terça-feira, 26 de junho de 2007

Lisa e Chata

- Dona Glória? A senhora novamente por aqui?

- Sim, doutor, por quê? O senhor parece surpreso em me ver.

- Bem, é que... Pelo que me recordo, nós dois concordamos que aquela operação plástica seria a última, não é verdade?

- Sim, doutor...

- Afinal, não existe parte do corpo da senhora que eu não tenha esticado.

- Eu sei doutor.

- Por Deus, dona Glória, até seu cotovelo eu operei! Eu já arranquei praticamente 50% da pele do seu corpo, é impossível que a senhora ainda tenha alguma ruga! Mais uma operação e a senhora rasga por inteiro!

- Sim, doutor, eu sei, eu lembro que nós concordamos que eu nunca mais viria aqui. Lembro também que o senhor me aconselhou a nunca mais me olhar no espelho.

- Mas então por quê a senhora está aqui?

- Porque, infelizmente, ainda existe um lugar enrugado no meu corpo, doutor.

- Não, não é possível. Eu estou aqui na frente da senhora e não vejo uma única ruga, dona Glória. Parece até que a senhora foi embalada a vácuo. Quando a senhora ri, a bochecha chega a sangrar, dona Glória!

- Sim, doutor, mas insisto que ainda achei um lugar enrugado. E muito enrugado.

- Qual, dona Glória?

- Meu cu, doutor. Meu cu.

- Seu cu?

- Sim, doutor, meu cu.

- Mas, dona Glória, todos temos o cu enrugado.

- Exatamente, doutor, exatamente! Já imaginou, eu e minhas amigas na praia de nudismo, todas com o cu enrugado, e eu com o cu lisinho? Eu me tornaria a mulher mais jovem da sociedade, e há mais de cinqüenta anos que eu luto por esse título!

- Mas eu não posso esticar seu cu. Isso simplesmente não existe!

- Tudo bem, esticar não, mas... E se o senhor tirá-lo fora?

- O quê?

- Sim, doutor, pode arrancar meu cu. Eu quase não uso mesmo.

- Mas, dona Glória, por onde a senhora vai cagar?

- Por onde mais? Pelo outro lado.

- Pela boca?

- Naturalmente. Então, vamos começar?

- Não, dona Glória, não. Me desculpe, mas dessa vez a senhora não vai me convencer. Além dessa operação não fazer nenhum sentido, é extremamente perigosa, e vai totalmente contra todos os meus princípios como cirurgião plástico, e...

- Pago cem mil.

- Volte na terça.

A operação foi um sucesso. As amigas nunca ficaram com tanta inveja da falta de rugas de dona Glória, que orgulhosamente apresentava seu não-cu sempre que tinha oportunidade, de casamentos a desfiles de moda. Assim, uma a uma, as amigas da alta foram também tirando o cu. Em poucos meses, toda a sociedade brasileira já cagava pela boca.



*Idéia de cagar pela boca plagiada de um episódio de South Park

sexta-feira, 22 de junho de 2007

Da Série Profissões Alternativas: A Vidente que Posvê

- Boa tarde, madame.

- Boa tarde, meu filho. Em que posso ajudar?

- Sabe, na verdade eu não acredito muito em videntes, mas têm algumas coisas um pouco incertas sobre meu futuro que eu gostaria de saber, e...

- Sobre seu futuro?

- Sim, meu futuro.

- Desculpe, mas eu não prevejo o futuro.

- Não?

- Não, senhor.

- Porra, a senhora é vidente e não prevê o futuro?

- Não, senhor, mas eu posvejo o passado.

- Posvê o passado?

- Sim, o passado. Tem algo que o senhor queira saber sobre seu passado?

- Claro que não, merda, do meu passado eu sei, eu estava lá!

- Tem certeza? Olha que eu sou muito boa, hein? Por exemplo, eu vejo que o senhor se casou... Não é verdade?

- É, é verdade... Mas isso qualquer um vê, eu tô usando aliança!

- Mas vejo também coisas ruins.

- Ah, é?

- Vejo um acidente... Um acidente grave... Um acidente em que o senhor machucou muito o braço...

- É lógico que você vê, caralho, eu tô com o braço engessado! Que espécie de vidência ridícula é essa, hein? Aliás, como é que a senhora pode ganhar dinheiro com isso?

- Vejo também um homem...

- Um homem?

- Sim, um homem... Um homem alto, forte, no banco carona do seu carro...

- Ora, e daí?

- Entrando num motel...

- O quê?! Ah, mas essa velha é mesmo muito escrota! Como você tem coragem de inventar uma mentira dessas?!

- Desculpe, senhor, é o que eu vejo. E madame Luna não se engana nunca.

- Pois dessa vez você se enganou, velha escrota, dessa vez você se enganou! Eu vou embora daqui, antes que me irrite mais ainda...

- Primeiro precisa pagar a consulta, senhor. São cinco mil reais.

- CINCO MIL?! CINCO MIL?! Mas a senhora é mesmo uma louca, uma lunática! Pra que eu pagaria cinco mil por uma consulta ridícula dessa?

- Bem, senhor, creio que sua mulher não ficaria muito contente ao descobrir que o senhor tem um amante.

- Ah, essa é boa! Pois saiba que minha mulher é inteligente, sabe o marido que tem, e, além do mais, nunca acreditaria em uma vidente picareta como a senhora!

- Então quer dizer que o senhor não vai pagar a conta?

- Mas é claro que não!

- Vejo também um menino de nove anos...

- Aceita cartão?

sábado, 16 de junho de 2007

Da Série Profissões Alternativas: O Desgraçado Consolador

- Que isso, cara, o que aconteceu com você?!

- Comigo? Como assim? Nada, ué!

- Mas você está sem as duas pernas!

- Ah, isso... Não se preocupe, isso faz parte do meu trabalho.

- Trabalho? Mas que porra de trabalho te obriga a cortar as duas pernas?

- Bem, é o tipo de coisa que eu tenho que fazer no meu emprego. Eu trabalho como consolador.

- Consolador?

- É, eu consolo pessoas deprimidas, desesperadas, que acham que chegaram no fundo do poço.

- Continuo sem entender.

- Bem, sabe quando as pessoas tentam te animar dizendo: “tem muita gente pior que você”? Pois então, eu sou esse exemplo vivo de pessoa pior.

- Ah, ta... Mas você ganha dinheiro com isso?

- Claro, parentes ou amigos de pessoas deprimidas me contratam para que eu mostre pro deprimido como ele é um abençoado comparado comigo, mesmo que ele seja um merda completo.

- Interessante... Você que inventou essa profissão?

- Sim, tive a idéia quando percebi que não importa o quão bem ou mal as pessoas estejam na vida, elas só ficam satisfeitas quando percebem que tem gente muito pior. É o que as faz sentirem especiais.

- É verdade... A clientela deve ser bem grande, não?

- Gigante. Estou com a agenda cheia até 2009.

- E você ganha bem?

- Varia com a desgraça do desgraçado. Quanto maior a desgraça mais eu cobro. Tem casos de desgraça pequena em que só o que eu preciso é aparecer na frente do individuo. Aí ele olha pra mim, começa a chorar, vê como é privilegiado e fica curado. Mas tem os casos de tragédia gigantesca que não se resolvem assim tão fácil. Por exemplo, tive um cliente que estava em depressão profunda por que perdeu a mulher, os dois filhos e as duas pernas em um acidente de carro.

- Nossa, que tragédia... E o que você fez pra recuperar o cara?

- Tive que matar minha mulher, meus dois filhos, cortar as duas pernas e meu pau. Então disse pra ele: “Tudo bem, você perdeu sua mulher, seus filhos, suas pernas... Mas pelo menos você tem seu pau, não tem? Pois é. Eu não tenho, cara. Eu não tenho pau.” Saiu da depressão na hora. Casou de novo e hoje tem três filhos.

- Então você matou sua mulher, seus dois filhos, cortou as pernas e o pau só pra recuperar o cara?

- Pois sim.

- Mas por que você não enganou ele? Por que não disse que sua mulher e filhos estavam mortos mesmo com eles vivos?

- Porque pessoas deprimidas que passaram por tragédias percebem quando você mente pra tentar fazer elas se sentirem melhor. Eu tenho que ficar realmente pior que o cara pra dar certo.

- Entendo... Mas matar a mulher e os filhos? Será que valeu a pena?

- Pelos dez milhões que a mãe rica dele me pagou? Ô se valeu, cara! Ô se valeu...

- Pelo jeito não tem caso que você não cure, hein?

- É, devo dizer que nunca falhei... Quer dizer, a não ser uma vez...

- Qual?

- Bem, uma vez uma senhora me ligou desesperada, mandando eu ir à sua casa urgentemente, dizendo que seu filho não saía da cama e não parava de chorar. Cheguei lá e encontrei um garoto estranho, chorando muito, segurando uma tesoura e assistindo compulsivamente à MTV. Perguntei a ele por que estava chorando. Ele respondeu que era porque alguém comentou em seu fotolog que achava a franja dele ridícula, e que se eu desse mais um passo ele cortaria a franja com a tesoura.

- E o que você fez?

- Fiquei puto, mandei ele à merda, enfiei o mouse no cu dele e fui embora. Nesse trabalho às vezes a gente perde a paciência.

- Imagino, deve ser muito estressante.

- É, muito... Mas chega de falar de mim. Como você tá, cara?

- Eu? Ah, eu vou bem. Quer dizer...

- Algum problema? Pode se abrir comigo, cara!

- Bem, é minha namorada... Ela me largou pra ficar com meu melhor amigo. Ando meio deprimido por isso.

- Puxa, cara, que triste... Sinto muito. Deve estar sendo muito difícil pra você.

- É. Está sim. Não tenho vontade de fazer nada.

- É uma pena... Você gosta de jogar futebol, não gosta?

- Sim, é uma das coisas que eu mais gosto.

- E você é bom?

- Bem, modéstia à parte, sou artilheiro do meu time de várzea. Estamos quase sendo tricampeões do campeonato de bairros.

- Ah, meus parabéns! Você deve estar muito contente...

- É, bem, quer dizer...

- Sabe, eu também adorava jogar futebol. Era sagrado: todo fim de semana eu estava lá batendo uma bolinha com os amigos. Mas, claro, isso foi antes de perder as duas pernas... Ah, o que eu não daria pra poder voltar a jogar! Nem que fosse pra dar apenas um chute! Um chute! Mas enfim, não posso.

- Eu.. Eu sinto muito...

- Será que você não percebe o quanto é privilegiado por ter as duas pernas?

- Bem...

- Ah, cara, como eu te invejo... Como eu te invejo...

- Sim, você tem razão. Eu aqui reclamando só porque minha namorada me deixou, e você aí sem as duas pernas... Me sinto envergonhado... Como eu fui idiota, meu Deus! Chorando só por que aquela vagabunda me largou! Desculpe, amigo, desculpe!

- Tudo bem, tudo bem. Mas agora vai viver a vida, que você ainda tem muitos gols pela frente!

- É o que eu vou fazer! Chega de tristeza, eu sou um privilegiado! Adeus, e obrigado, muito obrigado!

- Vai em paz, filho! Bem, esse foi o idiota das três e meia, vamos ver o que temos agora... Consolar uma viúva de vinte e cinco anos às cinco da tarde. Ah, que saudades do meu pau...

segunda-feira, 11 de junho de 2007

Filhos da PETA

- Ah... Nada como uma bela refeição vegetariana, não é, Tom?

- Sem dúvida, John, sem dúvida. Mas só feita de vegetais mortos por causas naturais, não é, John?

- Sem dúvida, Tom, sem dúvida! Que tal assistirmos um pouco de tv, Tom?

- Claro, John, claro! Mas nenhum programa feito por monstros trogloditas comedores de seres vivos, hein?

- Claro que não, Tom, claro que não! Que tal vermos nossos amigos naturais da natureza vivendo naturalmente no Discovery channel?

- Mas que belíssima idéia, John, que belíssima idéia! É por isso que você é o único ser vivo que eu faço questão de comer toda noite, John.

- Ah, obrigado Tom...

- Veja só, é um leopardo... Que gatinho lindo, não, John?

- Lindíssimo, Tom. E pensar que existem assassinos que matam esses animais para pegar suas peles...

- Ah, John, nem fala, John, nem fala... Por que não podem deixar os animaizinhos vivendo em paz uns com os outros? Será que eles não sabem que, ao contrário dos homens, os animais são amigos uns dos outros?

- Sim, Tom, veja só esse exemplo, o leopardo brincando de pegar com uma gazela! Olha só que lindo!

- Que divertido, John, que divertido! Cuidado gazela, ele vai te pegar, hein? Hehehe...

- Foge, gazela, olha o leopardo aí... Vai pegar, vai pegar... Pegou! Hehehe...

- É, pegou... Agora levanta, gazela, senão ele vai te pegar de novo, hein?

- Hehehe...

- É... John?

- Sim, Tom?

- Por que a gazela não está se levantando?

- Ah, Tom, é certamente uma brincadeira entre eles... Certamente...

- Mas John, se é só brincadeira... Em que caralho de mercearia eles arrumaram ketchup pra fingir que é sangue, John? Hein, John?! Me responde, John?!

- Não, não pode ser... Não pode ser verdade...

- O leopardo é um assassino, John! Que Deus nos proteja, o leopardo é um assassino!

- Meu Deus, não pode ser... Ele não é humano... Como pode, meu Deus, como pode?

- Ai, meus Deus, eu não merecia ter vivido para ver isso, meu Deus, eu não merecia!

- Calma, Tom, calma, precisamos nos acalmar!

- Sim, John, você tem razão... Mas eu te digo uma coisa, John: não podemos ficar aqui de braços cruzados vendo essa matança de gazelas pela tv! Precisamos fazer alguma coisa!

- Agora mesmo, Tom, agora mesmo!

Pegaram o primeiro avião para a Zâmbia. Morreram devorados enquanto tentavam convencer um leopardo a experimentar uma sopa de ervilha. Infelizmente o leopardo também morreu, de indigestão pela grande quantidade de verde no estômago dos dois amigos. Pobre leopardo.

Moral da História: Coma os animais, se eles pudessem comeriam você também.

sexta-feira, 1 de junho de 2007

Da Série Profissões Alternativas: O Assaltante de Sonhos

- Então você é assaltante de sonhos?

- Sim, sou.

- E o que é isso?

- Basicamente eu assalto as pessoas enquanto elas sonham.

- Ah, entendi... Você espera elas dormirem, e aí então leva tudo antes que elas acordem.

- Não, não é isso. Eu assalto as pessoas nos sonhos, mesmo. Invado os sonhos delas e roubo tudo que puder.

- E como você pode invadir os sonhos dos outros?

- Bem, é uma técnica muito difícil, me levou muitos anos de treinamento, dormindo mais de vinte e três horas por dia. Mas agora já a domino completamente. O melhor é quando a pessoa sonha com dinheiro, entro no sonho e levo tudo o que consigo. Já estou milionário.

- Milionário?

- Milionário.

- Sei... Mas então por que você mora embaixo desse viaduto?

- Porque não consigo transferir o dinheiro dos sonhos para a minha conta de banco de vida acordada. Mas não me faz falta, porque passo a maior parte do tempo dormindo. E aí, sim, sou milionário. Provavelmente o sonhador mais rico do mundo.

- Então você tem uma vida fixa nos sonhos?

- Sim, tenho. Ao contrário dos outros, meu sonho é sempre o mesmo. Sempre que durmo volto para ele. E lá tenho uma mansão em Beverly Hills...

- Beverly Hills, é?

- Sim, Beverly Hills, com milhares de carros na garagem, os carros mais caros que você pode imaginar, e alguns que nem existem, como um voador que eu roubei do sonho de um moleque de oito anos.

- E família? Você tem uma família no sonho?

- Família não, mas mulher tenho mais do que carro. Todas roubadas de sonhos eróticos. Silvia Saint, Ellen Roche, Mari Alexandre, é só dizer que eu tenho todas. O problema é que algumas vêm com defeito...

- Com defeito?

- É, uma merda. Às vezes o sonho é de algum fetichista doente, eu não percebo, e acabo levando a mulher esquisita para casa. Teve uma que toda vez que chegava perto de mim enfiava o pé na minha boca. Outra dizia que só tiraria a roupa se eu dissesse “por favor, mamãe”. Outra me dispensava para ir fuder com o Fido, meu Setter Inglês. Perturbador.

- E o que você fez com essas mulheres?

- Ah, quando elas vêm com defeito eu mato. Nos sonhos você pode matar quem quiser, porque ninguém realmente existe.

- Interessante. Seu emprego parece ser muito bom.

- Ah, é ótimo! Passo quase o dia todo dormindo, só acordo para ir ao banheiro, que no meu caso é aquele poste, para comer, que pego daquela lata de lixo, e beber água, que pego daquela torneira. Mas não me incomodo, já que na minha mansão de sonho tenho os melhores cozinheiros do mundo, uma cama gigante cheia de mulher gostosa, e champagne a dar com pau. Mas também tem a parte ruim.

- Qual?

- Bem, primeiro que eu tenho que trabalhar enquanto durmo.

- Ah, é, isso é ruim.

- Mas o pior mesmo é quando invado pesadelos por engano. Rapaz, rezo todo dia para Deus para que nem ele nem o inferno exista, porque se aquele lugar for tão ruim quanto as pessoas sonham, estamos todos fudidos. Principalmente o inferno dos crentes e dos muçulmanos, impressionante o requinte de crueldade no inferno dessa gente... Agora, ruim mesmo foi quando entrei no pesadelo de um cara e ele estava comendo a própria mãe. Constrangedor. Fico com vergonha só de lembrar.

- E o que você fez?

- Saí de lá o mais rápido que pude. Claro, não antes de roubar sua carteira e um relógio muito bonito que ele tinha pendurado na parede. Francês, me parece. Aliás, que horas são?

- Sete e meia.

- Ih, rapaz, passei muito tempo acordado, preciso ir trabalhar, se você me der licença...

- Claro, claro...

- Mas antes me passa o relógio.

- Hein?

- Me passa o relógio.

- Como assim, você está me assaltando?

- Não, estou te preparando um bolo. Claro que eu estou te assaltando, porra!

- Então quer dizer que eu estou sonhando?!

- Claro que não, é que hoje estou fazendo hora extra.

- Ah, bom, se é assim, sim. Aqui está.

- Obrigado e boa noite.

- Durma bem.