quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Os Diários de Daniel, O Idiota Extremamente Carente

22 de Abril

Hoje acordei e senti meu coração vazio como um pote de danoninho. Oh, meu diário, o que aconteceu com o creme rosa que outrora o enchia até a boca? Para onde foi toda a minha alegria de viver? Acho que acabou quando eu percebi que ninguém me ama. Por que ninguém fala comigo? Por que ninguém olha no meu rosto? Será que é por que eu nunca saio de casa? Ai, diário, não fico assim tão triste desde que a Jackeline Petkovic saiu do Bom Dia & Companhia. Será que algum dia vou achar alguém que me dê atenção?

25 de Abril

Finalmente o sol decidiu sair de suas nuvens escuras e brilhou para mim! Ah, querido diário, que imensa euforia tomou conta do meu coração ontem à tarde! Tanta que nem consegui escrever em suas lindas páginas de papel de carta. Minhas mãos tremiam, assim como minhas pernas, e meu coração gritava como se estivesse em um show do Fábio Júnior! Pude até sentir o creminho rosa enchendo-o novamente! Finalmente, diário, finalmente descobri alguém que me ama!

Ontem decidi sair de casa (nem lembro quando tinha sido a última vez), e fui andando pelas ruas para ver se achava entre os rostos estranhos e antipáticos algum que pudesse me dar um pouco de amor e carinho. Foi quando passei em frente a uma banca de jornal, e vi uma coisa que prendeu minha atenção: A revista Teclado em edição especial com cifras das músicas do The Cure! Cara, desacreditei, e entrei na banca para comprá-la. O preço era meio salgado, R$4,80, mas pelo The Cure valia a pena. Oh! diário, foi então que apareceu o motivo de toda minha alegria. Entrei na banca, e veio me atender um senhor de meia idade, com sotaque português, e um pouco acima do peso. Olhou para mim, deu um sorriso, e perguntou se poderia me ajudar. Meu Deus! Você deveria ver seus olhos quando perguntou isso! Foi como se o que saíssem daqueles olhos pretos e vermelhos, de baixo de grandes tufos de sobrancelhas, fossem raios de sol aquecendo minha alma! Senti meu coração pular, meus olhos umedecerem, e com dificuldade respondi que queria uma revista Teclado. O bom homem a pegou e disse: R$4,80, filho. Filho! Filho! Ele me chamou de filho! Há quanto tempo não recebia demonstração de carinho tão afetuosa! Tremendo muito, tirei uma nota de R$5,00 e entreguei a ele, que me devolveu os 20 centavos de troco e minha revista Teclado, que recebi com muito alegria. Me virei para ir embora, quando aconteceu o inesperado. Senti dois tapinhas nas costas, e uma linda voz com sotaque lisbonense me disse: Volte sempre, amigo! Um tapinha nas costas, diário! Como se fôssemos velhos companheiros de jornada! E disse o volte sempre com um tom que não escondia sua imensa vontade de me ver de novo. Me voltei para o homem, e ele tinha no rosto o mais dourado sorriso que eu já vi na vida. Ai, diário, tive que me segurar para não cair no choro, ou para não desmaiar! Que grandes sensações senti nesse dia! Fui para casa andando nas nuvens, era certamente a pessoa mais feliz do bairro, porque finalmente achei alguém que me ama!

Mal posso esperar para voltar amanhã, só de pensar já sinto convulsões de ansiedade por todo o corpo.

26 de Abril

Deus existe? Se existe, por que faz essas coisas comigo? Por que ele não pode deixar meu pote de Danoninho sempre cheio?

Voltei ao jornaleiro hoje, com o pretexto de comprar um jornal, quando na verdade só queria ver o meu amado. Ah, diário, qual foi minha surpresa quando veio me atender não meu português, mas uma mulher. Uma mulher portuguesa. Sim diário, sim, a mulher do português. O português, MEU português, é um homem casado. Nesse mesmo momento, todo meu mundo, que ontem ficou todo colorido, se tornou totalmente cinza, o sorriso desapareceu do meu rosto, e minha alegria se tornou a mais profunda tristeza que um homem pode sentir.

Lá estava ela, no auge dos seus 57 anos, me mostrando como eu nunca teria chance de roubar seu português , como suas curvas sensuais e sua carne farta nunca deixariam o português sair de perto dela, como eu era um ser insignificante ante seu lindo bigode de mulher vivida.

Perguntou o que eu queria, e fiquei por um momento congelado, sem saber o que dizer, até que após uns vinte segundo disse: Nada, obrigado. A bruxa se afastou, e comecei a procurar com os olhos o meu querido português. O achei abaixado, arrumando algumas revistas, e foi então que meu mundo se iluminou novamente. Ele estava mostrando o cofrinho! Sim, diário, eu vi, eu vi, eu vi o cofrinho do meu português! E para quem mais ele o estaria mostrando senão para mim? Eu era o único no jornaleiro! Não precisava de mais provas, ali tive certeza que aquele homem me amava. Sim, nós nos amávamos, mas tinha uma pedra em nosso caminho: a portuguesa. Mas não se preocupe, diário, não se preocupe, ela não vai ficar no caminho da minha felicidade. Amanhã mesmo eu cuido disso...

31 de Maio

Nunca pensei que alguém pudesse destruir tanto assim o coração de outra pessoa. Nunca imaginei que alguém fosse capaz de usar tanta maldade apenas para ver outra pessoa sofrer. E nunca pensei que esse alguém fosse meu português.

Meus Deus, se ele amava tanto assim aquela portuguesa, por que me tentou tanto? Por que todas aquelas demonstrações públicas de carinho, todo o afeto, toda a atenção que dispensou comigo naquela fatídica tarde? Oh, diário, quando o Juiz perguntou se ele me conhecia, e ele disse que não, que apenas me viu uma vez, um garoto esquisito que mais parecia um defunto e que comprou uma revistinha de bicha qualquer... Ai, diário, juro que preferia que ao invés de pronunciar essas palavras ele me acertasse um tiro no coração, porque, de qualquer forma, ele o matou. Simplesmente não tenho mais motivo para viver.

Agora vou preso. Meu Deus, como vou suportar aquele buraco? Uma vida inteira sem pica-pau, sem Chiquititas, sem o Toddy gelado da minha mãe antes de dormir?! Por que simplesmente não me matam?!

20 de junho

Perdão, diário, perdão pelo meu desespero. Perdão por ter questionado a existência de Deus, pois hoje sei que ele existe, e me ama! Me fez passar por tudo aquilo, apenas para agora me fazer a pessoa mais feliz do mundo! Não, diário, não sinto falta da TV, nem da comida da minha mãe, pois achei em abundância o que sempre procurei: amor. Nunca imaginei que acharia o amor em um lugar tão assustador, como as impressões enganam! Como é verdade que Deus escreve certo por linhas tortas!

Não sinto mais falta do meu português, pois aqui sou amado o tempo todo: na hora do banho, quando abaixo para pegar o sabonete, enquanto almoço, enquanto durmo, mais de cinco vezes por dia! E meus companheiros fazem isso sem pedir nada em troca! Que almas lindas encontrei aqui, que almas lindas! Se eu tenho momentos ruins? Sim, tenho, sinto muitas dores, sangro quase o tempo todo, e sempre quando tento retribuir um pouco do amor que recebo ganho um soco na cara ou um chute no estômago, mas isso só mostra como esses homens são pessoas caridosas, que dão prazer sem exigir que eu dê algo de volta. Verdadeiros santos!

Obrigado, meu Deus, obrigado por ter me feito passar por tudo isso apenas para me fazer uma pessoa feliz. Obrigado por me ter feito conhecer o português, por ter matado sua mulher, só para que eu caísse nesse ninho de amor abençoado. Obrigado, meu Deus, por fazer transbordar de alegria o meu potinho de Danoninho!

8 comentários:

Tácio disse...

Hahahaha, ele deve ser bipolar, coitado...

Walter Carrilho disse...

Me diz uma coisa: Esse Daniel é Emo? Daqueles com franjinha?

*Fernanda* disse...

Ai que bom!!
O potinho dele está cheio!!!
HAHAHAHAHA

Sou apaixonada por esse blog!

Cristiano disse...

O Gótico/Emo enfim, recebeu o amor de Corintianos!

Anônimo disse...

Cara, só uma palavra:

GENIAL.

kid_limao disse...

CARAAAALHO!
Extremamente foda esse post!
Fala ai! O que você toma pra escrever assim?
Parabéns!

Anônimo disse...

[RED]
BOM PELOQUE EU LI E EXTREMAMENTE RADICAL ADOREI.







VOCE E LOUCO? NAO ME ENPORTA VALEU

Anônimo disse...

EU ACHEI MUITO LEGAL CARA



BJKXSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSS!
JESSICA