terça-feira, 25 de setembro de 2007

O Poder da Reza


Olá, discípulos de mim mesmo, como vão? Mal, imagino, já que há tempos não bebem do suquinho de sabedoria que eventualmente empresto às suas vidinhas medíocres através dos meus textos. Pois não chorem mais, crianças, tio Paulinho está de volta para lhes tirar do sofrimento. E o texto de hoje é um trecho exclusivo do meu novo livro, que vai ser incluindo na próxima edição revisada da bíblia. Finalmente a igreja vai reparar esse erro histórico de me deixar de fora dos escritos sagrados.

Vladimir era um homem de fé. Muita fé. Fé pra caralho, mesmo, o cara era doente. Tão doente que involuntariamente afastava qualquer pessoa que tentasse se aproximar dele. Era só alguém dar bom dia e ele já respondia com um salmo, uma frase de padre, ou com alguma repreensão: “Não se deve andar com a mão no bolso! Só se deve usar vermelho depois da páscoa! Tira o dedo do cu que dá câncer! Bandido bom é bandido morto!”, e outros conselhos cristãos que ninguém queria ouvir.

Com isso, Vladimir se tornou um homem extremamente solitário, e sentia falta de uma companhia feminina. Como a única coisa que sabia fazer era rezar, foi o que ele fez:

- Ó, Senhor, eu, humilde servo que sou, que sempre peço tão pouco, gostaria que o Senhor me concedesse a graça de uma esposa. Eu sou um homem muito solitário, meu Deus, só quem eu tenho nessa vida é o Senhor e o padre Antônio e, convenhamos, tem coisas que uma mulher faz que o padre Antônio não pode fazer. Por isso, se der pra me arrumar uma mulher, nem precisa ser grandes coisas, eu ficaria muito agradecido.

E era sempre esse o assunto das orações de Vladimir. Os meses se passaram, Vladimir continuou rezando, e nada, nem sinal de mulher se interessando por ele. Na verdade, parecia até que elas estavam se afastando cada vez mais do pobre homem. Mas Vladimir não era homem de pouca fé, e não desistiria tão fácil:

- Oi Deus, sou eu de novo. Sabe o que é?, não estou reclamando nem nada, sei que o Senhor é muito ocupado... Mas é que já faz dois anos que eu venho pedindo uma mulher nas minhas orações, e por enquanto nada! Pôxa, o Caçapa, meu vizinho, nunca entrou numa igreja na vida, e semana passada ganhou sozinho na mega-sena. Não que eu esteja com inveja, longe de mim, Senhor, fiquei muito feliz pelo Caçapa, mas... Será que eu, como homem de fé que sou, não deveria ter prioridade nas bênçãos? Enfim, o Senhor é Deus e sabe o que faz, por isso sei que cedo ou tarde vai me abençoar também. Desculpe os questionamentos, Senhor, já me sinto arrependido, Amém.

A reclamação de Vladimir parece não ter adiantado muito, e o infeliz continuava na seca de mais cinqüenta anos. Mas apesar de carocha, Vladimir não era santo, e chegou o dia em que perdeu a paciência:

- Meu Deus, venho pedir que... Porra, será que eu preciso explicar? Há cinco anos que eu peço todo dia a mesma coisa, todo dia venho nessa mesma merda de igreja e peço uma mulher, e até agora nada! Quantas vezes vou precisar pedir, merda?! Será que eu não tô me explicando muito bem, que o Senhor não está me entendendo, e por isso ainda não me deu o que eu tanto peço?! Pois então dessa vez vou tentar ser mais claro: Eu quero uma buceta, tá me entendo? Buceta! Bu-ce-ta! AAAAAAAAHHHHHHHH!

Saiu de casa enlouquecido, parou no primeiro boteco, e tomou o primeiro porre de sua vida. Qual não foi sua surpresa ao acordar na manhã seguinte, e descobrir que suas preces haviam sido finalmente atendidas: Deus havia lhe dado uma buceta. E Vladimir nunca mais mijou de pé.

Moral da história: Cuidado com o que você pede, Deus só realiza os desejos com potencial para te deixar arrependido mais tarde.

Mais uma palavra da salvação, do mestre Paulinho Coelho: ¡Livin’ la Vida Loca!

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Da Série Profissões Alternativas: O Gerador de Empregos

- Com licença, senhor, não quero me intrometer, mas... O quê o senhor está fazendo?

- Tô espalhando lixo pela praça,meu filho. Por que?

- Não, por nada, é só que... Por que?

- Bem... Você não é daqui de Mocorongópolis, é?

- Não, estou apenas visitando.

- Então acho que posso te contar... É que hoje li no jornal que a prefeitura vai diminuir o número de garis da cidade, já que ela tá sempre tão limpa. Então eu passei no lixão, carreguei meu caminhão, e agora tô espalhando tudo aqui pela praça.

- Ah, entendi... Com a cidade toda suja, eles não vão poder demitir os garis, não é isso?

- Isso mesmo. Pode ser até que contratem mais.

- Ah, que bom... Mas por que o senhor está fazendo isso?

- Por que é isso que eu faço. Eu crio empregos na cidade.

- É?

- É. Sabe, Mocorongópolis era uma cidade com muitos desempregados, mais de 20% da população. Foi quando eu decidi que devia fazer alguma coisa.

- E o que o senhor fez?

- Comecei botando fogo nas casas da cidade. O número de bombeiros daqui era muito pequeno, e, graças aos meus incêndios freqüentes, tiveram que construir dois batalhões novos. Mais de cem empregos gerados, rapaz, uma beleza.

- Ah, que bom. Mas e as casas das pessoas? Não ficaram destruídas pelos incêndios?

- Claro, isso que foi bom.

- Isso foi bom?!

- Claro, rapaz, tiveram que contratar um monte de pedreiro pra reconstruir as casas, foi mais emprego aí que com os bombeiros!

- É verdade, não tinha pensado nisso... Mas ninguém se machucou nos incêndios?

- Bom, teve uma ou outra criança morta, e uns velhos quando eu botei fogo no asilo... Sabe como é, velho pra correr de fogo é uma desgraça, né? Mas enfim, não se pode ter tudo, não é mesmo?

- Certamente, senhor.

- Depois eu reparei que a cidade tinha muito pouca escola e professor. Então comecei a vender camisinha furada e anticoncepcional de farinha na minha farmácia, e não deu outra. Nasceu criança pra cacete, e tiveram que construir três escolas novas pros moleques. Muito emprego de professor, servente, inspetor... Até semi-analfabeto tá dando aula, rapaz, uma beleza.

- Ô, que maravilha. E o quê mais o senhor fez?

- Ah, muitas coisas... Já amarrei uma âncora na traseira do meu caminhão, pra contratarem gente pra fechar os buracos das ruas... Por dois anos joguei vírus na comida dos restaurantes, pra abrirem mais hospitais... Já projetei hologramas de fantasmas, igual os do scooby-doo, pra que as pessoas ficassem com medo de assombração, e assim foram construídas várias igrejas... Enfim, já fiz de tudo um pouco, e graças a Deus hoje a taxa de desemprego da cidade tá perto de zero.

- Mas que maravilha! E o senhor ganha alguma coisa com isso?

- Não, meu filho, nada. Faço pelo puro prazer de ajudar ao próximo.

- Pois saiba que o senhor é um santo, um verdadeiro santo!

- Obrigado, meu filho, obrigado... Mas infelizmente nem todos pensam como o senhor, por isso ninguém de Mocorongópolis pode saber que sou que faço essas coisas, ou acabaria preso.

- Não se preocupe, senhor, seu segredo está muito bem guardado comigo.

- Obrigado, meu filho, obrigado.

- Um verdadeiro herói nacional! Só mais uma coisa: por que o senhor está carregando essa arma?

- Arma? Que arma?

- Essa pistola que está na sua mão.

- Ah, sim, essa arma. É que hoje também li no jornal que querem diminuir o número de policiais, já que os crimes na cidade diminuíram muito com o baixo desemprego. Então decidi que estava na hora de usar minha velha pistola em alguém...

- Ai meu Deus, o senhor vai me matar?!

- Ora, mas o senhor me insulta pensando uma coisa dessas, é claro que não!

- Ai, Deus é pai...

- Só vou comer seu cu contra a sua vontade.

- Ah, sim... Bem, melhor isso do que morrer, não é mesmo?

- É o que dizem.

- Mas... E se eu der o cu para o senhor por iniciativa própria? Aí não seria crime, seria?

- Bem, eu... É... Eu acho que não...

- É... Acho que peguei o senhor nessa, hein?

- É, rapaz, me pegou de jeito. Me deixou numa sinuca desgraçada, hein? Hehehe...

- Hahaha! Pode dizer: essa foi boa, hein? Hahaha, e o senhor pensando que...

PÁ!

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

O Moleque que Cansou

Como todo dia, passava pela mesma rua a mesma Mercedes branca, com o mesmo motorista negro, com a mesma velha loira no banco de trás. Pararam no mesmo engarrafamento de sempre, e o mesmo pivetinho de sempre veio assustar nossa heroína, batendo no vidro do seu carro blindado.

- Ô dona, dá pra dar uns trocadinhos aí, que eu tô com fome aí e quero almoçar?

- Ai, que susto! Não, moleque, não tenho trocado.

- É que minha mãe tá doente, e eu não almocei ainda, e minha irmã tá doente também, e eu tô cheio de irmão doente, e ainda não almocei ainda, e...

- Eu não tenho dinheiro, meu filho. Tá? Eu não tenho dinheiro.

- Então o que é isso?

- Isso o quê?

- Essas notas de cem que a senhora tá contando.

- Isso? Ah, isso é... É... Isso não é dinheiro não, moleque! Isso aqui é... Não é dinheiro não! Agora chispa, vai!

- Pô, a senhora ta cheia de nota de cem e não pode me dar uns trocadinhos?

- Ai meu Deus, que moleque chato! Alberto, aumenta o som que não agüento mais ouvir esse pivete!

Poeira... Poeira... Levantou poeira...

- Pô, dona, todo dia a senhora passa aqui, e nunca abriu a porra desse vidro pra falar comigo, nem pra me dar um dinheiro, nem nada... Hein, dona, tá me ouvindo?

- Poeira... Levantou poeira...

- Ah, não tá ouvindo? Então eu acho que vou ter que falar mais alto! Acho que vou ter que começar a gritar!

- ...eira...

- Porque eu cansei! Cansei, tá me ouvindo?! Cansei dessas velhas ricas escrotas igual à senhora que só olham pra minha cara pra soltar um suspiro, só pra depois se sentirem bem por terem filhos que não precisam pedir esmola! Cansei de te ver passando todo dia em carro importado, com motorista, cheia das jóia na cara e nunca me dando dinheiro! Cansei de te ver fingindo que se importa com os outros! Cansei, porra, cansei!

- Ai meu Deus, Alberto, tira esse carro daqui, pelo amor de Deus!

- Não dá, Sra. Camargo, estamos no meio do engarrafamento.

E berrando que estava cansado entre outras coisas inteligíveis, o moleque começou a se debater no carro da madame, esfregando a cara contra o vidro, subindo no capô, pulando no teto, chamando a atenção de todos que estavam por perto. Apavorada, sem saber o que fazer e presa no maldito engarrafamento, a madame abriu o vidro e jogou todo o dinheiro que tinha na carteira. Quinhentos e vinte, contou depois o moleque.

- Agora me deixa em paz, moleque dos infernos! Me deixa em paz, pelo amor de Deus!

- Claro, senhora, agora já tô satisfeito.

Pegou o dinheiro e foi-se embora tranqüilamente.

Moral da história: Não se pode mudar o mundo esperneando imbecilmente, mas pelo menos pode dar uma graninha.