quarta-feira, 10 de outubro de 2007

O Homem que Dialogava Sozinho

Manuel era um homem solitário.

Manuel nunca fez amigos, pois sempre achou que não precisava deles. Seus únicos companheiros sempre foram seus livros, seus filmes e seus discos, e era dentro da própria cabeça imaginativa que Manuel tinha as conversas mais interessantes. Ou seja, com ele mesmo, ao passo que ter outras pessoas com quem conversar sempre pareceu algo muito inútil para ele. Mas isso mudou depois da morte de sua mãe, há dois anos. Ela era a única pessoa com quem Manuel conversava. Conversavam sobre coisas simples, como o preço do leite, receitas de bolo, a conta de luz, castração de cachorros, nada que se pudesse comparar aos papos altamente profundos que Manuel tinha com ele mesmo. Mas foi depois da morte da mãe que Manuel percebeu que sentia muita falta de outra pessoa com quem pudesse falar. O silêncio da sua vida estava ficando cada vez mais insuportável. E Manuel ligava o rádio, a TV, mas não adiantava, ele sabia que aquelas vozes idiotas não estavam falando com ele. Além do mais, Manuel queria uma conversa mais sofisticada, do tipo que ele só conseguia ter com ele mesmo. Foi quando teve a idéia:

Se eu sou o único que conheço com capacidade intelectual para agradar a mim em uma conversa, por que não conversar comigo mesmo? A minha mente não é uma só, a de ninguém é, e eu sei que tenho várias linhas de pensamentos simultâneas, então por que não transferir uma pra minha voz? Algum pensamento mais perto do sub-consciente, por exemplo? Assim eu, dentro da minha mente, conversaria comigo mesmo, a parte do meu pensamento que sairia diretamente pela minha voz!

A idéia era muito boa, certamente, mas como passar isso para a prática? Era preciso criar alguma técnica. Manuel começou tentando falar a primeira coisa que vinha na cabeça:

- Cu, pastel de vaca, cu, é... Cu!

Mas ficou bem claro que isso não daria certo, não dava para seguir nenhuma conversa razoável desse jeito. Da voz dele não podiam sair simplesmente palavras soltas, teria que ser um raciocínio um pouco mais lógico... O que ele precisava era pegar uma linha de pensamento, uma secundária, não a principal, e transferir da sua mente diretamente para a sua voz.

Porra, isso é difícil! O que eu preciso é identificar um pensamento secundário meu, e começar a falá-lo em voz alta, mas sem deixar que ele passe a ser minha linha de pensamento principal. Bem, vamos tentar, esse é o meu pensamento principal, ou seja, estou quebrando a cabeça tentando solucionar esse problema, filosofando sobre minhas diversas consciências e...

- Aquela torneira tá pingando, é melhor eu fechar, ta acabando a água no mundo, e eu aqui desperdiçando e...

Puta merda, funcionou! Meu outro eu está falando comigo!

- ...e a poluição, e os carros, carros, domingo tem corrida de formula um, Galvão Bueno, Rrrrrrronaldinho! É assim que ele fala, é, e...

Haha, é verdade, é verdade, a corrida! Ai, graças a Deus, graças a Deus alguém para conversar comigo, e quem melhor que eu mesmo?

- ...porra, aquela Scheila Mello é muito gostosa, muito gostosa, comia toda, toda, muito gostosa, to com fome, tem pizza, pizza, tem pizza? To com fome...

Mal posso esperar para começar a ter uma conversa intelectualmente estimulante comigo mesmo. Já sei, vou colocar um filme da minha coleção no dvd.

- Quando a gente sente fome come, é assim, não sei por que, tem que comer sempre...

Ah, Barry Lyndon... Provavelmente a melhor fotografia em cinema de todos os tempos... Vamos ver o que meu subconsciente tem a dizer...

- E o Wagner Montes, escraaaachaaaaaa, e o Pedro de Lara e... Filme, filme, to vendo um filme... Essa eu comia, essa eu comia, ah, essa não, essa eu não comia... Esse cara é galã, será que o pau dele é maior que o meu?

O quê? Mas é Barry Lyndon, meu filme favorito, uma das maiores obras primas do cinema, será que só o que eu tenho a dizer sobre o filme é sobre o tamanho do pau dos atores?

- Ah, do que esse eu sou maior, ele é gordo, muito gordo, gordo tem pau pequeno, gordo, o meu é maior, ele tá de cavalo, cavalo é legal, cavalo, eu gosto, mas prefiro cachorro, cachorro, tipo o Snoopy, o Snoopy é engraçado, o Snoopy...

Ah, não, chega, chega! Agora já foi demais! É melhor eu acabar logo com isso antes que passe a me odiar... Bem, agora só o que eu preciso é parar de falar... É, é só parar... E como eu faço isso?

- ...é puta, puta, tudo puta, isso tudo é puta, como todas, tudo puta...

Meu Deus, eu não consigo! Eu não consigo! Minha voz está totalmente dominada pela parte imbecil do meu cérebro!

- Banheira do Gugu, saudades, da banheira do Gugu, Gugu, cucu, muito cu, quero sorvete, com casquinha, não, sem, não gosto de casquinha, cho-co-la-te, eu só quero chocolate...

Eu não acredito que isso está acontecendo! O que eu fui fazer, meu Deus?! Por quanto tempo ainda agüentarei isso?!

Dois dias. E, ironicamente, a gota d’água foi com uma discussão não muito intelectual. Foi numa tarde em que, desesperado e sem conseguir raciocinar nada devido à própria tagalerice estúpida, Manuel resolveu dar uma volta na praça, para espairecer.

- Quem come capim é cavalo, eu disse, cavalo! E vaca, e boi, eu não! Eu gosto de carne, pombo é legal, eu gosto, às vezes, às vezes não, sei lá porque, sei lá porque... Ô, essa é gostosa, hein? Essa é muito gostosa, essa eu comia, essa é mais gostosa que a Silvia Saint!

O quê? O quê foi que eu disse?

- A Silvia Saint é ruim, a Silvia Saint, não gosto não, não gosto...

Ah, não, isso não, isso não pode ser, já estou passando dos limites... Como eu posso dizer uma coisa dessas da Silvia?!

- Eu não comia a Silvia não... Eca!, nojo, nojo!

Nojo?! Da Silvia?! Isso já é demais, isso eu já não agüento! Desisto!

E, de algum jeito que eu não sei explicar, a razão de Manuel cometeu suicídio dentro da própria cabeça. Mas Manuel continuava vivo, assim como sua voz.

- Bebê bonitinho, bonitinho, eu gostava de comandos em ação, eu gostava, e playmobil, e essa política tá uma vergonha, né? É, tá sim, tá uma vergonha, tá, prefiro sorvete, de chocolate, cho-co-la-te, eu só quero chocolate...

E lá ficou Manuel, parado no meio da praça, com aparência catatônica, jogando seus pensamentos caóticos, sem razão ou motivo. As pessoas que passavam pela praça começaram a parar para ouvir o pobre homem, e Manuel começou a ficar muito popular, muito mais do que jamais fora em sua vida de homem inteligente. Alguns o consideravam um gênio, outros um filósofo, outros diziam que deveria ser preso, outros que era um santo...

Não demorou muito e Manuel se tornou o apresentador mais bem pago da TV.

Ano que vem concorre à prefeitura de Niterói pelo PTB.

3 comentários:

Tácio disse...

Caralho, eu já disse isso, mas esse foi um dos melhores posts de todos os tempos.

kid_limao disse...

Fiquei tentado manter a linha principal de raciocínio, e falar a linha secundária...
Não deu muito certo...
Mas o post tá foda!
Já atualizei o link lá no ENUMTABOUM.
Abraço!
Chocolate, eu-so-quero-cho-co-la-te!

mayara¬¬" disse...

Claro que, depois desse post, está esclarecido o por que os políticos, atores de tv e cobradores de onibus são do jeito que são.
¬¬"