sexta-feira, 7 de setembro de 2007

O Moleque que Cansou

Como todo dia, passava pela mesma rua a mesma Mercedes branca, com o mesmo motorista negro, com a mesma velha loira no banco de trás. Pararam no mesmo engarrafamento de sempre, e o mesmo pivetinho de sempre veio assustar nossa heroína, batendo no vidro do seu carro blindado.

- Ô dona, dá pra dar uns trocadinhos aí, que eu tô com fome aí e quero almoçar?

- Ai, que susto! Não, moleque, não tenho trocado.

- É que minha mãe tá doente, e eu não almocei ainda, e minha irmã tá doente também, e eu tô cheio de irmão doente, e ainda não almocei ainda, e...

- Eu não tenho dinheiro, meu filho. Tá? Eu não tenho dinheiro.

- Então o que é isso?

- Isso o quê?

- Essas notas de cem que a senhora tá contando.

- Isso? Ah, isso é... É... Isso não é dinheiro não, moleque! Isso aqui é... Não é dinheiro não! Agora chispa, vai!

- Pô, a senhora ta cheia de nota de cem e não pode me dar uns trocadinhos?

- Ai meu Deus, que moleque chato! Alberto, aumenta o som que não agüento mais ouvir esse pivete!

Poeira... Poeira... Levantou poeira...

- Pô, dona, todo dia a senhora passa aqui, e nunca abriu a porra desse vidro pra falar comigo, nem pra me dar um dinheiro, nem nada... Hein, dona, tá me ouvindo?

- Poeira... Levantou poeira...

- Ah, não tá ouvindo? Então eu acho que vou ter que falar mais alto! Acho que vou ter que começar a gritar!

- ...eira...

- Porque eu cansei! Cansei, tá me ouvindo?! Cansei dessas velhas ricas escrotas igual à senhora que só olham pra minha cara pra soltar um suspiro, só pra depois se sentirem bem por terem filhos que não precisam pedir esmola! Cansei de te ver passando todo dia em carro importado, com motorista, cheia das jóia na cara e nunca me dando dinheiro! Cansei de te ver fingindo que se importa com os outros! Cansei, porra, cansei!

- Ai meu Deus, Alberto, tira esse carro daqui, pelo amor de Deus!

- Não dá, Sra. Camargo, estamos no meio do engarrafamento.

E berrando que estava cansado entre outras coisas inteligíveis, o moleque começou a se debater no carro da madame, esfregando a cara contra o vidro, subindo no capô, pulando no teto, chamando a atenção de todos que estavam por perto. Apavorada, sem saber o que fazer e presa no maldito engarrafamento, a madame abriu o vidro e jogou todo o dinheiro que tinha na carteira. Quinhentos e vinte, contou depois o moleque.

- Agora me deixa em paz, moleque dos infernos! Me deixa em paz, pelo amor de Deus!

- Claro, senhora, agora já tô satisfeito.

Pegou o dinheiro e foi-se embora tranqüilamente.

Moral da história: Não se pode mudar o mundo esperneando imbecilmente, mas pelo menos pode dar uma graninha.

3 comentários:

Carol disse...

huahuahuaha
fodástico
vo tentar isso também.
ótimo.

mariana disse...

É.. oi menininho aprendeu com as mulheres...

*Fernanda* disse...

HAHAHAH
Adorei o texto e o comentário da mariana... de vez em quando é bom mesmo dar uma de louco pra conseguir as coisas

rs