segunda-feira, 29 de outubro de 2007

A Beleza Vai Salvar o Mundo

- Porque você tá me olhando assim, Theodoro?

- Ah, Elisa, você é linda demais para eu desviar o olhar...

- Hihi, ai, Theodoro, pára...

- Não consigo parar de me perguntar o que eu fiz para merecer uma mulher tão maravilhosa como você, Elisa. Sua beleza é assombrosa!

- Ai, Theodoro, como você é fofo! E é muito legal da sua parte pedir para o meu pai conceder a minha mão em casamento. É o tipo de coisa que a gente não vê mais hoje em dia.

- Não faço mais do que a minha obrigação, Elisa. É minha forma de mostrar meu carinho e gratidão pelo homem que criou a flor de jóia que é você.

- Flor de jóia? Ai, como você é poético, Theodoro! Chegamos, é aqui no 502.

Ding Dong

- Elisa, minha filha!

- Papai, que saudades! Como você tá?

- Ah, levando a vida, né, filha? E esse, é o seu namorado? Está com uma cara de assustado...

- Theodoro, esse é o meu pai, Walmir.

- Muito prazer, meu filho.

- E-esse... Esse que é o seu pai?

- Sim, Theodoro. Por que, qual é o problema?

- Hein? Não, não, nenhum, nenhum, é que... Ele é idêntico a você! Idêntico!

- Hahaha, claro bobinho, ele é meu pai!

- É, os genes dos Ramos são fortes, sempre prevalecem, hehehe...

- Sim, eu entendo, mas mesmo assim... Vocês são muito parecidos! É... É espantoso!

- Sabe papai, o Theodoro veio aqui lhe pedir uma coisa.

- Ah, sim? Pois diga Theodoro, sou todo ouvidos.

- Os olhos, a boca... Até as mãos! Juro, se o senhor botasse uma peruca e raspasse o bigode...

- Theodoro, querido, meu pai está esperando a sua pergunta...

- Pergunta? Que pergunta? Ah, sim, claro, a pergunta. Senhor Walmir, eu vim aqui para... Mas meu Deus, acho que vocês são até da mesma altura!

- Theodoro!

O casamento foi marcado para dali a dois meses. Todos estavam muito contentes e ansiosos, com exceção de Theodoro, que desde a visita ao pai da noiva não era mais o mesmo. Se antes olhava para o rosto de Elisa embevecido e orgulhoso por ter conquistado tamanha beleza, agora não sentia nada além de curiosidade. “Como alguém pode ser tão parecida assim com o pai? O que significa isso? Se eu estou apaixonado pela beleza dela, que é a mesma do pai, será que... Ai meu Deus, ai meu Deus! Daqui a uns dias me caso!”

A inquietação de Theodoro piorava a medida em que se aproximava a data do casório. Enquanto fazia sexo com sua noiva, involuntariamente a imaginava careca, com um bigode, com pelos em lugares que ela não os tinha, ligeiramente acima do peso... E como tudo isso era perturbador para o pobre Theodoro! Elisa não percebia nada de errado com o noivo, achava que era apenas um nervosismo natural com o casamento, mas isso provavelmente porque era muito burra.

No grande dia Theodoro acordou inquieto. Tremia, tinha pensamentos estranhos, preocupações, dúvidas, e chegou à sábia conclusão que o único jeito racional de se fazer aquilo seria enchendo a cara de cachaça. Foi o que fez. Já devidamente aprumado para a cerimônia, parou no bar mais perto da igreja e bebeu para ficar o mais anestesiado possível. Entrou na igreja cambaleando, e se não fosse sua mãe ao seu lado provavelmente cairia sobre os convidados. Parou no altar, e lá veio a noiva entrando com seu pai. Os que estavam lá disseram mais tarde que era a noiva mais bonita que já haviam visto, mas na hora o comentário mais comum era que a noiva era a de branco. Com toda a elegância, os dois pararam na frente de Theodoro, e seu Walmir entregou sua amada filha ao noivo bêbado. Mas Theodoro, talvez confuso pela cachaça, ignorou Elisa, pegou na mão de seu Walmir, e imediatamente se postou na frente do padre para se casar. Pai, filha, e todo o resto da igreja ficaram paralisados pelo choque. Acudiu o padre:

- É... Filho? Você deve pegar na mão da noiva...

- Ué?! E o que é que eu tô fazendo, porra? Tô aqui com a Elisa, minha noiva, agora casa logo essa merda.

- Mas, meu filho, essa não é a Elisa...

- Mas como que não é? Como que não é? Lógico que é, porra! Elisa, num é?

- Não!

- Não?! Como não?! Ah, entendi, o senhor quer a Elisa sem pau!

Levou um tempo para se recuperar, mas Theodoro já está namorando de novo. Dizem até que a nova é três vezes mais bonita que a outra e, gato escaldado, dessa vez Theodoro resolveu não correr riscos: matou o pai e o irmão da moça antes que as coisas começassem a ficar sérias entre eles.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Amor de Vitrine

Ultimamente ela não andava muito feliz. Estava se sentindo velha e sozinha. Mas o pior não era a solidão, com isso ela já estava acostumada, o que mais a incomodava era a suspeita de que ela não era mais uma mulher gostosa. Ultimamente nenhum homem olhava para ela com desejo, nem mesmo com simpatia. A sensação de que só seria comida por alguém bêbado ou pagando era bastante dolorosa. Precisava de alguém que a amasse, que a dissesse que era bonita, que tivesse vontade de comê-la pelo menos três vezes por semana, que fosse gentil... Precisava de um homem de verdade.

Foi distraída com esses tristes pensamentos que ela parou na vitrine de uma livraria, e ficou olhando para alguns livros de culinária que ensinavam a fazer bolos, doces de festas, enfim, essas coisas que gordas gostam. Então reparou que, de dentro da livraria, um par de olhos a encarava. Não levantou o rosto imediatamente para ver quem era, continuou de cabeça baixa, fingindo interesse nos livros, coisa que ela nunca teve. E sentia que os olhos não paravam de fitá-la. Levantou o rosto, e lá estava ele: um homem alto, elegante, de terno e gravata, extremamente alinhado, segurando um livro, olhava fixamente para ela. Tinha um olhar de cobiça (cobiça por ela!), e um sorriso muito doce, sorria para ela, de um jeito que há muitos anos não sorriam. Tímida, desviava o olhar, voltava para os seus livros de gorda na vitrine, apenas para voltar para os mesmos olhos ardentes. Não agüentou mais, seu rosto estava ficando cada vez mais vermelho, e foi correndo para casa.

Chegou em casa numa excitação insuportável. Se por um lado estava extremamente feliz por um homem como aquele ter olhado para ela, e ainda mais daquele jeito, e sorrido daquele jeito, por outro sentia vontade de se matar por ter fugido covardemente de quem poderia ser o homem da sua vida. Mas, refletindo, chegou à conclusão de que se ele realmente a amava, amanhã estaria na mesma livraria e no mesmo horário para reencontrar a mulher de sua vida. E decidiu voltar lá no dia seguinte. Nem dormiu nessa noite.

Cinco e meia. Era a hora. Fez exatamente o que havia feito no dia anterior: com seu carrinho de feira, parou em frente à vitrine para olhar os livros de gorda. E sentiu os mesmos olhos a atravessarem. Lá estava ele novamente, com o mesmo terno, os mesmo olhos, o mesmo sorriso, segurando o mesmo livro. Dessa vez ela não esperou nada acontecer, entrou na livraria, prendendo a respiração, e parou na frente dele. Ele não tirava os olhos dela. Nenhum dos dois dizia uma palavra. Tremendo, ela pegou na mão dele, e os dois saíram como um furacão pela porta, ela com seu carrinho de feira, ele com seu livro.

Corriam, corriam para a casa dela. Ela emocionada, rindo, agradecendo a Deus, e ele com os mesmos olhos apaixonados, e ela se perguntando o que havia feito de tão bom para merecer que algo tão maravilhoso acontecesse em sua vida, como um homem tão bonito e elegante poderia estar interessado por alguém como ela, e que lindo caminho de amor e paixão ela via em sua frente!

O estranho é que ninguém da livraria notou que uma gorda louca havia roubado o Roberto Justus de papelão que anunciava seu novo livro de auto-ajuda empresarial.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Um Ano

Sem nada pra comemorar...
Ou com nada pra comemorar? Nunca sei qual é o certo.
Enfim, aí estão dois wallpapers feitos com fotos do jogo Heavyweight Champ, do meu projeto "Fotografando com Master System".

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

O Homem que Dialogava Sozinho

Manuel era um homem solitário.

Manuel nunca fez amigos, pois sempre achou que não precisava deles. Seus únicos companheiros sempre foram seus livros, seus filmes e seus discos, e era dentro da própria cabeça imaginativa que Manuel tinha as conversas mais interessantes. Ou seja, com ele mesmo, ao passo que ter outras pessoas com quem conversar sempre pareceu algo muito inútil para ele. Mas isso mudou depois da morte de sua mãe, há dois anos. Ela era a única pessoa com quem Manuel conversava. Conversavam sobre coisas simples, como o preço do leite, receitas de bolo, a conta de luz, castração de cachorros, nada que se pudesse comparar aos papos altamente profundos que Manuel tinha com ele mesmo. Mas foi depois da morte da mãe que Manuel percebeu que sentia muita falta de outra pessoa com quem pudesse falar. O silêncio da sua vida estava ficando cada vez mais insuportável. E Manuel ligava o rádio, a TV, mas não adiantava, ele sabia que aquelas vozes idiotas não estavam falando com ele. Além do mais, Manuel queria uma conversa mais sofisticada, do tipo que ele só conseguia ter com ele mesmo. Foi quando teve a idéia:

Se eu sou o único que conheço com capacidade intelectual para agradar a mim em uma conversa, por que não conversar comigo mesmo? A minha mente não é uma só, a de ninguém é, e eu sei que tenho várias linhas de pensamentos simultâneas, então por que não transferir uma pra minha voz? Algum pensamento mais perto do sub-consciente, por exemplo? Assim eu, dentro da minha mente, conversaria comigo mesmo, a parte do meu pensamento que sairia diretamente pela minha voz!

A idéia era muito boa, certamente, mas como passar isso para a prática? Era preciso criar alguma técnica. Manuel começou tentando falar a primeira coisa que vinha na cabeça:

- Cu, pastel de vaca, cu, é... Cu!

Mas ficou bem claro que isso não daria certo, não dava para seguir nenhuma conversa razoável desse jeito. Da voz dele não podiam sair simplesmente palavras soltas, teria que ser um raciocínio um pouco mais lógico... O que ele precisava era pegar uma linha de pensamento, uma secundária, não a principal, e transferir da sua mente diretamente para a sua voz.

Porra, isso é difícil! O que eu preciso é identificar um pensamento secundário meu, e começar a falá-lo em voz alta, mas sem deixar que ele passe a ser minha linha de pensamento principal. Bem, vamos tentar, esse é o meu pensamento principal, ou seja, estou quebrando a cabeça tentando solucionar esse problema, filosofando sobre minhas diversas consciências e...

- Aquela torneira tá pingando, é melhor eu fechar, ta acabando a água no mundo, e eu aqui desperdiçando e...

Puta merda, funcionou! Meu outro eu está falando comigo!

- ...e a poluição, e os carros, carros, domingo tem corrida de formula um, Galvão Bueno, Rrrrrrronaldinho! É assim que ele fala, é, e...

Haha, é verdade, é verdade, a corrida! Ai, graças a Deus, graças a Deus alguém para conversar comigo, e quem melhor que eu mesmo?

- ...porra, aquela Scheila Mello é muito gostosa, muito gostosa, comia toda, toda, muito gostosa, to com fome, tem pizza, pizza, tem pizza? To com fome...

Mal posso esperar para começar a ter uma conversa intelectualmente estimulante comigo mesmo. Já sei, vou colocar um filme da minha coleção no dvd.

- Quando a gente sente fome come, é assim, não sei por que, tem que comer sempre...

Ah, Barry Lyndon... Provavelmente a melhor fotografia em cinema de todos os tempos... Vamos ver o que meu subconsciente tem a dizer...

- E o Wagner Montes, escraaaachaaaaaa, e o Pedro de Lara e... Filme, filme, to vendo um filme... Essa eu comia, essa eu comia, ah, essa não, essa eu não comia... Esse cara é galã, será que o pau dele é maior que o meu?

O quê? Mas é Barry Lyndon, meu filme favorito, uma das maiores obras primas do cinema, será que só o que eu tenho a dizer sobre o filme é sobre o tamanho do pau dos atores?

- Ah, do que esse eu sou maior, ele é gordo, muito gordo, gordo tem pau pequeno, gordo, o meu é maior, ele tá de cavalo, cavalo é legal, cavalo, eu gosto, mas prefiro cachorro, cachorro, tipo o Snoopy, o Snoopy é engraçado, o Snoopy...

Ah, não, chega, chega! Agora já foi demais! É melhor eu acabar logo com isso antes que passe a me odiar... Bem, agora só o que eu preciso é parar de falar... É, é só parar... E como eu faço isso?

- ...é puta, puta, tudo puta, isso tudo é puta, como todas, tudo puta...

Meu Deus, eu não consigo! Eu não consigo! Minha voz está totalmente dominada pela parte imbecil do meu cérebro!

- Banheira do Gugu, saudades, da banheira do Gugu, Gugu, cucu, muito cu, quero sorvete, com casquinha, não, sem, não gosto de casquinha, cho-co-la-te, eu só quero chocolate...

Eu não acredito que isso está acontecendo! O que eu fui fazer, meu Deus?! Por quanto tempo ainda agüentarei isso?!

Dois dias. E, ironicamente, a gota d’água foi com uma discussão não muito intelectual. Foi numa tarde em que, desesperado e sem conseguir raciocinar nada devido à própria tagalerice estúpida, Manuel resolveu dar uma volta na praça, para espairecer.

- Quem come capim é cavalo, eu disse, cavalo! E vaca, e boi, eu não! Eu gosto de carne, pombo é legal, eu gosto, às vezes, às vezes não, sei lá porque, sei lá porque... Ô, essa é gostosa, hein? Essa é muito gostosa, essa eu comia, essa é mais gostosa que a Silvia Saint!

O quê? O quê foi que eu disse?

- A Silvia Saint é ruim, a Silvia Saint, não gosto não, não gosto...

Ah, não, isso não, isso não pode ser, já estou passando dos limites... Como eu posso dizer uma coisa dessas da Silvia?!

- Eu não comia a Silvia não... Eca!, nojo, nojo!

Nojo?! Da Silvia?! Isso já é demais, isso eu já não agüento! Desisto!

E, de algum jeito que eu não sei explicar, a razão de Manuel cometeu suicídio dentro da própria cabeça. Mas Manuel continuava vivo, assim como sua voz.

- Bebê bonitinho, bonitinho, eu gostava de comandos em ação, eu gostava, e playmobil, e essa política tá uma vergonha, né? É, tá sim, tá uma vergonha, tá, prefiro sorvete, de chocolate, cho-co-la-te, eu só quero chocolate...

E lá ficou Manuel, parado no meio da praça, com aparência catatônica, jogando seus pensamentos caóticos, sem razão ou motivo. As pessoas que passavam pela praça começaram a parar para ouvir o pobre homem, e Manuel começou a ficar muito popular, muito mais do que jamais fora em sua vida de homem inteligente. Alguns o consideravam um gênio, outros um filósofo, outros diziam que deveria ser preso, outros que era um santo...

Não demorou muito e Manuel se tornou o apresentador mais bem pago da TV.

Ano que vem concorre à prefeitura de Niterói pelo PTB.