sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Um Exemplo de Vida

Eram muito pobres os dois, mãe e filho. Bem, muito pobres não, mas eram pobres. Não tinham dinheiro sobrando, essa era a verdade. A mãe, Dona Madalena, estava desempregada, não tinha nenhum talento especial nem conhecimento para fazer nada importante, e não tinha perspectiva de um emprego razoável. Se preocupava muito com o futuro do filho, Alceuzinho. Queria que ele tivesse uma vida melhor que a dela, e do jeito que a coisa andava parecia que isso não ia acontecer. Foi quando percebeu que o moleque tinha uma inteligência fora do normal.

Com um ano ele já alertava a ela a importância da esterilização de sua mamadeira, com dois aprendeu a tocar violino, com três largou o instrumento por perceber como era inútil saber tocar violino, com quatro já sabia ler e escrever em três línguas diferentes, e com cinco trouxe da aula de artes da escola uma cópia perfeita do David de Michelangelo.

- Meu filho, não acredito, foi você que fez isso? Isso é uma obra de arte, meu Deus!

- Ora, por favor, não me faça rir, maman! (ele gostava de falar algumas coisas em francês) A senhora deve estar gozando da minha cara! Isso não passa de uma cópia fajuta, feita com uma massinha da mais vagabunda!

- Mas meu filho, tá perfeita!

- Perfeita? Rá! (Gostava de rir com sotaque francês) Pois está é totalmente desproporcional! A senhora está cega ou o quê? Veja o tamanho do pênis, por exemplo, está quase pornográfico! Todos sabem que o tamanho do pênis do David de Michelangelo é equivalente ao de uma criança de três anos!

- Ah, meu filho... Você é mesmo um gênio!

- Eu não diria isso, maman, creio que hoje se usa muito vulgarmente a palavra gênio, e isso tira dela sua real importância, pois como disse certa vez o poeta Iugoslavo...

- Cala a boca, moleque chato! Ô criança insuportável...

Dona Madalena chegou à conclusão que a genialidade de Alceuzinho deveria ser o passaporte de saída deles daquela vida mais ou menos. Agora só precisava descobrir como. O moleque era gênio, mas muito novo para trabalhar, e travado na sua escolinha pública miserável, dificilmente conseguiria desenvolver toda a sua potência do pensamento.

Foi quando ela assistiu a um quadro de um programa dominical na tv, chamado “Exemplo de vida”. A premissa do quadro era simples: mostrar toda a desgraça e miséria da vidinha do infeliz, fazê-lo chorar, humilhá-lo, para depois de alguma forma ajudar o pobre coitado. Normalmente só o que davam era uma geladeira nova, um sofá das Casas Bahia, mas quem sabe?, talvez quando eles vissem a genialidade do Alceuzinho dessem coisa melhor. Ligou para o programa, e um produtor veio analisar o caso.

- É, o garoto é realmente inteligente, muito inteligente mesmo, muito inteligente... E o quê a senhora pensa em ganhar do programa?

- Ah, a gente tá precisando de muitas coisas... Uma tv LCD 32”, um dvd daqueles com videokê que dá ponto, uma banheira de hidromassagem...

- Nós poderíamos dar uma bolsa em uma escola pra crianças superdotadas.

- Hein? É, isso aí tá bom também...

- Mas tem uma coisa, Dona Madalena, nós vamos precisar fazer algumas modificações na vida de vocês.

- Ah, é? Mas por que?

- Porque vocês não são muito pobres. As pessoas precisam sentir pena do moleque quando virem ele na tv, e esse lugar onde vocês moram... Nem favela é!

- Bem, é um centro habitacional...

- Mas não é favela! Percebe? Portanto a senhora vai ter que se mudar pra algum lugar mais... Subterrâneo. Tipo um barraco em um túnel movimentado, ou em uma galeria de esgoto.

- Tá certo, fazer o quê?, se for para o bem do meu filho...

- Outra coisa, a senhora tem alguma deficiência física?

- Não, não tenho.

- É, vamos ter que ver isso aí também... Mas agora chama o Alceuzinho que eu quero falar com ele.

- Alceuzinho! Larga esse sapo morto e vem aqui falar com o tio da tv!

- Boa tarde, senhor.

- Oi, Alceuzinho! Tudo bom?

- Oui, oui, tudo bem. Estava dissecando aquele sapo, é realmente interessantíssimo como temos semelhanças com os sapos. O senhor já reparou no sistema digestivo dos sapos? Oh, é fascinante, fascinante!

- Pois é, Alceuzinho. Sabe?, vamos ter que mudar esse seu jeito de falar. As pessoas não simpatizam com esse jeito de falar em um garoto de cinco anos. Você pode continuar fazendo suas coisas de gênio, aliás deve, mas falando de um jeito mais bonitinho. Por exemplo, trocando algumas letras e colocando o x em palavras que ele não existe, entende?

- Xim, xim, acho que entendi xim, moxo.

- Esse é o espírito!

A primeira participação de Alceuzinho no programa foi um sucesso absoluto. Mostraram toda a sua falsa história trágica: Seu nascimento no meio do lixão de Gramacho, o terrível acidente que deixou sua mãe corcunda e manca, e a vida difícil passada em um barraco nos trilhos da linha 2 do metrô. A emoção era geral,e todos ficaram encantados com o garoto meigo que falava como um débil-mental mas que sabia desarmar uma bomba atômica em menos de cinco minutos. Virou celebridade. Passou a ser garoto propaganda de vários produtos feitos para crianças imbecis, de tênis com rodinhas a canudos em forma de óculos para se tomar groselha. Não ganhava um centavo com nada disso, ia tudo para o programa, mas ele ganhava a garantia de ter seus estudos na escola para superdotados paga até que entrasse para a faculdade, assim foi o combinado. E para ele isso bastava. Claro, sua mãe queria ter ganhado uma tv LCD 32”, mas quem se importa com aquela velha?

Não tinha nada que ele gostasse mais do que estudar, e odiava a televisão. Dizia que uma de suas teses na faculdade seria a relação entre horas diárias assistindo televisão e a incapacidade de raciocinar.

Os anos se passaram, e chegou o dia mais importante da vida de Alceuzinho: o dia em que faria a prova para ganhar a bolsa da GSOA (Genious School Of América). Entrar para a GSOA sempre foi o sonho de sua vida, e tudo dependia do seu desempenho na prova do dia seguinte. Mas ele estava tranqüilo, na verdade a dúvida não era se ele passaria ou não, mas em que posição. Mas era certo que passaria em primeiro.

Estava muito nervoso na véspera da prova, se revirava na cama e não conseguia dormir. Decidiu ligar a tv para se distrair. A tv que deu tudo o que ele tinha na vida, mas que ele sempre odiou, e sempre se recusou a assistir. “Mas enfim, que mal pode me fazer?”, ele pensou.

Sua mãe acordou apavorada no dia seguinte:

- Alceuzinho! Alceuzinho, seu filho da puta, acorda, pelo amor de Deus! Já passou meia hora do começo da sua prova! Por que você ta dormindo ainda, moleque?! Acorda, porra!!!

- Hã? Que foi?

- A prova, Alceu, a prova!

- Prova? Que prova? Ah, a prova... É, não vou fazer mais não.

- O quê!? O quê?! Ai, meu Deus, sabia que esses livros todos iam acabar endoidecendo o garoto... Você precisa fazer essa prova, Alceu, você passou a vida toda esperando por isso!

- É... Passei, né?

- Passou, merda!

- É... Mas sabe o que é? É que ontem mudei de idéia.

- O-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o quê?! O quê?!

- É, mudei.

- Mas, mas, mas, mas ,mas ,mas ,mas ,mas, como?! Como?! Como?!

- É que eu não tava conseguindo dormir, né?, aí liguei a tv, né?, aí tava passando o Fantasia, sabe qual é o Fantasia? É aquele que tem um monte de mulher bonita, minha favorita é a Aline, é, eu gosto da Aline, muito bonita a Aline... Aí, pô, muito legal os jogos, e as pessoas ganhavam dinheiro com os jogos! Você sabia que as pessoas ganhavam dinheiro com os jogos? Meu deus, como eu pude desperdiçar minha vida toda naqueles livros, e ignorando essa caixa mágica maravilhosa... Mas enfim, eu liguei pra lá, e falei com a Helen Ganzarolli! Aí eu falei: Helen, você é linda!, e ela falou que eu sou simpático! A Helen, maman! Pô, muito legal... Aí eu joguei na prova dos dados, né?, e se sair caveira você perde, aí eu falei, Ê-êra-êra, não vai sair caveira! E eu ganhei nas cinco primeiras vezes! Maman, nunca fui tão feliz na minha vida, maman, nunca! Só que eu não quis parar, arrisquei na sexta e perdi tudo. Mas não se preocupe, não se preocupe, eu ganhei cem reais porque disse “Eu sou fã do SBT!” Acredita, maman?, eles te dão cem reais só pra você dizer isso! Não é maravilhoso?!

- Mas... Meu filho... E a... E a prova...

- Ah, não vou fazer não.

- Ai meu Deus!!!

E Dona Madalena caiu em um pranto histérico.

- Meu filho!!! Meu filho enlouqueceu!!!

- Calma, maman, calma, não precisa se preocupar!Eu já aprendi a minha lição, nunca mais vou cometer esse erro novamente!

- Quer, quer dizer que vai fazer a prova de novo no semestre que vem?

- Hein? Não, não, isso não. Mas vou ligar pra lá de novo hoje, vou jogar o jogo das caveiras de novo, e dessa vez juro que vou parar quando ganhar quinhentos reais.

- Ai meu Deus!!!

- Não, maman, eu juro que não vou arriscar seiscentos, eu juro! Olha, olha: Ê-êra-êra, não vai sair caveira; ê-êra-êra, não vai sair caveira...

E passou boa parte do resto de sua vida repetindo essa frase, como um zumbi. A tv se esqueceu completamente dele, mas ele nunca mais se esqueceu da tv. E acabou se tornando a prova viva da própria teoria que criou quando ainda era um gênio, a tv realmente emburrece.

Moral da História: Os verdadeiros gênios nunca usam a si mesmos como cobaias, sempre procuram por algum imbecil desocupado.

Moral da História II: Nunca, (Nunca!) arrisque mais de quinhentos reais na prova da caveira, a probabilidade de derrota é muito grande. E se conseguir falar ao vivo com a Helen diz que eu mando um beijo.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

A Dor da Culpa

- Oi, filho.

- Oi, pai.

- Que carinha é essa? Algum problema?

- Hein? Não, pai, não. Nada de mais.

- Filho, eu sou seu pai, e sei quando tem alguma coisa errada com você. Abre o coraçãozinho, vai.

- Bem, é que... Outro dia acordei com uma puta morta do meu lado.

- Uma puta morta, é?

- Sim, pai, foi horrível!

- Ora, filho, isso é normal! Você não sabe que as putas são cheias de doenças, micróbios e tudo mais? Então, elas morrem toda hora.

- Eu sei pai, mas o problema é que... Eu acho que fui eu que matei!

- Foi, é?

- Foi, pai, foi! Eu não lembro direito como aconteceu, tava muito louco naquele dia, mas acordei segurando uma arma, e ela não acordou com três tiros na cabeça!

- E quem disse que foi você quem matou? Quer dizer, alguém pode ter atirado e colocado a arma na sua mão enquanto você dormia.

- Mas era uma semi-automática igualzinha a que você me deu de natal!

- Ora, existem muitas semi-automáticas no mundo, e...

- Mas essa estava com uma etiqueta escrita de papai para Gabriel!

- Tava, é?

- Tava!

- É, então foi você mesmo. Mas e daí?

- E daí? E daí? E daí que eu matei uma mulher, a culpa está me matando! Eu não sei como vou conseguir viver com isso!

- Ah, garotinho ingênuo... Senta aqui que papai vai te ensinar uma coisa. Culpa só existe quando é dos outros. Quando é com a gente não é culpa, é acidente. Entendeu?

- Não!

- Um exemplo: se alguém entrasse no seu quarto, pegasse sua arma e desse três tiros na puta do seu lado, ele seria culpado, certo? Você ficaria revoltado, daria entrevista pro Datena, e quando capturassem o infeliz exigiria pena de morte.

- Mas fui eu que matei!

- Exatamente. Foi você que matou, portanto foi acidente. Você tava limpando a arma e ela disparou, acidente!

- Mas foram três tiros!

- Bem, você queria deixar ela bem limpa, acidente!

- Acidente, é?

- Acidente!

- Mas eu ainda sinto um pesinho na consciência...

- É só matar ela com álcool!

- É... Tem razão pai, tem razão, foi acidente! Obrigado pai, você é o maior!

- Que isso, filho, estamos aqui pra isso.

- Vou correndo contar pra mamãe!

- Er, filho, acho melhor não...

- Mamãe, o papai falou que culpa só existe quando é... Mamãe?! Aaaaaiiiiii! A mamãe morreu! Esfaquearam a mamãe! Pai, o que aconteceu?!

- É que... Foi acidente!

- Acidente?!

- Acidente!

- Acidente, é?

- É...

- Sei... Hahahahaha, ai papai, você não tem jeito mesmo!

- Hehe, eu sei, eu sei... Mas e aí, partiu Ice?

- Partiu! Mas e essa sujeira toda de sangue na cozinha?

- Ah, deixa aí que sua mãe limpa!

- Tá certo, a minha mãe... Ei!... Hahahahaha!

- Uhuhuhuhuhu!

Oferecimento Vodkas Kovak: Há 60 anos convencendo culpados de sua inocência

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Lugar de Paz e Tranqüilidade

- Puta que o pariu, lá vem aquela perua escrota encher a porra do meu saco...

- Bom dia, padre.

- Bom dia, dona Narcisa, que surpresa agradável! Como vai a senhora?

- Ai, padre, nada bem, nada bem, eu...

- Desculpe interromper, mas é que nós não permitimos cachorros na igreja.

- AU, AU!

- Não se preocupe padre, eu não vou demorar. É que a minha vida anda tão sofrida, padre, tão sofrida!

- Ah é, é?...

- AU, AU!

- Ai Padre, é só problema pra cima da gente, só problema! Parece que Deus não quer que a gente tenha sossego, sabe?

- AU, AUUUUU, AU!

- Sabe o que é, dona Narcisa? A igreja é um lugar de paz e tranqüilidade, por isso não permitimos a entrada de cachorros.

- Não se preocupe, o Flocos é um anjo. Mas como eu ia dizendo, minha vida é só sofrimento, padre. Por exemplo, semana passada o André levou a namoradinha nova lá em casa, e... Ai, tenho até vergonha de dizer!

- UUUU... UAU!

- É que as outras pessoas que querem rezar podem se incomodar com os latidos...

- Ela é estudante de teatro, padre! De teatro! Já imaginou? Meu filho, André Albuquerque, casado com uma estudante de teatro?! E não é só isso, padre, ela tem um piercing na língua. Na língua! Uma devassa!

- RRRRR... AU, AU, AUUUUUU!

- O barulho pode incomodar as outras pessoas, dona Narcisa, por isso eu...

- Eu não vou demorar, não vou demorar! Mas entende, padre, entende por que ultimamente só o que tenho feito é chorar? Parece que ninguém pensa em mim! É a empregada que só limpa de baixo da geladeira quando toma um esporro meu, o vizinho que às oito da noite liga o som alto e só indo pessoalmente reclamar com ele para que ele desligue, o Flocos que não tem comido a ração nova importada direito, enfim, é tudo em cima de mim!

- AU, AU, AU, AUAUAU, AU, AU, AUAUAU, AU, AU!

- A igreja é um lugar de paz e tranqüilidade, por isso...

- E o pior você não sabe, padre. A bomba que caiu na minha cabeça ontem à noite! O Alberto, meu marido, me deu a notícia que vai ter que viajar pelo menos uma vez por mês a Nova York, a negócios. Uma vez por mês, padre! À Nova York! Com todo o terrorismo, e as bombas lá, e as guerras! Claro, ele vai passar a ganhar bem mais fazendo isso, mas será que ele não percebe o quanto eu vou sofrer?! Será que ninguém percebe minhas preocupações, minhas aflições, meu sofrimento?! Percebe por que eu choro tanto, Padre, como ninguém pensa em mim?!

- AAAAAUUUUUUUU!!! A-A-A-A-AUUUUUUUUUUU!!!

- A IGREJA! É UM LUGAR! DE PAZ! E TRANQÜILIDADE! MERDA! CACHORRO FILHO DA PUTA!

Descontrolado, o padre acertou um chute no animal que fez lembrar seus tempos de jogador de futebol de salão. O mascote voou porta afora e caiu bem no meio da rua, bem embaixo da roda de um caminhão de lixo que passava por ali em uma velocidade incrivelmente alta para um caminhão de lixo.

- AAAAAAAAAAAIIIIIIIIIIIIIIIII, FLOCOS! Padre, pelo amor de Deus, padre, o que o senhor fez, padre?! O senhor matou o Flocos!!!

- Eu?! Não, não, quer dizer... A culpa não foi minha, tá na bíblia, tá na bíblia!

- O que tá na bíblia, padre, pelo amor de Deus, o que tá na bíblia?!

- Está lá: “Chora sem motivo e receberás um motivo real para chorar”! Palavras da salvação!

- Mas... Eu nunca ouvi essa frase na vida... Aonde isso está na bíblia, padre, aonde?!

- Ah, tá por ali... Perto da carta aos corinthianos, eu acho.

- Carta aos corinthianos? O senhor não quer dizer carta aos Coríntios?

- É, é, é um troço desse aí... Então, tá por ali assim, por ali...

domingo, 11 de novembro de 2007

O Outdoor Maldito

Começou quando Roberto estava distraidamente passando de ônibus em frente a um outdoor:

“Não lembro quem disse que leite de magnésia é bom pra azia... Acho que foi o Flávio... Pô, há mó tempão que eu não vejo o Flávio... Vai ver tá com AIDS, aquela bicha, nunca gostei do Flávio, bons tempos, bons tempos, é, leite de magnésia, acho que eu... Meu Deus! Aaaaiiiii! Quem é essa mulher?! Por favor! É a coisa mais linda que eu já vi na vida! Meu coração! Tô apaixonado! Eu preciso comer essa mulher! Não, não, eu preciso ter essa mulher! É impossível viver sem ela! De agora em diante esse vai ser meu único e principal objetivo!”

Desceu do ônibus transtornado. Parou em frente ao outdoor, fotografou, chorou, xingou, e só voltou pra casa no dia seguinte:

- Roberto! Graças a Deus, meu filho, Deus é pai e não é padrasto, o senhor é meu pastor e nada me faltará! Aonde você se meteu?!

- Mãe, aconteceu. Aconteceu, mãe. Eu achei a mulher da minha vida!

- Ai, que felicidade, meu filho! E aonde você conheceu ela?

- Num outdoor lá da praça Saens Peña.

- Num... Outdoor?

- É, num outdoor, outdoor, eu tenho fotos, quer ver fotos?, eu tenho fotos, aqui ó, fotos.

- E-essa é a mulher por quem você se apaixonou?

- É, mãe, sua futura nora! É grande ela, né? Bonita, grande...

- Ah, e eu achando que você estava falando sério! Você deve tá bêbado.

- Mas mãe, eu nunca falei tão sério assim na minha vida!

- Mas essa é a Xaiane Rodrigues, doente mental! Você acha que ela vai querer alguma coisa com um idiota igual a você?

- Pois eu te digo uma coisa: a partir de agora esse é o meu único objetivo, conquistar a mulher da minha vida!

- O único?

- O único!

- Mas e trabalhar, ganhar dinhei...

- O ÚNICO!

No começo ela pensou que era apenas mais uma desculpa do animal para não trabalhar, mas aos poucos foi percebendo que a coisa era séria. Ele passava o dia parado, meditativo, mal comia. Ligava a televisão, mas só prestava atenção quando sua musa aparecia em algum programa vespertino. Levava revistas de Xaiane pro banheiro e só saía de lá algumas horas depois, desmaiado, carregado por algum vizinho prestativo que precisava arrombar a porta.

- Meu filho, por favor, você tem que reagir!

- Só reajo com ela, mãe. Só ela me salva.

- Mas pelo amor de Deus, Roberto, você não percebe que se continuar assim vai acabar morrendo?! Você tá se destruindo, meu filho! Come esse miojinho, vai...

- Não! Não! Você não entende! Sem ela eu não posso... Sabor bacon?

Desesperada com a situação do filho, e vendo que o mocorongo não se mexia, decidiu ir ela própria atrás de Xaiane. A encontrou na saída de um programa de auditório.

- Xaiane, Xaiane, por favor, Xaiane, eu preciso falar com você, o meu filho é completamente apaixonado por você!

- Ah, obrigada, quer um autógrafo?

- Não, não, você não está entendendo, ele é obcecado por você! Desde que te viu em um outdoor na praça Saens Peña ele não faz mais nada, não come, não dorme, não sai de casa, só fica sentado no sofá pensando em você!

- Mas, meu Deus, eu nunca pensei que eu pudesse fazer isso... Quer dizer, eu nem me acho tão bonita...

- Eu também não, mas pra ele não existe mulher mais perfeita!

- É mesmo? Ele disse isso?

- O tempo todo!

- Hmm...

No começo Xaiane achou tudo muito estranho, apesar de ter ficado com o ego bastante inflado. Um homem obcecado por ela daquele jeito, nunca pensou que tivesse tanto poder! Teve que admitir que aquilo fazia muito bem para a sua vaidade. E talvez um namoro com um fã pudesse impulsionar sua carreira, dando a ilusão para outros fãs que ela poderia se apaixonar por qualquer um deles...

Quando apareceu pela primeira vez na casa de Roberto o coitado quase enfartou. Não pôde esconder a emoção nem a ereção. Falava sem parar, e coisas sem sentido, rindo, chorando, pulando, parecia uma criança de cinco anos. Xaiane ficou impressionada, nunca pensou que sua beleza pudesse deixar um homem tão transtornado. Começou a gostar dele. Marcaram o casamento para dali a uma semana.

- Ai Roberto, você viu como tava cheio?!

- A-hã.

- Meu Deus, quantos fotógrafos, e repórteres, e fãs, e celebridades! E eu tava bonita, não tava?

- A-hã.

- Finalmente, agora minha carreira vai pra frente. E eu nem precisei dar pra ninguém! Quer dizer...

- A-hã.

- Bem, Roberto, estou esperando... A noite é toda nossa... Roberto? Roberto!

- Que foi, porra?!

- Que foi, porra? A mulher dos seus sonhos está aqui, pelada, do seu lado, e só o que você tem a dizer é que foi,porra!? Você tá louco? Larga essa revista e vem me comer!

- Xaiane, querida... Eu passei dois anos só pensando em você... Era a única coisa que tinha na cabeça, não podia sonhar com mais nada! E agora que estamos casados, agora que realizei meu maior sonho, agora que me livrei dessa obsessão, que estou aliviado, posso finalmente sonhar com outra coisa! Era o que eu mais queria!

- O quê?!

- Por exemplo, olha essa Ferrari. Muito foda, cara! Alá, alá, roda de magnésio! Roda de magnésio, cara! E escapamento duplo! Pô, muito linda, cara, muito linda!

- Mas... E eu?

- Você? Mas quantos cavalos você tem? Hein? Quantos? Nenhum? Ah, nenhum, né? Ah...