quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Amor de Vitrine

Ultimamente ela não andava muito feliz. Estava se sentindo velha e sozinha. Mas o pior não era a solidão, com isso ela já estava acostumada, o que mais a incomodava era a suspeita de que ela não era mais uma mulher gostosa. Ultimamente nenhum homem olhava para ela com desejo, nem mesmo com simpatia. A sensação de que só seria comida por alguém bêbado ou pagando era bastante dolorosa. Precisava de alguém que a amasse, que a dissesse que era bonita, que tivesse vontade de comê-la pelo menos três vezes por semana, que fosse gentil... Precisava de um homem de verdade.

Foi distraída com esses tristes pensamentos que ela parou na vitrine de uma livraria, e ficou olhando para alguns livros de culinária que ensinavam a fazer bolos, doces de festas, enfim, essas coisas que gordas gostam. Então reparou que, de dentro da livraria, um par de olhos a encarava. Não levantou o rosto imediatamente para ver quem era, continuou de cabeça baixa, fingindo interesse nos livros, coisa que ela nunca teve. E sentia que os olhos não paravam de fitá-la. Levantou o rosto, e lá estava ele: um homem alto, elegante, de terno e gravata, extremamente alinhado, segurando um livro, olhava fixamente para ela. Tinha um olhar de cobiça (cobiça por ela!), e um sorriso muito doce, sorria para ela, de um jeito que há muitos anos não sorriam. Tímida, desviava o olhar, voltava para os seus livros de gorda na vitrine, apenas para voltar para os mesmos olhos ardentes. Não agüentou mais, seu rosto estava ficando cada vez mais vermelho, e foi correndo para casa.

Chegou em casa numa excitação insuportável. Se por um lado estava extremamente feliz por um homem como aquele ter olhado para ela, e ainda mais daquele jeito, e sorrido daquele jeito, por outro sentia vontade de se matar por ter fugido covardemente de quem poderia ser o homem da sua vida. Mas, refletindo, chegou à conclusão de que se ele realmente a amava, amanhã estaria na mesma livraria e no mesmo horário para reencontrar a mulher de sua vida. E decidiu voltar lá no dia seguinte. Nem dormiu nessa noite.

Cinco e meia. Era a hora. Fez exatamente o que havia feito no dia anterior: com seu carrinho de feira, parou em frente à vitrine para olhar os livros de gorda. E sentiu os mesmos olhos a atravessarem. Lá estava ele novamente, com o mesmo terno, os mesmo olhos, o mesmo sorriso, segurando o mesmo livro. Dessa vez ela não esperou nada acontecer, entrou na livraria, prendendo a respiração, e parou na frente dele. Ele não tirava os olhos dela. Nenhum dos dois dizia uma palavra. Tremendo, ela pegou na mão dele, e os dois saíram como um furacão pela porta, ela com seu carrinho de feira, ele com seu livro.

Corriam, corriam para a casa dela. Ela emocionada, rindo, agradecendo a Deus, e ele com os mesmos olhos apaixonados, e ela se perguntando o que havia feito de tão bom para merecer que algo tão maravilhoso acontecesse em sua vida, como um homem tão bonito e elegante poderia estar interessado por alguém como ela, e que lindo caminho de amor e paixão ela via em sua frente!

O estranho é que ninguém da livraria notou que uma gorda louca havia roubado o Roberto Justus de papelão que anunciava seu novo livro de auto-ajuda empresarial.

3 comentários:

Merlin disse...

Foderífico!
hauhauhauha

Anônimo disse...

Justus pegador!

uhauhauhauhauhauhah.

kid_limao disse...

Mas pra ela, mais vale um Justus de papelão, do que um vibrador de duas pilhas "D"