é muito pouco, e eu digo que é o que posso dar. Você reclama da minha pão-durice, e eu digo que teria mais dinheiro se você não gastasse com coisas ridículas como a máquina de fazer fraldas da Sonia Abraão. Você fecha a cara e eu dou mais dez reais para cada criança, para não ter discussão. As crianças vão para os brinquedos, e todos parecem iguais, sempre coisas giratórias que os fazem acenar toda vez que passam por nós, o que nos obriga a acenar de volta. Depois de cinco desses o moleque passa mal e vomita todas as azeitonas do café da manhã. Você se irrita e pergunta o que eu tenho na cabeça pra dar azeitonas no café da manhã para uma criança de cinco anos. Eu digo que é melhor irmos para brinquedos mais parados, como os de tiro ao alvo. A menina vê um ursinho Puff de pelúcia e isopor numa dessas barracas, e pede para eu acertar o alvo e ganhar para ela. Só preciso acertar as três latas com três tiros, não parece difícil. Já gastei cinco fichas e ainda não consegui, digo que é melhor desistir mas ela choraminga e diz que quer o ursinho Puff de pelúcia e isopor, que por sinal é verde. Vou comprar mais fichas, erro todas, digo que já gastei muito para um urso verde de pelúcia e isopor, ela chora e diz que a vida nunca dá o que ela quer. Depois de cinqüenta reais em fichas, consigo ganhar o prêmio vagabundo. Ela me dá um beijo, e me olha orgulhosa como se eu fosse um Guilherme Tell. Mas isso alivia pouco a minha dor por ter gastado cinqüenta reais em um urso vagabundo de pelúcia e isopor, ainda por cima verde, que deve ter tido o custo de produção de cinqüenta centavos. Antes de irmos embora, recomendo um passeio na roda gigante. As crianças vão em uma gaiola e nós vamos sozinhos em outra. Sentamos um ao lado do outro com se fôssemos um jovem e romântico casal de namorados. Não temos assunto, por isso vamos calados, eu apreciando a vista e você preocupada com as crianças sozinhas na outra gaiola. Acaba o passeio e eu digo que é hora de irmos embora. O moleque começa a chorar e diz que ficamos muito pouco. Eu digo que não podemos ficar mais, pois gastei todo o dinheiro das fichas para ganhar o urso de pelúcia verde para a menina. Ela diz que se eu não fosse tão idiota e ruim de mira não gastaria tanto, e também começa a chorar. Você me diz que eu não precisava botar a culpa na menina. Vamos andando para o estacionamento arrastando as duas crianças que esperneiam sem parar. Todos olham na nossa direção e alguns parecem querer chamar a polícia. Abro a porta do carro, e o moleque vomita mais azeitonas, dessa vez pelo pranto exagerado. Você perde a paciência e grita por mais de dez minutos comigo por eu ter dado azeitonas de café da manhã para uma criança de cinco anos. As crianças param de chorar como que satisfeitas pela culpa cair para o meu lado. Chegamos na casa dos seus pais para o almoço. As crianças ainda com cara de choro recente, porém mais animadas. Sua mãe já atende a porta perguntando o que aconteceu. As crianças me acusam e ela nem me cumprimenta. Vou para a sala e seu pai está no sofá, já bêbado como de costume. Ele mal nota minha presença e continua a gritar com os jogadores da televisão. As crianças vêm falar com ele, ele as recebe com beijos e abraços animados. Até que alguém chuta para fora e ele solta alguns porras, filhos da puta e caralhos com muito ódio na voz, esquecendo totalmente a presença das crianças. Elas ficam assustadas, mas eu finjo que não percebo e assisto ao jogo também. Escuto você contando para a sua mãe na cozinha como eu dei azeitonas para o menino no café da manhã, e isso me irrita bastante. O jogo está no intervalo e vocês avisam que a comida está na mesa. Macarrão e salada. Sua mãe comenta que ia colocar azeitonas na salada, mas que não colocou porque... Olha pra mim sem terminar a frase, e você balança a cabeça como que lamentando minha idiotice. Sua mãe mima o garoto por ele ter passado mal por minha idiotice, pergunta o que ele quer comer, e ele diz cheetos. Sua mãe diz que ele não pode almoçar cheetos, mas ele insiste que é o que quer comer. Sua mãe diz que pode preparar um miojo para ele, mas ele começa a chorar porque só quer cheetos. Eu rio e digo que agora minha decisão de dar azeitonas para ele não parece ter sido tão ruim. Sua mãe se irrita e diz nervosa para o moleque que ele tem que comer comida, não cheetos. Pega uma garfada da macarronada e o manda abrir a boca. Ele se recusa, e tenta sair da mesa. Ela o agarra pelo braço e o manda abrir a boca. Ele esperneia e manda ela o soltar, ela não solta e ele a chama de velha filha da puta. Todos paralisam em silêncio, ela solta o menino e parte para o marido, gritando por ele gritar palavrões na frente das crianças. Ele grita de volta dizendo que não falou porra nenhuma, caralho, sem perceber que as crianças ainda estão na mesa. E enquanto você briga com o moleque, sua mãe vai para a cozinha e traz de lá um pacote de cheetos para ele. Eu olho para você rindo, e fico com esse sorriso de satisfação até o final do almoço. Termina o almoço e eu vou com seu pai assistir o final do jogo. Você vai com a sua mãe para a cozinha, para lavarem a louça e falarem mal dos inúteis maridos. Depois de um ataque de fúria por um pênalti não marcado, seu pai cai no sono, e provavelmente só acorda amanhã. As crianças brincam, e eu fico sozinho procurando mulheres gostosas na tv de domingo. Quando finalmente as acho você volta da cozinha, e pergunta se não está na hora de irmos para casa trocar de roupa. Eu digo que sim, já podemos ir. Nos despedimos das crianças, que brincam com o avô bêbado em sono profundo, e vamos para o carro. Ligo o rádio para finalmente ouvir algo que não seja Xuxa, mas você pede para desligar, está com dor de cabeça. Eu o desligo, sem acreditar na sua dor. Chegamos em casa, eu troco de camisa e já estou pronto, vou ver televisão, quem sabe a Carla Perez ainda está rebolando no Gugu. Sim, está, e não faço questão que você termine de se arrumar rápido. Depois de meia hora você volta, e pergunta se está bonita. Eu digo que sim, sem perceber o que você está vestindo. Você pergunta que filme vamos assistir, eu te jogo o caderno de cinema do jornal e te mando escolher. Você diz ressentida que o filme é para nós dois, eu não quero discussão e levanto do sofá para escolher com você, preparado para aceitar qualquer coisa que você disser. Você diz que pensava em assistir “o amor é para dois”, e eu digo que tudo bem, pode ser esse. Você diz que eu não pareço animado, mas eu abro um sorriso falso e digo que sim, estou animado. Você finge acreditar e nós saímos de casa. Só agora percebo a roupa que você está usando, um vestido verde que em você imediatamente me fez lembrar do urso que ganhei para a nossa filha. Entramos no carro e vamos para o shopping, em silêncio, sem o rádio porque você diz que está com dor de cabeça, e sem conversa pois não temos muito que falar. Chegamos no cinema do shopping, eu vou comprar o ingresso e me espanto com o preço. Agora me lembro porque ficamos tanto tempo sem ir ao cinema. Antes de entrar na sala você faz questão de comprar pipoca. Pede a tamanho jumbo, que custa mais caro que o próprio ingresso, mas eu finjo ter dinheiro sobrando e não me importar, pago sem reclamar pois não quero estragar nosso programa de casal que há tanto tempo não fazíamos. O filme começa, um romance fantasiado que ambos sabemos que não existe na vida real. Mas isso não impede que você chore no final, não sei de emoção ou de tristeza por nosso romance ser tão diferente daquele na tela. Saímos do cinema e eu peço para irmos um pouco mais rápido, pois se sairmos com o carro em cinco minutos não precisaremos pagar o estacionamento. Você solta um resmungo, mas não discute, provavelmente prevendo que eu jogaria na sua cara o preço da pipoca jumbo. Você corre para o carro e me lembra cada vez mais do urso verde da nossa filha. Entramos no carro, e com um minuto de vantagem conseguimos sair sem pagar do estacionamento. Enquanto você puxa assunto de como nosso filho é chato para comer, eu me lembro que amanhã tenho que acordar cedo para o trabalho, e tenho vontade de jogar o carro contra o primeiro poste que cruzar nosso caminho. Aquele emprego que era para ser temporário, e agora parece que nunca vou poder largá-lo, apesar do excesso de horas e do baixo salário. Você me pergunta o que eu acho, eu sem ouvir respondo que é só fase. Você concorda, e não trocamos mais palavra até chegarmos na casa dos seus pais. O seu pai continua dormindo no mesmo lugar e na mesma posição, enquanto as crianças gritam e choram. O moleque arrancou os olhos do ursinho Puff de pelúcia verde que me custou cinqüenta reais em fichas, e a menina irada enfiou as unhas na bochecha do irmão. Agora a menina chora de tristeza pelo estrago do urso, o menino chora de dor, e sua mãe quase chora de nervoso pelo sangue e pelo sentimento de culpa do que aconteceu. Ela está com o moleque no banheiro, com a cara dele enfiada na pia, lavando nervosa a ferida do seu rosto, que não era tão grande assim. Você, nervosa, pega as duas crianças pelos braços e bate nas duas, perguntando porque elas sempre estragam nossas noites, mesmo sabendo que essa noite não tinha nada para se estragar. Sua mãe se despede em tom choroso, pedindo desculpas pelo que aconteceu. Você se despede sem fazer questão de a desculpar ou de dizer que ela não teve culpa. Para as crianças não se matarem na viajem de volta, você vai com o moleque no banco de traz, reclamando dos dois, e eu vou com a menina no banco da frente. Ela vai com o rosto triste, segurando firme o seu urso verde sem olhos no colo. Eu digo para consolá-la que nós podemos colar os olhos de volta, e ela me responde que tem coisas na vida que não se conserta só com cola. Eu sinto medo da dramaticidade da resposta da menina de oito anos e prefiro ficar calado o resto da viajem. Subindo o elevador as crianças ainda ameaçam outra briga épica com sangue e lágrimas, mas são contidas por meus braços e seus tapas. Você vai preparar as crianças para dormir e um curativo para o moleque enquanto eu vou à cozinha fazer um lanche. Acabo comendo as azeitonas que sobraram do café da manhã. Depois de tomar banho, me deito e já estou quase dormindo, quando me lembro que hoje era para ser nossa noite romântica, e por isso o certo seria terminá-la com sexo. Me concentro para não pegar no sono enquanto espero você sair do banho. Você sai com o baby doll que eu dei no natal e você nunca havia usado. Nos beijamos, e eu percebo que foi a primeira vez no dia todo. Tiramos a roupa, eu olho para você fingindo desejo e imaginando a Carla Perez, enquanto você olha para mim fingindo desejo e imaginando o meu irmão. Eu finjo que ainda te acho gostosa apesar dos quarenta quilos mais gorda desde que nos casamos, e você finge que não repara e que se satisfaz com o meu pau já há alguns anos meio brocha. Depois de cinco minutos terminamos e damos boa noite com um beijo. Em me viro no meu lado da cama já me torturando com o insuportável dia de trabalho de amanhã. Tento dormir enquanto escuto você rezando baixinho, agradecendo a Deus por mais esse dia feliz, amém.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Simpatia pelo Tinhoso

- Sim, eu sei, eu fiz muitas coisas ruins na minha vida, mas nenhuma foi culpa minha.
- Não?
- Não.
- Mas como assim? Quer dizer que aquela vez em que você atirou sua filha pela janela só pra ver se ela quicava não foi culpa sua?
- Não, irmão, não foi. Foi culpa do canhostro.
- Do canhostro?
- Sim, do canhostro.
- Quer dizer que... Foi culpa do seu pau?
- Do meu pau? Não, cara, canhostro, o capeta. Essas coisas de encosto, entendeu?
- Ah, tá. É que eu achei que canhostro fosse uma variação de caralho.
- Não, não, eu quis dizer que foi culpa do diabo, mesmo.
- Entendi. Mas então nada do que você fez foi culpa sua?
- Pois é, nadinha. Eu também pensei que fosse tudo culpa minha, me torturei por muitos anos com esse fardo, mas que nada, era tudo culpa de encosto.
- Tudo mesmo, é?
- Tudo. Foi um pastor que me mostrou isso, se não fosse por ele estaria sofrendo até hoje. Sabia que até meu amor por cachaça é encosto? Nunca imaginei.
- E aquela vez em que você estuprou meu pai na véspera de natal? Encosto?
- Encosto.
- Até a parte de enfiar o peru nele?
- E não é isso que é o estupro?
- Não, quero dizer quando você enfiou o peru congelado dentro da bunda dele, e deixou lá até que o termômetro levantasse.
- Ah, sim, tinha esquecido. É, foi culpa do encosto, pode botar na conta dele também. Aliás, como tá o seu pai?
- Tá bem, tá bem, tá quase voltando a andar.
- Ah, que bom.
- E outro dia ele balbuciou um negócio que parecia ser mamãe.
- Que gracinha.
- Sim, estamos muitos felizes. A previsão é que daqui há uns cinco anos ele pare de usar fraldas. Coitadinho, depois de tudo que passou...
- Sim, é realmente horrível, eu sei como é a sensação.
- Sabe, é?
- Sei, eu também já tive um peru de natal enfiado na bunda.
- É mesmo, é? Quer dizer que você também já foi estuprado?
- Não, não. No meu caso não foi estupro.
- Ah... Mas enfim, o importante é que você agora está recuperado, não é mesmo? Faz tudo parte do passado, não é mesmo? Aliás, quando foi que você se converteu?
- Me converti?
- É, quando você se livrou dos encostos, do canhostro, e tal?
- Como assim, quando? Nunca!
- Nunca?
- Nunca! Se eu me livrar dessa porra em quem eu vou botar a culpa pelas merdas que eu faço? Na minha esquizofrenia? Quem ia acreditar numa idiotice dessas?
- É... Ninguém, eu acho.
- Pois então. Esse negócio de ter encosto foi a melhor descoberta que eu fiz na minha vida. Você não sabe o alívio que dá saber que eu sou inocente de todas as desgraças que eu causei. Fora as que eu ainda vou causar, não é mesmo?
- Sim, é verdade.
- É, meu amigo, não há nada como ter a consciência limpa...
- Sim, claro, até porque o importante é que você tentou, não é mesmo?
- Tentei o quê?
- Tentou melhorar, e tal.
- Não, eu não tentei porra nenhuma.
- Bom, mas... É que...
- É que o quê?
- Cara, eu só não quero que você me machuque, cara! Pelo amor de Deus, eu tenho mulher, filhos, um pai retardado pra criar!
- Que isso, cara, eu sou seu amigo, eu nunca te machucaria!
- Mas então... Pra que esse vergalhão enferrujado na sua mão?
- Ora, pra nada! É só um vergalhão enferrujado.
- Ah, é? Então, tá... Tchau, então.
- Valeu, um abraço pro seu pai!
- Obrigado...
- Que foi, não vai embora?
- Tem certeza que você não vai enfiar esse vergalhão na minha bunda quando eu me virar?
- Que isso, cara! Aí você já tá me ofendendo, por favor!
- Sim, sim, tem razão. Então... Até logo.
- Até.
- Ah, eu sabia, eu sabia!!!
- Fazer o que, né? Encosto.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

O Dia Antes de Amanhã é Hoje

Não queria que aquela noite acabasse. Nunca se divertiu tanto, até porque nunca se divertia. Todas aquelas luzes, e as mulheres, e a música... Só a parte do álcool e das drogas ele não teve coragem de experimentar. As mulheres também não, mas já ficou contente de vê-las de perto. Parecia que pela primeira vez ele realmente vivia a vida. Muito mais divertido que assistir televisão e ir dormir, como ele fazia sempre. E como voltar pro dia a dia de sempre, agora que ele descobriu o que era viver? Impossível. Não podia simplesmente voltar ao seu trabalho no banco no dia seguinte, como se nada tivesse acontecido. Mas que outra saída ele tinha? O dia acabou, ele precisava dormir. Mas e se não dormisse? E se ele não deixasse a noite acabar? Então aquele dia duraria para sempre, para sempre seria o melhor dia da sua vida, o melhor aniversário de sua vida. Mas como fazer isso? Bem, primeiro ele não poderia dormir, isso era o básico, porque o dia só acaba na hora em que nós dormimos, e é só na hora em que acordamos que começa o outro, disso todo mundo sabe. Tá certo, não dormir, isso dava para fazer, só precisava de bastante café. Foi preparar o litro de café, e olhou para o relógio da cozinha. Já estava perto das cinco, daqui a pouco nasceria o sol, e se o sol nascesse já era, já seria outro dia, porque o dia não começa à meia noite como alguns dizem, mas só quando o sol nasce, disso todo mundo sabe. E não vendo o sol nascer ele não teria como saber se o sol realmente nasceu ou não, ou seja, em sua cabeça ainda seria noite, a mesma noite. Lógico. Colocou cobertores na frente das janelas, para que o sol não entrasse, mas isso não impediria a luz de entrar totalmente, não era o suficiente. Precisava pensar rápido, ter alguma grande idéia antes que nascesse o sol e chegasse o amanhã. E teve a grande idéia. Um pedaço de lona, era o que precisava. Um grande e grosso pedaço de lona, em que ele pudesse ficar e que não deixasse a luz passar, aí sim seria noite para sempre. Era só pegar de algum caminhão de feira que estava parado em sua rua para a feira de amanhã. Foi o que fez, pegou uma grande lona que cobria caixas de banana e voltou correndo para casa. Colocou o litro de café em uma garrafa térmica, foi para o quarto, com as janelas tampadas por cobertores, e fez uma pequena cabana com a lona de caminhão no meio do quarto, e entrou nela. Colocou um par de óculos escuros também, só por garantia. E lá ficou, em sua cápsula do tempo, certo de que o dia novo não chegaria, já que ele não o veria chegando, e assim ele logo poderia voltar para o único dia feliz da sua vida. Mas o tempo demora a passar nas cápsulas do tempo. O sono chegava e ele tinha que matá-lo com o café, e o café que entrava nele rapidamente queria sair por algum lugar. Ele não poderia sair de cápsula para ir ao banheiro, devia ter pensado nisso antes e levado um penico. O jeito foi fazer ali mesmo, no chão, nas calças. Será que já podia voltar para a sua noite, já era seguro? Decidiu arriscar que sim, saiu de sua cabana e realmente, a noite estava de volta, a noite que para ele ainda não havia ido embora. Agora era só voltar pra farra, voltar para onde tinha acabado de sair. Mas e esse cheiro? Não seria melhor tomar um banho? Não, não podia tomar um banho, quem toma banho e troca de roupa duas vezes na mesma noite? Seria muito antinatural, ele acabaria desconfiando que a noite não era mais a mesma, mas outra. Foi assim mesmo. Foi alegre e excitado para a boate de onde tinha acabado de sair, mas estranhamente o segurança não o queria deixar passar.
- Mas se eu acabei de sair!
- Acabou de sair? Como acabou de sair se ninguém entrou ainda?
- Tá achando que eu sou otário, amigo? Eu estava aí dentro agora mesmo, e isso aí ainda tava cheio!
- Escuta, senhor, eu não quero problemas com o senhor, agora dá licença que não fica bem pessoas mijadas na entrada.
- Ah, é? Bem, eu posso estar mijado, mas pelo menos eu, eu...
- Por favor, senhor!
- Pelo menos não sou um segurança com cara de cu, de cu!
E o segurança, que adorava quando aparecia alguém que dava motivo para apanhar, acertou um soco no atemporal homem, que deixou um belo hematoma em sua face esquerda. Mas não seria isso que estragaria a sua noite, o melhor aniversário de sua vida, agora só precisava achar um lugar novo para se divertir. Achou uma outra boate, essa com aparência de ser um pouco mais cara, e sofisticada, além de ter mais segurança. E dessa vez nem precisou dizer nada, foi só parar na entrada com a cara roxa e as calças mijadas para os seguranças virem para cima dele, com empurrões e alguns pontapés, um dos quais acertou sua perna esquerda e o deixou mancando bastante. Mas tudo bem, não seria isso que estragaria sua noite, havia outras maneiras de se divertir. Álcool, por exemplo, ainda não tinha experimentado isso.
- Ou! Ou! Que isso?
- Eu gostaria de experimentar álcool, por favor.
- Não, no meu bar não, vai pra outro lugar, aqui não.
- Mas é meu aniversário, por que não querem me deixar fazer nada? Só quero experimentar isso aí de álcool!
- Olha, amigo, vai lá pra fora que daqui a pouco eu te levo, tá?
E ele foi esperar do lado de fora. Não conseguia pensar em nada melhor pra fazer, mesmo. Esperou bastante, sua perna machucada começou a doer e ele foi obrigado a se sentar na calçada. O bar já estava vazio quando o gentil garçom trouxe uma dose de caninha da roça para que o aniversariante experimentasse. Ele gostou muito. As dores na sua perna e no rosto diminuíram bastante, e realmente as coisas ficavam bem mais divertidas com aquilo. Ficou com vontade de beber bem mais, e pediu ao garçom.
- Mais porra nenhuma, já estamos fechando.
- Fechando? Mas que horas são?
- Quase cinco.
Quase cinco! Precisava voltar para a cápsula do tempo rápido, antes que acabasse aquele mágico dia do seu aniversário. Felizmente chegou em casa a tempo, e enquanto estava em sua cápsula teve a idéia de levá-la para a rua quando voltasse para a sua noite de aniversário, assim não teria essa preocupação de voltar para casa correndo antes que o novo dia começasse. Foi o que fez, sua noite voltou e ele estacionou sua cápsula perto do bar em que ele havia bebido agora a pouco. Dessa vez nem tentou entrou em qualquer boate que fosse, foi direto para o bar beber. Não o deixaram entrar novamente. Então ele teve a idéia de comprar logo uma garrafa inteira de cachaça e beber do lado de fora, do lado de fora ninguém poderia o expulsar. Como aquilo era divertido, aquilo sim era divertido, que grande aniversário! Estava ficando difícil ficar sem dormir aquele tempo todo, e ele decidiu que cochilar um pouco na cápsula não fazia necessariamente com que o dia acabasse, essa era uma regra boba e que não fazia muito sentido. Em pouco tempo seu dinheiro acabou, mas não tinha problema, ele descobriu que era só estender a mão enquanto estava sentado na calçada que algumas pessoas o davam moedas sem pedir nada em troca. Talvez porque fosse o seu aniversário. E assim passa sua noite, e como durava sua noite, e como se divertia! Até que certo dia, por acidente e por bebedeira, saiu de sua cápsula mais cedo do que devia, e já era o dia seguinte. Merda, acabou sua noite de aniversário. Mas ele não tinha do que reclamar, foi de longe a mais divertida de sua vida. Agora o jeito era voltar pra casa, tomar um banho e ir pro trabalho. Coisa estranha, não conseguiu encaixar a chave na fechadura. Forçou, forçou, e ela não quis abrir de jeito nenhum. Foi quando uma mulher saiu de lá de dentro, e deu grito apavorado.
- AAAAIIIIIII, sai, sai daqui, eu vou chamar a polícia!
- Mas eu moro aqui, merda!
- Socorro, socorro, ladrão!
- Ladrão é a senhora, tá louca? Tá louca? Eu moro aqui, tá louca?
E dois homens, que até ontem eram seus vizinhos, o expulsaram do prédio, e dessa vez além dos socos e pontapés ainda levou ameaças de morte. Mas tudo bem, ele já estava pensando em se mudar daquela cabeça de porco para um lugar melhor, mesmo. Agora precisava ir trabalhar, já estava atrasado, e não é porque ontem foi seu aniversário que ele teria desculpa para chegar atrasado. E qual não foi sua surpresa quando percebeu que o banco em que trabalhava não era mais um banco, além de todas as lojas em volta, tudo havia sido destruído para a construção de um shopping. Ficou surpreso em como conseguiram construir um troço tão grande de um dia pro outro, mas não esquentou com isso. Já que sua agência não existia mais ele podia tirar o dia de folga, pelo menos até que o transferissem para uma agência nova. Bem, já que não tinha trabalho, o melhor era voltar para a diversão. Mas dessa vez, com a cachaça e sua cápsula do tempo, estava disposto a fazer a noite durar para sempre, apesar de não ser mais seu aniversário.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Cada Blog Tem o Post Pago que Merece

de comercial@bebecalminho.com.br
para refluxogastrico@gmail.com
data 12 de junho de 2008 16:48
assunto REFLUXO (RGE)

Boa tarde,

Vimos informar-lhes que fabricamos e comercializamos a cadeirinha BebêCalminho.
Trata-se de uma cadeirinha que ajuda no tratamento do refluxo gástrico, permitindo que o bebê fique em uma posição mais confortável (45º).
Gostaríamos, pois, que divulgassem o produto, para as mamães que têm enfretado este tipo de problema com os seus bebês.
Visitem o nosso site: www.bebecalminho.com.br, lá encontrarão tudo sobre o distúrbio RGE, alem vários depoimentos de sucesso com a utilização da cadeirinha BebêCalminho.
Grato,
EQUIPE DO BEBECALMINHO
31 33097077
comercial@bebecalminho.com.br


Pronto, agora que já dei a dica, é só esperar me mandarem uma cadeirinha BebêCalminho de brinde, não é assim que funciona?

Piedade, Senhor. Piedade.

terça-feira, 20 de maio de 2008

A Felicidade

Foi ótima a idéia de passar a lua de mel no interior do interior, fugindo da obviedade de hotéis cinco estrelas em Paris. Estavam adorando entrar em contato com uma realidade tão diferente da que estavam acostumados. Os lugares, as pessoas, tudo era divertido para eles. Fotografavam tudo. Perdiam-se pela estrada de propósito, só para conhecer lugares que ninguém a não ser os que moravam ali conheciam. Estavam com fome, e pararam o 4X4 em frente a um casebre que parecia ser um restaurante. O lugar era imundo, escuro, todo de madeira, e parecia prestes a desmoronar pela ação dos cupins, mas o casal achou tudo muito pitoresco. Pitoresco foi a palavra mais usada da viagem, depois de mô e momô, apesar das duas últimas não serem palavras, eu acho. Sentaram em uma mesa bem no canto do boteco, rindo de tudo, se beijando e trocando carícias.

- Nossa, que cidadezinha pitoresca, mô! Ainda bem que eu trouxe a máquina, ninguém ia acreditar que a gente veio aqui!

- E esse bar, então? Mais pitoresco impossível!

- E olha aqueles caras sentados na outra mesa... Muito figuras!

- Nossa, é mesmo, momô! Hahaha, olha só! Sérios, bebendo cerveja, muito figuras! Tira uma foto, momô, tira uma foto sem eles perceberem!

Os dois homens sentados na outra mesa notaram a presença do casal, muito estranha em um bar como aquele, o bar que eles freqüentavam todos os dias.

- Ô, Zé? Que merda é aquela ali?

- Sei lá. É um casal, Nildo.

- Eu sei, mas que merda de casal é aquela?

- Não sei... Parecem turistas, eu acho.

- Turistas? Turistas aqui? Desde quando tem turista aqui?

- Não sei, mas são turistas.

- E porque eles tão rindo? Porque eles tão sentados numa mesa, nessa merda de bar, rindo? O que eles tão fazendo aqui, Zé?

- São recém-casados, Nildo.

- E porque não tão em Paris? Olha o carro do cara, ele tem dinheiro, porque não tão em Paris? Porque tão nessa merda de cidade e não em Paris?

- Melhor esquecer eles, Nildo. Finge que eles não tão aqui.

Mas era difícil ignorar as risadas altas e os estalos de beijos mais altos ainda.

- O que você vai comer, mô?

- Ai, não sei, momô... Será que tem petit gateau?

- Hahaha, petit gateau! Muito boa essa, mô!

- Hahaha!

- Porra... Eles não param de rir, Zé. Eles não param de rir!

- Deixa pra lá, Nildo, deixa pra lá...

- Mas o calor das risadas tá esquentando a minha cerveja!

- Eles só tão de passagem, daqui a pouco vão embora, calma...

- Chama o garçom, momô.

- Garçom!

- Pode dizer.

- Você tem o menu, por favor?

- Não tem menu.

- E o que tem, então?

- Mocotó.

- Mocotó?

- É, mocotó.

- Ah...

E depois de um momento de silêncio, o casal caiu em uma crise de riso incontrolável, que parecia não ter fim.

- Caralho, Zé, por que eles tão rindo, Zé, por quê?

- Porque o Geraldo falou mocotó.

- Mocotó? E desde quando mocotó é engraçado? Que tipo de gente acha mocotó engraçado? Eles são malucos, é isso?

- Não, Nildo, eles não são malucos, é que...

- É que o quê, Zé?

- Bem, eles...

- Eles o quê, Zé? Fala!

- Eles são felizes, Nildo.

- Felizes?

- Sim, felizes.

- Filhos da puta!

E levantou-se num impulso, derramando toda a cerveja. Foi andando na direção do casal, que continuava rindo incontrolavelmente. Mas pararam num susto quando Nildo raivosamente puxou uma cadeira e sentou na mesma mesa que os dois.

- Geraldo, traz o mocotó. Traz a panela toda de mocotó.

- E você tem dinheiro pra pagar?

- Não, mas não é pra mim. É pro casal feliz aqui na minha frente.

Mô olhou assustada para momô, que não sabia bem o que fazer.

- Desculpe, senhor, mas nós não queremos o mocotó, estamos apenas de passagem e...

- Ora, mas como não? Mocotó não é engraçado? Pois então!

- Desculpe, senhor, mas minha mulher está assustada, nós não esperávamos esse tipo de interação com os locais, agora se nos dá licença...

- Licença é o caralho!

E os dois já faziam menção de levantar, quando Nildo tirou uma peixeira por baixo da calça, uma peixeira que começava acima da cintura e acabava na altura do joelho, e a colocou sobre a mesa. Momô achou melhor não desafiar o homem pitoresco, sabe-se lá do que aquele tipo de gente era capaz, e permaneceu sentado. Mô começou a chorar de medo. O mocotó chegou, e Nildo obrigou o casal a comer tudo, toda a panela. Devia ter mais de seis quilos ali dentro. E como Nildo ria vendo aquilo, há muito tempo não ria tanto. Nunca ria, na verdade.

Depois de comerem o cozido dos infernos, o casal decidiu que já era hora de terminar a viagem, e voltaram correndo para casa. Mas infelizmente a mistura de gordura e bactérias do pitoresco prato não fez bem ao mal acostumado organismo do casal. A pele sempre tão bonita de mô começou a escamar de forma estranha. Em poucos dias já parecia a Hebe Camargo. E passava cremes, e massagens, e cirurgias plásticas, mas pouco adiantava, o mocotó danificou irreversivelmente sua pele. Com momô as conseqüências não foram muito melhores. Virou um peidorreiro crônico. Simplesmente não conseguia parar de peidar, não importa onde estivesse, eram pelo menos dois por minuto, e todos cheirando a mocotó. Claro que nenhum dos dois agüentou a situação por muito tempo, e se divorciaram. Logo eles, que eram o casal mais feliz e mais invejado da alta sociedade brasileira.

Moral da história: O importante nessa vida é ser feliz. Mas desde que não se incomode os infelizes. Lembre-se que eles são maioria, são rancorosos, e não têm muito que perder.

sábado, 10 de maio de 2008

E Quem Se Importa?

- Tia, dá um trocado?

- Hoje o professor de fisiologia entregou as provas, tirei meio.

- Tá falando comigo?

- Gente, meio! E ainda me entregou a prova com aquela cara de “Pensou que fisiologia é fácil?”. Ai, eu odeio quando o professor acha a matéria dele mais importante que a dos outros. Dá vontade de dar um tiro, né?

- Não sei, eu só fiz escola até a segunda série... Mas e o trocado, você tem?

- Agora vou ter que deixar de ver o top 15 MTV pra estudar... Muito tiste(carinha tiste).

- E daí, porra? Não quer me dar dinheiro fala logo!

Babi andava pela rua tão imersa nos próprios pensamentos que nem percebeu o moleque enfiando a mão na sua bolsa e roubando seu celular. Parou no ponto de ônibus, e começou a contar a qualquer um que estivesse perto dela sobre a divertida viajem com suas amigas a Saquarema. Isso sem deixar escapar qualquer pequeno detalhe desinteressante, e historias engraçadas que não tiveram graça nem quando aconteceram. Desesperadas, as pessoas pegavam o primeiro ônibus que passava, mesmo sabendo que era o ônibus errado, apenas para escapar da narrativa mocoronga. Finalmente chegou o ônibus de Babi, ela entrou e sentou no corredor, ao lado de um senhor de seus setenta anos, que cochilava tranqüilamente após um longo dia de trabalho senil. Mas o velho acordou assustado quando Babi deu um grito histérico sem qualquer explicação aparente.

- BAIXEI O DISCO NOVO DO BON JOVI HOJEEEEEE!!!

-AI, MEU DEUS!!! Que isso, que é que aconteceu?

- Caraleo, muito fodaaaaaaa, woohoo!!!

- Que é que houve, minha filha, pelo amor de Deus!?

- O Bon Jovi novo é um absurdo de bom!

- Hã?

- Sério, desde que saiu o “Horse’s cock” que eles não lançam um disco tão maravilhoso!

- Que merda é essa que você tá falando, menina?

- Ai, a música “Forehead Love” é muito linda… Gente, impossível não chorar ouvindo ela, love you in the forehead..., aí eu começo a pensar no Paulinho, nos nossos três meses juntos... Me acabo!

- Peraí... Eu te conheço por acaso? Que me interessa Paulinho? Que é que eu tenho com a sua vida? Pra que você me acordou? Pelo amor de Deus...

- Mas você não tá entendendo, não tem noção de como o disco é bom! Ouve só no meu Ipod, e depois comenta o que você acha.

E o velho ouviu, por mais ou menos quinze segundos, antes de se levantar e saltar do ônibus sete pontos antes do que deveria. Como não era pessoa muita pacífica, ou boa, preferiu sair antes que enfiasse o ipod no cu da garota e fosse preso por estupro.

Chegou em casa, e seu pai já estava com a mesa servida e jantando. Babi fez seu prato e sentou-se em frente ao pai.

- E aí filha, como foi na facul hoje?

- Eu te espero/De braços e pernas abertas

- Hein?

- Por dias e meses/Agüentando enquanto posso

- Que isso?

- Arranhando as paredes/Excitada e ansiosa

- Ah, um poema? Que bonito!

- E quando você finalmente chega quase desmaio

- Que lindo, minha filha é poeta!

- Você tira aquele canhostro gigante das calças

- Canhostro?

- E eu me abro toda como uma ostra

- Babi, que isso?

- Melada como pipoca doce/Espero sua piroca doce

- Babi, pára. Sério, pára.

- Minha vulva te envolve/Você lambe mas não resolve

- Pelo amor de Deus, por que você tá me falando isso?

- Preciso do seu caralho!

- Não olha nos meus olhos enquanto fala isso, pelo amor de Deus, não olha nos meus olhos!

- Mete!/Mete seu patrusco até eu não agüentar mais!

- Pára! Pára! Eu sou seu pai, pára!

- Só com você eu jorro como cachoeira!

- Aaaaahhhhhhhh...

- Me chama de filhinha e me fode inteira!

- AAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHH!!!

E depois de vomitar em cima do prato, ele saiu em disparada para o banheiro, fechou a porta e, desesperado, engoliu uns vinte lexotans. Logo ele que nunca tinha tomado calmantes na vida. Morreu fácil.

Foi quando Babi acordou. “Foi só um sonho!”, pensou aliviada. “Acho que a partir de agora é melhor dar um tempo no meu blog. Esse sonho deve ter sido um sinal de que estou falando demais da minha vida.” Acordou feliz e foi ao banheiro, mas teve dificuldade para abrir a porta, já que o corpo do seu pai estava atrapalhando a passagem.

“É... Acho melhor dar um tempo nas anfetaminas também.”

quarta-feira, 23 de abril de 2008

O Boa-praça

Era o tipo de cara que todos gostavam, e ele também parecia gostar de todo mundo. Sempre tinha um comentário simpático ou uma piada para qualquer pessoa com quem encontrasse, seja quem fosse. De galanteios a velhas de oitenta anos a caretas para bebês de seis meses, sempre conseguia arrancar um sorriso de quem conversava. Já aposentado, não gostava de sair da rotina, e costumava ir sempre aos mesmos lugares e nos mesmos horários. Pelo menos três vezes por semana ia ao mercado, quase sempre para comprar as mesmas coisas. Parava ao lado das pessoas nas prateleiras, apenas para fazer comentários engraçadinhos e vê-las sorrir.

- É... Com a Caracu a esse preço parece que querem mesmo botar no nosso... Né não, hein?

E dava uma piscadela pro homem com cara de bebedor de cerveja que colocava garrafas de Bohemia Weiss ao seu lado, e que irresistivelmente dava um franco sorriso em troca da piada extremamente sem graça.

- É... Com a cebola a esse preço não precisa nem descascar para começar a chorar! Né não, hein?

Essa foi para uma senhora de idade um pouco avançada com cara de dona de casa, que soltou uma gargalhada quando ouviu o comentário infame. Como toda dona de casa de idade um pouco avançada, ela parecia ter uma certa preferência por piadas bobas e sem graça. Às vezes essas piadinhas davam início a conversas longas, quase sempre sobre o preço das coisas, e Seu Gilson ficava contente com isso, ficava contente conversando sobre qualquer coisa, tudo era pretexto para fazer os outros sorrirem.

Depois ia para a fila, sempre sorridente. Gostava de estar com outras pessoas, mesmo que em uma fila de mercado. Era uma pessoa feliz. Chegava no caixa, e era quase sempre a mesma atendente que o atendia.

- E vocês aceitam cheque?

- Sim, Seu Gilson, aceitamos.

- Que pena...

- Por quê?

- Porque eu não tenho cheque.

- Ai, Seu Gilson, o senhor não tem jeito mesmo...

Mas de quem mais gostava era da empacotadora. Era uma moça jovem, de seus dezenove anos, simpática e sempre disposta a conversar com Seu Gilson.

- Ô, Seu Gilson! Quase que não reconheço o senhor hoje, tá cada vez mais jovem!

- Ah, Dorinha, é mesmo? Por que será? Deve ser porque estou usando casaco.

- Casaco? E por que um casaco ia te deixar mais novo?

- Porque esconde minha corcunda gigante de velho! Né não?

- Hahaha, é, pode ser... Que isso, alpiste? Pra que o senhor tá comprando alpiste?

- Ah, isso é pro papagaio.

- Ué, não sabia que o senhor tinha papagaio.

- E não tenho. Mas não quero correr o risco de não ter comida se aparecer um lá em casa. Por que não tem coisa pior que papagaio com fome, né não?

- Hahaha, é verdade. Mas falando sério, pra que o senhor comprou o alpiste?

- Ora, pra isso!

- Não me diga que foi só pra fazer essa piadinha comigo?!

- Bem...

- Ah, Seu Gilson, o senhor é uma gracinha!

E saía de lá nas nuvens. Não sabia explicar porquê, mas o sorriso de Dorinha tinha um significado especial para ele. Fazê-la rir dava a Seu Gilson uma satisfação maior do que fazer qualquer outra pessoa rir. Talvez porque ela representasse para ele a inocência, a pureza, a beleza de espírito. Ou talvez simplesmente porque gostava do jeito sincero com que ela ria de suas piadas. O fato é que pensava cada vez mais nela, e esperava cada vez com mais impaciência seus encontros com Dorinha. Criava pretextos para ir ao mercado, só para se encontrar com ela e vê-la rir e ensacar suas compras.

Um dia não se conteve, e quando Dorinha acabou de empacotar e lhe entregou suas sacolas com um sorriso, Seu Gilson deu um beijo em sua bochecha esquerda. Um beijo inocente, mas cheio de ternura, pelo amor que Seu Gilson sentia por todos, por todas as pessoas, por todos que gostava, por todos que eram bondosos com ele, todos esses representados por Dorinha, a favorita do aposentado. Virou-se já para sair do mercado, transbordando de alegria, quando percebeu as pessoas o olhando de forma estranha, como se tivesse feito algo de errado. Voltou para Dorinha, e ela estava branca, paralisada, espantada, como que a ponto de chorar, olhando para Seu Gilson com olhos confusos e arregalados. Todos que estavam no mercado pararam o que estavam fazendo para olhar para Seu Gilson, as mulheres balançando a cabeça negativamente, e os homens com olhares de revolta, ou até raiva contra ele. Apavorado e surpreso, e sem saber muito bem o que fazer, Seu Gilson enfiou a mão no bolso, tirou de lá uma nota de dez e, tremendo, a estendeu para Dorinha, como se estivesse estendendo um pedaço de carne a uma hiena faminta. Essa pegou a nota de dez, e instantaneamente o sangue voltou ao seu rosto, assim como sua expressão de sempre, e foi com o sorriso de sempre que se despediu de Seu Gilson.

- Ô, Seu Gilson, obrigada! Volte sempre, viu? – Disse na maior naturalidade.

Assim como ela todos do mercado desviaram a atenção dele no mesmo instante, a maioria esquecendo do episódio quase na mesma hora. Apenas uma ou outra velha rancorosa continuou balançando a cabeça negativamente.

Depois desse dia as piadas de Seu Gilson passaram a ser cada vez menos freqüentes, assim como suas demonstrações de afeto. Agora quando via uma criança que o agradava, ou quando algum funcionário era simpático com ele, simplesmente metia a mão no bolso, tirava de lá uns trocados e os dava no máximo com um sorriso. Aprendeu que, na sua idade, é muito mais direito dar dinheiro do que beijos e carinhos às pessoas, além de mais elegante socialmente.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Olhos

- Me empresta seus olhos?

- Como?

- Os olhos, seus olhos, me empresta?

- Desculpa, não entendi.

- Os olhos! O-li-ous!

- Olhos?

- É, me empresta?

- Não sei... Pra quê?

- Porra, pra ver com eles, pra quê mais?

- Mas você não tem os seus?

- Tenho, por isso quero os seus.

- Desculpa, mas não entendo.

- É que há vinte anos, há pelo menos vinte anos que eu pego esse ônibus. Sempre do mesmo lugar pro mesmo lugar. Sempre o mesmo caminho, e sempre vendo a paisagem do mesmo jeito. Já conheço tudo dessas ruas, todos os bueiros, os portões, os sinais, sempre vejo as mesmas coisas. Cansei de ver sempre igual. Depois de vinte anos meus olhos já estão viciados, olham sempre pras mesmas coisas. Quero experimentar ver o mundo com olhos frescos, entende? Quero sentir como outra pessoa vê o mundo, quero experimentar isso.

- Entendo, entendo. Bonito isso. Pena que não dá, né?

- O quê não dá?

- Pra eu te emprestar meus olhos.

- Ou!, fala isso não, cara! Fala isso não, brou! Tudo dá-se um jeito!

- Mas como que eu vou te emprestar meus olhos?

- Calma, uma coisa de cada vez. Tira eles primeiro.

- Tirar? Como?

- Ah, é fácil, você enfia o dedo por baixo assim, ó... Posso?

- Esteja à vontade.

- Então, é só enfiar assim, e fazer força pra fora... Pronto, pulou pra fora. Agora é só pegar esse músculo aqui que segura ele, tá vendo, ó?

- Não.

- Ah, é verdade, claro que não. Mas é só pegar ele assim e cortar... Você tem um canivete?

- Tenho um isqueiro.

- Serve, obrigado. Aí o que a gente faz? Queima ele assim, ó, pra soltar o seu olho.

- É normal doer?

- É, dói um pouquinho, mas com o tempo passa.

- É, é que tá doendo bastante.

- É assim mesmo, mas tá queimando, tá queimando... Ó, tá quase soltando... Pronto, soltou. Sua sobrancelha que queimou um pouquinho, mal aí.

- Ah, é? Nem senti, a dor no olho tá tão insuportável que eu não estou sentindo mais nada no meu corpo. Sinceramente não sabia que existia dor tão forte no mundo. Uma vez tive fratura exposta no braço esquerdo, mas a dor foi pelo menos trezentas vezes mais fraca que a que estou sentindo agora. É normal isso?

- É, normal, com o tempo passa. Agora fazemos o mesmo com o outro olho...

- Você tem um lenço, amigo? Pra enxugar um pouco o sangue.

- Não.

- Sem problema, obrigado.

- Pronto, já saiu o outro. Agora... Posso sentar na janela? Pra ver a paisagem com os seus olhos melhor.

- Claro, à vontade.

- Obrigado. Agora é só achar um jeito de enxergar com eles. Vamos ver... Como eu faço isso, hein?

- Não sei... Tenta colocar eles na frente dos seus olhos como se fossem binóculos.

- Não... Não adianta. É, acho que não dá não... Deixa pra lá. Dá não. Uma pena, queria vez o mundo com seus olhos. Uma pena. Bem, mas pelo menos agora tô sentado na janela. Odeio sentar no corredor.

- É... É ruim, mesmo.

Sangrando muito e sem os olhos, ficou se perguntando se aquele homem havia se aproveitado de sua boa fé. Mas quem era ele pra julgar as pessoas assim? Ele não tinha esse direito. Tirou os pensamentos maus da mente, e fez questão de pedir desculpas ao homem da janela antes de saltar do ônibus. O homem não entendeu porque o outro se desculpava, mas desde pequeno aprendeu que não se deve contrariar os cegos, ainda mais os que não tem córneas, e perdoou o pobre homem. Aliviado por ter sido desculpado por seus pensamentos insultuosos, saltou do ônibus, e com muito custo achou o caminho de casa. Antes de dormir tomou uma homeopatia para perda de olhos, certo de que amanhã tudo estaria bem. Acordou morto no dia seguinte. Sua ingenuidade nunca o deixou aprender que homeopatia não funciona.

Essa foi uma mensagem em apoio à campanha Homeopatia Não Funciona: homeopatia não funciona.

domingo, 16 de março de 2008

A Cama

- Querido!, já chegou? Tudo bem? Como foi o seu dia?

- Nada, como sempre.

- Não tem problema, um dia você consegue. Olha o que eu fiz hoje, olha o que eu fiz hoje... Feijão, do jeitinho que você gosta! Ficou feliz, ficou?

Fazia feijão pelo menos cinco vezes por semana, mas sempre falava com o marido como se só fizesse uma vez por ano. Ele já estava há mais de cinco anos desempregado, há pelos menos três eles não trepavam, e só se beijavam em aniversários e feriados, mas Deise se recusava a desanimar. Conservava sempre a mesma empolgação e a mesma esperança no futuro, e por nada tirava o sorriso do rosto, apesar da vida tentar forçá-la a fazer o contrário. Isso tudo dava a ela uma cara de cu contente, pelo menos era assim que Valdir a classificava.

- Tava bom o feijão, tava? Ficou gostoso?

- Tava como sempre.

- Ah, que bom, que bom que você gostou.

- Vou dormir.

- Mas já?, são só nove horas! Mas é que você deve tá cansado, né? Procurando emprego o dia todo... Dorme com Deus, viu?, que amanhã tudo melhora, com certeza.

- É, tá bom.

Aquela era a hora favorita de Valdir, a de dormir. Não se importava que a casa estava caindo aos pedaços, que todas as contas estavam atrasadas, que metade dos móveis já tinham sido vendidos para poderem comprar comida, o importante é que ele ainda tinha sua cama, e para ele já era o suficiente. Na verdade não era uma cama, era só um colchão, um colchão sobre o chão duro, mas ele não trocaria aquilo por nada no mundo. Ali ele era rei, vestia ternos caros, dirigia carros importados, comia as mulheres da televisão, resolvia assuntos importantes e era chamado de doutor, apesar de não terminado o segundo grau. Poderiam tirar a casa dele, a comida e suas roupas que ele não se importaria, levaria seu colchão para debaixo de uma ponte e para ele isso já seria o suficiente.

- Bom dia, amor! Dormiu bem? Fiz seu café, tá aqui, o café. Já vai? Boa sorte, viu? Vai com Deus!

Todo dia era igual. Saía de casa, comprava o jornal, e respondia a algum anúncio de emprego sem a menor esperança de ser contratado. E nunca era, realmente, talvez mesmo pelo desânimo e pela falta de esperança de ser contratado. No resto do dia só ficava vagando pelas ruas, fingindo procurar trabalho, matando o tempo e torcendo para que a hora de deitar em sua cama e dormir chegasse rápido.

- Oi, amor! Já chegou?

Estranhou o rosto de Deise. Não estava com cara de cu contente, mas de cu feliz.

- Que foi, Deise? Aconteceu alguma coisa?

- O quê? Não, claro que não, nada, por quê?

- Não sei, parece que você tá diferente.

- Eu? Eu não! Eu, hein... Fiz feijão, olha! Do jeito que você gosta!

Que se dane que ela estivesse com cara de cu feliz, comeu o feijão e foi dormir. Ali se deitava e ali seus problemas imediatamente sumiam. Se levantou depois das costumeiras onze horas de sono e sonhos felizes, e a cara de cu feliz de Deise parecia esconder alguma coisa dele. Não deu importância àquilo e foi embora, procurar empregos que sabia que não acharia.

Voltou mais cansado que o normal e, estranho, Deise não veio recebê-lo na porta como sempre fazia. Entrou em casa, e demorou uns segundos pra perceber. A sala estava totalmente diferente, cheia de móveis novos. Tv de plasma, sofás de couro, tapetes persas, mesas até onde não cabiam mesas.

- Surpresa!

- Que isso, Deise? Assaltou as casas Bahia?

- Não, meu amor, ganhei na loteria!

- Ganhou?

- Ganhei, ganhei! Fiquei sabendo ontem, mas não quis dizer nada pra te fazer uma surpresa!

Valdir não respondeu nem deu os parabéns, e foi correndo para o quarto. Abriu a porta e seu medo se confirmou, sua cama não estava lá. No lugar tinha uma muito bonita, com lençóis vermelhos e uma cabeceira cheia de detalhes dourados, poderia até estar num museu como tendo sido usada por Dom Pedro.

- E onde tá a cama velha, Deise?

- O quê, aquele colchão imundo? Claro que joguei fora, né? Por quê?

- Não, não, por nada. Quer dizer, era só um colchão velho...

- Ah, Valdir, não precisa chorar, eu também estou muito feliz, meu amor, muito feliz! Agora tudo vai mudar, você não vai mais precisar procurar emprego, agora tá tudo resolvido!

Dessa vez não comeram feijão, foram a um restaurante francês vestindo as roupas novas que Deise havia comprado. Terminaram e Deise pagou a conta em dinheiro vivo. Valdir saiu do restaurante com fome, os pratos eram minúsculos apesar da conta gigantesca, quando chegou em casa teve que comer um resto de feijão que estava na geladeira. Foi dormir na cama nova, mas antes, por questão de educação, foi obrigado a comer a esposa, como mostra de satisfação por ela ter ganhado na loteria. Demorou muito para pegar no sono, e quando pegou foi por pouco tempo. Acordou cedo, depois de uma noite de poucos sonhos, todos curtos e sem sentido. Era ele em uma fila de banco sendo assaltado, caindo de bicicleta, sofrendo um acidente qualquer, enfim, sonhos comuns que todos sonhamos e esquecemos logo que acordamos. Seus sonhos tinham ido embora, junto com sua cama, o único consolo de sua vida. Agora já nem tinha pretexto para sair de casa, não precisava mais procurar emprego, estava obrigado a passar os dias com sua esposa recém-rica. Estava aprisionado na própria vida.

- Valdir, vem aqui fora, tenho uma surpresa!

- O que foi?

- Tá vendo esse Jaguar aí?

- Tô.

- Pois é seu, querido, é seu!

- Meu?

- Sim, seu! Não era o carro dos seus sonhos, um Jaguar?

- É, era sim.

- Pois então, é seu! Seu, todo seu! Ficou feliz, ficou?

- Fiquei, fiquei sim. Obrigado, Deise.

- Agora vamos dar uma volta, né?

- Sim, vamos.

E foram andando sem destino, ela com um sorriso de orelha a orelha, ele dirigindo o Jaguar como se fosse um Fusca. Passavam ao lado de um rio, um desses rios urbanos de esgoto, quando Valdir, aparentemente sem motivos, virou o volante bruscamente e atirou o Jaguar pra dentro d’água. Saiu do carro correndo, nem perguntou se Deise estava bem, nadou alguns metros e subiu em um colchão. No seu colchão. De nada adiantaram os gritos de Deise para que ele voltasse, que não sabia dirigir e que o carro estava sem seguro. Ele já estava longe, boiando em cima de sua cama, sendo levado pela correnteza. E sonhando feliz, mesmo com a vida passando sobre um rio de merda.