A Beleza Vai Salvar o Mundo
- Porque você tá me olhando assim, Theodoro?
- Ah, Elisa, você é linda demais para eu desviar o olhar...
- Hihi, ai, Theodoro, pára...
- Não consigo parar de me perguntar o que eu fiz para merecer uma mulher tão maravilhosa como você, Elisa. Sua beleza é assombrosa!
- Ai, Theodoro, como você é fofo! E é muito legal da sua parte pedir para o meu pai conceder a minha mão em casamento. É o tipo de coisa que a gente não vê mais hoje em dia.
- Não faço mais do que a minha obrigação, Elisa. É minha forma de mostrar meu carinho e gratidão pelo homem que criou a flor de jóia que é você.
- Flor de jóia? Ai, como você é poético, Theodoro! Chegamos, é aqui no 502.
Ding Dong
- Elisa, minha filha!
- Papai, que saudades! Como você tá?
- Ah, levando a vida, né, filha? E esse, é o seu namorado? Está com uma cara de assustado...
- Theodoro, esse é o meu pai, Walmir.
- Muito prazer, meu filho.
- E-esse... Esse que é o seu pai?
- Sim, Theodoro. Por que, qual é o problema?
- Hein? Não, não, nenhum, nenhum, é que... Ele é idêntico a você! Idêntico!
- Hahaha, claro bobinho, ele é meu pai!
- É, os genes dos Ramos são fortes, sempre prevalecem, hehehe...
- Sim, eu entendo, mas mesmo assim... Vocês são muito parecidos! É... É espantoso!
- Sabe papai, o Theodoro veio aqui lhe pedir uma coisa.
- Ah, sim? Pois diga Theodoro, sou todo ouvidos.
- Os olhos, a boca... Até as mãos! Juro, se o senhor botasse uma peruca e raspasse o bigode...
- Theodoro, querido, meu pai está esperando a sua pergunta...
- Pergunta? Que pergunta? Ah, sim, claro, a pergunta. Senhor Walmir, eu vim aqui para... Mas meu Deus, acho que vocês são até da mesma altura!
- Theodoro!
O casamento foi marcado para dali a dois meses. Todos estavam muito contentes e ansiosos, com exceção de Theodoro, que desde a visita ao pai da noiva não era mais o mesmo. Se antes olhava para o rosto de Elisa embevecido e orgulhoso por ter conquistado tamanha beleza, agora não sentia nada além de curiosidade. “Como alguém pode ser tão parecida assim com o pai? O que significa isso? Se eu estou apaixonado pela beleza dela, que é a mesma do pai, será que... Ai meu Deus, ai meu Deus! Daqui a uns dias me caso!”
A inquietação de Theodoro piorava a medida em que se aproximava a data do casório. Enquanto fazia sexo com sua noiva, involuntariamente a imaginava careca, com um bigode, com pelos em lugares que ela não os tinha, ligeiramente acima do peso... E como tudo isso era perturbador para o pobre Theodoro! Elisa não percebia nada de errado com o noivo, achava que era apenas um nervosismo natural com o casamento, mas isso provavelmente porque era muito burra.
No grande dia Theodoro acordou inquieto. Tremia, tinha pensamentos estranhos, preocupações, dúvidas, e chegou à sábia conclusão que o único jeito racional de se fazer aquilo seria enchendo a cara de cachaça. Foi o que fez. Já devidamente aprumado para a cerimônia, parou no bar mais perto da igreja e bebeu para ficar o mais anestesiado possível. Entrou na igreja cambaleando, e se não fosse sua mãe ao seu lado provavelmente cairia sobre os convidados. Parou no altar, e lá veio a noiva entrando com seu pai. Os que estavam lá disseram mais tarde que era a noiva mais bonita que já haviam visto, mas na hora o comentário mais comum era que a noiva era a de branco. Com toda a elegância, os dois pararam na frente de Theodoro, e seu Walmir entregou sua amada filha ao noivo bêbado. Mas Theodoro, talvez confuso pela cachaça, ignorou Elisa, pegou na mão de seu Walmir, e imediatamente se postou na frente do padre para se casar. Pai, filha, e todo o resto da igreja ficaram paralisados pelo choque. Acudiu o padre:
- É... Filho? Você deve pegar na mão da noiva...
- Ué?! E o que é que eu tô fazendo, porra? Tô aqui com a Elisa, minha noiva, agora casa logo essa merda.
- Mas, meu filho, essa não é a Elisa...
- Mas como que não é? Como que não é? Lógico que é, porra! Elisa, num é?
- Não!
- Não?! Como não?! Ah, entendi, o senhor quer a Elisa sem pau!
Levou um tempo para se recuperar, mas Theodoro já está namorando de novo. Dizem até que a nova é três vezes mais bonita que a outra e, gato escaldado, dessa vez Theodoro resolveu não correr riscos: matou o pai e o irmão da moça antes que as coisas começassem a ficar sérias entre eles.



