sábado, 22 de dezembro de 2007

A Metamorfose Revista (Por um Idiota)

- Bom dia, senhor.

- Humpf... É, bom dia sim, tá bom...

- Aceita um cafezinho?

- Tem sem açúcar?

- Não senhor, apenas com açúcar ou adoçante.

- Pois eu não posso tomar com açúcar e odeio adoçante! Ora, pra que me oferece se não tem sem açúcar?

- Desculpe, senhor, mas como eu poderia saber que...

- Tá, tá bom, não enche, tá?

- Eu hein, cara mal educado...

Ele andava muito amargo nessa época, e tinha consciência disso. Já teve um tempo em que ele era muito doce e simpático com as pessoas, e ele sentia saudades desse tempo. Mas sua vidinha mocoronga, seu empreguinho insuportável de catalogador de fichas que iriam para o lixo, seu salário miserável que não era suficiente para sair da casa dos pais, tudo isso foi deixando Carlos cada vez mais irritadiço, rancoroso e mal-humorado com a vida e as outras pessoas. Chegou naquele dia em casa no ápice da amargura:

- Oi, Carlinhos! Como foi o trabalho hoje, meu filho?

- Ah!, ótimo, mãe, ótimo! – respondeu Carlinhos com um sarcasmo tão óbvio que mal dava para chamar de sarcasmo – Hoje cataloguei um monte de fichas para depois elas serem jogadas no lixo! Legal, né? Porque é isso que eu faço, catalogo fichas que vão pro lixo! Que maravilha de trabalho, não?

- É... Bem, quer jantar agora, Carlinhos?

- Não, não, vou primeiro praticar um pouco de Squash na minha quadra particular...

- Squash? Mas eu nunca vi você...

- É claro que quero jantar agora!

- Ah, sim, desculpa, desculpa. Eu fiz bolo de carne. Você gosta de bolo de carne, não gosta?

- Tanto faz, me dá essa merda logo que eu tô com fome. E vê se não me enche o saco!

Comeu o bolo de carne, seu prato favorito, como se fosse uma massinha de modelar. Simplesmente não sentia mais prazer em nada. Tudo e todos o irritavam, e ele sofria com isso.

- Vou dormir.

- Mas Carlinhos, são oito e meia da noite...

- E daí? Por que não posso dormir agora? Tenho que ver a novela, por acaso? Ah, tenho que ver a novela, né? Pois então agora só saio daqui quando acabar essa merda!

- Carlinhos, não precisa...

- SSSHHHHHHHHH!!! Tá começando a novela!

E assistiu do início ao fim, não levantou nem para ir ao banheiro. Fazia tempo que não assistia a novela das oito, e achou tudo extremamente imbecil. Nem as atrizes supostamente gostosas ele achou gostosas.

- Boa noite, Carlinhos.

- Grau! – respondeu ele estranhamente, e foi dormir.

Acordou no dia seguinte mais tarde que o normal, tentou se levantar da cama e não conseguiu. Não conseguia se mexer. Também não conseguia ver, nem ouvir, ou qualquer dessas coisas que as pessoas fazem sem muito esforço. Mas imediatamente, não sei como, ele percebeu o que tinha acontecido.

“Meu Deus, eu não acredito, me transformei em um limão! Mas como isso é possível? Eu sei que andava bastante amargo, mas me transformar em um limão!? Pensando bem, acho que faz sentido. É, faz sentido.”

Até que ele aceitou numa boa.

“E o que eu faço agora? Acho que nada, né? Quer dizer, eu sou um limão, o que se espera que um limão faça? Acho que eu vou só ficar aqui parado sendo um limão.”

Passavam-se as horas, e sua mãe foi ficando preocupada. Foi bater na porta do quarto de Carlinhos, mesmo correndo um risco de levar um esporro do filho ranzinza.

- Carlinhos! Carlinhos, meu filho, você está duas horas atrasado! Você está me ouvindo, Carlinhos? Olha, eu vou entrar, hein? Você não está pelado não, né? Nem tocando... Enfim, vou entrar!

Entrou, e lá estava ele, sendo um limão.

- AAAAAAAAAAAAAAAAIIIIIIIIIIIIIIII!!! Socorro!!! Socorro!!!

- O que foi mãe, o que foi, o que aconteceu?!

- No quarto do seu irmão, no quarto do seu irmão!

- E o que tem no quarto do meu irmão?

- Um limão, um limão!

- Um limão?

- Sim, um limão!

- E daí?

- E daí?! E daí?! Bem, e daí que... É...

- A senhora tem medo de limão?

- Hein? De limão? Bem... Acho que não, né? Quer dizer, é um limão, e... É, tem razão, desculpe.

- Alzheimer...

- Mas o que um limão está fazendo na cama do seu irmão?

- Sei lá, ele deve ter saído atrasado pela janela e deixou um limão na cama, o que tem de errado nisso?

- Nada, eu acho...

- Tem cachaça aí?

E junto com a cachaça, o açúcar e o gelo, Carlinhos se transformou em uma deliciosa caipirinha, refrescando e embriagando sua mãe e irmã em plena terça-feira de manhã. Nunca se sentiu tão útil, doce e feliz em toda a sua vida.

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Um Exemplo de Vida

Eram muito pobres os dois, mãe e filho. Bem, muito pobres não, mas eram pobres. Não tinham dinheiro sobrando, essa era a verdade. A mãe, Dona Madalena, estava desempregada, não tinha nenhum talento especial nem conhecimento para fazer nada importante, e não tinha perspectiva de um emprego razoável. Se preocupava muito com o futuro do filho, Alceuzinho. Queria que ele tivesse uma vida melhor que a dela, e do jeito que a coisa andava parecia que isso não ia acontecer. Foi quando percebeu que o moleque tinha uma inteligência fora do normal.

Com um ano ele já alertava a ela a importância da esterilização de sua mamadeira, com dois aprendeu a tocar violino, com três largou o instrumento por perceber como era inútil saber tocar violino, com quatro já sabia ler e escrever em três línguas diferentes, e com cinco trouxe da aula de artes da escola uma cópia perfeita do David de Michelangelo.

- Meu filho, não acredito, foi você que fez isso? Isso é uma obra de arte, meu Deus!

- Ora, por favor, não me faça rir, maman! (ele gostava de falar algumas coisas em francês) A senhora deve estar gozando da minha cara! Isso não passa de uma cópia fajuta, feita com uma massinha da mais vagabunda!

- Mas meu filho, tá perfeita!

- Perfeita? Rá! (Gostava de rir com sotaque francês) Pois está é totalmente desproporcional! A senhora está cega ou o quê? Veja o tamanho do pênis, por exemplo, está quase pornográfico! Todos sabem que o tamanho do pênis do David de Michelangelo é equivalente ao de uma criança de três anos!

- Ah, meu filho... Você é mesmo um gênio!

- Eu não diria isso, maman, creio que hoje se usa muito vulgarmente a palavra gênio, e isso tira dela sua real importância, pois como disse certa vez o poeta Iugoslavo...

- Cala a boca, moleque chato! Ô criança insuportável...

Dona Madalena chegou à conclusão que a genialidade de Alceuzinho deveria ser o passaporte de saída deles daquela vida mais ou menos. Agora só precisava descobrir como. O moleque era gênio, mas muito novo para trabalhar, e travado na sua escolinha pública miserável, dificilmente conseguiria desenvolver toda a sua potência do pensamento.

Foi quando ela assistiu a um quadro de um programa dominical na tv, chamado “Exemplo de vida”. A premissa do quadro era simples: mostrar toda a desgraça e miséria da vidinha do infeliz, fazê-lo chorar, humilhá-lo, para depois de alguma forma ajudar o pobre coitado. Normalmente só o que davam era uma geladeira nova, um sofá das Casas Bahia, mas quem sabe?, talvez quando eles vissem a genialidade do Alceuzinho dessem coisa melhor. Ligou para o programa, e um produtor veio analisar o caso.

- É, o garoto é realmente inteligente, muito inteligente mesmo, muito inteligente... E o quê a senhora pensa em ganhar do programa?

- Ah, a gente tá precisando de muitas coisas... Uma tv LCD 32”, um dvd daqueles com videokê que dá ponto, uma banheira de hidromassagem...

- Nós poderíamos dar uma bolsa em uma escola pra crianças superdotadas.

- Hein? É, isso aí tá bom também...

- Mas tem uma coisa, Dona Madalena, nós vamos precisar fazer algumas modificações na vida de vocês.

- Ah, é? Mas por que?

- Porque vocês não são muito pobres. As pessoas precisam sentir pena do moleque quando virem ele na tv, e esse lugar onde vocês moram... Nem favela é!

- Bem, é um centro habitacional...

- Mas não é favela! Percebe? Portanto a senhora vai ter que se mudar pra algum lugar mais... Subterrâneo. Tipo um barraco em um túnel movimentado, ou em uma galeria de esgoto.

- Tá certo, fazer o quê?, se for para o bem do meu filho...

- Outra coisa, a senhora tem alguma deficiência física?

- Não, não tenho.

- É, vamos ter que ver isso aí também... Mas agora chama o Alceuzinho que eu quero falar com ele.

- Alceuzinho! Larga esse sapo morto e vem aqui falar com o tio da tv!

- Boa tarde, senhor.

- Oi, Alceuzinho! Tudo bom?

- Oui, oui, tudo bem. Estava dissecando aquele sapo, é realmente interessantíssimo como temos semelhanças com os sapos. O senhor já reparou no sistema digestivo dos sapos? Oh, é fascinante, fascinante!

- Pois é, Alceuzinho. Sabe?, vamos ter que mudar esse seu jeito de falar. As pessoas não simpatizam com esse jeito de falar em um garoto de cinco anos. Você pode continuar fazendo suas coisas de gênio, aliás deve, mas falando de um jeito mais bonitinho. Por exemplo, trocando algumas letras e colocando o x em palavras que ele não existe, entende?

- Xim, xim, acho que entendi xim, moxo.

- Esse é o espírito!

A primeira participação de Alceuzinho no programa foi um sucesso absoluto. Mostraram toda a sua falsa história trágica: Seu nascimento no meio do lixão de Gramacho, o terrível acidente que deixou sua mãe corcunda e manca, e a vida difícil passada em um barraco nos trilhos da linha 2 do metrô. A emoção era geral,e todos ficaram encantados com o garoto meigo que falava como um débil-mental mas que sabia desarmar uma bomba atômica em menos de cinco minutos. Virou celebridade. Passou a ser garoto propaganda de vários produtos feitos para crianças imbecis, de tênis com rodinhas a canudos em forma de óculos para se tomar groselha. Não ganhava um centavo com nada disso, ia tudo para o programa, mas ele ganhava a garantia de ter seus estudos na escola para superdotados paga até que entrasse para a faculdade, assim foi o combinado. E para ele isso bastava. Claro, sua mãe queria ter ganhado uma tv LCD 32”, mas quem se importa com aquela velha?

Não tinha nada que ele gostasse mais do que estudar, e odiava a televisão. Dizia que uma de suas teses na faculdade seria a relação entre horas diárias assistindo televisão e a incapacidade de raciocinar.

Os anos se passaram, e chegou o dia mais importante da vida de Alceuzinho: o dia em que faria a prova para ganhar a bolsa da GSOA (Genious School Of América). Entrar para a GSOA sempre foi o sonho de sua vida, e tudo dependia do seu desempenho na prova do dia seguinte. Mas ele estava tranqüilo, na verdade a dúvida não era se ele passaria ou não, mas em que posição. Mas era certo que passaria em primeiro.

Estava muito nervoso na véspera da prova, se revirava na cama e não conseguia dormir. Decidiu ligar a tv para se distrair. A tv que deu tudo o que ele tinha na vida, mas que ele sempre odiou, e sempre se recusou a assistir. “Mas enfim, que mal pode me fazer?”, ele pensou.

Sua mãe acordou apavorada no dia seguinte:

- Alceuzinho! Alceuzinho, seu filho da puta, acorda, pelo amor de Deus! Já passou meia hora do começo da sua prova! Por que você ta dormindo ainda, moleque?! Acorda, porra!!!

- Hã? Que foi?

- A prova, Alceu, a prova!

- Prova? Que prova? Ah, a prova... É, não vou fazer mais não.

- O quê!? O quê?! Ai, meu Deus, sabia que esses livros todos iam acabar endoidecendo o garoto... Você precisa fazer essa prova, Alceu, você passou a vida toda esperando por isso!

- É... Passei, né?

- Passou, merda!

- É... Mas sabe o que é? É que ontem mudei de idéia.

- O-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o quê?! O quê?!

- É, mudei.

- Mas, mas, mas, mas ,mas ,mas ,mas ,mas, como?! Como?! Como?!

- É que eu não tava conseguindo dormir, né?, aí liguei a tv, né?, aí tava passando o Fantasia, sabe qual é o Fantasia? É aquele que tem um monte de mulher bonita, minha favorita é a Aline, é, eu gosto da Aline, muito bonita a Aline... Aí, pô, muito legal os jogos, e as pessoas ganhavam dinheiro com os jogos! Você sabia que as pessoas ganhavam dinheiro com os jogos? Meu deus, como eu pude desperdiçar minha vida toda naqueles livros, e ignorando essa caixa mágica maravilhosa... Mas enfim, eu liguei pra lá, e falei com a Helen Ganzarolli! Aí eu falei: Helen, você é linda!, e ela falou que eu sou simpático! A Helen, maman! Pô, muito legal... Aí eu joguei na prova dos dados, né?, e se sair caveira você perde, aí eu falei, Ê-êra-êra, não vai sair caveira! E eu ganhei nas cinco primeiras vezes! Maman, nunca fui tão feliz na minha vida, maman, nunca! Só que eu não quis parar, arrisquei na sexta e perdi tudo. Mas não se preocupe, não se preocupe, eu ganhei cem reais porque disse “Eu sou fã do SBT!” Acredita, maman?, eles te dão cem reais só pra você dizer isso! Não é maravilhoso?!

- Mas... Meu filho... E a... E a prova...

- Ah, não vou fazer não.

- Ai meu Deus!!!

E Dona Madalena caiu em um pranto histérico.

- Meu filho!!! Meu filho enlouqueceu!!!

- Calma, maman, calma, não precisa se preocupar!Eu já aprendi a minha lição, nunca mais vou cometer esse erro novamente!

- Quer, quer dizer que vai fazer a prova de novo no semestre que vem?

- Hein? Não, não, isso não. Mas vou ligar pra lá de novo hoje, vou jogar o jogo das caveiras de novo, e dessa vez juro que vou parar quando ganhar quinhentos reais.

- Ai meu Deus!!!

- Não, maman, eu juro que não vou arriscar seiscentos, eu juro! Olha, olha: Ê-êra-êra, não vai sair caveira; ê-êra-êra, não vai sair caveira...

E passou boa parte do resto de sua vida repetindo essa frase, como um zumbi. A tv se esqueceu completamente dele, mas ele nunca mais se esqueceu da tv. E acabou se tornando a prova viva da própria teoria que criou quando ainda era um gênio, a tv realmente emburrece.

Moral da História: Os verdadeiros gênios nunca usam a si mesmos como cobaias, sempre procuram por algum imbecil desocupado.

Moral da História II: Nunca, (Nunca!) arrisque mais de quinhentos reais na prova da caveira, a probabilidade de derrota é muito grande. E se conseguir falar ao vivo com a Helen diz que eu mando um beijo.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

A Dor da Culpa

- Oi, filho.

- Oi, pai.

- Que carinha é essa? Algum problema?

- Hein? Não, pai, não. Nada de mais.

- Filho, eu sou seu pai, e sei quando tem alguma coisa errada com você. Abre o coraçãozinho, vai.

- Bem, é que... Outro dia acordei com uma puta morta do meu lado.

- Uma puta morta, é?

- Sim, pai, foi horrível!

- Ora, filho, isso é normal! Você não sabe que as putas são cheias de doenças, micróbios e tudo mais? Então, elas morrem toda hora.

- Eu sei pai, mas o problema é que... Eu acho que fui eu que matei!

- Foi, é?

- Foi, pai, foi! Eu não lembro direito como aconteceu, tava muito louco naquele dia, mas acordei segurando uma arma, e ela não acordou com três tiros na cabeça!

- E quem disse que foi você quem matou? Quer dizer, alguém pode ter atirado e colocado a arma na sua mão enquanto você dormia.

- Mas era uma semi-automática igualzinha a que você me deu de natal!

- Ora, existem muitas semi-automáticas no mundo, e...

- Mas essa estava com uma etiqueta escrita de papai para Gabriel!

- Tava, é?

- Tava!

- É, então foi você mesmo. Mas e daí?

- E daí? E daí? E daí que eu matei uma mulher, a culpa está me matando! Eu não sei como vou conseguir viver com isso!

- Ah, garotinho ingênuo... Senta aqui que papai vai te ensinar uma coisa. Culpa só existe quando é dos outros. Quando é com a gente não é culpa, é acidente. Entendeu?

- Não!

- Um exemplo: se alguém entrasse no seu quarto, pegasse sua arma e desse três tiros na puta do seu lado, ele seria culpado, certo? Você ficaria revoltado, daria entrevista pro Datena, e quando capturassem o infeliz exigiria pena de morte.

- Mas fui eu que matei!

- Exatamente. Foi você que matou, portanto foi acidente. Você tava limpando a arma e ela disparou, acidente!

- Mas foram três tiros!

- Bem, você queria deixar ela bem limpa, acidente!

- Acidente, é?

- Acidente!

- Mas eu ainda sinto um pesinho na consciência...

- É só matar ela com álcool!

- É... Tem razão pai, tem razão, foi acidente! Obrigado pai, você é o maior!

- Que isso, filho, estamos aqui pra isso.

- Vou correndo contar pra mamãe!

- Er, filho, acho melhor não...

- Mamãe, o papai falou que culpa só existe quando é... Mamãe?! Aaaaaiiiiii! A mamãe morreu! Esfaquearam a mamãe! Pai, o que aconteceu?!

- É que... Foi acidente!

- Acidente?!

- Acidente!

- Acidente, é?

- É...

- Sei... Hahahahaha, ai papai, você não tem jeito mesmo!

- Hehe, eu sei, eu sei... Mas e aí, partiu Ice?

- Partiu! Mas e essa sujeira toda de sangue na cozinha?

- Ah, deixa aí que sua mãe limpa!

- Tá certo, a minha mãe... Ei!... Hahahahaha!

- Uhuhuhuhuhu!

Oferecimento Vodkas Kovak: Há 60 anos convencendo culpados de sua inocência

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Lugar de Paz e Tranqüilidade

- Puta que o pariu, lá vem aquela perua escrota encher a porra do meu saco...

- Bom dia, padre.

- Bom dia, dona Narcisa, que surpresa agradável! Como vai a senhora?

- Ai, padre, nada bem, nada bem, eu...

- Desculpe interromper, mas é que nós não permitimos cachorros na igreja.

- AU, AU!

- Não se preocupe padre, eu não vou demorar. É que a minha vida anda tão sofrida, padre, tão sofrida!

- Ah é, é?...

- AU, AU!

- Ai Padre, é só problema pra cima da gente, só problema! Parece que Deus não quer que a gente tenha sossego, sabe?

- AU, AUUUUU, AU!

- Sabe o que é, dona Narcisa? A igreja é um lugar de paz e tranqüilidade, por isso não permitimos a entrada de cachorros.

- Não se preocupe, o Flocos é um anjo. Mas como eu ia dizendo, minha vida é só sofrimento, padre. Por exemplo, semana passada o André levou a namoradinha nova lá em casa, e... Ai, tenho até vergonha de dizer!

- UUUU... UAU!

- É que as outras pessoas que querem rezar podem se incomodar com os latidos...

- Ela é estudante de teatro, padre! De teatro! Já imaginou? Meu filho, André Albuquerque, casado com uma estudante de teatro?! E não é só isso, padre, ela tem um piercing na língua. Na língua! Uma devassa!

- RRRRR... AU, AU, AUUUUUU!

- O barulho pode incomodar as outras pessoas, dona Narcisa, por isso eu...

- Eu não vou demorar, não vou demorar! Mas entende, padre, entende por que ultimamente só o que tenho feito é chorar? Parece que ninguém pensa em mim! É a empregada que só limpa de baixo da geladeira quando toma um esporro meu, o vizinho que às oito da noite liga o som alto e só indo pessoalmente reclamar com ele para que ele desligue, o Flocos que não tem comido a ração nova importada direito, enfim, é tudo em cima de mim!

- AU, AU, AU, AUAUAU, AU, AU, AUAUAU, AU, AU!

- A igreja é um lugar de paz e tranqüilidade, por isso...

- E o pior você não sabe, padre. A bomba que caiu na minha cabeça ontem à noite! O Alberto, meu marido, me deu a notícia que vai ter que viajar pelo menos uma vez por mês a Nova York, a negócios. Uma vez por mês, padre! À Nova York! Com todo o terrorismo, e as bombas lá, e as guerras! Claro, ele vai passar a ganhar bem mais fazendo isso, mas será que ele não percebe o quanto eu vou sofrer?! Será que ninguém percebe minhas preocupações, minhas aflições, meu sofrimento?! Percebe por que eu choro tanto, Padre, como ninguém pensa em mim?!

- AAAAAUUUUUUUU!!! A-A-A-A-AUUUUUUUUUUU!!!

- A IGREJA! É UM LUGAR! DE PAZ! E TRANQÜILIDADE! MERDA! CACHORRO FILHO DA PUTA!

Descontrolado, o padre acertou um chute no animal que fez lembrar seus tempos de jogador de futebol de salão. O mascote voou porta afora e caiu bem no meio da rua, bem embaixo da roda de um caminhão de lixo que passava por ali em uma velocidade incrivelmente alta para um caminhão de lixo.

- AAAAAAAAAAAIIIIIIIIIIIIIIIII, FLOCOS! Padre, pelo amor de Deus, padre, o que o senhor fez, padre?! O senhor matou o Flocos!!!

- Eu?! Não, não, quer dizer... A culpa não foi minha, tá na bíblia, tá na bíblia!

- O que tá na bíblia, padre, pelo amor de Deus, o que tá na bíblia?!

- Está lá: “Chora sem motivo e receberás um motivo real para chorar”! Palavras da salvação!

- Mas... Eu nunca ouvi essa frase na vida... Aonde isso está na bíblia, padre, aonde?!

- Ah, tá por ali... Perto da carta aos corinthianos, eu acho.

- Carta aos corinthianos? O senhor não quer dizer carta aos Coríntios?

- É, é, é um troço desse aí... Então, tá por ali assim, por ali...

domingo, 11 de novembro de 2007

O Outdoor Maldito

Começou quando Roberto estava distraidamente passando de ônibus em frente a um outdoor:

“Não lembro quem disse que leite de magnésia é bom pra azia... Acho que foi o Flávio... Pô, há mó tempão que eu não vejo o Flávio... Vai ver tá com AIDS, aquela bicha, nunca gostei do Flávio, bons tempos, bons tempos, é, leite de magnésia, acho que eu... Meu Deus! Aaaaiiiii! Quem é essa mulher?! Por favor! É a coisa mais linda que eu já vi na vida! Meu coração! Tô apaixonado! Eu preciso comer essa mulher! Não, não, eu preciso ter essa mulher! É impossível viver sem ela! De agora em diante esse vai ser meu único e principal objetivo!”

Desceu do ônibus transtornado. Parou em frente ao outdoor, fotografou, chorou, xingou, e só voltou pra casa no dia seguinte:

- Roberto! Graças a Deus, meu filho, Deus é pai e não é padrasto, o senhor é meu pastor e nada me faltará! Aonde você se meteu?!

- Mãe, aconteceu. Aconteceu, mãe. Eu achei a mulher da minha vida!

- Ai, que felicidade, meu filho! E aonde você conheceu ela?

- Num outdoor lá da praça Saens Peña.

- Num... Outdoor?

- É, num outdoor, outdoor, eu tenho fotos, quer ver fotos?, eu tenho fotos, aqui ó, fotos.

- E-essa é a mulher por quem você se apaixonou?

- É, mãe, sua futura nora! É grande ela, né? Bonita, grande...

- Ah, e eu achando que você estava falando sério! Você deve tá bêbado.

- Mas mãe, eu nunca falei tão sério assim na minha vida!

- Mas essa é a Xaiane Rodrigues, doente mental! Você acha que ela vai querer alguma coisa com um idiota igual a você?

- Pois eu te digo uma coisa: a partir de agora esse é o meu único objetivo, conquistar a mulher da minha vida!

- O único?

- O único!

- Mas e trabalhar, ganhar dinhei...

- O ÚNICO!

No começo ela pensou que era apenas mais uma desculpa do animal para não trabalhar, mas aos poucos foi percebendo que a coisa era séria. Ele passava o dia parado, meditativo, mal comia. Ligava a televisão, mas só prestava atenção quando sua musa aparecia em algum programa vespertino. Levava revistas de Xaiane pro banheiro e só saía de lá algumas horas depois, desmaiado, carregado por algum vizinho prestativo que precisava arrombar a porta.

- Meu filho, por favor, você tem que reagir!

- Só reajo com ela, mãe. Só ela me salva.

- Mas pelo amor de Deus, Roberto, você não percebe que se continuar assim vai acabar morrendo?! Você tá se destruindo, meu filho! Come esse miojinho, vai...

- Não! Não! Você não entende! Sem ela eu não posso... Sabor bacon?

Desesperada com a situação do filho, e vendo que o mocorongo não se mexia, decidiu ir ela própria atrás de Xaiane. A encontrou na saída de um programa de auditório.

- Xaiane, Xaiane, por favor, Xaiane, eu preciso falar com você, o meu filho é completamente apaixonado por você!

- Ah, obrigada, quer um autógrafo?

- Não, não, você não está entendendo, ele é obcecado por você! Desde que te viu em um outdoor na praça Saens Peña ele não faz mais nada, não come, não dorme, não sai de casa, só fica sentado no sofá pensando em você!

- Mas, meu Deus, eu nunca pensei que eu pudesse fazer isso... Quer dizer, eu nem me acho tão bonita...

- Eu também não, mas pra ele não existe mulher mais perfeita!

- É mesmo? Ele disse isso?

- O tempo todo!

- Hmm...

No começo Xaiane achou tudo muito estranho, apesar de ter ficado com o ego bastante inflado. Um homem obcecado por ela daquele jeito, nunca pensou que tivesse tanto poder! Teve que admitir que aquilo fazia muito bem para a sua vaidade. E talvez um namoro com um fã pudesse impulsionar sua carreira, dando a ilusão para outros fãs que ela poderia se apaixonar por qualquer um deles...

Quando apareceu pela primeira vez na casa de Roberto o coitado quase enfartou. Não pôde esconder a emoção nem a ereção. Falava sem parar, e coisas sem sentido, rindo, chorando, pulando, parecia uma criança de cinco anos. Xaiane ficou impressionada, nunca pensou que sua beleza pudesse deixar um homem tão transtornado. Começou a gostar dele. Marcaram o casamento para dali a uma semana.

- Ai Roberto, você viu como tava cheio?!

- A-hã.

- Meu Deus, quantos fotógrafos, e repórteres, e fãs, e celebridades! E eu tava bonita, não tava?

- A-hã.

- Finalmente, agora minha carreira vai pra frente. E eu nem precisei dar pra ninguém! Quer dizer...

- A-hã.

- Bem, Roberto, estou esperando... A noite é toda nossa... Roberto? Roberto!

- Que foi, porra?!

- Que foi, porra? A mulher dos seus sonhos está aqui, pelada, do seu lado, e só o que você tem a dizer é que foi,porra!? Você tá louco? Larga essa revista e vem me comer!

- Xaiane, querida... Eu passei dois anos só pensando em você... Era a única coisa que tinha na cabeça, não podia sonhar com mais nada! E agora que estamos casados, agora que realizei meu maior sonho, agora que me livrei dessa obsessão, que estou aliviado, posso finalmente sonhar com outra coisa! Era o que eu mais queria!

- O quê?!

- Por exemplo, olha essa Ferrari. Muito foda, cara! Alá, alá, roda de magnésio! Roda de magnésio, cara! E escapamento duplo! Pô, muito linda, cara, muito linda!

- Mas... E eu?

- Você? Mas quantos cavalos você tem? Hein? Quantos? Nenhum? Ah, nenhum, né? Ah...

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

A Beleza Vai Salvar o Mundo

- Porque você tá me olhando assim, Theodoro?

- Ah, Elisa, você é linda demais para eu desviar o olhar...

- Hihi, ai, Theodoro, pára...

- Não consigo parar de me perguntar o que eu fiz para merecer uma mulher tão maravilhosa como você, Elisa. Sua beleza é assombrosa!

- Ai, Theodoro, como você é fofo! E é muito legal da sua parte pedir para o meu pai conceder a minha mão em casamento. É o tipo de coisa que a gente não vê mais hoje em dia.

- Não faço mais do que a minha obrigação, Elisa. É minha forma de mostrar meu carinho e gratidão pelo homem que criou a flor de jóia que é você.

- Flor de jóia? Ai, como você é poético, Theodoro! Chegamos, é aqui no 502.

Ding Dong

- Elisa, minha filha!

- Papai, que saudades! Como você tá?

- Ah, levando a vida, né, filha? E esse, é o seu namorado? Está com uma cara de assustado...

- Theodoro, esse é o meu pai, Walmir.

- Muito prazer, meu filho.

- E-esse... Esse que é o seu pai?

- Sim, Theodoro. Por que, qual é o problema?

- Hein? Não, não, nenhum, nenhum, é que... Ele é idêntico a você! Idêntico!

- Hahaha, claro bobinho, ele é meu pai!

- É, os genes dos Ramos são fortes, sempre prevalecem, hehehe...

- Sim, eu entendo, mas mesmo assim... Vocês são muito parecidos! É... É espantoso!

- Sabe papai, o Theodoro veio aqui lhe pedir uma coisa.

- Ah, sim? Pois diga Theodoro, sou todo ouvidos.

- Os olhos, a boca... Até as mãos! Juro, se o senhor botasse uma peruca e raspasse o bigode...

- Theodoro, querido, meu pai está esperando a sua pergunta...

- Pergunta? Que pergunta? Ah, sim, claro, a pergunta. Senhor Walmir, eu vim aqui para... Mas meu Deus, acho que vocês são até da mesma altura!

- Theodoro!

O casamento foi marcado para dali a dois meses. Todos estavam muito contentes e ansiosos, com exceção de Theodoro, que desde a visita ao pai da noiva não era mais o mesmo. Se antes olhava para o rosto de Elisa embevecido e orgulhoso por ter conquistado tamanha beleza, agora não sentia nada além de curiosidade. “Como alguém pode ser tão parecida assim com o pai? O que significa isso? Se eu estou apaixonado pela beleza dela, que é a mesma do pai, será que... Ai meu Deus, ai meu Deus! Daqui a uns dias me caso!”

A inquietação de Theodoro piorava a medida em que se aproximava a data do casório. Enquanto fazia sexo com sua noiva, involuntariamente a imaginava careca, com um bigode, com pelos em lugares que ela não os tinha, ligeiramente acima do peso... E como tudo isso era perturbador para o pobre Theodoro! Elisa não percebia nada de errado com o noivo, achava que era apenas um nervosismo natural com o casamento, mas isso provavelmente porque era muito burra.

No grande dia Theodoro acordou inquieto. Tremia, tinha pensamentos estranhos, preocupações, dúvidas, e chegou à sábia conclusão que o único jeito racional de se fazer aquilo seria enchendo a cara de cachaça. Foi o que fez. Já devidamente aprumado para a cerimônia, parou no bar mais perto da igreja e bebeu para ficar o mais anestesiado possível. Entrou na igreja cambaleando, e se não fosse sua mãe ao seu lado provavelmente cairia sobre os convidados. Parou no altar, e lá veio a noiva entrando com seu pai. Os que estavam lá disseram mais tarde que era a noiva mais bonita que já haviam visto, mas na hora o comentário mais comum era que a noiva era a de branco. Com toda a elegância, os dois pararam na frente de Theodoro, e seu Walmir entregou sua amada filha ao noivo bêbado. Mas Theodoro, talvez confuso pela cachaça, ignorou Elisa, pegou na mão de seu Walmir, e imediatamente se postou na frente do padre para se casar. Pai, filha, e todo o resto da igreja ficaram paralisados pelo choque. Acudiu o padre:

- É... Filho? Você deve pegar na mão da noiva...

- Ué?! E o que é que eu tô fazendo, porra? Tô aqui com a Elisa, minha noiva, agora casa logo essa merda.

- Mas, meu filho, essa não é a Elisa...

- Mas como que não é? Como que não é? Lógico que é, porra! Elisa, num é?

- Não!

- Não?! Como não?! Ah, entendi, o senhor quer a Elisa sem pau!

Levou um tempo para se recuperar, mas Theodoro já está namorando de novo. Dizem até que a nova é três vezes mais bonita que a outra e, gato escaldado, dessa vez Theodoro resolveu não correr riscos: matou o pai e o irmão da moça antes que as coisas começassem a ficar sérias entre eles.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Amor de Vitrine

Ultimamente ela não andava muito feliz. Estava se sentindo velha e sozinha. Mas o pior não era a solidão, com isso ela já estava acostumada, o que mais a incomodava era a suspeita de que ela não era mais uma mulher gostosa. Ultimamente nenhum homem olhava para ela com desejo, nem mesmo com simpatia. A sensação de que só seria comida por alguém bêbado ou pagando era bastante dolorosa. Precisava de alguém que a amasse, que a dissesse que era bonita, que tivesse vontade de comê-la pelo menos três vezes por semana, que fosse gentil... Precisava de um homem de verdade.

Foi distraída com esses tristes pensamentos que ela parou na vitrine de uma livraria, e ficou olhando para alguns livros de culinária que ensinavam a fazer bolos, doces de festas, enfim, essas coisas que gordas gostam. Então reparou que, de dentro da livraria, um par de olhos a encarava. Não levantou o rosto imediatamente para ver quem era, continuou de cabeça baixa, fingindo interesse nos livros, coisa que ela nunca teve. E sentia que os olhos não paravam de fitá-la. Levantou o rosto, e lá estava ele: um homem alto, elegante, de terno e gravata, extremamente alinhado, segurando um livro, olhava fixamente para ela. Tinha um olhar de cobiça (cobiça por ela!), e um sorriso muito doce, sorria para ela, de um jeito que há muitos anos não sorriam. Tímida, desviava o olhar, voltava para os seus livros de gorda na vitrine, apenas para voltar para os mesmos olhos ardentes. Não agüentou mais, seu rosto estava ficando cada vez mais vermelho, e foi correndo para casa.

Chegou em casa numa excitação insuportável. Se por um lado estava extremamente feliz por um homem como aquele ter olhado para ela, e ainda mais daquele jeito, e sorrido daquele jeito, por outro sentia vontade de se matar por ter fugido covardemente de quem poderia ser o homem da sua vida. Mas, refletindo, chegou à conclusão de que se ele realmente a amava, amanhã estaria na mesma livraria e no mesmo horário para reencontrar a mulher de sua vida. E decidiu voltar lá no dia seguinte. Nem dormiu nessa noite.

Cinco e meia. Era a hora. Fez exatamente o que havia feito no dia anterior: com seu carrinho de feira, parou em frente à vitrine para olhar os livros de gorda. E sentiu os mesmos olhos a atravessarem. Lá estava ele novamente, com o mesmo terno, os mesmo olhos, o mesmo sorriso, segurando o mesmo livro. Dessa vez ela não esperou nada acontecer, entrou na livraria, prendendo a respiração, e parou na frente dele. Ele não tirava os olhos dela. Nenhum dos dois dizia uma palavra. Tremendo, ela pegou na mão dele, e os dois saíram como um furacão pela porta, ela com seu carrinho de feira, ele com seu livro.

Corriam, corriam para a casa dela. Ela emocionada, rindo, agradecendo a Deus, e ele com os mesmos olhos apaixonados, e ela se perguntando o que havia feito de tão bom para merecer que algo tão maravilhoso acontecesse em sua vida, como um homem tão bonito e elegante poderia estar interessado por alguém como ela, e que lindo caminho de amor e paixão ela via em sua frente!

O estranho é que ninguém da livraria notou que uma gorda louca havia roubado o Roberto Justus de papelão que anunciava seu novo livro de auto-ajuda empresarial.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Um Ano

Sem nada pra comemorar...
Ou com nada pra comemorar? Nunca sei qual é o certo.
Enfim, aí estão dois wallpapers feitos com fotos do jogo Heavyweight Champ, do meu projeto "Fotografando com Master System".

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

O Homem que Dialogava Sozinho

Manuel era um homem solitário.

Manuel nunca fez amigos, pois sempre achou que não precisava deles. Seus únicos companheiros sempre foram seus livros, seus filmes e seus discos, e era dentro da própria cabeça imaginativa que Manuel tinha as conversas mais interessantes. Ou seja, com ele mesmo, ao passo que ter outras pessoas com quem conversar sempre pareceu algo muito inútil para ele. Mas isso mudou depois da morte de sua mãe, há dois anos. Ela era a única pessoa com quem Manuel conversava. Conversavam sobre coisas simples, como o preço do leite, receitas de bolo, a conta de luz, castração de cachorros, nada que se pudesse comparar aos papos altamente profundos que Manuel tinha com ele mesmo. Mas foi depois da morte da mãe que Manuel percebeu que sentia muita falta de outra pessoa com quem pudesse falar. O silêncio da sua vida estava ficando cada vez mais insuportável. E Manuel ligava o rádio, a TV, mas não adiantava, ele sabia que aquelas vozes idiotas não estavam falando com ele. Além do mais, Manuel queria uma conversa mais sofisticada, do tipo que ele só conseguia ter com ele mesmo. Foi quando teve a idéia:

Se eu sou o único que conheço com capacidade intelectual para agradar a mim em uma conversa, por que não conversar comigo mesmo? A minha mente não é uma só, a de ninguém é, e eu sei que tenho várias linhas de pensamentos simultâneas, então por que não transferir uma pra minha voz? Algum pensamento mais perto do sub-consciente, por exemplo? Assim eu, dentro da minha mente, conversaria comigo mesmo, a parte do meu pensamento que sairia diretamente pela minha voz!

A idéia era muito boa, certamente, mas como passar isso para a prática? Era preciso criar alguma técnica. Manuel começou tentando falar a primeira coisa que vinha na cabeça:

- Cu, pastel de vaca, cu, é... Cu!

Mas ficou bem claro que isso não daria certo, não dava para seguir nenhuma conversa razoável desse jeito. Da voz dele não podiam sair simplesmente palavras soltas, teria que ser um raciocínio um pouco mais lógico... O que ele precisava era pegar uma linha de pensamento, uma secundária, não a principal, e transferir da sua mente diretamente para a sua voz.

Porra, isso é difícil! O que eu preciso é identificar um pensamento secundário meu, e começar a falá-lo em voz alta, mas sem deixar que ele passe a ser minha linha de pensamento principal. Bem, vamos tentar, esse é o meu pensamento principal, ou seja, estou quebrando a cabeça tentando solucionar esse problema, filosofando sobre minhas diversas consciências e...

- Aquela torneira tá pingando, é melhor eu fechar, ta acabando a água no mundo, e eu aqui desperdiçando e...

Puta merda, funcionou! Meu outro eu está falando comigo!

- ...e a poluição, e os carros, carros, domingo tem corrida de formula um, Galvão Bueno, Rrrrrrronaldinho! É assim que ele fala, é, e...

Haha, é verdade, é verdade, a corrida! Ai, graças a Deus, graças a Deus alguém para conversar comigo, e quem melhor que eu mesmo?

- ...porra, aquela Scheila Mello é muito gostosa, muito gostosa, comia toda, toda, muito gostosa, to com fome, tem pizza, pizza, tem pizza? To com fome...

Mal posso esperar para começar a ter uma conversa intelectualmente estimulante comigo mesmo. Já sei, vou colocar um filme da minha coleção no dvd.

- Quando a gente sente fome come, é assim, não sei por que, tem que comer sempre...

Ah, Barry Lyndon... Provavelmente a melhor fotografia em cinema de todos os tempos... Vamos ver o que meu subconsciente tem a dizer...

- E o Wagner Montes, escraaaachaaaaaa, e o Pedro de Lara e... Filme, filme, to vendo um filme... Essa eu comia, essa eu comia, ah, essa não, essa eu não comia... Esse cara é galã, será que o pau dele é maior que o meu?

O quê? Mas é Barry Lyndon, meu filme favorito, uma das maiores obras primas do cinema, será que só o que eu tenho a dizer sobre o filme é sobre o tamanho do pau dos atores?

- Ah, do que esse eu sou maior, ele é gordo, muito gordo, gordo tem pau pequeno, gordo, o meu é maior, ele tá de cavalo, cavalo é legal, cavalo, eu gosto, mas prefiro cachorro, cachorro, tipo o Snoopy, o Snoopy é engraçado, o Snoopy...

Ah, não, chega, chega! Agora já foi demais! É melhor eu acabar logo com isso antes que passe a me odiar... Bem, agora só o que eu preciso é parar de falar... É, é só parar... E como eu faço isso?

- ...é puta, puta, tudo puta, isso tudo é puta, como todas, tudo puta...

Meu Deus, eu não consigo! Eu não consigo! Minha voz está totalmente dominada pela parte imbecil do meu cérebro!

- Banheira do Gugu, saudades, da banheira do Gugu, Gugu, cucu, muito cu, quero sorvete, com casquinha, não, sem, não gosto de casquinha, cho-co-la-te, eu só quero chocolate...

Eu não acredito que isso está acontecendo! O que eu fui fazer, meu Deus?! Por quanto tempo ainda agüentarei isso?!

Dois dias. E, ironicamente, a gota d’água foi com uma discussão não muito intelectual. Foi numa tarde em que, desesperado e sem conseguir raciocinar nada devido à própria tagalerice estúpida, Manuel resolveu dar uma volta na praça, para espairecer.

- Quem come capim é cavalo, eu disse, cavalo! E vaca, e boi, eu não! Eu gosto de carne, pombo é legal, eu gosto, às vezes, às vezes não, sei lá porque, sei lá porque... Ô, essa é gostosa, hein? Essa é muito gostosa, essa eu comia, essa é mais gostosa que a Silvia Saint!

O quê? O quê foi que eu disse?

- A Silvia Saint é ruim, a Silvia Saint, não gosto não, não gosto...

Ah, não, isso não, isso não pode ser, já estou passando dos limites... Como eu posso dizer uma coisa dessas da Silvia?!

- Eu não comia a Silvia não... Eca!, nojo, nojo!

Nojo?! Da Silvia?! Isso já é demais, isso eu já não agüento! Desisto!

E, de algum jeito que eu não sei explicar, a razão de Manuel cometeu suicídio dentro da própria cabeça. Mas Manuel continuava vivo, assim como sua voz.

- Bebê bonitinho, bonitinho, eu gostava de comandos em ação, eu gostava, e playmobil, e essa política tá uma vergonha, né? É, tá sim, tá uma vergonha, tá, prefiro sorvete, de chocolate, cho-co-la-te, eu só quero chocolate...

E lá ficou Manuel, parado no meio da praça, com aparência catatônica, jogando seus pensamentos caóticos, sem razão ou motivo. As pessoas que passavam pela praça começaram a parar para ouvir o pobre homem, e Manuel começou a ficar muito popular, muito mais do que jamais fora em sua vida de homem inteligente. Alguns o consideravam um gênio, outros um filósofo, outros diziam que deveria ser preso, outros que era um santo...

Não demorou muito e Manuel se tornou o apresentador mais bem pago da TV.

Ano que vem concorre à prefeitura de Niterói pelo PTB.

terça-feira, 25 de setembro de 2007

O Poder da Reza


Olá, discípulos de mim mesmo, como vão? Mal, imagino, já que há tempos não bebem do suquinho de sabedoria que eventualmente empresto às suas vidinhas medíocres através dos meus textos. Pois não chorem mais, crianças, tio Paulinho está de volta para lhes tirar do sofrimento. E o texto de hoje é um trecho exclusivo do meu novo livro, que vai ser incluindo na próxima edição revisada da bíblia. Finalmente a igreja vai reparar esse erro histórico de me deixar de fora dos escritos sagrados.

Vladimir era um homem de fé. Muita fé. Fé pra caralho, mesmo, o cara era doente. Tão doente que involuntariamente afastava qualquer pessoa que tentasse se aproximar dele. Era só alguém dar bom dia e ele já respondia com um salmo, uma frase de padre, ou com alguma repreensão: “Não se deve andar com a mão no bolso! Só se deve usar vermelho depois da páscoa! Tira o dedo do cu que dá câncer! Bandido bom é bandido morto!”, e outros conselhos cristãos que ninguém queria ouvir.

Com isso, Vladimir se tornou um homem extremamente solitário, e sentia falta de uma companhia feminina. Como a única coisa que sabia fazer era rezar, foi o que ele fez:

- Ó, Senhor, eu, humilde servo que sou, que sempre peço tão pouco, gostaria que o Senhor me concedesse a graça de uma esposa. Eu sou um homem muito solitário, meu Deus, só quem eu tenho nessa vida é o Senhor e o padre Antônio e, convenhamos, tem coisas que uma mulher faz que o padre Antônio não pode fazer. Por isso, se der pra me arrumar uma mulher, nem precisa ser grandes coisas, eu ficaria muito agradecido.

E era sempre esse o assunto das orações de Vladimir. Os meses se passaram, Vladimir continuou rezando, e nada, nem sinal de mulher se interessando por ele. Na verdade, parecia até que elas estavam se afastando cada vez mais do pobre homem. Mas Vladimir não era homem de pouca fé, e não desistiria tão fácil:

- Oi Deus, sou eu de novo. Sabe o que é?, não estou reclamando nem nada, sei que o Senhor é muito ocupado... Mas é que já faz dois anos que eu venho pedindo uma mulher nas minhas orações, e por enquanto nada! Pôxa, o Caçapa, meu vizinho, nunca entrou numa igreja na vida, e semana passada ganhou sozinho na mega-sena. Não que eu esteja com inveja, longe de mim, Senhor, fiquei muito feliz pelo Caçapa, mas... Será que eu, como homem de fé que sou, não deveria ter prioridade nas bênçãos? Enfim, o Senhor é Deus e sabe o que faz, por isso sei que cedo ou tarde vai me abençoar também. Desculpe os questionamentos, Senhor, já me sinto arrependido, Amém.

A reclamação de Vladimir parece não ter adiantado muito, e o infeliz continuava na seca de mais cinqüenta anos. Mas apesar de carocha, Vladimir não era santo, e chegou o dia em que perdeu a paciência:

- Meu Deus, venho pedir que... Porra, será que eu preciso explicar? Há cinco anos que eu peço todo dia a mesma coisa, todo dia venho nessa mesma merda de igreja e peço uma mulher, e até agora nada! Quantas vezes vou precisar pedir, merda?! Será que eu não tô me explicando muito bem, que o Senhor não está me entendendo, e por isso ainda não me deu o que eu tanto peço?! Pois então dessa vez vou tentar ser mais claro: Eu quero uma buceta, tá me entendo? Buceta! Bu-ce-ta! AAAAAAAAHHHHHHHH!

Saiu de casa enlouquecido, parou no primeiro boteco, e tomou o primeiro porre de sua vida. Qual não foi sua surpresa ao acordar na manhã seguinte, e descobrir que suas preces haviam sido finalmente atendidas: Deus havia lhe dado uma buceta. E Vladimir nunca mais mijou de pé.

Moral da história: Cuidado com o que você pede, Deus só realiza os desejos com potencial para te deixar arrependido mais tarde.

Mais uma palavra da salvação, do mestre Paulinho Coelho: ¡Livin’ la Vida Loca!

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Da Série Profissões Alternativas: O Gerador de Empregos

- Com licença, senhor, não quero me intrometer, mas... O quê o senhor está fazendo?

- Tô espalhando lixo pela praça,meu filho. Por que?

- Não, por nada, é só que... Por que?

- Bem... Você não é daqui de Mocorongópolis, é?

- Não, estou apenas visitando.

- Então acho que posso te contar... É que hoje li no jornal que a prefeitura vai diminuir o número de garis da cidade, já que ela tá sempre tão limpa. Então eu passei no lixão, carreguei meu caminhão, e agora tô espalhando tudo aqui pela praça.

- Ah, entendi... Com a cidade toda suja, eles não vão poder demitir os garis, não é isso?

- Isso mesmo. Pode ser até que contratem mais.

- Ah, que bom... Mas por que o senhor está fazendo isso?

- Por que é isso que eu faço. Eu crio empregos na cidade.

- É?

- É. Sabe, Mocorongópolis era uma cidade com muitos desempregados, mais de 20% da população. Foi quando eu decidi que devia fazer alguma coisa.

- E o que o senhor fez?

- Comecei botando fogo nas casas da cidade. O número de bombeiros daqui era muito pequeno, e, graças aos meus incêndios freqüentes, tiveram que construir dois batalhões novos. Mais de cem empregos gerados, rapaz, uma beleza.

- Ah, que bom. Mas e as casas das pessoas? Não ficaram destruídas pelos incêndios?

- Claro, isso que foi bom.

- Isso foi bom?!

- Claro, rapaz, tiveram que contratar um monte de pedreiro pra reconstruir as casas, foi mais emprego aí que com os bombeiros!

- É verdade, não tinha pensado nisso... Mas ninguém se machucou nos incêndios?

- Bom, teve uma ou outra criança morta, e uns velhos quando eu botei fogo no asilo... Sabe como é, velho pra correr de fogo é uma desgraça, né? Mas enfim, não se pode ter tudo, não é mesmo?

- Certamente, senhor.

- Depois eu reparei que a cidade tinha muito pouca escola e professor. Então comecei a vender camisinha furada e anticoncepcional de farinha na minha farmácia, e não deu outra. Nasceu criança pra cacete, e tiveram que construir três escolas novas pros moleques. Muito emprego de professor, servente, inspetor... Até semi-analfabeto tá dando aula, rapaz, uma beleza.

- Ô, que maravilha. E o quê mais o senhor fez?

- Ah, muitas coisas... Já amarrei uma âncora na traseira do meu caminhão, pra contratarem gente pra fechar os buracos das ruas... Por dois anos joguei vírus na comida dos restaurantes, pra abrirem mais hospitais... Já projetei hologramas de fantasmas, igual os do scooby-doo, pra que as pessoas ficassem com medo de assombração, e assim foram construídas várias igrejas... Enfim, já fiz de tudo um pouco, e graças a Deus hoje a taxa de desemprego da cidade tá perto de zero.

- Mas que maravilha! E o senhor ganha alguma coisa com isso?

- Não, meu filho, nada. Faço pelo puro prazer de ajudar ao próximo.

- Pois saiba que o senhor é um santo, um verdadeiro santo!

- Obrigado, meu filho, obrigado... Mas infelizmente nem todos pensam como o senhor, por isso ninguém de Mocorongópolis pode saber que sou que faço essas coisas, ou acabaria preso.

- Não se preocupe, senhor, seu segredo está muito bem guardado comigo.

- Obrigado, meu filho, obrigado.

- Um verdadeiro herói nacional! Só mais uma coisa: por que o senhor está carregando essa arma?

- Arma? Que arma?

- Essa pistola que está na sua mão.

- Ah, sim, essa arma. É que hoje também li no jornal que querem diminuir o número de policiais, já que os crimes na cidade diminuíram muito com o baixo desemprego. Então decidi que estava na hora de usar minha velha pistola em alguém...

- Ai meu Deus, o senhor vai me matar?!

- Ora, mas o senhor me insulta pensando uma coisa dessas, é claro que não!

- Ai, Deus é pai...

- Só vou comer seu cu contra a sua vontade.

- Ah, sim... Bem, melhor isso do que morrer, não é mesmo?

- É o que dizem.

- Mas... E se eu der o cu para o senhor por iniciativa própria? Aí não seria crime, seria?

- Bem, eu... É... Eu acho que não...

- É... Acho que peguei o senhor nessa, hein?

- É, rapaz, me pegou de jeito. Me deixou numa sinuca desgraçada, hein? Hehehe...

- Hahaha! Pode dizer: essa foi boa, hein? Hahaha, e o senhor pensando que...

PÁ!

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

O Moleque que Cansou

Como todo dia, passava pela mesma rua a mesma Mercedes branca, com o mesmo motorista negro, com a mesma velha loira no banco de trás. Pararam no mesmo engarrafamento de sempre, e o mesmo pivetinho de sempre veio assustar nossa heroína, batendo no vidro do seu carro blindado.

- Ô dona, dá pra dar uns trocadinhos aí, que eu tô com fome aí e quero almoçar?

- Ai, que susto! Não, moleque, não tenho trocado.

- É que minha mãe tá doente, e eu não almocei ainda, e minha irmã tá doente também, e eu tô cheio de irmão doente, e ainda não almocei ainda, e...

- Eu não tenho dinheiro, meu filho. Tá? Eu não tenho dinheiro.

- Então o que é isso?

- Isso o quê?

- Essas notas de cem que a senhora tá contando.

- Isso? Ah, isso é... É... Isso não é dinheiro não, moleque! Isso aqui é... Não é dinheiro não! Agora chispa, vai!

- Pô, a senhora ta cheia de nota de cem e não pode me dar uns trocadinhos?

- Ai meu Deus, que moleque chato! Alberto, aumenta o som que não agüento mais ouvir esse pivete!

Poeira... Poeira... Levantou poeira...

- Pô, dona, todo dia a senhora passa aqui, e nunca abriu a porra desse vidro pra falar comigo, nem pra me dar um dinheiro, nem nada... Hein, dona, tá me ouvindo?

- Poeira... Levantou poeira...

- Ah, não tá ouvindo? Então eu acho que vou ter que falar mais alto! Acho que vou ter que começar a gritar!

- ...eira...

- Porque eu cansei! Cansei, tá me ouvindo?! Cansei dessas velhas ricas escrotas igual à senhora que só olham pra minha cara pra soltar um suspiro, só pra depois se sentirem bem por terem filhos que não precisam pedir esmola! Cansei de te ver passando todo dia em carro importado, com motorista, cheia das jóia na cara e nunca me dando dinheiro! Cansei de te ver fingindo que se importa com os outros! Cansei, porra, cansei!

- Ai meu Deus, Alberto, tira esse carro daqui, pelo amor de Deus!

- Não dá, Sra. Camargo, estamos no meio do engarrafamento.

E berrando que estava cansado entre outras coisas inteligíveis, o moleque começou a se debater no carro da madame, esfregando a cara contra o vidro, subindo no capô, pulando no teto, chamando a atenção de todos que estavam por perto. Apavorada, sem saber o que fazer e presa no maldito engarrafamento, a madame abriu o vidro e jogou todo o dinheiro que tinha na carteira. Quinhentos e vinte, contou depois o moleque.

- Agora me deixa em paz, moleque dos infernos! Me deixa em paz, pelo amor de Deus!

- Claro, senhora, agora já tô satisfeito.

Pegou o dinheiro e foi-se embora tranqüilamente.

Moral da história: Não se pode mudar o mundo esperneando imbecilmente, mas pelo menos pode dar uma graninha.

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Os Diários de Daniel, O Idiota Extremamente Carente

22 de Abril

Hoje acordei e senti meu coração vazio como um pote de danoninho. Oh, meu diário, o que aconteceu com o creme rosa que outrora o enchia até a boca? Para onde foi toda a minha alegria de viver? Acho que acabou quando eu percebi que ninguém me ama. Por que ninguém fala comigo? Por que ninguém olha no meu rosto? Será que é por que eu nunca saio de casa? Ai, diário, não fico assim tão triste desde que a Jackeline Petkovic saiu do Bom Dia & Companhia. Será que algum dia vou achar alguém que me dê atenção?

25 de Abril

Finalmente o sol decidiu sair de suas nuvens escuras e brilhou para mim! Ah, querido diário, que imensa euforia tomou conta do meu coração ontem à tarde! Tanta que nem consegui escrever em suas lindas páginas de papel de carta. Minhas mãos tremiam, assim como minhas pernas, e meu coração gritava como se estivesse em um show do Fábio Júnior! Pude até sentir o creminho rosa enchendo-o novamente! Finalmente, diário, finalmente descobri alguém que me ama!

Ontem decidi sair de casa (nem lembro quando tinha sido a última vez), e fui andando pelas ruas para ver se achava entre os rostos estranhos e antipáticos algum que pudesse me dar um pouco de amor e carinho. Foi quando passei em frente a uma banca de jornal, e vi uma coisa que prendeu minha atenção: A revista Teclado em edição especial com cifras das músicas do The Cure! Cara, desacreditei, e entrei na banca para comprá-la. O preço era meio salgado, R$4,80, mas pelo The Cure valia a pena. Oh! diário, foi então que apareceu o motivo de toda minha alegria. Entrei na banca, e veio me atender um senhor de meia idade, com sotaque português, e um pouco acima do peso. Olhou para mim, deu um sorriso, e perguntou se poderia me ajudar. Meu Deus! Você deveria ver seus olhos quando perguntou isso! Foi como se o que saíssem daqueles olhos pretos e vermelhos, de baixo de grandes tufos de sobrancelhas, fossem raios de sol aquecendo minha alma! Senti meu coração pular, meus olhos umedecerem, e com dificuldade respondi que queria uma revista Teclado. O bom homem a pegou e disse: R$4,80, filho. Filho! Filho! Ele me chamou de filho! Há quanto tempo não recebia demonstração de carinho tão afetuosa! Tremendo muito, tirei uma nota de R$5,00 e entreguei a ele, que me devolveu os 20 centavos de troco e minha revista Teclado, que recebi com muito alegria. Me virei para ir embora, quando aconteceu o inesperado. Senti dois tapinhas nas costas, e uma linda voz com sotaque lisbonense me disse: Volte sempre, amigo! Um tapinha nas costas, diário! Como se fôssemos velhos companheiros de jornada! E disse o volte sempre com um tom que não escondia sua imensa vontade de me ver de novo. Me voltei para o homem, e ele tinha no rosto o mais dourado sorriso que eu já vi na vida. Ai, diário, tive que me segurar para não cair no choro, ou para não desmaiar! Que grandes sensações senti nesse dia! Fui para casa andando nas nuvens, era certamente a pessoa mais feliz do bairro, porque finalmente achei alguém que me ama!

Mal posso esperar para voltar amanhã, só de pensar já sinto convulsões de ansiedade por todo o corpo.

26 de Abril

Deus existe? Se existe, por que faz essas coisas comigo? Por que ele não pode deixar meu pote de Danoninho sempre cheio?

Voltei ao jornaleiro hoje, com o pretexto de comprar um jornal, quando na verdade só queria ver o meu amado. Ah, diário, qual foi minha surpresa quando veio me atender não meu português, mas uma mulher. Uma mulher portuguesa. Sim diário, sim, a mulher do português. O português, MEU português, é um homem casado. Nesse mesmo momento, todo meu mundo, que ontem ficou todo colorido, se tornou totalmente cinza, o sorriso desapareceu do meu rosto, e minha alegria se tornou a mais profunda tristeza que um homem pode sentir.

Lá estava ela, no auge dos seus 57 anos, me mostrando como eu nunca teria chance de roubar seu português , como suas curvas sensuais e sua carne farta nunca deixariam o português sair de perto dela, como eu era um ser insignificante ante seu lindo bigode de mulher vivida.

Perguntou o que eu queria, e fiquei por um momento congelado, sem saber o que dizer, até que após uns vinte segundo disse: Nada, obrigado. A bruxa se afastou, e comecei a procurar com os olhos o meu querido português. O achei abaixado, arrumando algumas revistas, e foi então que meu mundo se iluminou novamente. Ele estava mostrando o cofrinho! Sim, diário, eu vi, eu vi, eu vi o cofrinho do meu português! E para quem mais ele o estaria mostrando senão para mim? Eu era o único no jornaleiro! Não precisava de mais provas, ali tive certeza que aquele homem me amava. Sim, nós nos amávamos, mas tinha uma pedra em nosso caminho: a portuguesa. Mas não se preocupe, diário, não se preocupe, ela não vai ficar no caminho da minha felicidade. Amanhã mesmo eu cuido disso...

31 de Maio

Nunca pensei que alguém pudesse destruir tanto assim o coração de outra pessoa. Nunca imaginei que alguém fosse capaz de usar tanta maldade apenas para ver outra pessoa sofrer. E nunca pensei que esse alguém fosse meu português.

Meus Deus, se ele amava tanto assim aquela portuguesa, por que me tentou tanto? Por que todas aquelas demonstrações públicas de carinho, todo o afeto, toda a atenção que dispensou comigo naquela fatídica tarde? Oh, diário, quando o Juiz perguntou se ele me conhecia, e ele disse que não, que apenas me viu uma vez, um garoto esquisito que mais parecia um defunto e que comprou uma revistinha de bicha qualquer... Ai, diário, juro que preferia que ao invés de pronunciar essas palavras ele me acertasse um tiro no coração, porque, de qualquer forma, ele o matou. Simplesmente não tenho mais motivo para viver.

Agora vou preso. Meu Deus, como vou suportar aquele buraco? Uma vida inteira sem pica-pau, sem Chiquititas, sem o Toddy gelado da minha mãe antes de dormir?! Por que simplesmente não me matam?!

20 de junho

Perdão, diário, perdão pelo meu desespero. Perdão por ter questionado a existência de Deus, pois hoje sei que ele existe, e me ama! Me fez passar por tudo aquilo, apenas para agora me fazer a pessoa mais feliz do mundo! Não, diário, não sinto falta da TV, nem da comida da minha mãe, pois achei em abundância o que sempre procurei: amor. Nunca imaginei que acharia o amor em um lugar tão assustador, como as impressões enganam! Como é verdade que Deus escreve certo por linhas tortas!

Não sinto mais falta do meu português, pois aqui sou amado o tempo todo: na hora do banho, quando abaixo para pegar o sabonete, enquanto almoço, enquanto durmo, mais de cinco vezes por dia! E meus companheiros fazem isso sem pedir nada em troca! Que almas lindas encontrei aqui, que almas lindas! Se eu tenho momentos ruins? Sim, tenho, sinto muitas dores, sangro quase o tempo todo, e sempre quando tento retribuir um pouco do amor que recebo ganho um soco na cara ou um chute no estômago, mas isso só mostra como esses homens são pessoas caridosas, que dão prazer sem exigir que eu dê algo de volta. Verdadeiros santos!

Obrigado, meu Deus, obrigado por ter me feito passar por tudo isso apenas para me fazer uma pessoa feliz. Obrigado por me ter feito conhecer o português, por ter matado sua mulher, só para que eu caísse nesse ninho de amor abençoado. Obrigado, meu Deus, por fazer transbordar de alegria o meu potinho de Danoninho!

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

O Espelho do Imbecil

- Sabe, querida, eu tenho pensado muito no que você me disse.

- O quê?

- Aquilo sobre eu passar o dia inteiro sentado nessa poltrona assistindo televisão, sobre como eu não faço mais nada da vida, e como eu só levanto para comer, beber, e ir ao banheiro, e não contribua nada pra sociedade... Lembra?

- Ah, sim, isso. E daí?

- E daí que você está certa, eu realmente não contribuo em nada com a sociedade, e faz tempo que não trago dinheiro pra essa casa. Por isso resolvi fazer alguma coisa.

- Ai, graças a Deus, finalmente minhas preces foram ouvidas! Finalmente esse homem vai sair de casa e arrumar um emprego! Tá vendo?, Deus é pai e não é padrasto, eu sabia que um dia...

- Ow, ow, emprego? Quem falou em sair de casa pra arrumar emprego? Tá louca, filha?

- Ué, mas então o quê?

- Vou começar a vender meus órgãos.

- O quê?!

- Vou começar a vender meus órgãos. Além de ser bastante lucrativo, é um ótimo jeito de contribuir com a sociedade.

- Mas querido, você tá louco?! Como é que você vai viver sem seus órgãos?

- Mas eu não vou vender os órgãos importantes, só os que eu não tenho usado muito. Por exemplo, acho que o primeiro que vou vender vai ser meu pau.

- Seu pau?! Mas Rodolfo, como você pode vender seu pau?!

- Ah, Amélia, cala a boca! Sem hipocrisia, por favor. Você sabe muito bem que há muito tempo que eu não uso essa merda.

- Bem, isso é verdade...

- Além do mais, estão me oferecendo dez mil por ele.

- Dez mil, é?

- É.

- É... Vale a pena...

E assim foi feito. Rodolfo teve seu pau decepado. Mas fez isso com um sorriso no rosto, já que além de ganhar um bom dinheiro depois de muitos anos de total inatividade, realizou sua vontade de contribuir com a sociedade, fazendo muito feliz o Sr. Carlos, antes Sra. Carla. E Amélia, que no início ficou chocada com a idéia absurda do marido de doar o próprio pau só para não precisar sair da frente da tv e trabalhar, pareceu muito contente quando recebeu os dez mil das mãos de seu eunuco.

- Rodolfo...

- Que é, Amélia?

- Bem, Rodolfo, é que os dez mil estão acabando...

- Porra, mas já? Não passou nem três meses!

- É, seu vagabundo, mas depois dez anos sem botar um puto nessa casa, você deve imaginar que a gente ficou meio endividado, né?! Esses dez mil mal deram pra pagar as dívidas e comprar a comida e a Caracu que você bebe igual um porco!

- E o quê você quer que eu faça?

- Ah, sei lá, vende outro órgão!

- Vender outro órgão? Mas qual?

- Sei lá, como você mesmo disse, algum que você não esteja usando. O rim, por exemplo. Você tem dois, não tem?

- Sei lá, acho que sim.

- Pois então, vende um! Ou isso ou vamos ter que cortar a Caracu...

- Não, não, a Caracu não! E você tem razão, precisamos de mais dinheiro, e eu sinto que ainda não contribui o suficiente com a sociedade. Aliás, vou aproveitar e vender um pulmão também, afinal eu tenho dois, não é mesmo?

- Esse é o espírito, querido! Esse é o espírito!

- É, tá bom, agora cala a boca que vai começar a escolinha do Golias.

A única exigência que Rodolfo fez em relação ao dinheiro ganho era que comprassem para ele um frigobar e um penico, e que colocassem os dois ao lado do seu sofá, para que ele não precisasse sair da frente de sua querida tv. Fora isso, apenas pediu para Amélia “não encher mais o saco, e que gastasse o dinheiro como quisesse”.

Mas como o tempo é um filho da puta, os meses passaram e o dinheiro encolheu. Amélia começou a reclamar das contas atrasadas e o sentimento de parasita da sociedade que Rodolfo sentia voltou a crescer, e ele resolveu voltar a doar seus órgãos inúteis.

Primeiro foram as pernas, “Afinal, não vou a lugar nenhum, mesmo”, depois foram os braços, “Eu posso muito bem beber a Caracu de canudinho”, os cabelos, “Caralho, como é que não pensei nisso antes?” alguns ossos e partes da pele. Não demorou muito e só o que sobrou do pobre Rodolfo foi sua cabeça, (faltando um olho e uma orelha) que ficava apoiada no encosto do sofá, parte do pescoço, alguns ossos e músculos, e os poucos órgãos vitais que restaram, que foram envoltos em sacos plásticos para não ficarem expostos e ficavam cuidadosamente espalhados sobre o sofá.

- Querido, posso falar com você?

- Rápido, antes que Chapolin volte do intervalo.

- Bem, querido, você sabe que eu fiquei muito feliz com tudo o que você fez, sabe como sou grata por todo o dinheiro que você me deu, mas...

- Mas o quê?

- Mas tudo acaba, não é mesmo?

- Ah, Amélia, vai se fuder! Vai pedir dinheiro pra puta que o pariu! Não tá vendo que eu virei um monte de pedaço de carne espalhado em cima de um sofá? O que mais você quer que eu faça, merda?

- Mas, querido, as mensalidades do clube já estão atrasadas há três meses, há uma semana que não ponho gasolina no Audi, há dois meses que não compro uma roupa nova, a situação tá caótica!

- E daí, porra, e daí? Eu já dei tudo o que tinha que dar, filha! Agora chega, te vira!

- Bem, tudo não...

- Como assim, tudo não? O que é que falta pra vender?

- Seu cérebro.

- Meu cérebro?

- Sim, seu cérebro. Só o que você faz é assistir tv! Desde quando é preciso ter cérebro para assistir tv?

- Bem, isso é verdade...

- E cérebro deve ser coisa que vale muito, se você vender ele juro que nunca mais reclamo de dinheiro.

- Sei... Realmente, esse troço não me serve de muita coisa... E já faz tempo que eu tô tentando matar essas vozes dentro dele que ficam dizendo que eu sou um vagabundo, que eu tô jogando minha vida fora, etc, etc. Além do mais, vai ser uma última grande contribuição à sociedade, e eu vou poder continuar vendo tv e bebendo Caracu, não vou?

- Mas é claro, querido, mas é claro!

Infelizmente, depois de retirarem o cérebro do imbecil os médicos descobriram que ele estava atrofiado demais para ser transplantado, devido ao grande período de inatividade intelectual. Em compensação, a sopa de miolo matou a fome de mais de quarenta mendigos. Rodolfo nunca foi tão útil à sociedade.