sábado, 22 de dezembro de 2007

A Metamorfose Revista (Por um Idiota)

- Bom dia, senhor.

- Humpf... É, bom dia sim, tá bom...

- Aceita um cafezinho?

- Tem sem açúcar?

- Não senhor, apenas com açúcar ou adoçante.

- Pois eu não posso tomar com açúcar e odeio adoçante! Ora, pra que me oferece se não tem sem açúcar?

- Desculpe, senhor, mas como eu poderia saber que...

- Tá, tá bom, não enche, tá?

- Eu hein, cara mal educado...

Ele andava muito amargo nessa época, e tinha consciência disso. Já teve um tempo em que ele era muito doce e simpático com as pessoas, e ele sentia saudades desse tempo. Mas sua vidinha mocoronga, seu empreguinho insuportável de catalogador de fichas que iriam para o lixo, seu salário miserável que não era suficiente para sair da casa dos pais, tudo isso foi deixando Carlos cada vez mais irritadiço, rancoroso e mal-humorado com a vida e as outras pessoas. Chegou naquele dia em casa no ápice da amargura:

- Oi, Carlinhos! Como foi o trabalho hoje, meu filho?

- Ah!, ótimo, mãe, ótimo! – respondeu Carlinhos com um sarcasmo tão óbvio que mal dava para chamar de sarcasmo – Hoje cataloguei um monte de fichas para depois elas serem jogadas no lixo! Legal, né? Porque é isso que eu faço, catalogo fichas que vão pro lixo! Que maravilha de trabalho, não?

- É... Bem, quer jantar agora, Carlinhos?

- Não, não, vou primeiro praticar um pouco de Squash na minha quadra particular...

- Squash? Mas eu nunca vi você...

- É claro que quero jantar agora!

- Ah, sim, desculpa, desculpa. Eu fiz bolo de carne. Você gosta de bolo de carne, não gosta?

- Tanto faz, me dá essa merda logo que eu tô com fome. E vê se não me enche o saco!

Comeu o bolo de carne, seu prato favorito, como se fosse uma massinha de modelar. Simplesmente não sentia mais prazer em nada. Tudo e todos o irritavam, e ele sofria com isso.

- Vou dormir.

- Mas Carlinhos, são oito e meia da noite...

- E daí? Por que não posso dormir agora? Tenho que ver a novela, por acaso? Ah, tenho que ver a novela, né? Pois então agora só saio daqui quando acabar essa merda!

- Carlinhos, não precisa...

- SSSHHHHHHHHH!!! Tá começando a novela!

E assistiu do início ao fim, não levantou nem para ir ao banheiro. Fazia tempo que não assistia a novela das oito, e achou tudo extremamente imbecil. Nem as atrizes supostamente gostosas ele achou gostosas.

- Boa noite, Carlinhos.

- Grau! – respondeu ele estranhamente, e foi dormir.

Acordou no dia seguinte mais tarde que o normal, tentou se levantar da cama e não conseguiu. Não conseguia se mexer. Também não conseguia ver, nem ouvir, ou qualquer dessas coisas que as pessoas fazem sem muito esforço. Mas imediatamente, não sei como, ele percebeu o que tinha acontecido.

“Meu Deus, eu não acredito, me transformei em um limão! Mas como isso é possível? Eu sei que andava bastante amargo, mas me transformar em um limão!? Pensando bem, acho que faz sentido. É, faz sentido.”

Até que ele aceitou numa boa.

“E o que eu faço agora? Acho que nada, né? Quer dizer, eu sou um limão, o que se espera que um limão faça? Acho que eu vou só ficar aqui parado sendo um limão.”

Passavam-se as horas, e sua mãe foi ficando preocupada. Foi bater na porta do quarto de Carlinhos, mesmo correndo um risco de levar um esporro do filho ranzinza.

- Carlinhos! Carlinhos, meu filho, você está duas horas atrasado! Você está me ouvindo, Carlinhos? Olha, eu vou entrar, hein? Você não está pelado não, né? Nem tocando... Enfim, vou entrar!

Entrou, e lá estava ele, sendo um limão.

- AAAAAAAAAAAAAAAAIIIIIIIIIIIIIIII!!! Socorro!!! Socorro!!!

- O que foi mãe, o que foi, o que aconteceu?!

- No quarto do seu irmão, no quarto do seu irmão!

- E o que tem no quarto do meu irmão?

- Um limão, um limão!

- Um limão?

- Sim, um limão!

- E daí?

- E daí?! E daí?! Bem, e daí que... É...

- A senhora tem medo de limão?

- Hein? De limão? Bem... Acho que não, né? Quer dizer, é um limão, e... É, tem razão, desculpe.

- Alzheimer...

- Mas o que um limão está fazendo na cama do seu irmão?

- Sei lá, ele deve ter saído atrasado pela janela e deixou um limão na cama, o que tem de errado nisso?

- Nada, eu acho...

- Tem cachaça aí?

E junto com a cachaça, o açúcar e o gelo, Carlinhos se transformou em uma deliciosa caipirinha, refrescando e embriagando sua mãe e irmã em plena terça-feira de manhã. Nunca se sentiu tão útil, doce e feliz em toda a sua vida.