sábado, 16 de junho de 2007

Da Série Profissões Alternativas: O Desgraçado Consolador

- Que isso, cara, o que aconteceu com você?!

- Comigo? Como assim? Nada, ué!

- Mas você está sem as duas pernas!

- Ah, isso... Não se preocupe, isso faz parte do meu trabalho.

- Trabalho? Mas que porra de trabalho te obriga a cortar as duas pernas?

- Bem, é o tipo de coisa que eu tenho que fazer no meu emprego. Eu trabalho como consolador.

- Consolador?

- É, eu consolo pessoas deprimidas, desesperadas, que acham que chegaram no fundo do poço.

- Continuo sem entender.

- Bem, sabe quando as pessoas tentam te animar dizendo: “tem muita gente pior que você”? Pois então, eu sou esse exemplo vivo de pessoa pior.

- Ah, ta... Mas você ganha dinheiro com isso?

- Claro, parentes ou amigos de pessoas deprimidas me contratam para que eu mostre pro deprimido como ele é um abençoado comparado comigo, mesmo que ele seja um merda completo.

- Interessante... Você que inventou essa profissão?

- Sim, tive a idéia quando percebi que não importa o quão bem ou mal as pessoas estejam na vida, elas só ficam satisfeitas quando percebem que tem gente muito pior. É o que as faz sentirem especiais.

- É verdade... A clientela deve ser bem grande, não?

- Gigante. Estou com a agenda cheia até 2009.

- E você ganha bem?

- Varia com a desgraça do desgraçado. Quanto maior a desgraça mais eu cobro. Tem casos de desgraça pequena em que só o que eu preciso é aparecer na frente do individuo. Aí ele olha pra mim, começa a chorar, vê como é privilegiado e fica curado. Mas tem os casos de tragédia gigantesca que não se resolvem assim tão fácil. Por exemplo, tive um cliente que estava em depressão profunda por que perdeu a mulher, os dois filhos e as duas pernas em um acidente de carro.

- Nossa, que tragédia... E o que você fez pra recuperar o cara?

- Tive que matar minha mulher, meus dois filhos, cortar as duas pernas e meu pau. Então disse pra ele: “Tudo bem, você perdeu sua mulher, seus filhos, suas pernas... Mas pelo menos você tem seu pau, não tem? Pois é. Eu não tenho, cara. Eu não tenho pau.” Saiu da depressão na hora. Casou de novo e hoje tem três filhos.

- Então você matou sua mulher, seus dois filhos, cortou as pernas e o pau só pra recuperar o cara?

- Pois sim.

- Mas por que você não enganou ele? Por que não disse que sua mulher e filhos estavam mortos mesmo com eles vivos?

- Porque pessoas deprimidas que passaram por tragédias percebem quando você mente pra tentar fazer elas se sentirem melhor. Eu tenho que ficar realmente pior que o cara pra dar certo.

- Entendo... Mas matar a mulher e os filhos? Será que valeu a pena?

- Pelos dez milhões que a mãe rica dele me pagou? Ô se valeu, cara! Ô se valeu...

- Pelo jeito não tem caso que você não cure, hein?

- É, devo dizer que nunca falhei... Quer dizer, a não ser uma vez...

- Qual?

- Bem, uma vez uma senhora me ligou desesperada, mandando eu ir à sua casa urgentemente, dizendo que seu filho não saía da cama e não parava de chorar. Cheguei lá e encontrei um garoto estranho, chorando muito, segurando uma tesoura e assistindo compulsivamente à MTV. Perguntei a ele por que estava chorando. Ele respondeu que era porque alguém comentou em seu fotolog que achava a franja dele ridícula, e que se eu desse mais um passo ele cortaria a franja com a tesoura.

- E o que você fez?

- Fiquei puto, mandei ele à merda, enfiei o mouse no cu dele e fui embora. Nesse trabalho às vezes a gente perde a paciência.

- Imagino, deve ser muito estressante.

- É, muito... Mas chega de falar de mim. Como você tá, cara?

- Eu? Ah, eu vou bem. Quer dizer...

- Algum problema? Pode se abrir comigo, cara!

- Bem, é minha namorada... Ela me largou pra ficar com meu melhor amigo. Ando meio deprimido por isso.

- Puxa, cara, que triste... Sinto muito. Deve estar sendo muito difícil pra você.

- É. Está sim. Não tenho vontade de fazer nada.

- É uma pena... Você gosta de jogar futebol, não gosta?

- Sim, é uma das coisas que eu mais gosto.

- E você é bom?

- Bem, modéstia à parte, sou artilheiro do meu time de várzea. Estamos quase sendo tricampeões do campeonato de bairros.

- Ah, meus parabéns! Você deve estar muito contente...

- É, bem, quer dizer...

- Sabe, eu também adorava jogar futebol. Era sagrado: todo fim de semana eu estava lá batendo uma bolinha com os amigos. Mas, claro, isso foi antes de perder as duas pernas... Ah, o que eu não daria pra poder voltar a jogar! Nem que fosse pra dar apenas um chute! Um chute! Mas enfim, não posso.

- Eu.. Eu sinto muito...

- Será que você não percebe o quanto é privilegiado por ter as duas pernas?

- Bem...

- Ah, cara, como eu te invejo... Como eu te invejo...

- Sim, você tem razão. Eu aqui reclamando só porque minha namorada me deixou, e você aí sem as duas pernas... Me sinto envergonhado... Como eu fui idiota, meu Deus! Chorando só por que aquela vagabunda me largou! Desculpe, amigo, desculpe!

- Tudo bem, tudo bem. Mas agora vai viver a vida, que você ainda tem muitos gols pela frente!

- É o que eu vou fazer! Chega de tristeza, eu sou um privilegiado! Adeus, e obrigado, muito obrigado!

- Vai em paz, filho! Bem, esse foi o idiota das três e meia, vamos ver o que temos agora... Consolar uma viúva de vinte e cinco anos às cinco da tarde. Ah, que saudades do meu pau...

5 comentários:

Anônimo disse...

auhuhauhauhauhauhauha
demais

Blogueiro disse...

SERÁ QUE CABE UM HOMEM AÍ NO MEIO?

Emilia disse...

muito bom isso aqui!
vc tem um link no meu blog já.

eu sempre to por aqui ;) passa lá tb.
abraço

Cristiano disse...

Você é o cara nas Piadas! Vi todo o Site!

Continue! Não pare esse blog!

Anônimo disse...

o que eu estava procurando, obrigado